Música recente (155)


escafandro,

Björk, álbum Utopia.

A tendência actual para fugir ao humano, ou pelo menos a muitas das formas e hábitos que o têm caracterizado, consegue ser um pouco mais do que ligeiramente irritante. Contudo, se alguém, pela sinceridade e coerência demonstradas ao longo do tempo (é lembrar “Human Behaviour”, do álbum Debut, já lá vão vinte e quatro anos), merece alguma indulgência, esse alguém é Björk. Depois de um álbum em que sarava as feridas de uma relação sentimental terminada, apresenta desta feita um álbum luminoso, no qual parece buscar um ideal em que o humano se dissolva nas restantes formas de vida do planeta (e até mesmo no próprio planeta). Algumas letras são básicas, o modo como Björk pronuncia os ‘r’ lembra a lengalenga sobre o rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia, e o som de passarinhos chega a exasperar, mas justifica amplamente uma audição.

Diário semifictício de insignificâncias (34)


escafandro,

Aguardo sozinho no passeio a mudança do semáforo quando uma miúda (loura, sete ou oito anos) me grita da janela de trás de um carro que passa: «Adeus!»

Com atraso, devolvo-lhe o cumprimento. Fico a sorrir, mas depois começo a perguntar-me por que razão gritara ela «adeus». Por que não «Olá», «Bibó Porto» ou «És velho»? Será um presságio?

Tenho imenso cuidado a atravessar a rua e em todo o trajecto até casa. Mas durante o jantar quase me engasgo. Se amanhã não acordar, fica tudo explicado.

Jazz de 2017


escafandro,

Há neste blogue quem acompanhe muito mais o universo do jazz do que eu (estás aí, José Navarro de Andrade?). Seja como for, vou permitir-me a desfaçatez de salientar alguns álbuns lançados em 2017. Dentro de cada grupo, a ordem é alfabética.

 

 

ÁLBUNS INSTRUMENTAIS

 

Anouar Brahem, Blue Maqams. Há quem não goste do «som ECM» (não é verdade, José Navarro?). Admitindo que os lançamentos por vezes se confundem uns com os outros, eu gosto. A música da ECM descontrai-me e eu preciso de ser descontraído com uma certa frequência. Blue Maqams é um álbum sublime do tunisino Brahem, um tudo-nada mais próximo do jazz do que muitos dos seus outros trabalhos (que diria mais ligados à música tradicional árabe). A colaboração de Dave Holland, Jack DeJohnette e Django Bates – todos excelentes – terá certamente algo a ver com o assunto.

(Vídeo promocional. Pequeno, que a ECM é um nadinha forreta nestas coisas.)

 

Dan Tepfer Trio, Eleven Cages. Todos os anos saem inúmeros álbuns de trios. De entre a minúscula fracção que ouvi, este, do trio liderado pelo pianista norte-americano (nascido em Paris) Dan Tepfer, é um dos meus favoritos.

 

Jaimie Branch, Fly or Die. Estou num meio-termo irritante no que respeita ao jazz (o que sou forçado a admitir por estes dias…): a minha paciência para a enésima gravação de clássicos é limitada, mas os sons mais experimentais raramente me atraem. Fly or Die, o primeiro álbum da trompetista norte-americana Branch, é razoavalmente experimental mas permanece melódico.

 

Mário Laginha, Julien Argüelles e Helge Andreas Norbakken, Setembro. Aqui com o auxílio do saxofonista inglês Julien Argüelles e do percussionista norueguês Helge Andreas Norbakken, Laginha continua a fazer excelente música, num registo leve e subtil. Quem desejar simultaneamente manter-se nos portugueses e um som mais vanguardista, pode experimentar The Attic, de Rodrigo Amado, Gonçalo Almeida e Marco Franco, um álbum ao vivo gravado na Parede em 2015, mas lançado apenas este ano.

 

Miles Okazaki, The Trickster. Tendo a fugir de álbuns baseados em guitarra eléctrica (detesto solos de guitarra eléctrica com mais de, vá lá, dez segundos). No entanto, gosto deste. Inspirados nos jogos a que os deuses clássicos se entregavam para espantar o ócio e conviver com os humanos, os temas mantêm uma faceta maliciosa, sugerindo brincadeiras ocasionalmente perversas (os deuses clássicos teriam muitos problemas na Hollywood dos dias actuais).

 

Nomade Orquestra, EntreMundos. Dez brasileiros que fazem música de fusão com um cunho tipicamente carioca (e daí, carioca talvez não seja o termo mais adequado, uma vez que eles são de São Paulo).

 

The Comet is Coming, Death to the Planet. Um EP adequado ao sentimento dos tempos, com faixas intituladas Start Running e Final Eclipse. Estranhamente – ou talvez não -, revela-se bastante optimista, numa linha ‘que se lixe isto tudo’.

 

Vijay Iyer Sextet, Far From Over. Expansivo, alternando harmonia e dissonância, Ocidente e Oriente, com os seis músicos (entre os quais o baterista Tyshawn Sorey, que também lançou um novo álbum em 2017) perfeitamente em sincronia.

(Vídeo de promoção. Pequeno, que a ECM, etc.)

 

Yazz Ahmed, La Saboteuse. Provavelmente o álbum de jazz que mais ouvi este ano. Ahmed é uma trompetista britânica, que cresceu no Bahrain e já colaborou com os Radiohead. O álbum – o seu segundo – usa sonoridades árabes de modo absolutamente infeccioso (no bom sentido).

 

 

ÁLBUNS MISTOS 

 

Ahmad Jamal, Marseille. Uma declaração de amor à cidade, de um mestre do piano que completou 87 anos em 2017.

(Video de um dos temas.)

 

Linda May Han Oh, Walk Against Wind. Nasceu na Malásia, cresceu em Perth e toca contrabaixo em Nova Iorque. Walk Against Wind (bom título) inclui temas de uma elegância sombria, ligeiramente cinematográfica. 

 

Nate Smith, Kinfolk: Postcards from Everywhere. Outro álbum que ouvi bastante vezes em 2017, talvez porque se situa naquele registo que estabelece a ponte para o pop/rock.

 

 

ÁLBUNS VOCAIS

 

Somi, Petite Afrique. Somi é uma nova-iorquina com raízes nigerianas. Os seus dois álbuns lembram-me os dois principais romances de Chimamanda Ngozi Adichie. O primeiro – The Lagos Music Salon – leva o ouvinte até à Nigéria (tal como Half a Yellow Sun); este segundo debruça-se sobre uma zona do Harlem nova-iorquino ocupada por imigrantes de origem africana (tal como Americanah foca a integração dos imigrantes africanos nos Estados Unidos).

Zara McFarlane, Arise. Se Somi vai beber directamente a África, McFarlane chega lá através das Caraíbas. Talvez a música de McFarlane não seja bem jazz, mas, como deixei claro no início, eu também não percebo grande coisa do assunto. (Já chegaste, José Navarro?)

Música recente (153)


escafandro,

Mavis Staples, álbum If All I Was Was Black.

Staples tem setenta e oito anos. Viu muito, em quase oito décadas. Passou pelas guerras da Coreia, do Vietname e do Golfo, por momentos de divisão entre os norte-americanos, como as lutas pelos direitos sociais na década de 1960, e por momentos de união, como o que se seguiu aos atentados de 11 de Setembro de 2001 (durou pouco). Hoje, com a sociedade mais uma vez dividida, mantém a esperança. Os dez temas, compostos para ela por Jeff Tweedy, dos Wilco (e que excelente trabalho ele fez), não fogem aos problemas, mas pegam-lhes numa perspectiva optimista, salientando a necessidade de entendimento e de superação. A voz experiente de Staples adiciona peso às palavras e a sonoridade, uma mistura de R&B com Country, dois estilos tão tipicamente norte-americanos, um mais associado à comunidade negra, o outro à comunidade branca, constitui a cereja no topo do bolo de um álbum baseado na ideia de união. 

 

Diário semifictício de insignificâncias (32)


escafandro,

Fecho o Kindle. Acho que suspiro (mas talvez não, que seria má literatura). Isto de ler livros electrónicos  – cada vez mais, graças ao maravilhoso Acordo Ortográfico -, e de a Amazon fazer promoções a dois e três dólares por livro, leva-me a experimentar autores que tenho quase a certeza de não ir apreciar. O prazer da confirmação é nulo ou, pelo menos, está longe de compensar outra sensação, antiga e insidiosa: a maior vergonha nem é todos os livros que não li e devia ter lido, mas os que li no lugar deles.

Possuo uma desculpa, todavia, quase tão antiga mas bastante menos espontânea: são estas derivas (dos clássicos para o mainstream, do mainstream para os nichos, dos nichos para o experimentalismo) que, na literatura, no cinema, na música, na arte, na gastronomia, até no vestuário, tornam cada pessoa única. Se todos lêssemos, ouvíssemos e víssemos o mesmo, ainda que esse mesmo fosse o melhor em cada campo, que piada teria o mundo?

Evidentemente, não resulta. Continuo a sentir-me um idiota. Muito pouco singular e, graças aos esforços para acreditar na desculpa, até um nadinha ridículo.

Centeno, o Eurogrupo e uma certa euforia nacional com estas coisas


escafandro,

Sempre que um português é eleito para um cargo internacional, o establishment político e comentadorístico nacional exulta. O cargo em si e o que ele implica interessam pouco. O que interessa é o «reconhecimento» das «qualidades» de mais um cidadão português por entidades estrangeiras, fazendo das referidas «qualidades» não apenas indiscutíveis como uma extensão das qualidades (sem aspas, que algumas hão-de ter) dos embevecidos políticos e comentadores.

Evidentemente, também há em tudo isto uma componente de hipocrisia. Em Portugal não se criticam portugueses que ascendem a cargos internacionais (ainda que – por exemplo – tenham sido péssimos primeiros-ministros) do mesmo modo que não se critica (pela frente) gente que acabou de ser galardoada com um prémio qualquer ou que acabou de falecer. Parece mal.

É pois entre a parolice do deslumbramento e a cobardia da necessidade de manter aparências que a eleição de Mário Centeno vinha já sendo encarada como uma estrondosa vitória para o país em geral e para o governo em particular. Contudo, uma dose de ilusão permeava – e permeia – igualmente todo o processo. Em arroubos de entusiasmo, António Costa e alguns comentadores mais optimistas não se coibiram de sugerir que instalar Centeno à frente do Eurogrupo constituiria uma lança em África capaz de alterar o curso das políticas orçamentais da Zona Euro. É esquecer vários detalhes: a situação do governo alemão, temporariamente mais preocupado com outros assuntos; o facto de a eleição resultar muito mais de acordos entre famílias políticas europeias (o Partido Popular Europeu já detém as presidências da Comissão e do Conselho) do que de real mérito; o destino de várias figuras  tragicómicas que, nos últimos anos, de Hollande ao par Tsipras-Varoufakis, iam fazer precisamente isso. Mas, acima de tudo, é esquecer que as instituições europeias têm o condão de moldar as pessoas aos cargos e não o contrário. De resto, quando as pessoas são portuguesas, até costuma ser fácil. Pense-se em Durão Barroso ou nessa eminência que chegou a garantir que o euro acabaria com as preocupações orçamentais portuguesas, Vítor Constâncio. À frente do Eurogrupo, Centeno terá que ajudar a fazer cumprir as regras orçamentais europeias, ainda que elas não sejam ideais para a política de eterno adiamento favorecida pelo governo português, e nem deverá experimentar grandes pruridos em fazê-lo. O ofuscante oportunismo que em 2015 lhe permitiu enfiar na gaveta as convicções em relação ao mercado de trabalho permitir-lhe-á certamente colocar os interesses da «Europa» – e de uma carreira internacional – à frente dos de António Costa e respectivos acólitos. O que, a acontecer, Costa só poderá achar natural: o oportunismo é algo que ele entende perfeitamente.

Diário semifictício de insignificâncias (31)


escafandro,

Concerto de Rebecca Martin com a Orquestra de Jazz de Matosinhos na Casa da Música. A ocupação da sala Suggia (demasiado volumosa para jazz) não chega a metade. Após os primeiros dois temas, pede-se aos espectadores sentados nas últimas filas para avançarem. Muitos fazem-no. O ambiente torna-se mais intimista e o concerto acaba por resultar bastante bem. Martin é simpática e a orquestra competente nas adaptações das canções dela. Na orquestra, há dezasseis homens e uma mulher (trombonista). Não pela primeira vez, pergunto-me por que razão, ainda hoje, tão poucas mulheres integram grupos de jazz. Na música clássica, na música tradicional, no pop/rock, são hoje inúmeras. No jazz, assim de repente, tirando cantoras, não consigo pensar em mais de meia dúzia (OK, também não é a minha especialidade).

Mas claro que a Orquestra de Jazz de Matosinhos tem um problema mais grave. De tal modo grave que poderá mesmo impedi-la de ser considerada uma verdadeira orquestra de jazz. Todos os dezassete músicos – a mulher e os dezasseis homens – são brancos.

Música recente (151)


escafandro,

U2, álbum Songs of Experience.

Ainda que, graças à manipulação electrónica da voz de Bono, Love Is All We Have Left abra o álbum com um toque de originalidade, e que Kendrick Lamar participe (fugazmente) num par de temas, a sonoridade não deixa de estar alinhada com o que os U2 já fizeram muitas vezes. Todavia, este não constitui o maior problema para um álbum que até revela uma excelente ligação entre os membros da banda, com Bono usando eficazmente a voz que lhe resta e The Edge acrescentando o tom épico sem demasiados exageros. O maior obstáculo que Songs of Experience terá de enfrentar é o cinismo. Os U2 podem ter ganho milhões e gerido as coisas de modo a pagarem o mínimo de impostos sobre esses milhões, Bono pode ter lançado campanhas humanitárias de eficácia duvidosa enquanto convivia com políticos e celebridades televisivas, mas a sinceridade dos quatro irlandeses – a mesma que os fez compor New Year’s Day ou Sunday Bloody Sunday numa época em que a cena pop/rock estava dividida entre o niilismo dos Clash e o hedonismo dos Duran Duran – continua a marcar-lhes a música. Até mesmo o período de Achtung Baby e Zooropa, durante o qual eles próprios pareceram abraçar o cinismo, apenas na aparência contradiz esta tese: tratou-se afinal de uma encenação assumida, de envergar o cinismo – como se diz actualmente de pessoas que tentam parecer nerds – de forma irónica. O público, que tanto – e justamente – apreciou essa época, é que pode já não estar disponível para tamanha dose de sinceridade e empenho.

 

Música recente (149)


escafandro,

Brand New, álbum Science Fiction.

Science Fiction teria constituído um excelente remate para a carreira – com fim já anunciado – dos Brand New. Infelizmente, a dissolução da banda poderá ficar marcada por outro acontecimento: na senda do que tem acontecido em Hollywood, o vocalista Jesse Lacey viu-se acusado por uma mulher de comportamento inadequado e tanto as bandas de apoio à digressão em curso como os próprios colegas começam a afastar-se dele. Um dos grandes álbuns de 2017 choca de frente com um dos grandes temas de 2017.