Leituras


Pedro Correia,

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«A felicidade é uma colecção de instantes suspensos sobre o tempo que só depois de amarelecidos pela ausência se revelam.»

Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos (1997), p. 139

Ed. BIS, 2015 (13.ª ed)

12 comentários em “Leituras”

  1. Gosto mais da escrita de Inês Pedrosa do que da sua oralidade ou retórica (O última apaga a luz). Julgo que é causa de um sofrimento atroz para um escritor quando o seu discurso oral não acompanha aquele das palavras sobre o papel. (como Pulido Valente)

    1. Gosto da escrita de Inês Pedrosa, tenho vários livros da escritora e costumo ouvir o programa “A páginas tantas” onde conversa com Patrícia Reis e Rita Ferro sobre o mundo dos livros e dos escritores. Tenho boa opinião da sua oralidade, julgo que é assertiva, sabe do que fala e faz os trabalhos de casa.
      Também não julgo que seja assim um sofrimento não igualar a conversa ao que se escreve, a primeira flui naturalmente e a segunda é susceptível de emenda até que a forma seja a desejada. Além disso, por razões várias, as duas capacidades não têm forçosamente de andar a par.

  2. Estava aqui a tentar imaginar uns instantes suspensos sobre o tempo — deve ser assim tipo cuecas penduradas num estendal com um cesto enorme de roupa por baixo (o próprio tempo!). E as cuecas estão todas amareladas por não estarem lá, continua o texto.

  3. Não gosto de falar de felicidade, mas não está mal visto de todo. É verdade que tendemos a encontrar o contentamento nas memórias. Ou, então, ao sonhar com os dias vindouros. É curioso como arredamos o contentamento do presente, como se o que existe nunca nos saciasse e eternamente procurássemos alegria no passado ou no futuro.

    Um desafio interessante seria citar frases com os nomes dos autores trocados. Às tantas, muito do menosprezo por certas autoras passaria rapidamente a grande elogio se tivesse o carimbo de autor com as convencionais bênçãos masculinas.

  4. Sinto que a felicidade realmente possui em si mesma um âmbito temporal de esplendidez madura , caso contrário , se seria feliz o tempo todo ou quase o tempo todo. E o tempo atravessa-nos. Ele parece ser o escopo da existência humana. O tempo parece ser aquele que traduz aprendizagem , desaprendizagem e reaprendizagem. Por isso, a felicidade pode ser ausência e presença. Alternância. Ela parece ser um movimento de contração e dilatação. Enfim, gostei bastante do texto sobre felicidade. Obrigada pela troca fecunda.

  5. Aproveito para dizer uma coisa:

    Borges dizia que um bom escritor evita escrever coisas com cor local (o que torna um texto uma peça de folclore e não uma reflexão universal) e eu diria que se pode incluir neste conjunto de problemas contemporâneos algumas metáforas que nos atiram para fora do texto, que não fazem sentido ou que ainda remetem para a banalidade do tal “local”.

    Neste caso, e partindo do princípio que este excerto é a voz do narrador e não uma fala de um personagem, dizer que a felicidade são instantes ou memórias (além da sempre problemática mania que muito escritores portugueses têm de pensar que escrever é um alinhamento de máximas à imperador romano ou tiradas meio escritas-nas-estrelas sobre a existência, como faz o Lobo Antunes) é terrivelmente banal, porque lembra os polaroids e os chavões da Kodak sobre as fotografias — ou seja, aponta para fora do texto — e para o mundo estúpido da Publicidade, que repete sempre estes chavões enjoativos e pior, coloniza e canibaliza as imagens da Arte em fetiches burgueses (classe à qual pertence a escritora, por sinal) de uma maneira tão pobre que não devem ser usados quando se tem uma aspiração mais artística — porque um artista não procura a banalidade, procura as coisas singulares.

    Mas o pior é a questão de uma coisa poder ser amarelecida pela ausência. Não faz sentido nenhum, obviamente, mas para isto funcionar com a nossa suspension of disbelief (estamos sempre disponíveis para isso) exigiria aqui uma metáfora mais eficaz: a relação amarelecido pelo Tempo/ausência aparece aqui numa espécie antítese falhada com a metáfora anterior (porque só as fotografias ganham uma cor sépia) e portanto pertence à metáfora das memórias como imagens (bleh) e não a um atributo invulgar e REVELADOR sobre a natureza do Esquecimento, o que salvaria este excerto. Para fazer isto teria sido melhor utilizar uma ideia pictórica, mais material, com textura, e não uma coisa blasé, fotográfica, do mundo ansioso e falsamente intelectual dos publicitários.

    Beijinhos.

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