Um erro trágico


Pedro Correia,

 

Como se verá em Junho, quando forem contados os votos das legislativas, José Sócrates cometeu um erro trágico ao manter-se na liderança do Partido Socialista em vez de imitar o que Rodríguez Zapatero fez em Espanha. Uma nova direcção partidária permitiria outro fôlego eleitoral ao PS – à semelhança do que o PSOE vem indiciando nas mais recentes sondagens, feitas após Zapatero ter comunicado que não se recandidataria a novo mandato – e sobretudo recolocaria os socialistas portugueses no centro do palco político português, prontos a estabelecer pontes simultâneas à esquerda e à direita. Precisamente ao contrário do que fez Sócrates, também incapaz de dialogar dentro do partido que lidera e do seu próprio Governo, como testemunha a sua ruptura com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, agora saneado das listas eleitorais socialistas. Como esta noite sublinhou Diogo Freitas do Amaral, numa notável entrevista concedida à RTP, o ainda primeiro-ministro “revela muito pouca capacidade de diálogo com a oposição” precisamente num momento de emergência nacional: a solução que emergir das urnas, a 5 de Junho, impõe uma convergência partidária que o PS é incapaz de assegurar com Sócrates. Desde logo, também como acentuou Freitas nesta entrevista bem conduzida por Fátima Campos Ferreira, porque o líder socialista “começou a viver num mundo irreal”. A tal ponto – e também na opinião do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Executivo Sócrates, antecessor de Luís Amado – o titular da pasta das Finanças deveria ter pedido a demissão. “Com as despesas eleitoralistas de 2009, o défice subiu de 3% para 9%, o que é imperdoável”, sustenta Freitas, criticando ainda o facto de Sócrates “ter feito um cavalo de batalha” da ajuda externa, que teimou em não pedir contra a lógica mais irrefutável. E só o fez – conclui ainda Freitas – “depois de todos os partidos da oposição terem chumbado o PEC 4, da dissolução da Assembleia da República com o parecer unânime do Conselho de Estado e do manifesto público da banca portuguesa”.

Tudo quanto o insuspeito Freitas do Amaral disse esta noite sobre Sócrates já foi referido diversas vezes, por vários de nós, neste blogue. São evidências que só o restrito núcleo de incondicionais do líder socialista persiste em não reconhecer. Quanto mais o PS teima em seguir acriticamente este líder que perdeu o contacto com a realidade mais o partido, no seu conjunto, se arrisca a ir ao fundo com ele. O que – neste particular momento sobretudo – constitui uma péssima notícia para Portugal.

18 comentários em “Um erro trágico”

  1. Isso faria todo o sentido se não estivéssemos na iminência de sermos governados por entes externos. É que se tornou tão irrelevante quem se candidata… O programa não vai a votos. Hoje, essa teoria é tão irrealista como o mundo de Sócrates.

    1. Quem já governou pessimamente sem FMI pode continuar a fazê-lo mesmo com o FMI. Freitas do Amaral, no seu implacável diagnóstico, deixa implícita uma declaração de voto: com este nunca mais.

  2. Ele não perde pela demora. Aposto que a esta hora já estarão 15 ou 16 abrantes a germinar algo contra o seu ex-MNE.

    Qual é mesmo o telemóvel da jornalista que substituiu aquela outra parva na LUSA?

  3. Erro trágico seria se Sócrates, com esta estratégia baseada na alienação, conseguisse bons resultados eleitorais.
    Se após 5 de Junho Sócrates receber um bilhete para o deserto sem direito a protector solar, não será trágico mas apenas o pagamento em ínfima fracção, do que fez ao país. Com a contribuição dos media, esse cenário será uma realidade e depois todos ficaremos a torcer por mais fenómenos climatéricos extremos.

      1. Vocês continuam a viver num mundo de ficção. O próximo governo, ganhe o PS ou o PSD, vai ter de ser um compromisso entre os 3 partidos- PS PSD e PP. O líder do PS é Sócrates, quer vocês queiram quer não e vai ser com ele, disso podem ter a certeza, que vão ter que se entender. Caso contrário, caso o PSD ganhe, o PS recusa-se a colaborar e vocês não conseguem governar. Preocupem-se antes com o Passos, que é uma nódoa…

  4. Freitas do Amaral é tão insuspeito agora como era quando aceitou o convite de Sócrates para ir para o governo, ou seja, é politicamente suspeito como qualquer político que muda de opinião conforme lhe é politicamente mais conveniente. E depois, Freitas ainda é novo e a presidência da República ainda não está fora do seu horizonte.

  5. “Como se verá em Junho, quando forem contados os votos das legislativas”
    Quem me dera estar assim tão confiante…
    Pode ser que até lá parem de vez os tiros nos pés.

    1. Eu não sou daqueles que gostam de fazer prognósticos depois das eleições. Gosto de os fazer antes. Foi isso que fiz antes de várias outras eleições – presidenciais, legislativas, europeias e autárquicas. Estas não serão excepção.

  6. Ó Pedro Correia essa pergunta nem parece sua. Eu não duvido que percebeu muito bem o meu comentário e que, portanto, sabe que as nossas opiniões sobre as afirmações de Freitas do Amaral, constantes do seu post, não coincidem.

  7. Em causa estavam as afirmações de Freitas do Amaral e sobre elas fui claro. Quanto à minha opinião sobre o político também fui claro. Ela não mudou, não é de hoje nem de ontem, é de anteontem. Eu sou mais velho do que ele, mas a memória ainda está razoável.

    1. Facto: Freitas do Amaral é uma das personalidades mais respeitadas e com melhor currículo da democracia portuguesa. Foi um dos fundadores do actual regime português (e um dos raros sobreviventes entre os civis, a par de Mário Soares). O que ele diz, em qualquer circunstância, pesa mais e vale mais do que o que diz a esmagadora maioria dos políticos deste país.

  8. «Quanto mais o PS teima em seguir acriticamente este líder que perdeu o contacto com a realidade mais o partido, no seu conjunto, se arrisca a ir ao fundo com ele»

    Mas isso até será bom para o PSD…!

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