Pois está muito mal


Rui Rocha,

Pelo visto, o Senhor Secretário de Estado do Ambiente vai prescindir do subsídio de alojamento que a mão amiga do Primeiro-Ministro Costa tinha assinado em seu favor. Ao que parece, o referido subsídio tinha fundamento numa residência declarada no Algarve, sendo certo que o Senhor Secretário de Estado parece viver há um bom par de anos em casa própria no concelho de Cascais. Ora a verdade é que prescindir do subsídio é a pior decisão. Se, como tudo indica, actuou abusivamente, tem de demitir-se. Em contrapartida, se a atribuição do subsídio é legal, como afirma, não tem nada que prescindir dele. Se for legal, prescindir é ceder a pressões sem fundamento. Quem cede a pressões não tem condições para exercer funções de Secretário de Estado do Ambiente. Como é óbvio, o que está em causa não é o valor, são os valores.

Aldeia da roupa suja


Rui Rocha,

Não percebo. A valerem alguma coisa, as razões que Sócrates invoca no artigo de hoje (JN/TSF) são precisamente as que deveriam fazer que defendesse um Inquérito. Se nada fez de censurável, se nada teme, se não interveio, se não deu orientações, se não tem qualquer ligação com Vale do Lobo, se a iniciativa é desastrosa para os seus autores (PSD), se a gestão pública da Caixa é imaculada, então nada melhor que o Inquérito para deixar tudo em pratos limpos. Passe o truísmo, só é possível lavar roupa suja se esta não estiver muito limpa.

Não confundir germano com género humano


Rui Rocha,

Pessoas mal intencionadas continuam a tentar confundir os portugueses. Vejamos. Quando Passos Coelho aconselhou os professores a trabalharem no estrangeiro estava em Portugal. Quando Costa aconselhou os professores de português a trabalharem em França estava em Paris. No primeiro caso temos, portanto, um apelo à emigração. E, no segundo, um apelo à imigração. Só por má-fé se pode defender que é igual aquilo que, em substância, é completamente diferente.

É fazer as contas, como dizia outro


Rui Rocha,

Fazendo umas contas por alto, um ano tem cerca de 250 dias úteis. Se tivermos em conta que o direito a férias remuneradas corresponde a 22 dias por ano, sobram coisa de 228 dias úteis para trabalhar. A redução do horário de trabalho na função pública para 35 horas semanais corresponde a menos 1 hora de trabalho por dia. Isto é, o empregador Estado acaba de somar aos 22 dias úteis de férias normais mais uma “dispensa” equivalente a cerca de 28 dias por ano (1 hora x 228 dias de trabalho / 8 horas diárias de trabalho = 28,5). Exacto. É o que acabaram de ler e que repito para o caso de não ter ficado claro: é de uma medida equivalente a um acréscimo de 28 (vinte e oito) dias de férias anuais para cada funcionário público que estamos a falar.

A carta por pontos: uma evidente discriminação contra os funcionários públicos


Rui Rocha,

Se tivéssemos uma interpretação progressista e avançada do princípio da igualdade asseguraríamos aos funcionários públicos uma carta de condução com mais pontos. Como passam a trabalhar só 35 horas, é natural que tenham mais tempo disponível para conduzir. Logo, estão sujeitos a cometer mais infracções pelo que incorrem, obviamente, numa situação de desfavorecimento face aos trabalhadores do sector privado. Um entendimento mais profundo da igualdade constitucional impõe que se trate de forma diferenciada aquilo que é substancial e materialmente diferente.

Fora de série (11)


Rui Rocha,

ling chung.jpg

Do fundo da memória, desse mesmo tempo em que esperávamos o início da transmissão  televisiva a mais de meia tarde olhando para a mira técnica, em que o indicativo da Eurovisão prenunciava quase sempre os Jogos sem Fronteiras (quando não calhava tratar-se de uma transmissão da filarmónica de Viena para profunda decepção deste que aqui escreve), em que Vasco Granja pronunciava o nome de Tex Avery e os olhos já brilhavam, recupero vagas imagens de loucas correrias de hordas de guerreiros, de bandeiras ao vento, de artes marciais improváveis, de códigos de honra inquebráveis apesar das maiores vilanias. Ling Chung era um herói. E Ling Chung era eu quando segurava um ramo que se assemelhava à sua espada para correr pelo quintal da avó Palmira com o cabelo ao vento (e meu Deus, como em Espinho fazia vento) em perseguição do ignóbil Cau-Chi, ou lá como se chamava. E invariavelmente o Cau perdia, dobrado o cobarde, ali de joelhos onde o quintal acabava. Perdia o Cau e perdiam os morangueiros que o avô Adriano tinha plantado que nisto de perseguições a tiranos não podia o herói afastar-se do seu caminho da justiça cá por coisa de meia-dúzia de morangos. Claro que até os heróis cometem erros. Ling Chung cometia-os na série, mas nunca desistia. E eu, embora menos, também cometi alguns quando no Sisto, Silvalde, Espinho, Distrito de Aveiro, nos anos 70 do século XX, entrava na pele do justiceiro que vivera na dinastia Song. Ou não terei cometido um erro naquela tarde de Verão em que, empunhando a espada-ramos, zurzindo-a em todas as direcções, defendendo os imaginários companheiros de Ling Chung da injustiça, enfiei tamanha bordoada no Monteiro que andava a sulfatar as fruteiras que o homem perdeu o controlo da escada e aterrou de bruços no meio das couves-pencas? Cometi pois. E nestes casos há que saber recuar quando a batalha está perdida para evitar maiores danos. Retirei a todo o vapor, correndo mais do que Ling Chung correra em qualquer episódio, enquanto o Monteiro Cau-Chi me perseguia, com metade da cara azul do sulfato e a outra metade vermelha do impacto da aterragem. E só parei na cozinha, recuado já em linhas defensivas, bem atrás da saia da minha mãe. Que embora não aparecesse na série, o Ling Chung também havia de ter mãe que devia gostar muito dele. E pronto. Para os que não viram ou já não se lembram, se não me engano, o Ling Chung era aquele que está ali em cima de amarelo. E digo se não me engano porque já não me lembro muito bem dele, embora me lembre como se fosse hoje da cara do Monteiro Cau-Chi  com o nariz espetado entre as pencas ou, visto de outro ângulo, com as pencas espetadas no nariz.

No fundo, a versão de Câncio corrobora a tese da investigação


Rui Rocha,

Fernanda diz que estava convencida que o dinheiro era de Sócrates. E a investigação está convencida que o dinheiro era de Sócrates. É provável até que o próprio Sócrates estivesse convencido que o dinheiro era dele. Na verdade, só deve ter “concluído” que o dinheiro era de Santos Silva quando foi detido em Novembro de 2014.

Deixemo-nos de merdas


Rui Rocha,

Se estivéssemos verdadeiramente preocupados com a defesa da escola pública, em lugar de andar a perder tempo com os contratos de associação, estaríamos a propor a reintrodução de uma prova de acesso para candidatos à função de professor que impedisse analfabetos funcionais com excelentes classificações atribuídas por instituições de vão-de-escada de ensinar e, para não pedirmos muito, um mecanismo de avaliação adequado dos professores do quadro que afastasse do sistema os que tivessem uma classificação negativa reiterada. Mas claro. A escola pública está ao serviço de tudo menos da educação dos alunos. E depois, já se sabe. Num país em que a discussão científica mais profunda que é possível fazer-se diz respeito à idade real do Renato Sanches, o ministro aponta e a turba corre na direção que o dedo indica, desviando-se cada vez mais da Lua.