Obama e o atentado de Orlando


escafandro,

A resposta timorata de Barack Obama ao atentado terrorista de Orlando, evitando relacioná-lo com o Islamismo radical e parecendo atribui-lo exclusivamente à perturbação de uma única pessoa, parece demonstrar que ele ainda não entendeu ser componente essencial do modus operandi do Daesh no Ocidente (e em particular nos Estados Unidos, geograficamente distante dos países onde tem presença militar) o uso de indivíduos perturbados a cujas vidas confere sentido. Ainda que tal não seja verdade e os cuidados de linguagem procurem apenas – por razões tácticas e/ou de convicção – evitar a ideia de que existe uma guerra de civilizações, há momentos em que, não apenas por respeito às vítimas e aos seus familiares, mas também por necessidade de garantir aos cidadãos que se está consciente do grau e das características da ameaça, a ambiguidade é um erro. Estranhamente, Hollande percebeu-o. Obama, não. Donald Trump já está a capitalizar.

Até o Deutsche Bank já vê os riscos da política do BCE


escafandro,

Mas a resposta do BCE é extremar ainda mais esta política. Isto causa alocações de recursos erradas na economia real que ficam cada mais difíceis de reverter sem dores ainda maiores. Quem tem poupanças perde enquanto proprietários de acções e apartamentos rejubilam.

Pior, ao auto-nomear-se o salvador de último recurso da Eurozona («tudo o que seja necessário fazer»), o BCE permitiu aos políticos sentarem-se sobre as mãos no que respeita a reformas incentivadoras do crescimento e à necessária consolidação fiscal.

Por isto, a política do BCE ameaça o projecto europeu como um todo em nome da estabilidade financeira de curto-prazo. Quanto mais tempo esta política impedir a catarse necessária, mais contribuirá para o crescimento dos populismos e das forças extremistas.

(…)

Quando a redução das taxas de juro para níveis nunca vistos em vinte gerações falhou no estímulo à inflação e ao crescimento, o BCE embarcou num programa massivo de compra de dívida dos membros da Eurozona – o quantitative easing. Mas quem vendeu dívida soberana ao BCE não gastou nem investiu os lucros e o dinheiro acabou apenas de volta ao Banco Central.

Por isso o BCE seguiu até ao extremo lógico: impôs taxas negativas aos depósitos. Actualmente quase metade da dívida pública da Eurozona negoceia com rendimentos negativos. Ao mesmo tempo, o BCE assegura a solvência dos seus membros como comprador de último recurso – o chamado programa OMT.

(…)

Para além disso, os governos já não receiam que o falhanço na reforma das suas economias ou na redução da dívida faça subir o custo de pedir dinheiro emprestado. Na realidade, o nível total de endividamento na Eurozona tem crescido, com o reformado e reinterpretado Pacto de Estabilidade e Crescimento 3 tão desdentado como sempre. Diferenciais de risco praticamente desapareceram dos mercados de títulos do tesouro. Urgentes reformas nos campos do trabalho, da banca, da política, da educação e da governação foram adiadas ou deixadas cair. E as mãos-largas e o risco moral são jogos difíceis de abandonar. 

(…)

Enquanto é difícil provar que os aspectos positivos não são assim tão positivos (embora pareçam não ser), os efeitos negativos das políticas do BCE são mais visíveis. Por exemplo, empréstimos ultra-baratos providenciam suporte de vida para empresas que não seriam viáveis em condições mais normais. Isto levou a sobrecapacidade – para não mencionar deflação – em muitas indústrias europeias, com as receitas caindo em relação aos activos. No ano passado, 40% das empresas não tiveram aumentos de receitas. É irónico que muitos pensem que aumentos de produtividade podem ser despoletados através de taxas ainda mais baixas.

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A mais longo prazo, as consequências negativas de taxas ultra-baixas e compra de títulos públicos surgem de uma falta de reformas económicas. Não era suposto ser desta maneira. Imediatamente após a crise, o contrato implícito era que os políticos reduziriam os níveis de dívida pública e implementariam as reformas estruturais necessárias enquanto o BCE lhes providenciaria tempo e dinheiro. 

(…)

Provavelmente com boas intenções, o BCE colocou-se numa posição em que as suas decisões são cada vez mais influenciadas pelos mercados.

(…)

Mario Draghi, o presidente do BCE, tem dito repetidamente que não pode tornar o cumprimento da sua missão dependente do facto de outros agentes (ou seja, os políticos) cumprirem a deles. Mas o mundo é o que é – ignorar as consequências mais vastas da política monetária conduziu à última crise.

 

Excertos de uma análise do Deutsche Bank (tradução minha, um pouco apressada mas espero que sem erros significativos). Três notas:

1. Há anos que Mario Draghi apela a reformas estruturais. Não apenas os políticos o ignoram como aproveitam a acção do BCE para as adiar. Entretanto, não obstante as taxas de juros reduzidas, o castelo de cartas da dívida pública vai aumentando de tamanho  (ver gráfico na página 7 do relatório) e a economia definha. Mergulhados numa convalescença eterna, os cidadãos viram-se para os populismos. Não creio que o plano fosse este.

2. Apesar de ter vindo a reduzir a exposição, o Deutsche Bank está «pendurado» numa montanha de produtos derivados. As medidas do BCE deveriam pois ser-lhe benéficas (e têm sido). Ainda assim, lança o alerta.

(Reconheça-se: há quem diga que terá problemas graves em qualquer dos cenários.)

3. Enquanto o Deutsche Bank se mostra preocupado, o Commerzbank pondera fazer bypass ao BCE.

Vícios privados, públicas virtudes


escafandro,

Brada-se há quase uma década (o tempo voa, mesmo quando não nos divertimos) contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. Justificadamente, admita-se. Os erros de gestão foram gigantescos, quando não criminosos. Todavia, a irritação pareceu e parece dirigir-se apenas ao salvamento dos bancos privados. Pouca ou nenhuma comoção se detectou ou detecta na sequência dos aumentos de capital da Caixa Geral de Depósitos, igualmente realizados à custa dos contribuintes (como se sabe, o próximo é de 4 mil milhões de euros). Ora a CGD até constitui o banco-refúgio dos portugueses; imagine-se a situação em que estaria sem todos os depósitos que esse estatuto lhe proporcionou. Ainda assim, e ao contrário do que se passou no BPN, no BES e no BANIF, cenários de venda ou de resolução encontram-se afastados e os actos da gestão não irritam vivalma nem (cruz credo) constituem fundamento para inquérito parlamentar. Sem grande oposição, o governo propõe-se até subir os ordenados dos administradores.

Mas não espanta. Em 2011 como nos anos seguintes, também ninguém pareceu irritar-se com o salvamento da totalidade do sector público, tão mal gerido e tão falido como os bancos, pelos contribuintes. Fica evidente que a má gestão privada desagrada muito mais do que a má gestão pública – certamente porque a primeira é motivada pelo lucro enquanto a segunda (ouvem violinos?) decorre quase sempre de boas intenções. (Na verdade, nem sequer se trata de desagradar mais ou menos; imensa gente defende com entusiasmo a gestão pública ruinosa: basta ver o que se passa em torno da «geringonça».) E, claro, fica também (ainda mais) evidente a diferença no nível de respeito suscitado pelos trabalhadores de um e outro sector. Como já se viu com pessoal do têxtil, da construção civil ou da restauração, bancários de bancos privados atirados para o desemprego (muitos foram-no, outros estão a sê-lo) geram infinitamente menos empatia do que professores, enfermeiros ou maquinistas de comboio forçados a trabalhar com supressão de regalias e cortes moderados em salários globalmente simpáticos.

Rábulas


escafandro,

O grupo parlamentar do PS já enviou para os restantes grupos parlamentares um projecto de voto contra as eventuais sanções da União Europeia a Portugal. Os socialistas esperam agora que as restantes bancadas apreciem o documento e proponham, ou não, alterações. O objectivo é chegar a um texto consensual que possa ser aprovado por todos os partidos.

Observador (com um par de consoantes da minha autoria).

 

Exceptuados os constrangimentos decorrentes da geringonça (foi bonito ver António Costa colocar na ordem os «patrões» do Porto de Lisboa assim que Catarina e Jerónimo lhe disseram para o fazer) e uma ou outra deriva convicta para a esquerda (o Ministro da Educação gosta de ser uma marioneta nas mãos de Mário Nogueira), o PS de 2016 é o PS de 2009 e 2010. Com espantoso descaramento, minimiza resultados negativos (no que respeita ao crescimento económico, hoje informaram-nos de que voltámos à nossa aconchegante mediocridade) e, ajudado por uma comunicação social mais acéfala do que uma amiba amnésica, gera «factos políticos» para tentar desviar as atenções, arranjar inimigos externos (velha táctica, velha táctica), clamar pequenas vitórias (se as sanções não vierem, a «posição de força» terá sido fundamental) e embaraçar a oposição.

E, como em 2010, não vale a pena dizer-lhes para se deixarem de rábulas e começarem a governar a sério. Pela simples razão de que, para além das rábulas, o PS apenas é competente numa coisa: a ocupação do poder.

Fora de série (18)


escafandro,

Decisões, decisões. Depois do Pedro Correia escolher Tudo em Família, considerei optar por MASH, outra das grandes séries cómicas norte-americanas da década de 1970, cujo episódio final, transmitido em 1981 (numa altura em que a qualidade até decaíra bastante) bateu todos os recordes de audiência (foi apenas ultrapassado em 2010, pela final do Super Bowl). Ou, já que a Ana Vidal e o José Navarro de Andrade abordaram ambos Os Pequenos Vagabundos, que tal escrever sobre Os Famosos Cinco, a série com aquele genérico em que os quatro miúdos e o cão se afastavam pelos campos? Ou ainda, no âmbito das séries de acção de qualidade duvidosa – também eu fingi ser o Ling Chung, Rui Rocha –, por que não Os Soldados da Fortuna (como todos os meus colegas, gostava do maluco, Murdoc, e não via despromoção alguma na circunstância de George Peppard ter ‘evoluído’ de procurar gatos com Audrey Hepburn para mascar charutos com Mr. T) ou Os Três Dukes (ah, o General Lee, voando por cima dos riachos com a bandeira da confederação no tejadilho, e os calções curtos da prima Daisy…).

Mas não. Resolvi que abordaria antes uma das séries que mais tensão me causaram na adolescência: Os Contos do Imprevisto, baseada nos pequenos concentrados de suspense e malevolência escritos por Roald Dahl. Porém, logo após a escolha, apercebi-me de que só conseguia lembrar-me da história em que um tipo apostava – contra a perda de um dedo – que o seu isqueiro acenderia à primeira tentativa dez vezes seguidas. Por entre a perturbação de não recordar mais nada, consola-me o facto de recordar perfeitamente a tensão que aquele episódio originou em mim.

E decidi então escrever sobre Fawlty Towers.

Comecemos pelo título, fabuloso trocadilho que me escapava na altura, reflectido na placa com o nome do hotel que, de episódio para episódio, ia perdendo letras ou apresentando-as por ordem incorrecta. Farty Towels foi uma criação de John Cleese e de Connie Booth, casados na altura da emissão da primeira temporada de episódios, em 1975 (na BBC; em Portugal passou mais tarde), divorciados quatro anos depois, aquando da segunda (talvez por isso, a primeira é melhor). Cleese, o mais irascível dos Monty Python, era Basil Fawlty, dono e gerente de um pequeno hotel em Torquay, a «Riviera britânica». Booth também participava na série, desempenhando o papel de Polly, a empregada. Havia ainda Prunella Scales (no papel de Sybil, a autoritária mulher de Basil) e Manuel, o empregado espanhol (já lá vamos).

A génese da série é uma piada em si mesmo. Cleese teve a ideia quando os Monty Python ficaram instalados no hotel Gleneagles, situado precisamente em Torquay, e o dono se revelou um tipo intratável, atirando um mapa a um cliente, criticando as maneiras à mesa de Terry Gilliam (o Python norte-americano das animações) e escondendo atrás de uma estrutura do jardim a pasta de Eric Idle (o Python de Always Look at the Bright Side of Life), abandonada por momentos enquanto este e Cleese aguardavam um táxi (o dono do hotel alegou recear que contivesse uma bomba). Cleese e Booth voltariam mais tarde e aprofundariam o trabalho de investigação em torno do sujeito. (Informação acessória e sinal dos esforços a que me dou ao escrever estas coisas: o Gleneagles não surge no TripAdvisor; ou já não existe ou está abaixo do nível mínimo da escala.)

Faw ty T wers é um sucesso a vários níveis. Enquanto o Flying Circus tinha um humor frequentemente estranho e erudito, Fa l y To e s operava (e ainda opera) tão bem em registos sofisticados (o ressentimento com os alemães, o desprezo pela cultura norte-americana, a ironia para com o passado colonial da Grã-Bretanha) como a níveis de percepção imediata, quase revisteira (os inúmeros momentos no limiar do slapstick, a forma como Basil tratava Manuel – mas já lá vamos). O génio estava até em conjugar os dois níveis sem mostrar costuras ou esforço aparente: o crescendo de insultos de Basil aos hóspedes alemães (iniciado por uma preocupação maníaca em garantir que ninguém mencionaria a guerra – tão maníaca que revela o desejo oposto – e culminado na explosão final em que adopta o passo de ganso – uma especialidade de Cleese) é tão eficaz para quem apanha todas as alusões como para quem (como eu, na altura da primeira emissão em Portugal) se ri essencialmente do grau de ridículo a que os esforços de Basil o sujeitam. Cleese referiu muitas vezes em entrevistas posteriores que não se pode ter pena das personagens, que é essencial levar uma situação até ao limite, e, apesar do génio de várias outras personagens que desenvolveu e interpretou, nunca terá feito isso tão bem como nesta série.

Duas notas, ainda: a faceta aparentemente tão portuguesa do tão orgulhosamente inglês Basil Fawlty e – é agora – o espanhol Manuel.

Há trinta e cinco ou quarenta anos, não pensei em nada disto, claro. Limitei-me a rir às gargalhadas, perante um razoável grau de incompreensão dos meus pais, a quem séries estrangeiras nunca atraíram por aí além. Mas, pelo menos em dois aspectos fundamentais, Basil, caricaturalmente inglês no comportamento orgulhoso, hirto, sexualmente retraído, podia afinal também ser português. O primeiro é a forma como mente e esconde coisas da mulher (é verdade que exasperante, até por ter razão muitas vezes). O segundo necessita de exemplos. Quando é preciso abrir uma porta no hotel, Basil contrata a empresa com pior reputação, por ser mais barata. Quando, motivado pelo desejo de privar com a alta sociedade, tenta impor as noites gourmet, acaba traído pelo carro, cuja manutenção descurou. Quando ouve dizer que o hotel vai receber a visita de inspectores públicos (a ASAE lá do reino), preocupa-se finalmente com aspectos que deviam ser regras de higiene do dia-a-dia mas preocupa-se ainda mais (e, oh, tão excessivamente) com identificá-los e bajulá-los. Quando faz quinze anos de casado, esquece-se da data. E, logo no início, quando questionado sobre os motivos da contratação de Manuel, admite que, muito embora ele seja pouco inteligente e não domine a língua inglesa, fica barato. Se não anda por aqui uma costela portuguesa, então as pessoas são mesmo iguais em todos os inúmeros cantinhos deste planeta. Ou os portugueses especialmente adequados a personagens de sitcom.

Manuel, finalmente. Há trinta e tal anos, eu desmanchava-me a rir com ele mas, sendo honesto, devo admitir que o encarava de forma não muito distinta daquela com que encarava o velhote careca do Benny Hill: um saco de pancada. Mas Manuel merece outra análise. Desde logo, merece que se reflicta sobre o quão politicamente incorrecto se podia ser em televisão. Hoje, uma personagem tão maltratada geraria ataques das brigadas bem-pensantes. Mais: justificar erros e dificuldades com um revirar de olhos e a observação «É de Barcelona» originaria artigos inflamados em jornais e blogues espanhóis (bom, talvez apenas nos da Catalunha). Se não acreditam, leiam alguns dos comentários aos clips existentes no Youtube. Depois, Manuel merece a admissão de que, em registo de comédia, nos é divertido assistir a uma relação de maus-tratos porque, mais cedo ou mais tarde (e não será uma boa comédia se isso não suceder), aquele que maltrata acaba pior do que o maltratado. (Uma das razões pelas quais Benny Hill já não funciona para mim é precisamente esta regra ser violada com frequência.) Finalmente, merece o carinho inerente a qualquer personagem trapalhona mas bem-intencionada e (muito importante) deferente. Fosse ele mais activo e respondão (e tinha todas as razões para o ser), talvez o achássemos irritante. Porém, não obstante Sybil Fawlty o comparar com um macaco (sim, é racista, mas, como Basil, Sybil está longe de ser um modelo de virtudes), Manuel assemelha-se mais a um cão: após cometer erros, fica, de orelhas baixas e olhar triste, à espera do castigo. Com uma vantagem (talvez surpreendente, considerando que é de Barcelona) em relação a todos os cães que até hoje encontrei: sempre vai ajudando na limpeza da casa (*). No fundo, descontando o bigode, Manuel é o ser humano ideal para se ter por perto. Em F  l y    ers ou noutro lado qualquer.

 

 

(*) Estic fent broma. M’encanta Barcelona e els barcelonins (especialment Messi).

Excerto com coelhos e – em dia de decisão do título – adição de referências futebolísticas


escafandro,

1. A vantagem de jogar em casa

Por fim, ensina-me a construir gaiolas para os coelhos e dá-me conselhos e indicações sobre a comida, como tratar as doenças e essas coisas. E fala-me um pouco da cobrição:

– Tens de meter a fêmea onde está o macho, e nunca o contrário. Nunca o macho onde está a fêmea.

– E por que razão? – pergunto.

– Porque aí o macho encontrará duas novidades com que se entreter, uma fêmea e um território novo. É demasiado. Ficará confuso, e isso não é nada bom nestas situações, pois, ao fim e ao cabo, é ele quem tem de tomar a iniciativa – diz o Der Warming, dando-me uma cotovelada cúmplice. – E se não acontecer nada passados dois minutos – continua -, separa-os, porque isso quer dizer que não é o momento adequado do ciclo da coelha e podem pegar-se. Na pior das hipóteses, ela pode arrancar-lhe as bolas num instante.

– A fêmea onde está o macho – repito.

– Isso mesmo; se ele jogar em casa, correrá tudo bem.

– Mas então será a fêmea que ficará confusa – digo.

– Não importa; isso até pode ser uma vantagem – diz.

 

2. Os golos metidos fora valem mais

Quando chego a casa, mostro-lhes os coelhos e, antes que eu tenha tempo de reagir, o pai junta o macho a uma das fêmeas.

– A fêmea onde está o macho – protesto – disse o Der Warming. O macho tem de jogar em casa.

– Que parvoíce – diz. – Isso não quer dizer nada se ele for um verdadeiro macho.

 

3. Saltando os preliminares e indo directamente aos penáltis

E é um verdadeiro macho. Salta logo para cima da coelha, agarra-se bem ao seu pescoço com os dentes e monta-a – aprendi que se diz assim –, para, em seguida, lançar um grunhido e cair de lado.

 

4. O nível adequado de celebração (sim, sou sportinguista)

Ela, no entanto, não parece muito afectada e continua a comer.

 

Erling Jepsen, A Arte de Chorar em Coro.

Edição Cavalo de Ferro (2016), tradução de João Reis.

 

 

Adenda: Citada na badana do livro, a opinião da crítica Lisa Garsdal, no jornal dinamarquês Politiken, acerta em cheio no alvo: Não há absolutamente nada para rir no original thriller caseiro de Erling Jepsen; simplesmente, não se consegue evitar.

Quando as coisas são bem feitas e não há um Tribunal protegendo a igualdade dos que são mais iguais do que os outros


escafandro,

Irlanda soma e segue. Moody’s elogia governo e sobe “rating” para A.

 

A agência Moody’s chegou a atribuir um rating de lixo à Irlanda, no auge da crise da dívida, mas a notação foi melhorada à medida que a dívida foi sendo reduzida — algo para que foi crucial o país ter estado a crescer a uma taxa de 7% no final do ano passado. No final do ano passado, o rácio de dívida face ao Produto Interno Bruto (PIB) já tinha caído para menos de 100% (94%).

(…)

Na opinião da Moody’s, o risco de uma inversão da consolidação orçamental verificada nos últimos anos é baixo. “O acordo político recente entre os dois maiores partidos no parlamento e a recente eleição de um governo minoritário liderado pelo Fine Gael [de Enda Kenny], que evidenciou um registo forte de gestão orçamental nos últimos anos, dá-nos conforto de que o défice orçamental vai continuar a ser reduzido nos próximos anos”.

O maior cego


escafandro,

O desemprego aumenta mas não aumenta.

As exportações diminuem mas a economia permanece no rumo certo.

O crescimento do PIB encontra-se bastante abaixo das previsões mas não há motivo para alarmes.

Os diferenciais das taxas de juro da dívida pública agravam-se mas tudo corre bem.

O investimento desce mas as perspectivas são excelentes.

Os impostos sobem mas a austeridade diminui.

Bafio


escafandro,

Alexandre Homem Cristo tem razão. Quarenta e dois anos depois, o 25 de Abril corporiza a resistência à mudança. Transformado em dogma, não apenas constitui pecado mortal equacionar hipóteses que lhe possam diminuir o simbolismo – p. ex., que parte das conquistas obtidas desde então se devem a factores apenas indirectamente com ele relacionados: o acesso aos fundos europeus possibilitado pela adesão à UE, a irresponsabilidade orçamental permitida pela adesão ao euro – mas, acima de tudo, evoca-se para defender o status quo. Os portugueses podem estar mais viajados e ter acesso aos mesmos livros e às mesmas séries que se lêem e vêem no exterior mas, tirando meia dúzia de jovens – especialmente empresários –, o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança. Um país onde se trocaram ilusões de grandeza imperial por ilusões de riqueza imediata e sem esforço. Um país que (à imagem da época pós-Marquês de Pombal) trocou a falta de democracia pela falta de rigor. (Como é possível que apenas sob dois déspotas Portugal tenha crescido de forma sustentada?) As grandes diferenças entre 1973 e 2016 não se encontram pois na mentalidade. Encontram-se no número – hoje muito superior – dos que se alimentam do poder ainda e sempre sufocante do Estado (agradeçam-no aos fundos comunitários e à dívida) e na identidade dos respectivos parceiros ideológicos: antes, uma direita bafienta; hoje, uma esquerda que – apesar de todas as «causas fracturantes» – não o é menos.

Dir-me-ão que posso escrever textos como este. Sim, resta a liberdade. É a liberdade que eu agradeço ao 25 de Abril. Ciente de que muitos dos que o fizeram – ou dele se apropriaram – não a tinham como objectivo. Ciente de que, assentes no poder da captação e alocação dos recursos e das noções do politicamente correcto – como antes o Estado Novo se servia da Igreja, da noção de moral e do conceito de Pátria –, os seus descendentes agem para que seja cada vez mais difícil escrevê-los.