Blogue da Semana: The family without borders


claudiakover,

 

Conheci a Anna em Lisboa. Sentámo-nos num café, próximo da pastelaria Califa, desiludidas por esta estar fechada para obras. O céu estava carregado de lágrimas sumarentas que nos ensoparam a roupa, e a minha febre, que já massacrava desde a noite anterior, abafava-me a capacidade de me embeber numa alegre conversa. Anna é polaca e Thomas, o seu futuro marido, que a acompanhava, é alemão. O projecto que nos unia – e que os trouxera a Lisboa – , terminou, o céu voltou a ter abertas, a gripe sacudiu-se do meu corpo e perdemos provisoriamente o contacto.

The family without borders é um must have em qualquer lista de blogues de viagem. A jovem família – ele fotógrafo, ela jornalista – e a sua filha de seis meses partiu numa longa aventura pelo Mar Negro e relatou tudo num blogue que hoje tem leitores um pouco por todo o mundo e que lhes deu a possibilidade de conseguir patrocínios, exposições e lhes valeu prémios e menções em centenas de blogues e jornais. Em breve – e já com a sua filha mais nova, Mila -, partem para mais uma jornada: seis meses de viagem pela América Central.

Em 2007 tínhamos colaborado num projecto da European Youth Press – associação que liga centenas de jovens um pouco por toda a Europa e arredores. Reencontrar-nos-íamos no Facebook, descobriríamos laços de amizade comuns e voltaríamos a comunicar em torno de novos projectos.

Cerca de um ano depois do nosso primeiro encontro nasceu Hanna, a primeira de duas filhas do casal. Acompanhámos pelo Facebook todos os seus primeiros passos e sorrisos. Seguimos também a procura do vestido de casamento e, por fim, o dia da cerimónia. Depois chegou a segunda gravidez: Mila foi concebida na Ucrânia e confirmada na Geórgia.

Voltaríamos a encontrar-nos em Bruxelas, há cerca de um ano. Desta vez colocámos de parte os projectos, dividimos antes uns chocolates belgas e umas cervejas sem álcool (Anna estava grávida e nós – dez pessoas de oito nacionalidades diferentes – fomos na conversa). Aí, ouvimos em primeira mão as histórias e vimos as fotografias da viagem de oito meses que se conta de forma pessoal e carismática neste blogue.

Foram mais as vezes que não nos foi possível trocar dois dedos de conversa, do que as que conseguimos sentar-nos numa mesma sala. Percalços ou não, acreditamos que, de tempos em tempos, nos voltaremos a cruzar algures por essa Europa fora. Até lá, mantém-se a sensação, para amigos e conhecidos, de fazermos parte desta família que hoje oferece a todos e de bom grado o sofá da sua casa na capital germânica. 

Leituras num palheiro: Em Istambul aprendi que os sabores têm asas


claudiakover,

Os paladares esmurram-nos o estômago como se quisessem ir para além das suas paredes e escorregar pelas nossas veias até tornarem faladores os nossos poros mudos – de quem não está habituado a sentir a comida, mas apenas a comê-la.

 

Vemos o coração pulsar no nosso rosto à medida que as dezenas de corpos, que serpenteiam em diferentes direcções, deixam em nós ecoar os seus odores: perfumes, comida, sujidade ou apenas o suor de quem apalpa um caminho curvo no qual embate noutros corpos, com outros odores, que agora também traz consigo.

 

Olhamos o horizonte que se move de forma inquietante e inspiramos os sons, como se assim conseguíssemos melhor reproduzir as palavras. Aqui temos a certeza de que os sabores têm pernas e asas, os sons podem ser devorados e os cheiros fazem brotar auras de cor.

Um país cíclico


claudiakover,

Actualmente o estado regula os ciclos menstruais de todos os portugueses – as dores de barriga, as irritações, os afrontamentos e as menopausas – quer seja de forma comparticipada, quer não.

PES ≠ Programa de Exclusão Social


claudiakover,

O PES (Programa de Emergência Social) foi por alguns apelidado como uma caminhada rumo ao “trabalho gratuito para desempregados” e como um incentivo à “distribuição de restos”, causando assim uma clara “divisão entre cidadãos de primeira e de segunda”. Mas, infelizmente, muitos portugueses são já obrigados a viver uma vida de segunda e os alegados “restos” são para muitos a sua primeira e única solução.

 

Enquanto que alguns questionam e bem a operacionalidade do programa (como garantir a qualidade dos medicamentos distribuídos ou quais os critérios para os apoios na área dos transportes) outros, preferem atirar cegamente pedregulhos para as já turvas águas da crise.

 

Caros, a pobreza existe, não foi o PES que a inventou. E, se fornecer bens essenciais aos mais carenciados e procurar formas de incentivo para situações familiares dramáticas não for o seu objectivo, deveriam ter deixado as páginas em branco e ter-lhe chamado Programa de Exclusão Social.

Hoje há crepes, mas não para mim


claudiakover,

Assimilado o cheiro a esgoto, que infelizmente se entranha nesta passagem bem próxima dos Armazéns do Chiado, escolhi o tão desejado lanche: crepe com queijo brie, mel e noz.

 

Mas, “não há crepes”, dizem-me. Pelo menos não para mim.

 

Assim tive de fazer recuar a saliva que se amontoava na expectativa de saborear um queijo derretido e contentar-me com um scone com doce de framboesa. Um scone, sim. Antigamente (como quem diz, há uns meses), vinham dois ou três. Hoje, veio só um, que chegou atrasado e de formato entristecido, como se algo no seu interior o tivesse feito encolher-se em solidão.

 

“Foi feito na hora”, desculpa-se a figura atrapalhada.

 

Já mastigava eu o scone – lamuriando ainda o meu desejo de comer o tal crepe – quando me recordei que muitas das poucas coisas que sei cozinhar são compostas por: farinha, açúcar, manteiga, leite e ovos. E se eu tinha dúvidas na receita, o crepe que chegou à mesa da alegre família da mesa do lado deixou-me esclarecida e, enfim, faminta de inveja.  

 

Entretanto, se por lá passarem, comam o tal crepe por mim.

“Who cares about public debt when you have sun!?”


claudiakover,

E eu que achava que podia continuar a vangloriar-me perante os meus amigos e colegas austríacos, alemães, suíços, suecos, romenos e até búlgaros, que apesar de uma gigantesca dívida pública regressava a um país cujas temperaturas de verão oscilavam entre os 27 e os 30 graus. Mas, já nem isso Portugal – que agora mais parece o nordeste brasileiro no início do inverno – me tem para oferecer. Mais uma praga socrática?

Série: A Alemanha dos nossos dias


claudiakover,

Episódio II: O porquê do tamanho dos jornais alemães

 

 

 

O tamanho dos jornais alemães (sim, a largura, a altura e, até mesmo, a grossura) deixa tanto a desejar quanto a incapacidade dos habitantes da Deutschlândia em ver filmes nos quais a Júlia Roberts não fale em língua de cão. Pior do que ler estes jornais em casa – nesse caso a maioria de nós poderia forrar duas vezes o chão da habitação e decifrar cada uma das dezenas de páginas com um binóculo -, é lê-lo num avião. Nesse caso, além de privarmos o nosso vizinho do lado da já remota possibilidade de ter um vislumbre dos territórios agrícolas da Baviera, ainda corremos o risco de ficar com o cotovelo preso entre as suas mandíbulas enquanto tentamos dobrar a folha ao meio para ler o artigo do canto superior direito. Tudo isto torna-se mais ridículo quando o alemão da fila da frente parece dominar o trambolho com grande perícia, recorrendo a gestos pequenos e rápidos, semelhantes a minúsculas descargas eléctricas. Infelizmente, cada movimento deste “bicho informativo” faz-se ainda acompanhar de um cheiro desagradável.

 

Ainda assim, rapidamente conclui que este jornal inestético e difícil de manobrar teria uma componente prática e social mais ampla – basta pensarmos na história da criação do Volkswagen para sabermos que nem tudo é o que parece. Por exemplo, bem que teria gostado de me ter feito acompanhar de três volumes da “Frankfurter Allgemeine” em alguns aeroportos nos quais não se lembraram de fazer bancos corridos. E, facto é que, de um jornal se consegue fazer um pouco de tudo: papel de rascunho, assento, embrulho para prendas ou castanhas e ainda aqueles chapeuzinhos de papel inúteis. Se virasse moda, a Fátima Lopes era capaz de os usar para criar indumentárias que tapam tudo menos as maminhas. No entanto, uma razão fundamental para alguém – na época dos jornais de bolso e do iPad – continuar a fabricar coisas deste tamanho é a possibilidade da Rússia voltar a cortar o gás à Europa. Afinal, quanto não valeria uma “Süddeutsche Zeitung” a um Ucraniano?  

Hoje no “i” os estrangeiros falam do fado, da sardinha e de mim


claudiakover,

Hoje o “jornal com o melhor design do mundo” apresenta uma descrição da imagem portuguesa aos olhos de 163 estrangeiros. Entre as muitas citações recebidas o “i” esqueceu-se de editar pelo menos uma das opiniões, na qual se lê: “Onde seria possível conhecer uma pessoa tão amorosa como a Cláudia?”. Infelizmente não entrei para a avaliação final dos termos mais associados ao nosso país – tête-à-tête com o “Cristi”, o fado e a sardinha. 

Série: A Alemanha dos nossos dias


claudiakover,

Episódio I: Porque é que no III Reich se usava sempre farda?

 

Todos nós sabemos que muito do que é a Alemanha de hoje e os seus hábitos peculiares já se propaga desde o tempo dos Habsburger. É por isso que, através do passado, poderemos melhor compreender algumas decisões históricas e até um pouco da actualidade germânica. No episódio de hoje, reflectiremos sobre os três estereótipos alemães da actualidade, por forma a responder a uma pergunta histórica.

 

Ora, a sociedade alemã divide-se hoje da seguinte maneira:

 

1. O alemão corporativo

 

Veste fato, gravata, tem regras para tudo, nunca se atrasa e lida de forma nervosa com a falta de rigor dos horários sulistas, esboçando ocasionalmente um sorriso como se o próprio se envergonhasse pelo atraso do outro. Este é o alemão que todos gozamos: o respeitador das filas e das regras sociais mas que não sabe o que fazer após o insucesso do seu muito pormenorizado plano c). Este é aquele alemão que come sempre os legumes do prato e que ao fim-de-semana conjuga o verbo “wandern” (Sim, se a nossa palavra é “saudade”, a alemã é “caminhar” – mas bem mais profundo que isso).

 

2. O alemão hippy

 

Contra tudo e contra todos (os anteriores) partiu para as quintas biológicas, coberto de rastas, adorador dos instrumentos musicais tribais e, hoje em dia, nem deixa os filhos ir ao dentista. A maioria destes habita no interior alentejano e um pouco por toda e qualquer savana que se afigure como suficientemente distante de uma escola ou de um relógio que não seja o próprio sol. Estes são os alemães que produzem rebentos de soja para os restantes alemães.

 

3. O alemão revoltado

 

É em tudo idêntico ao primeiro mas veste-se quase tão mal como o segundo, recorrendo à desculpa de que “os seus antepassados usaram farda durante demasiados anos”. Usa a sandália com meiola branca espessa, vestes semelhantes a sacos de batatas ou ainda uma conjugação estridente entre uma camisa roxa e uma gravata azul.

 

É preciso dizer mais? Não perca a próxima aventura na Germolândia.