Entrevista a Sócrates, o pós-moderno


Rui Rocha,

 

O DELITO DE OPINIÃO orgulha-se de ser o primeiro blogue a obter, em exclusivo, uma entrevista com o anterior primeiro-ministro. Impõe-se um agradecimento a José Sócrates pela sua disponibilidade e pela forma sincera como respondeu às nossas perguntas. O documento, que reputamos de histórico, aqui fica para avaliação de quantos o lerem. Por escrito, que palavras leva-os o vento.

 

Religião:

– Em certas circunstâncias, admito que possa ser um bom investimento. Um dia, talvez possa ter uma. A minha.

Felicidade:

– Sempre. Enquadrada por uma política de Estado destinada a promovê-la e a incentivá-la. No futuro, também a medi-la.

Auto-estima:

– Completamente. Quem inventou o conceito não devia esconder-se na sua modéstia. Mas, não esqueço que a opinião dos outros é a fonte do meu sucesso. É fundamental influenciá-la. Tal e qual como faço com o meu espelho.

Arte:

– Fundamental. Interessam-me todos os artistas ainda vivos. Não existe nenhuma vantagem em dedicar tempo aos clássicos, a todos os que já desapareceram. Nenhum deles pode falar bem de mim. Prescindir dos clássicos deixa-me à vontade para promover todos os que estão vivos e esperar o retorno.

Polémica:

– Indispensável. Encaro-a como instrumento de notoriedade. Tudo o que nos rodeia é tão relativo como o gosto literário. Tornarmo-nos objecto de polémica ou polemizar sobre os mais diversos temas, daí retirando todo o benefício inerente, deveria ser o nosso objectivo prioritário.

Convicções políticas:

– Tenho. Mas, não me revejo nas causas da militância tradicional. A esquerda e a direita são divisões redutoras. A esquerda de quem desce é a direita de quem sobe.

Ética:

– Sou um crítico da ética da responsabilidade. A ética deve ser mediada pelo resultado. Prefiro a ética do cálculo e do benefício. Não há justiça, só êxito. O enriquecimento rápido, que muitos criticam, é para mim prova de competência. É claro que existe sempre uma corrente conservadora que se alimenta de inveja e de escândalos. Os escândalos são para mim, todavia, um sintoma do sucesso.

Causas:

– Todas. Exerço em permanência a minha liberdade de escolha. Escolho as minhas marcas, a moda, as minhas referências. O socialismo de mercado que defendo é isso mesmo. O espaço onde o romantismo das causas e a bolsa de valores se encontram, em síntese, mas com clara prevalência para esta última. É o mercado que nos proporciona o momento da afirmação da nossa identidade.

Pobreza:

– Não gosto. Os intelectuais é que gostam de pobreza. Eu sou um pragmático. É preciso que os pobres tenham tudo o que for necessário para que a minha aspiração de sucesso material tenha legitimidade. Não suportaria um país em que a minha ambição pessoal, as minhas férias, os meus gadgets, os meus jantares, pudessem ser considerados ofensivos por quem não tem nada. É para isso que serve, entre outras coisas, o Estado Social.

Filosofia e Pensamento:

– Senti a vertigem da descoberta ao ler Nietzsche na sua vertente niilista. Para além disso, aprecio muito Des Cartes. E Des Epistoles também.

Amizade:

– Os meus cães. Tenho com eles o entendimento perfeito. Não há competição entre nós, nem conflito de vontades. Eu mando e eles obedecem.

Relação consigo próprio:

– Não podia viver sem mim.

Lista de justificações de Jardim


Rui Rocha,

  1. É teudo menteira! (já utilizada)
  2. Omitei em legeitema defesa! (já utilizada)
  3. A queulpa é da lei megera das fenanças regionais socialeista! (já utilizada)
  4. A queulpa é da Internacional Socialeista! (já utilizada)
  5. Temos deivida, mas temos obra feita! (já utilizada)
  6. Então e as deividas dos países africanos? (já utilizada)
  7. Neunca queunfessei a oqueltação da deivida da Madaira! (já utilizada)
  8. Queunfesso neunca ter negado a oqueltação da deivida da Madaira! (a utilizar ainda hoje de manhã)
  9. Queunfesso ter oqueltado a negação de deivida da Madaira (a utilizar ainda hoje de tarde)
  10. Assobeiam-me perque sou boneito, reico e bom jegador! (a utilizar logo que lhe passar pela cabeça)

Pode a Espanha ter 52 aeroportos?


Rui Rocha,

É a pergunta que Paco Nadal coloca no seu blog:

¿Hasta cuando durará la paranoia de nuestro políticos locales por poner una aeropuerto en cada ciudad de más de 50.000 habitantes? La reseca de aquella década en que todos éramos ricos sigue dejando cadáveres en la cuneta, y el sector del transporte es una alegoría ejemplar de aquella histeria derrochadora.

Vale a pena ler o retrato que ali é feito sobre a utização de aeroportos como Castellon ou Ciudad Real. Até porque por cá também tivemos (ou temos) a mesma febre de construção a que Nadal se refere. De aeroportos e não só. E não falta até quem ainda agora proponha aeródromos regionais.

Portugal Salgado


Rui Rocha,

Esta é uma notícia que nos interpela. Podemos, claro, escrever rios de tinta sobre a atitude de uma empresa farmacêutica que corta o fornecimento de medicamentos usados no tratamento do cancro. Pelo visto, já o fez na Grécia e admite fazê-lo em Portugal. Mas, infelizmente, há um conjunto de perguntas anteriores a estas que não cabe à Roche responder. Na verdade, o que é fundamental perceber é quantos estádios de futebol, quantas parcerias público-privadas, quantas auto-estradas, quantas rotundas, quantos parques-escolares, quantos filhos bastardos dos auto-proclamados pais da democracia e do serviço nacional de saúde foram precisos para chegar até aqui. Quantas vezes o nome do estado social foi invocado para dar cobertura a quantos se sentaram à mesa do Estado sem nunca terem intenção de pagar a conta. São perguntas para as quais não é difícil adivinhar a resposta. Mas, a verdade inteira o BES é que sabe.

Má sorte ter sido trader


Rui Rocha,

 

Kweku Adoboli encontra-se em prisão preventiva e, de acordo com o próprio juiz do tribunal de Londres, enfrenta acusações extremamente graves, depois de ter efectuado uma operação não autorizada no valor de 1,4 mil milhões de euros. Tem azar. Em Portugal, por exemplo, “omitir” despesas da Região Autónoma da Madeira tem como consequência uma multa de 25.000€ e os responsáveis pelo descalabro das contas públicas continuam alegremente a campanha para a eleição do Governo Regional. Ou vão estudar filosofia para Paris.

George Soros: é necessário pensar o impensável na Europa


Rui Rocha,

“Para resolver uma crise em que o impossível tornou-se possível, é necessário pensar o impensável. Assim, para resolver a crise da dívida soberana na Europa, é agora imperativo uma preparação para a possibilidade de inadimplência e de saída da Grécia, Portugal e, talvez, da Irlanda da zona do euro.

 

Em tal cenário, medidas terão de ser tomadas para evitar um colapso financeiro da zona do euro como um todo. Primeiro, os depósitos bancários precisam ser protegidos. Se um euro depositado num banco grego fosse perdido devido a um calote e saída da zona, um euro depositado num banco italiano passaria imediatamente a valer menos do que um euro em um banco alemão ou holandês, resultando em uma corrida aos bancos dos países deficitários.

 

Além disso, alguns bancos nos países inadimplentes teriam de ser mantidos em funcionamento para evitar um colapso econômico. Ao mesmo tempo, o sistema bancário europeu teria de ser recapitalizado e colocado sob supervisão europeia, em vez de fiscalização nacional. Finalmente, os títulos governamentais emitidos por outros países deficitários na zona do euro teriam de ser protegidos de contágio. (Os dois últimos requisitos seriam aplicáveis mesmo que nenhum país resultasse inadimplente).

 

Tudo isso custaria dinheiro, mas, nos termos do regime existente acordado pelos líderes nacionais da zona do euro, não há mais dinheiro mobilizável. Portanto, não há alternativa: é preciso criar o componente que falta: um Tesouro europeu com poder de tributar e, portanto, de captar empréstimos. Isso exigiria um novo tratado, transformando o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, em inglês) em um Tesouro propriamente dito.

 

Mas isso pressupõe uma admissão de que circunstâncias radicalmente distintas exigem mudanças de posicionamento, particularmente na Alemanha. A opinião pública alemã continua acreditando que pode optar por dar ou não seu apoio ao euro. Esse é um erro grave. O euro existe, e os ativos e passivos do sistema financeiro mundial estão tão mesclados em função da moeda comum que seu colapso poderia causar uma implosão além da capacidade das autoridades alemãs – ou de qualquer outra – de contê-la. Quanto mais tempo levar para que os alemães percebam esse fato nu e cru, maior o preço que eles, e o resto do mundo, terão que pagar.

 

A questão é se o público alemão pode ser convencido desse argumento. A chanceler Angela Merkel pode não ser capaz de persuadir sua coalizão inteira dos méritos do argumento, mas poderia apoiar-se na oposição para construir uma nova maioria que defenda o que é necessário para preservar o euro. Tendo resolvido a crise do euro, ela teria menos a temer da próxima eleição.

 

Preparar-se para o possível calote ou a deserção de três pequenos países do euro não significa que esses países seriam, necessariamente, abandonados. Ao contrário, a possibilidade de um default coordenado – financiado pelos países da zona do euro e pelo Fundo Monetário Internacional – proporcionaria à Grécia e Portugal opções de política de governo. Adicionalmente, isso poria fim ao ciclo vicioso – que agora ameaça todos os países deficitários na zona do euro – em que a austeridade enfraquece suas perspectivas de crescimento, levando investidores a cobrar taxas de juros proibitivas e, portanto, obrigando seus governos a reduzir ainda mais seus gastos.

  

Sair da zona do euro facilitaria, para os países em dificuldades mais graves, recuperar sua competitividade. Mas, caso se disponham a assumir os sacrifícios necessários, poderiam também permanecer: o EFSF protegeria os depósitos em seus bancos domésticos e o FMI ajudaria a recapitalizar seus sistemas bancários, o que ajudaria esses países a escapar da armadilha atual. Seja qual for o caso, não é de interesse da União Europeia permitir que esses países entrem em colapso e arrastem consigo todo o sistema bancário mundial.

 

Os países membros da UE, e não apenas os pertencentes à zona do euro, precisam aceitar que é necessário um novo tratado para salvar o euro. Essa lógica é clara. Assim, as discussões sobre o que incluir em tal novo tratado deveria começar imediatamente, porque mesmo com os líderes europeus sob extrema pressão para chegarem rapidamente a um consenso, as negociações serão, necessariamente, um processo prolongado. Depois que houver um acordo em torno do princípio fundamental, porém, o Conselho Europeu poderia autorizar o BCE a preencher o vácuo, protegendo-o preventivametne contra riscos de solvência.

 

A perspectiva de uma solução para a crise da dívida soberana na zona do euro seria uma fonte de alívio para os mercados financeiros. Mesmo assim, uma vez que os termos de um novo tratado seriam, inevitavelmente, ditados pela Alemanha, seria quase certa uma grave desaceleração da atividade económica. Isso poderia induzir uma mudança de atitude adicional na Alemanha, o que, por sua vez, permitiria a adoção de políticas anticíclicas. Nesse ponto, o crescimento em grande parte da zona do euro poderia recomeçar.”

 

Artigo de George Soros, publicado na Valor Econômico.

Tarde protestaste


Rui Rocha,

 

O protesto de hoje da Fenprof e da CGTP contou com a adesão de cerca de 50 professores. Trata-se de um número irrisório se tivermos em conta os milhares de candidatos ao exercício de funções docentes que não ficaram colocados neste ano lectivo e a precariedade que traz angustiados os professores contratados . Todavia, a razão fundamental para esta fraca adesão não é, ao contrário do que pretende a sindicalista de serviço, a desmobilização provocada pelo discurso sistemático da crise e da inevitabilidade das medidas de austeridade. Na verdade, o que está em causa é que os professores contratados não se sentem representados pela Fenprof que, por várias vezes, demonstrou privilegiar outros interesses, incluindo a sua própria agenda política.  E, neste como noutros casos, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Caso para dizer a Mário Nogueira: tarde protestaste.

Chegámos, por fim, à Madeira


Rui Rocha,

 

De acordo com as últimas notícias, o sonho de muitos portugueses está em vias de tornar-se realidade. Aparentemente, é desta que vão torrar uma parte do subsídio de natal na Madeira. Ainda por cima, sem os incómodos da viagem ou do estampido do foguetório de fim-de-ano. Tudo vantagens que só o conforto da retenção na fonte assegura. A situação das contas da Madeira confirma uma tese. Há uma Crise do Euro e há uma Crise dos Euros. A primeira tem natureza global. Resta-nos, por esta altura, ser comparsas das decisões que nos impuserem. Na segunda, somos protagonistas. Na Crise dos Euros, José Sócrates e Alberto João Jardim são as duas faces da mesma moeda. E a moeda está desvalorizada por anos e anos de má gestão dos dinheiros públicos, pela ocultação e pela manipulação de números. A Crise dos Euros é, como é evidente, uma crise de valores. Esses que nos faltam nos bolsos a cada novo agravamento de impostos destinado a pagar o regabofe, o descontrolo e a vaidade destas personagens. Mas é também o reflexo da ausência de valores ainda mais básicos e fundamentais. Esses que deveriam ter sido o critério orientador da prática política e que, constatamos agora, estiveram sempre ausentes ao longo dos últimos anos. É por isso que, para lá do jogo político de imputação de responsabilidades (pega lá um Jardim, toma lá um Sócrates), é urgente tomar uma posição clara sobre este tipo de situações. E essa posição só pode ser a de dizer a estes senhores que já basta. Sem dinheiro, não há palhaços. No nosso caso, foram os próprios palhaços que o gastaram.

Seguro contra todos os riscos


Rui Rocha,

 

As críticas de António Costa e Francisco Assis ao novo líder parlamentar do PS confirmam que António José Seguro ainda não percebeu bem o que os socialistas esperam dele. Alguns pretendem reabilitar o líder anterior (José Sócrates). Outros querem lançar a candidatura do futuro líder (António Costa). A reabilitação de Sócrates pressupõe que Seguro actue como carro-vassoura, recolhendo os que caíram da governação e assegurando-lhes um transporte confortável até à meta. O lançamento de Costa implica que Seguro actue como  lebre. Cabe-lhe assegurar as despesas da corrida nas primeiras voltas à pista. Mas,  nessa missão, a lebre deve desgastar o Coelho, desgastando-se a si própria. Pode até ter vestida a camisola amarela. Todavia, em caso algum lhe estará reservada a vitória na corrida. Nenhuma destas encomendas é compatível com a proclamação de um partido novo. Para os que o vêem como carro-vassoura, o que se pretende são obras de fachada no partido velho. Para os que o querem como lebre, a ilusão do partido novo pode e deve esperar pelo momento oportuno. Os projectos políticos de certas pessoas estão primeiro.

Momento Cashconverters


Rui Rocha,

 

O Banco de Portugal (BdP) divulgou hoje as taxas máximas (TAEG) aplicáveis aos contratos de crédito aos consumidores no último trimestre deste ano.

 

Todos os limites máximos foram aumentados. A taxa do crédito pessoal, por exemplo, foi revista para uns tímidos 20,2%. A única excepção ao aumento dos limites registou-se nos cartões de crédito, mantendo-se nestes a razoabilíssima taxa máxima de 34,1%

 

A imposição de limites máximos é uma prática adoptada pelo BdP desde o final do ano passado. A aplicação de taxas superiores aos referidos limites é considerada usura. A aplicação de taxas inferiores não.