
Eis-me em Lagos. E a caminho da Meia Praia, num final de Inverno que mais parece início de Verão, deparo com esta placa. Homenageando justamente uma das maiores escritoras portuguesas de todos os tempos. E também justamente aqui, pois Sophia está profundamente ligada a Lagos, onde compôs alguns dos seus mais belos poemas.
Gosto desta homenagem. E gosto também que a placa toponímica a designe por “poetisa”, reabilitando assim este belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa – que em certos casos deriva para obsessão ideológica – de esbater diferenças de género.
Há palavras que me tocam muito. Uma delas é precisamente poetisa – que rima com pitonisa. Agrada-me vê-la exposta a quem passa, nesta Rua Sophia de Mello Breyner Andresen, em Lagos. Onde hoje vejo «a luz mais que pura sobre a terra seca», como a autora do Livro Sexto escreveu, aqui bem perto, há mais de meio século.

hoje vejo «a luz mais que pura sobre a terra seca»
É bem verdade, terra muito seca. Ai de nós.
Você não parece muito inspirado esta semana.
Mesmo nada, aliás.
Tão má como a eliminação da palavra “poetisa” é a eliminação da palavra “embaixatriz”, que foi subsituída por uma inexistente e feia “embaixadora”, com o argumento foleiro de que uma embaixatriz é a mulher de um embaixador – quando é bem sabido que boa parte dos embaixadores são homossexuais, outros são infiéis às mulheres, e que ninguém tem nada de qualquer forma a ver com o embaixador ter ou não ter mulher.
Aqui já reconheço a sua verve. Inconfundível.
Infiéis às mulheres? Quais mulheres? Adultério? Bíblia? Apedrejamento já.
Ou morte à sede com a cabeça enterrada na areia molhada.
Outra coisa, os homossexuais não podem ter mulheres? E quem é que decide isso?
… vou beber alguma coisa fortificante para ver se “isto” passa. Passa ou xuta, vai dar ao mesmo.
Espere sentado. Ou até deitado. Jamais terá resposta.
Outra palavra que foi abastardada é “inquietação”, que o francófilo Manoel de Oliveira resolveu substituir pela palavra francesa “inquietude”, que não existe em português, no que foi imediatamente secundado pelos pedantes intelectuais nacionais.
Deixe lá o Manoel de Oliveira, que não se encontra entre nós. Tanto alvo vivo por aí: para quê escolher um morto?
Os obsessivos ideólogos teimam em ignorar que sem diferenças de género não estávamos cá.
“sem diferenças de género não estávamos cá.” E diferenças que se reconheçam facilmente. Senão pode acontecer como ao Ronaldinho (futebolista brasileiro) que pensando que era mulher foi com um travesti. Descobriu já um bocadinho tarde. Vive la diference!!
Já o nosso Ronaldo nunca poderia ser conhecido por Ronaldinho. Mais fácil ser conhecido por Ronaldão.
Melhor que o teu elogio à homenagem, só mesmo os comentários que ele provocou.
Eheheh. Um abraço, João.
obrigada, Pedro, por mais uma lembrança da poetisa maior na nossa língua 🙂
Obrigado eu, Cristina, por mais um comentário tão atento e tão amável.
O Pedro nunca pára quito. Antes em Castelo Branco, agora a Lagos….
Como é que estamos de escrita? Romance ou livro de viagens?
Escrita, todos os dias. De tudo um pouco.