Os comentários da semana


Pedro Correia,

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«Cronos, filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra), era casado com a irmã, Reia. Teve seis filhos (Zeus, Hades, Poseidon, Hera, Héstia e Deméter). Temia uma profecia que prenunciava que lhe seria tirado o poder por um dos seus filhos. Decidiu matá-los e devorá-los. Mas Reia conseguiu salvar Zeus, e este, já crescido, com a ajuda dos titãs, fez Cronos vomitar os irmãos.

A propósito das viagens nos anos setenta serem só para ricos, ocorre-me o velho truismo, mais ou menos intemporal, que diz que “só viaja quem é rico”. Exageros à parte (não é necessário ser-se rico para viajar), à época, isto era muito mais verdade do que hoje. Sendo que os pobres, obviamente, não viajam. Contudo há sempre circunstâncias mais ou menos favoráveis, independentemente da condição social, que propiciam alguns prazeres e até devaneios que à partida não são as nossas prioridades: eu passei a viajar muito a partir dos dezasseis anos (com autorização escrita, devidamente assinada pelos meus pais e reconhecida notarialmente) porque tinha um amigo, filho único, que não era rico, mas o pai era um industrial relativamente bem-sucedido, culto, tal como a mãe, e muito felizes da vida. Ele já era maior de idade, tinha automóvel, e fazia questão que eu o acompanhasse em viagens por essa Europa fora durante as férias de Verão. Ficávamos sempre em parques de campismo – mesmo nas grandes cidades -, não só para facilitar a socialização mas também para poupar. Apesar de tudo o dinheiro não é elástico.

Recordo-me de acampar em Monte Carlo – onde até o campismo era diferenciado (como é costume dizer em gestionês) e testemunhar uma das mais hilariantes tradições/rituais/adições de que tenho memória: uma parte bastante considerável dos ‘pés descalços’, que não aparentavam outra coisa senão o que realmente eram, quando caía a noite, passada uma hora ou duas após o jantar, aperaltavam-se, eles com smoking e laço ou gravata preta, elas com vestidos de noite, e iam felizes da vida gastar o pouco que tinham (mera presunção minha) durante a noite no chiquérrimo casino do principado.

Além disso, por feliz acaso, passei a ir muitas vezes a Paris, de comboio – onde passei muitos e inesquecíveis meses -, porque lá vivia, por razões profissionais, uma das minhas irmãs. Nessa altura também vagueei muito pelo norte de África. Mas viajar para outros continentes não era muito comum. Nos tempos que correm viaja-se para todos os continentes com enorme facilidade. E os jovens universitários fazem Erasmus onde querem.

Eu sei que é preciso ter alguma sorte, mas, como vêem, não é necessário ser rico.»

 

Do nosso leitor JM. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

 

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torre bela.jpg

 

«O impacto advém sobretudo da existência da foto, que corporaliza o número, e da “orgiástica” (bem escolhido o termo) publicidade alocada, por parte da empresa espanhola que se dedica a este tipo de eventos. Sem a imagem e sem o comentário que lhe subjaz, o assunto teria passado bem mais despercebido.

Um ponto que pode ajudar a fazer compreender a situação: não era suposto numa época normal haver lá uma manada tão numerosa. Foram várias as “caçadas” anuladas durante o ano à conta do Covid, o que resultou numa superpopulação da coutada.

Haveria outras alternativas a este extermínio? É certo que o plano de impacto ambiental da futura central fotovoltaica a instalar naqueles terrenos prevê a transferência dos animais para um cercado próximo. Mas provavelmente o cálculo foi feito a um número muito mais reduzido. E penso que é o que irá acontecer com os espécimes que sobreviveram à “acção de controlo”.

Foram respeitados os procedimentos? Como de costume, já começamos a assistir ao típico lava-mãos: “Nós não fomos avisados”, “Nós não sabíamos de nada”. Ainda se vai descobrir que a culpa, afinal, é dos ucranianos.

As pessoas comovem-se e indignam-se? Claro que sim, sobretudo aquelas que numa ingenuidade alucinada acreditam que a sede de violência e o prazer de matar no ser humano são um distúrbio, ou no mínimo um instinto facilmente sublimável.

E daqui a um mês já todos sorrirão ao ver o ar deliciado com que o canídeo ou o bichano lá de casa consome aquela refeição gourmet elaborada à base de carne de caça…»

 

Do nosso leitor Sampy. A propósito deste texto do JPT.

27 comentários em “Os comentários da semana”

  1. Isso, Sampy.
    A reacção ao animalicídio lembra a do Marcelo ao 1º de Maio. Concordou, aprovou, quando se começou a refilar com o resultado, não sabia que ia ser assim, por ele tinha feito diferente, etc e tal.
    Tudo assina de cruz, quando dá barraca, parecem os macacos sábios.
    Veio à memória uma chefia intermédia, que nunca dava autorizações por correio electrónico, quando recebia uma mensagem, respondia por telefone ou pessoalmente. Quando as coisas davam granel, ela nunca sabia de nada nem tinha concordado com nada

  2. “não era suposto numa época normal haver lá uma manada tão numerosa. Foram várias as “caçadas” anuladas durante o ano à conta do Covid, o que resultou numa superpopulação da coutada.”

    Isto é um autentico disparate!
    Das duas uma: a Sampy está a insinuar que trouxeram animais de Espanha ou de outro sitio qualquer para herdade da Torre Bela, o que me parece muito pouco viável.Ou então a Sampy não percebe nada de Veados, Javalis, Gamos,etc.
    pois basta olhar para a fotografia para perceber: pela idade destes que não têm rigorosamente nada a ver com covid , falta de caçada ou de superpopulação.

    Mas é claro que aqui no DO como sempre não faltam especialistas.

    Ricardo Santos

      1. “200 corpos de crianças abortadas colocadas em parada.”

        O lucklucky aí homem!!! por Jesus Cristo, nesta quadra Natalicia vai buscar o tema do aborto. Sinceramente !!!
        Santíssima Virgem Maria
        Carla Assunção

      2. O Senhor lucky deve ser o último garanhão da coutada do macho ibérico: ou leva as ditas para fazer de forma clandestina ou então gasta um balúrdio a ir a Badajoz.O Senhor não passa de um exibicionista! Devia de ter vergonha!!!
        Anabela Queiroz

    1. Sr. Ricardo,
      Não sou especialista. Apenas recolho a informação que encontro disponível e trato de lhe dar algum sentido, cruzando-a por vezes com dados da minha experiência e um pouco de senso comum.

      Que havia um problema de superpopulação na Herdade, parece-me inegável. Faço confiança em alguns vizinhos e representantes de associações de caçadores que vieram a público pronunciar-se. Por grande que seja a tapada, estamos a falar de centenas de animais de médio/grande porte (estão contabilizados os agora abatidos, ignora-se ainda o número de sobreviventes). Tenho alguma experiência de pastoreio de ovelhas e cabras e sei da extensão de terreno com alimento disponível necessário ao seu sustento.

      Uma precisão/correcção é necessária da minha parte: esta situação de superpovoamento seria pré-existente ao aparecimento da pandemia. Embora as fotos disponíveis não permitam aferir com toda a certeza, fica realmente a ideia de que a imensa maioria dos animais abatidos eram exemplares adultos. O que significa também que terão sido poupados os juvenis (e, gostaria de acreditar, as fêmeas prenhes).

      Que estiveram previstos outros eventos de caça no decurso do ano corrente e que foram anulados pelo Covid, também isso vi referido em declarações noticiadas. Caso se tivessem realizado, e cruzando os números do circuito que a empresa tem em curso (centena e pico de espécimes abatidos por cada evento) com aquilo que seria a cota regulada de abate, segundo alguns profissionais (5 a 10 peças por caçador), deduzo que o tamanho da manada na Herdade seria bem menor nesta altura (antes da mais recente caçada). Seria logicamente impossível a hecatombe registada.

      Caso o sr. Ricardo tenha mais dados ou factos que contrariem a minha exposição, sinta-se à vontade para os apresentar.

      1. Senhor Sampy,
        Agradeço a resposta.

        1- A informação que eu tenho é que a herdade da Torre Bela tem a volta de 2000?hectares, e que em 2019 foram feitas várias caçadas ou montarias.
        Por isso ponho em causa os motivos de superpopulação antes ou depois covid.
        Olhando para as fotos volto afirmar que não me parece que tenha algo haver com superpopulação da coutada.

        2-As verdadeiras causas e o porquê desta matança por este pelotão de fuzilamento são por todos nós mais do que conhecidas.

        3-Respeito o comentário do Sampy, mas não estou de acordo consigo, também tenho a minha experiência de campo e já ouvi algumas pessoas do mundo da caça.Se o Sampy quiser fazer como o Ministro do Ambiente e enfiar a cabeça no buraco é lá consigo.

        Ricardo Santos

        1. 1. Também eu estranho e sei que me faltam elementos para entender como foi feita a gestão da manada nos últimos anos.
          Note-se: em nenhum momento justifiquei a matança a partir deste dado. Referi-o como possível ajuda à compreensão do que se passou porque, issossim, os responsáveis da carnificina poderiam querer refugiar-se nele e defendererm-se com uma hipotética “acção de controlo” (as aspas já anteriormente eram propositadas) da população cinegética. E porque tal demonstra, a meu ver, um desleixo, um desrespeito pelos animais e pela legislação em vigor que, a confirmar-se, não fará tanto admirar das atitudes subsequentes por parte dos envolvidos.

          2. e 3. O que eu penso daqueles que serão os verdadeiros culpados e como eu interpreto a intervenção do ministro, já o deixei explicitado em outros comentários publicados.

          1. Senhor Sampy.

            Pois deixou!
            Em relação aos pontos 2 e 3: retiro o que disse, as minhas desculpas.
            Boas Festas!
            Ricardo Santos

  3. O último parágrafo é típico de quem só vê um boi no prato. As rações dos animais são, na sua esmagadora maioria, fabricadas com subprodutos de origem animal , ou seja com as peças de carne que não foram aprovadas ou não são destinadas ao consumo humano. Quanto àquilo da natureza humana, isso é o quê? Bater na mulher adúltera faz parte da natureza do macho desafoitado? Salvar do afogamento um perfeito desconhecido ,quando se passeia à beira rio ,será um desvio, para cima, dessa natureza humana?
    Bem sei que crescentemente se fala no extremismo das posições,nas políticas de trincheira, mas a relativização desta chacina, como a apelidaram diversas associações de caçadores (conheço o vice presidente de uma delas, que conhecendo bem a Torre Bela, afirma que só se consegue matar esse número apocalíptico de animais se estes foram encurralados e “fuzilados”, não tendo tal prática nada a ver com uma montaria) , enoja-me. Mas pelos dias de hoje é normal os cretinos fazerem gala da sua cretinice. São sinceros,frontais e nada os deve envergonhar, acham eles. Relembro, porém,que um dos critérios da psicopatia é a ausência de empatia, a crueldade, para com os animais….mas hoje parece que a psicopatia é aceitável, virtuosa. Parabéns

    1. Vorph, já algumas vezes no passado trocamos palavras azedas nas caixas de comentários. Hoje não estou com pachorra (nem ganharia nada com isso) para devolver-te alguns “mimos”. Até porque não os aplicas em exclusivo à minha pessoa, antes tratando de me englobar num grupo de gente no qual não me revejo necessariamente.
      O comentário destacado, o meu primeiro sobre o assunto quente que ainda nos vai ocupando, foi seguido de vários outros, também em reacção a outros postais. Depreendo que não os leste. Talvez ajudasse a clarificar a minha posição. Ou não. Não tenho grandes problemas em reconhecer que me pode faltar clareza na maneira como exponho o meu pensamento, ou que simplesmente poderei estar errado nas minhas convicções. Mas espero sempre que mo demonstrem.
      Ora: em que é que a tua frase “As rações dos animais são, na sua esmagadora maioria, fabricadas com subprodutos de origem animal , ou seja com as peças de carne que não foram aprovadas ou não são destinadas ao consumo humano.” contradiz ou falsifica o meu último parágrafo? Onde é que está a diferença entre “peças de carne” e “carne”?
      Quanto àquilo da natureza humana: estás mesmo convencido de seres incapaz de bater numa mulher? Que o ser humano seja capaz dos actos mais altruístas e sublimes nada tira ao facto de a violência estar inscrita na natureza humana, de sermos animais predadores (e os mais bem sucedidos neste planeta; por isso, o escândalo de nos descobrirmos presa de um vírus), de instintivamente buscarmos o domínio e o poder. Como controlamos e canalizamos esse sabor a sangue, essa é que é a questão. Ser-se inconsciente dessa realidade ou tentar negá-la só pode conduzir à desgraça.

      1. Dás a entender que existe uma qualquer associação hipócrita entre os detentores de animais de companhia e aquele desastre. Os quadrúpedes foram mortos para alimentarem necessidades (bem) e vícios (Mal). Quanto à natureza humana, depois de muitas leituras,dir-te-ei que ela se caracteriza pela capacidade de adaptação (mais, muito mais ,pela adaptação às ideias culturais criadas pelo Homem, do que às leis naturais – o Homem possui as ideias que o possuem a ele- E. Morin). Somos predadores, necrófagos, recolectores, carnívoros, omnívoros, vegans, vegetarianos, fazemos greves à fome, morremos de fome com a mesa cheia….you name it

        1. “Dás a entender que existe uma qualquer associação hipócrita entre os detentores de animais de companhia e aquele desastre.”
          Se o dou a entender, falhei na minha intenção. Interessava-me, como nota final, destacar o absurdo e o paradoxo da realidade e da vida. Pode bem ser que alguns pedacitos de toda aquela carne disposta para a foto acabem, dentro de um mês, na malga do cachorro que se tem lá em casa. E o dono, que porventura nestes dias se indigna desalmadamente, estará então em paz, sem problemas de consciência, feliz por ver o seu bicho a alimentar-se com gosto. E ainda bem.

          Ainda quanto à natureza humana: partilho apenas que estive recentemente em Dachau e que ando a ler “Ordinary Men”. Não me posso permitir brincar às ilusões.

        2. Gostei dessa citação de E. Morin, Vorph. O homem não cria ideias, possui-as! O homem cria conceitos a partir das ideias que o transcendem: o homem produz uma mesa ou uma cadeira (conceito) a partir duma árvore (ideia).
          Ninguém faz (?) um filho numa oficina, limita-se a plantar uma ideia. Ninguém faz uma árvore – planta-a!

          1. A citação correcta: “nous sommes possédés par les idées et les croyances que nous possédons”.

      1. A magna questão do género do comentador Sampy, que parece apoquentar algumas almas mais delicadas, está clarificada por mim no texto que destaco. Qualquer outra alusão ao assunto será de imediato remetida ao “arquivo geral” do blogue, sem publicação.

  4. Faltou as viagens à boleia.
    A propósito de grandes viagens com pouco dinheiro, lembro-me em 1971 numa praia do barlavento algarvio, num acampamento selvagem, meter conversa com duas loirinhas dinamarquesas que tinham vindo à boleia da Jutelândia ao Algarve sem pagar um tostão de transportes. Tá bem que a Britt e a Eve eram bem parecidas, não andavam descalças e até tinham dinheiro para comprar comida. A diferença com as raparigas de cá e até dos rapazes da sua idade era, sem haver muros de Berlim para sair ou outros na Palestina ou México para entrar, não podíamos viajar sem autorização dos pais ou das autoridades policiais ou militares. Já faltava pouco para as raparigas serem convocadas para cumprir o serviço militar obrigatório…e depois é que era viajar por três continentes

  5. “O impacto advém sobretudo da existência da foto”

    É natural a indignação surgir perante algo incomum, em natureza, ou perante algo, que sendo comum, nos é desconhecido. Claro que com o passar do tempo as tragédias de tão publicitadas deixam de ser vistas como tal, esfumando-se entre dois anúncios a queijos da serra. O que não é normal é perante aquela patente desumanidade se falar, gozando, em comezainas.

  6. ” Nos tempos que correm viaja-se para todos os continentes com enorme facilidade.”
    Com estes confinamentos por todo mundo????
    Mas que falácia é está?

    1. Hoje em dia as viagens são todas virtuais.
      Antigamente tomava-se um xaropezito e um gajo já estava na Russia.
      Mas o virtual veio revolucionar tudo.

  7. Obrigado pelo destaque, Pedro. (Correcção de gafe incluída, excepto a adicção dum c no próprio termo. Como eu gosto de cultivar manias!…). Gostei de ser surpreendido, mas não esperava esta finta à Ronaldo.
    Talvez seja apenas impressão minha, mas parece-me que o Pedro prefere a espontaneidade lúcida à conceptualidade maturada (?).
    Amistosos cumprimentos

  8. E isto tudo aconteceu durante uma época de matança de perus e bacalhaus e não houve uma voz que se levantasse para os chorar! Eu transferia dois ou três javalis e um gamo para uma horta urbana. Javalis, gamos e veados sem predador natural (o lobo) seriam um desastre ecológico sem a caça. Pior que esta caçada orgiástica só o olival intensivo, mas esse não choca as consciências dos hortelãos urbanos.

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