Postais da Feira (1)


Pedro Correia,

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Mais acolhedora que nunca, excepto quando atravessamos o espaço Leya, rodeado de sensores que desatam a apitar à entrada e à saída já sem quase ninguém fazer caso. Prefiro sempre demorar-me pelos pequenos pavilhões, onde há menos aglomeração, muito menos “celebridades” e nula poluição sonora. Ali tratam os livros com justificada veneração e não como simples mercadoria.

Uma dessas tendinhas, a velha Minerva, tem um escaparate que me parece igual ao de décadas atrás, quando comecei a frequentar a Feira do Livro de Lisboa – então ainda com poiso na Avenida da Liberdade. Trago de lá O Homem do Braço de Ouro, de Nelson Algren – o romance que originou o célebre filme homónimo de Otto Preminger, protagonizado por Frank Sinatra. Literalmente em estado novo: tem as páginas por cortar.

«Dantes os livros eram assim para as pessoas ficarem com a certeza de que ainda não tinham sido lidos por ninguém», explica-me o senhor do pavilhão. Eu sorrio, por julgá-lo realmente convencido de que estava a dar-me uma novidade.

 

Fátima Lopes, a vedeta da televisão, exibe um magnífico bronzeado para impressionar basbaques que a apontam a dedo. Daniel Sampaio fala de psicologia infantil para um auditório muito atento. Jorge Silva Melo lê poemas de Sophia. Demoro-me a escutá-lo, com um fascínio antigo em dose dupla: por estes versos tocados de beleza intemporal e pela arte da declamação, apenas ao alcance de alguns eleitos.

Na primeira fila da assistência, Maria, filha mais velha da autora do vibrante Livro Sexto.  Folheei há dias uma biografia recém-surgida de Sophia, escrita em acordês e com pelo menos um erro de datação que logo detectei numa legenda. A biógrafa chama-lhe, cansativamente, «a poeta». Indigno-me com este absurdo banimento da palavra poetisa – sempre a associei a pitonisa – que alguns adoptaram, correndo desenfreados atrás da norma brasileira.

 

Este ano, na Feira, anda tudo muito “biológico” e “natural”. Sugerem-me um copinho de chá gelado, infusão de ervas com “limão da Sicília” que acho refrescante. Mais adiante, um pacotinho com quatro cenouras, para roer, à Bugs Bunny: «Faz-lhe bem», garante-me a morena de sorriso rasgado. A avaliar por ela, deve fartar-se de comer cenoura.

O calor aperta, a sede desperta. Duas donzelas ali postas em desassossego queixam-se da «falta de consciência ambiental» da Câmara de Lisboa, que autoriza a venda ao público de água em garrafas de plástico. É a fruta da época: há dois anos andava tudo aos berros contra o eucalipto, este ano berra-se desalmadamente contra o plástico.

A meia-dúzia de passos há um bebedouro, daqueles antigos: dá-se à manivela e jorra água, fresca e reconfortante. Bebo com gosto e, tendo-lhes ouvido os insistentes queixumes, sugiro às donzelas esta tradicional maneira de matar a sede. Rejeitam, desdenhosas: «Água da torneira, nem pensar.» Volto a sorrir: eis desvendada a genuína «consciência ambiental» destas betinhas, prováveis votantes do PAN.

 

E o que trago de três incursões já consumadas às alamedas do Parque?

Um Amor Feliz, romance único de David Mourão-Ferreira, autor que hoje só encontramos entre alfarrábios: foi banido, tal como a bela palavra poetisa. Como sucedeu com outros escritores de vetusta nomeada: basta lembrar Luís de Sttau Monteiro, que desapareceu das estantes, talvez por ser politicamente incorrecto, sujeito ao apertado crivo do cânone actual.

Romances para ler não apenas nas férias que se aproximam mas durante o ano inteiro: Oficiais e Cavalheiros, de Evelyn Waugh; O Outro Eu, de Daphne du Maurier; Passa Lá um Rio, de Norman Maclean; Arquipélago, do Joel Neto (que está a dever-me um texto para o DELITO). Teatro: Pigmalião, de George Bernard Shaw. Poesia: Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal, que não se limita a escrever bem – é também uma excelente declamadora. Crónicas de Jorge Silva Melo (coincidência) reunidas na Cotovia sob um título feliz: A Mesa Está Posta. Espero que me dêem tanto prazer como me deu uma anterior recolha de textos dele, com a mesma chancela editorial: Século Passado.

Escrever bem, para mim, é isto.

 

Trago ainda, quase com júbilo clandestino, A Torre da Barbela, de Ruben A – outro autor que parece proscrito nestes dias em que meio mundo anda a roer cenouras biológicas, come “hamburgers” veganos, faz odes de louvor ao tofu e sorve infusões – mas sem a temível palhinha, também quase em vias de interdição.

Regresso do Parque Eduardo VII com uma mochila cheia de livros. E esta dúvida existencial: porque chamaremos “palhinha” a algo que não é feito de palha? Soa-me a burrice, mas nesta era de fervor animalista soa mal atribuir conotações depreciativas à bicharada. Se calhar até já com direito a coima. Vou calar-me: assim evito fazer figura de urso.

0 comentários em “Postais da Feira (1)”

  1. Consegui lá ir por umas duas horas (muito curtas) na terça-feira, antes de ir para o aeroporto. Tinha chovido pouco antes e o sol recomeçava a aparecer. Foi agradável (mas curto, já o disse). O espaço Leya não me incomodou, não notei quaisquer barulhos. Com a falta de tempo (tão curto…) acabei até por ficar mais nas grandes editoras, onde é mais fácil ver os livros depressa (embora ao custo de não poder andar a passar a dedo todos os títulos que via nas outras). Acabei a trazer 6 livros (o tempo era curto e tinha limite de peso para a mala). Foram alguns que incrivelmente não tinha eu (Longe de Manaus; A Selva; Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto), apenas os meus pais. Trouxe outros que me agarraram no momento e à custa de promoções (A Biblioteca; O Último Livro; Raz, Neve, Ave). Havia umas figuras lá a serem entrevistadas, mas não conhecia as caras e não podia investigar a identidade (tempo tão curto). Houve tempo (muito rápido e curto) para uma fotografia da zona dos comes e bebes (ainda se pode chamar isso?) sobre o parque e Lisboa e tive de seguir viagem.

    Foi há muito tempo que eu tinha ideo pela última vez. Fiquei feliz de voltar agora (mesmo por tempo curto). Talvez para o ano outra vez, quem sabe.

    Já disse que foi demasiado curto?

    1. Parece sempre curto, João. Mesmo quando não é.

      Trouxeste pelo menos três livros de que gosto muito:
      A Selva
      Era Bom que Trocássemos umas Ideias Sobre o Assunto
      Longe de Manaus

      O livro do Francisco José Viegas é mesmo aquele de que mais gostei, até agora, entre os romances portugueses já deste século XXI.

  2. Ando para encontrar A Torre de Barbela já há algum tempo. Se depois de o ler o Pedro tiver paciência para deixar algumas notas ou uma pequena recensão ou coisa assim estaremos cá para a ler! um abr.

    1. Encontrei na Assírio & Alvim. Dois ou três volumes bem escondidos, ao nível do chão, longe do olhar comum.
      Agarrei logo num. Tive um excelente exemplar deste romance, editado nos anos 80 por uma editora chamada Distri, que já não existe. Mas “mão amiga” encarregou-se de desencaminhá-la…
      Por acasos do destino, só agora reencontrei este livro de um autor de que tanto gosto. Darei nota dele, claro.

    2. Eu tenho uma edição dos anos 80 da Presença (com o bobo na capa), foi uma prenda do meu pai. Acho que chegou a hora de o reler.

  3. Cenouras, infusões e água da torneira.
    Uma questão acessória aos “verdes” da revolução digital e do carro eléctrico: porque querem impedir a exploração de lítio? Aquelas baterias não se movem a ar.

  4. Assim que abri este postal, sorri. É que tinha pensado pôr ‘Um Amor Feliz’ na minha lista, e só não pus porque acho que este romance não foi marcante para mim; gostei muito de o ler, mas não foi marcante.
    Comprado e lido em 2002, tem na capa uma escultura do Francisco Simões em mármore escuro.
    Também comprei O Outro Eu, da Daphne du Maurier
    (de quem li quase tudo, graças à Biblioteca aqui do burgo) numa promoção da Bertrand, por apenas 5€.
    Aqui não fazem Feira do Livro, depois das Feiras de Lisboa e Porto é que por vezes surgem algumas oportunidades.

    Pedro, eu gosto tanto, mas tanto da Sophia que comprei essa Biografia e estou a gostar muito de a ler (faço de conta que são gralhas…).
    E isso de chamar poeta, como a autora explica, foi apenas para respeitar a vontade de Sophia, que detestava que a chamassem de poetisa.
    Quanto ao resto: excelentes compras!
    Que pena tenho de não poder ir aí.
    ⚘
    Maria

    1. Mourão-Ferreira, por motivos que ignoro, tornou-se um escritor clandestino: deixou de ser editado, as obras dele não aparecem em lugar nenhum, só lá chegamos através do mercado de livros usados, felizmente em expansão.
      Ando há anos atrás de um livro de contos dele intitulado “Gaivotas em Terra”. Nem nos alfarrabistas consigo encontrá-lo.

      O que dirão os herdeiros deste grande escritor do facto de o pai, tio e avô se ter eclipsado do mercado editorial português?
      Há coisas que me intrigam. Eis uma delas.

      1. Tenho pena de não ter esse, Pedro. Tenho dois livros de contos, ambos da Presença:
        – As Quatro Estações
        – Os Amantes e Outros Contos.
        Realmente o mundo das (re)edições é muito misterioso.
        ⚘
        Maria

        1. Autores sem herdeiros (como acontece com Cinatti, por exemplo) têm muito mais dificuldade em ver a sua obra relançada postumamente. Mas espanta-me no caso de Mourão-Ferreira, que felizmente deixou herdeiros. Estes deviam zelar pelo precioso legado do escritor.
          Um escritor que não é editado nem lido é um escritor realmente morto.

  5. Eu, que já sou VCC, sei porque as palhinhas são “palhinhas”: no meu tempo as ditas eram mesmo feitas de palha, logo…

  6. Tenho o meu Mealheiro da Feira por contar. Este ano não me parece que consiga visitar a Feira do Livro. Ir lá, vou seguramente. Tenho uma ideia do que vou buscar. Mas gosto de procurar e encontrar e não vou ter tempo, com grande pesar meu.
    Também sou do tempo em que as palhinhas eram de palha, caules ocos de centeio (?)

    1. Já deparei com as habituais pechinchas, Dulce. Livros em óptimo estado, a dois euros cada. Pequenas, médias e grandes obras-primas por vezes mais baratas do que as garrafinhas de água que as queques de turno preferem adquirir em vez de matarem a sede nos bebedouros públicos.

  7. Aproveite enquanto dura pois qualquer dia antes que mundo acabe a igreja do clima e os profetas do fim do mundo vão conseguir proibir o abate de árvores para papel e livros. Hehe eh.

  8. Amanhã conto lá ir, logo pelas 11h. E acho que me vou desgraçar…
    Há pouquinho encomendei na Amazon espanhola mais três livros de Josep Pla, não tenho emenda.

    Abraço amigo

  9. Andanças e Novas Andanças do Demónio,Os Grão-Capitães,de Sena, recomendam-se.Na ex-Moraes,ex.Portugália. Carlos de Oliveira,desapareceu das editoras (já não serve ao partido),bom poeta,lê-se agora melhor livre dos ideólogos de serviço.
    Cenoiras,plantas na alimentação? Dizem-me ser o sustento e o ar de tudo o que vive e por tal condenadas ao extermínio.Daí que está para rebentar o Partido de Todas as Plantas–deixe-as viver e coma pedras ! No engaço de ptps e pãs germinam os defensores das Pedras e dos Coprolitos.
    Espécie danada.

    1. Carlos de Oliveira: encontrei-o em edições já antigas, da velha Sá da Costa. Já o li todo, julgo que quase ninguém hoje o conhece. Uma injustiça. Mas a vida póstuma dos escritores depende muito do esforço dos herdeiros em divulgá-los, quando haja herdeiros dignos desse nome. Caso contrário o esquecimento é rápido e muitas vezes irreversível.

      Estive com o livro de contos do Sena na mão, talvez ainda o traga na minha próxima (e última) incursão à Feira. Num dos espaços de livros usados, claro. São aliás os que mais frequento.

      1. Comprei o “Antigas e Novas Andanças do Demónio” em Dez/2015, na Bertrand (23€ com 20% = 18,40€).
        Bem sei que é uma edição de capa dura, ainda assim foi muito caro; daí não ter comprado também os Sinais de Fogo. Não dava mesmo…
        Mas ir a Lisboa ainda ficaria mais caro. E o interior do país continua a ser paisagem…
        ⚘
        Maria

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