Do fundo da memória, desse mesmo tempo em que esperávamos o início da transmissão televisiva a mais de meia tarde olhando para a mira técnica, em que o indicativo da Eurovisão prenunciava quase sempre os Jogos sem Fronteiras (quando não calhava tratar-se de uma transmissão da filarmónica de Viena para profunda decepção deste que aqui escreve), em que Vasco Granja pronunciava o nome de Tex Avery e os olhos já brilhavam, recupero vagas imagens de loucas correrias de hordas de guerreiros, de bandeiras ao vento, de artes marciais improváveis, de códigos de honra inquebráveis apesar das maiores vilanias. Ling Chung era um herói. E Ling Chung era eu quando segurava um ramo que se assemelhava à sua espada para correr pelo quintal da avó Palmira com o cabelo ao vento (e meu Deus, como em Espinho fazia vento) em perseguição do ignóbil Cau-Chi, ou lá como se chamava. E invariavelmente o Cau perdia, dobrado o cobarde, ali de joelhos onde o quintal acabava. Perdia o Cau e perdiam os morangueiros que o avô Adriano tinha plantado que nisto de perseguições a tiranos não podia o herói afastar-se do seu caminho da justiça cá por coisa de meia-dúzia de morangos. Claro que até os heróis cometem erros. Ling Chung cometia-os na série, mas nunca desistia. E eu, embora menos, também cometi alguns quando no Sisto, Silvalde, Espinho, Distrito de Aveiro, nos anos 70 do século XX, entrava na pele do justiceiro que vivera na dinastia Song. Ou não terei cometido um erro naquela tarde de Verão em que, empunhando a espada-ramos, zurzindo-a em todas as direcções, defendendo os imaginários companheiros de Ling Chung da injustiça, enfiei tamanha bordoada no Monteiro que andava a sulfatar as fruteiras que o homem perdeu o controlo da escada e aterrou de bruços no meio das couves-pencas? Cometi pois. E nestes casos há que saber recuar quando a batalha está perdida para evitar maiores danos. Retirei a todo o vapor, correndo mais do que Ling Chung correra em qualquer episódio, enquanto o Monteiro Cau-Chi me perseguia, com metade da cara azul do sulfato e a outra metade vermelha do impacto da aterragem. E só parei na cozinha, recuado já em linhas defensivas, bem atrás da saia da minha mãe. Que embora não aparecesse na série, o Ling Chung também havia de ter mãe que devia gostar muito dele. E pronto. Para os que não viram ou já não se lembram, se não me engano, o Ling Chung era aquele que está ali em cima de amarelo. E digo se não me engano porque já não me lembro muito bem dele, embora me lembre como se fosse hoje da cara do Monteiro Cau-Chi com o nariz espetado entre as pencas ou, visto de outro ângulo, com as pencas espetadas no nariz.
Fora de série (11)
Rui Rocha,


Não faço nem uma pálida ideia de quem era o teu herói Ling Chung, mas já chorei a rir com as aventuras do seu sucedâneo espinhense. Pobre Monteiro Cau-Chi.
Coitado do Monteiro :).
Acredito que os rapazes novos, muito mais interessados em porradarias do que em filosofias, gostassem do Ling Chung.
Bem, se nada mais havia que fazer que não ler e ver TV e se estava calor e ler dava sono, então lá tinha que ser.
Era muito mau, Rui Rocha. Está bem, tinha as piquenos e muita acção, mas era uma série da Ancient China, 🙂 🙂 dobrada num inglês do mais macarrónico e legendada em Português …
O Kung-Fu , o do grasshoper com o papel de arroz e o Yoda da altura, repleto de tiradas do Lao Tsé,era bem mais apelando.
Agora que penso a sério no Ling Chung, porque há eternidades que não lhe ouvia sequer o nome, fico a cogitar se não teria sido ali que nasceu a ideia das Tartarugas Ninja – os japoneses também deviam ser fãs do Ling Chung.
Ressalvo as palavras :
Piquenas e apelativo…
… Coisas destas, só no tempo do Ling Chung.
Abraço
O Ling Chung é bem capaz de ser o avô do Donatello, Dulce. Em todo o caso, pelo pouco que li para fazer o post, a série será de origem japonesa…
Até pode ser uma série japonesa, mas é baseada num clássico da literatura Chinesa.
Já há um ( ou dois, ou três… ) par de anos, calhou em conversa com o meu irmão as porcarias que as nossas crianças vêem na TV , e ele trouxe à baila o Lin Chung de que era fã ( coitado) e fiquei a saber que a série se chama realmente The Water Margin… O meu irmão que é uma pessoa informada, grande leitor de livros, notícias e etecéteras, sabe muito mais do que eu e é a minha enciclopédia de emergência, seguramente não me ia enganar neste particular.
Pelo pouco que li,o seu irmão está informadíssimo, Dulce. Bate tudo certo.
Série fantástica! Eu, os meus irmãos e primos andávamos pelos socalcos do Douro a brincar ao ling chung – entre saltos e paus a fazer de espadas, também fizemos muitos disparates. As mulheres eram umas guerreiras fabulosas. Boas recordações.
Certo. Agora que falamos, de facto as mulheres eram super guerreiras, Adelaide.
Ah, uma dobragem de nos fazer torcer a rir mas com a célebre citação Do not despise the serpent,for having no horns…who’s to say if it won’t become a dragon !!
Very old chinese saying…
Exactamente, Fernando. Já não me lembrava dessa citação…
Lembro-me muito bem do Ling Chung, sim senhora. Mas tive de fazer algum esforço porque o colete amarelo me confundiu: o meu Ling Chung era a preto e branco.
Pois é verdade, Isabel. O meu também não era colorido…
Confesso que não me lembro da série, mas eu era rapariga e as raparigas não ambicionavam ser samurais. Mas já morri a rir com as tuas aventuras, Rui.
Viva o Ling Chung, caramba.
Pró Ling Chung, tudo 🙂 !