
João Campos: «A ACAPOR e associações similares ainda não compreenderam muito bem os tempos em que (sobre)vivem. Até podem colocar dez mil processos em tribunal por mês – seria interessante ver a já entupida justiça portuguesa a transbordar. Mas por mais processos que inventem, continuarão a não ser capazes de ver que o seu modelo de negócio pertence ao século passado. Ninguém se desloca ao clube de vídeo quando pode, sem sair do sofá, alugar um vídeo por preços mais baixos no serviço de televisão por cabo. Tal como cada vez mais pessoas deixam de comprar CD de música e optam por serviços como o iTunes. Ou compram os filmes e os discos na Amazon ou noutra loja online, que pratique preços bem mais acessíveis que os balúrdios que cobram por cá.»
Laura Ramos: «Na sua indiscutível vocação universal, Fernando Nobre confunde tudo. Não tem cultura política. Define metas que não estão ao alcance de um Presidente da República. Ilude-se a si próprio e ao eleitorado quando faz do cargo a que se candidata aquilo que não pode ser. Quando acredita que o Estado português é um permanente estado de emergência, onde a legitimidade substitui a legalidade e a salvação se pratica por imperativo ético, num irreprimível exercício de heroicidade. Quando diz, indignado, que «ainda vivemos nessa coisa do século passado», a propósito da sua não definição entre direita ou esquerda, o candidato devia lembrar-se que esta coisa dos destinos políticos espontâneos e impreparados é que, é – sim, justamente -, um fenómeno atávico e do século passado.»
Luís M. Jorge: «Antes do Natal duas adolescentes ofereceram-me na rua uma quadra manuscrita que apelava ao fim do consumismo e à espiritualidade. Tinham cabelos lustrosos, aspecto soigné e o ardor anacrónico de quem despeja mealheiros para baptizar pretinhos nas missões. Fiquei atento e não me desiludi: na semana seguinte o país foi consumido por uma orgia salazarenga de caridade e devoção. Os sem-abrigo casaram-se em barda, as mães de Cascais fizeram soufflés aos entrevados, a Júlia e o Goucha entrevistaram manetas, tuberculosos e débeis mentais. Os alcoólicos sorveram sopa com cheirinho, muito boa, muito quentinha. Um patego da Guarda trajou de pai natal e deu chocolates do Lidl à terceira idade.»
Rui Rocha: «Belém é uma cidade da Palestina onde o Novo Testamento e o Corão localizam o nascimento de Jesus Cristo. Ali ficaria o estábulo que constitui o elemento arquitectónico central dos presépios que fazem parte do imaginário do Natal tal como o conhecemos. A realidade da Belém dos nossos dias é bem diferente. Situada a 7km de Jerusalém, tem cerca de 30.000 habitantes e é atravessada por um muro. O muro que Israel está a construir desde 2004. Para os israelitas, o muro é uma defesa. Para os palestinianos é uma ameaça. Como qualquer muro, tem dois lados. Este, em concreto, tem o valor de uma metáfora sobre a incapacidade de israelitas e palestinianos compreenderem as ansiedades que se abrigam em cada um dos campos a que o muro serve de fronteira. O material de que se faz este muro é o medo. Esse que une os dois lados.»

Se Belem é uma cidade palestina como diz, o que é verdade, o problema não é a incapacidade de palestinos e israelitas se compreenderem, o problema é Israel ocupar uma cidade palestina pela força das armas.