Menos mal, Vaticano. Ainda assim, na Grécia houve governo à segunda votação e é improvável que em Itália sejam necessárias mais do que duas ou três.
Novo Papa eleito na quinta votação
escafandro,
Menos mal, Vaticano. Ainda assim, na Grécia houve governo à segunda votação e é improvável que em Itália sejam necessárias mais do que duas ou três.
Tendo já decorrido uns dias sobre o acontecimento, permito-me correr o risco de chatear os fãs: no que respeita à imagem para a posteridade, a morte de Hugo Chávez foi o melhor que lhe podia ter ocorrido. Outros, ainda que menos demagogos e mais capazes, verão a bomba-relógio que constitui a economia da Venezuela rebentar-lhes nas mãos enquanto Chávez permanecerá o herói que governava contra os grandes interesses e a favor dos mais pobres.
Leicas (*). Belas e caras, maravilhas tradicionalmente mecânicas agora cheias de electrónica. Há cerca de 90 anos impuseram um formato de negativo (o dobro de um fotograma de cinema) que ainda hoje, em época de sensores digitais, define o melhor compromisso entre portabilidade e qualidade de imagem. Quase todos os grandes fotógrafos das décadas de ouro da fotografia as utilizaram. Como no caso dos relógios suíços, lideraram o mercado antes de os japoneses descobrirem formas mais baratas e versáteis de se atingir o mesmo fim (ironia: a primeira reflex com focagem automática foi uma Minolta usando tecnologia cedida pela Leica, cujos responsáveis não acreditavam no sistema). Permitem aceder às melhores objectivas disponíveis no mercado (foi também para não comprometer a perfeição óptica que, há 40 anos, os tais responsáveis desdenharam da focagem automática). São maioritariamente fabricadas por portugueses, em Vila Nova de Famalicão, numa fábrica que em breve terá novas instalações (as quais representaram um investimento de 15 milhões de euros), antes de seguirem para a Alemanha, para a fase final da montagem e a – muito importante, em termos de marketing – marcação Made in Germany. Porque, mais uma vez como no caso dos relógios, o pedigree é importante. De resto, há quem as compre como objectos de status e também há quem as compre para coleccionar (alguns japoneses nem sequer as retiram da caixa). Mas vai para uma centena de anos (o primeiro protótipo foi construído em 1913) que as Leica se destinam acima de tudo a tirar fotografias, encontrando-se particularmente adaptadas, pelo seu tamanho e design (ao contrário de uma reflex, uma M não esconde a cara do fotógrafo), à reportagem de cariz humano. Como se pode constatar no blogue oficial. O blogue da semana.
(*) De Leitz Camera. Há poucos anos decobriu-se que, apesar de ser membro do Partido Nacional Socialista, Ernst Leitz fez sair algumas centenas de judeus da Alemanha durante a década de trinta do século passado – um pouco como Oskar Schindler mas em menor escala (Schindler terá salvo mais de 1200 pessoas).
Ou escapar-me-á o sentido da coisa?
Carlos Abreu Amorim, candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, em entrevista à Sábado de hoje:
O seu projecto limita-se a continuar a obra de Menezes?
Sei que na política portuguesa a frase que vou dizer tem outras conotações, mas as frases não ficam marcadas para sempre… É uma evolução na continuidade. Temos um projecto considerado valioso por toda a gente, tirando os partidos de extrema-esquerda.
[…]
Menezes não fez nenhum erro de gestão?
Falamos do melhor presidente de câmara da história do poder democrático português, com um apoio entre os 60% e os 70%.
No domingo passado distraí-me e acabei assistindo aos comentários do Professor Marcelo na TVI (*). A dada altura, ele explicou-nos (a nós, telespectadores, e a uma embevecida Judite de Sousa) que os resultados das eleições italianas, parecendo originar um problema de difícil resolução, revelar-se-ão afinal muito positivos, na medida em que obrigarão Angela Merkel a prestar atenção às reivindicações dos países do Sul. Segundo o Professor Marcelo, os alemães não ligam peva (o termo é meu mas o sentido é dele) à Grécia, nem a Portugal, nem sequer à Espanha, mas respeitam a Itália e sabem que esta lhes pode causar um montão de problemas bicudos (a expressão é minha mas o sentido é dele). Minutos depois, escalpelizando já o tema da alteração das condições dos empréstimos europeus a Portugal e à Irlanda, o Professor Marcelo anunciou que, obviamente, os prazos serão alargados e a curva de pagamentos suavizada mas que não se pode avançar demasiado depressa por necessidade de desenhar formas que, disfarçando a cedência dos governos dos países credores, evitem alienar os seus cidadãos e permitam as aprovações parlamentares necessárias. Referiu explicitamente a Alemanha e o jogo de cintura a que Angela Merkel, em pleno ano de eleições, se vê forçada.
Sendo que o Professor Marcelo – desculpe lá, Professor; almas gémeas na paixão pelo ténis, eu até gosto de si – não fez mais do que expressar o que muitos pensam, tudo isto é bonito e de uma coerência inatacável. Ora recapitulemos. Em Itália, castigam-se os políticos por terem ignorado a vontade popular; em Portugal, onde acusações idênticas aos políticos nacionais são às dúzias por hora, aplaude-se – diz-se que é a democracia a funcionar e, num glorioso corolário, exige-se que o governo alemão aprenda a lição e altere o rumo, ainda que contra a vontade dos cidadãos alemães. Em simultâneo, na Alemanha o governo parece utilizar subterfúgios para executar políticas que não corresponderão à vontade popular; em Portugal, com reservas porque continua a dar jeito ter a quem apontar o dedo, aplaude-se – diz-se que já não era sem tempo e exige-se mais. Convenhamos: a começar no PM que sonha ser PR, gostamos da democracia quando ela se molda às nossas tendências para a realpolitik.
(*) Pergunto-me sempre se ele teria atingido níveis de fama e respeito similares com um primeiro nome mais comum (tipo António, Carlos ou João) ou fora de moda e, por isso mesmo, ligeiramente incongruente (tipo Anacleto, Barnabé ou Frutuoso). Imagine-se Judite de Sousa dizendo: «É altura do comentário semanal do Professor Anacleto. Boa noite, Professor Anacleto. Que livros nos traz esta semana?»
Por politicamente incorrecto que seja, contemporizar com os actos estúpidos de uma mulher atraente apresenta, para além de uma longa ancoragem histórica, o benefício de ser menos um caso em que se fica irritado.
No Jornal da Noite da SIC Notícias, a propósito da passagem de 60 anos sobre a morte de Stalin:
O papel de Stalin na História continua a ser controverso. A imagem é utilizada nas celebrações que marcam o fim da Segunda Guerra Mundial mas os opositores defendem que Stalin foi responsável pela prisão, tortura e morte de milhares de pessoas.
E Hitler, claro, só é um monstro segundo meia dúzia de judeus vingativos.
Continuemos por França, embora com uma rapariga que parece preferir a língua de Shakespeare à de Molière. Taranta, o seu primeiro – e, de momento, único – álbum, inclui ainda assim um par de temas em francês e, porque ela tem família no país de Cervantes, uns quantos versos em castelhano. (Pensar que há quem questione a existência de uma identidade europeia…) Como informação acessória e totalmente irrelevante (procuro incluir pelo menos um detalhe irrelevante em cada post), acrescento que o nome é pseudónimo, adaptação de Milo Tindle, personagem de uma peça de Anthony Shaffer, da qual resultou um guião de Harold Pinter e o filme Sleuth (ou, na versão usada no país de Camões, Autópsia de Um Crime), o último da carreira de Joseph L. Mankiewicz, que entregou a Michael Caine o papel de Tindle. Há meia dúzia de anos houve um remake realizado por Kenneth Branagh, tendo Caine ocupado o outro lugar-chave da trama, Andrew Wyke – que fora de Laurence Olivier no filme original –, enquanto Jude Law interpretava Tindle, mas prestar-lhe atenção já seria excesso de irrelevância.
Procurar resposta à velha questão de saber se a arte reflecte a vida ou a vida imita a arte é pouco menos que inútil. No fundo, talvez seja apenas necessário aceitar dois pontos de contacto entre vida e arte:
– Ambas têm o significado que se quiser atribuir-lhes.
– Em ambas é frequentemente preferível não o procurar.