O iluminismo agora


Paulo Sousa,

O populismo faz parte da actualidade e parece que está para durar. Este movimento político baseia-se num pessimismo sobre o sentido em que o mundo caminha, num cinismo para com a modernidade e na incapacidade de conceber um propósito superior. A razão, a ciência, o humanismo e o progresso, os ideais do iluminismo parecem estar fora de moda. Outras facetas da natureza humana como a lealdade para com a tribo, a deferência para com a autoridade, o pensamento mágico e a culpabilização de malfeitores pelo infortúnio, parecem hoje ser muito mais apelativas. Parece que os países estão a ser arrastados por forças malignas para um paraíso distópico em que a única salvação passará pela resistência inspirada por um líder forte que impulsione o país para trás, para o levar de regresso a um chão conhecido. A modernidade parece ter falhado e a vida encontra-se numa crise profunda. Sem o progresso que temos vivido, os problemas seriam bem mais simples de resolver. O Ocidente está tímido em relação aos seus valores e não tem confiança no liberalismo que o trouxe até aqui.

Mas se observarmos os dados do que somos, e do que fomos, talvez possamos avaliar todo este fenómeno de outra forma.

Este é um pequeno resumo do início do livro “O iluminismo agora” de Steven Pinker que recebi ontem de prenda de Natal.

Os dados comparativos entre a actualidade e o passado não muito recuado são imensos e arrasadores para quem insista em ser pessimista.

Imagino que da leitura deste livro possam surgir alguns textos que aqui tentarei publicar.

A título de exemplo deixo uma representação da evolução da percentagem da população mundial que viva no que descrevemos como sendo pobreza extrema.

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23 comentários em “O iluminismo agora”

  1. Contagem decrescente para o “iluminado” que afirme que a curva descendente começa a sério ali a partir de 1848.

    Com a publicação do “Manifesto Comunista”…

    1. Quando o manifesto chegou aos escaparates, as pernas dos capitalistas começaram automaticamente a tremer e só tiveram sossego quando começaram a distribuir dinheiro pelos pobres. Faz sentido.

  2. Porque evidentemente que a revolução industrial e o avanço do capitalismo nada têm que ver com a remoção de alguns biliões de gente da miséria.

    1. Não vai certamente explicar o uso da palavra “evidentemente” porque isso não é evidente nem minimamente realista. A dimensão da riqueza criada (há um gráfico sobre a evolução do PIB mundial interessante), e a capacidade de os estados reterem parte dessa riqueza para levar a cabo políticas sociais… isso são factos observáveis e quantificáveis.
      As experiências comunistas levaram milhões de pessoas da miséria, como aconteceu na Ucrânia nos anos 30, e por aí a fora que até me vou poupar a listar.
      O seu comentário é um excelente exemplo de como crenças e ideologias contra-factuais, baseadas em convicções que fazem por ignorar a observação da realidade, que nem recorrem ao atrevimento em que consiste o tentar entender a realidade, fazem caminho e preenchem os espíritos.
      Eu trabalho com venezuelanos que lhe poderiam explicar na primeira pessoa a viagem deles que com começou com o entusiasmo pelo chavismo e que terminou a emigraram para fugir da miséria, num país onde se tornou banal prostituir-se por comida.

      1. Eheheh, o meu comentário era sarcástico…

        Era suposto ser lido na sequência do anterior, não terei tido o talento necessário para que ‘resultasse’.

  3. O problema é que a capacidade actual de criar riqueza não justifica sequer a existência de pobres e menos ainda de pobres extremos, bastava haver uma melhor distribuição e a grande diferença entre os muito ricos e os muitos pobres seria muito atenuada. É para isso que nos dizem que elegemos os governos, não é para servirem os ricos na sua ânsia de cada vez mais e mais sem cessar o que gera a pobreza extrema onde morrem de fome milhões de pessoas e entre elas mais milhões de crianças.

    1. Pode ter essa visão justicialista do mundo, mas por exemplo o PIB português duplicasse teríamos problemas diferentes do actuais, mas seria muito mais fácil combater a pobreza.

  4. Populismo: coisas que quem usa a expressão não gosta que o povo goste.
    Democracia: coisas que quem usa a expressão gosta que o povo goste.
    Como é óbvio quem usa a expressão elitista “Populismo” começa logo por se colocar como fora do povo.

    Aqui vou eu considerar-me fora do povo: O regime que temos com 263 mil milhões de euros em votos comprados é o quê?

    1. O populismo assenta numa visão pessimista do mundo e simplifica tanto as mensagens políticas que acaba por as deturpar. A realidade é complexa e entendê-la exige atenção. Os líderes populistas selecionam que parte da realidade lhe é mais favorável. Se não encontrarem nada conveniente podem também inventar factos para sustentarem o seu discurso.
      Acho que a definição de populismo que acima apresenta, parece mesmo um exercício de populismo.

  5. Ai…Paulo, o que foi buscar? O polémico Pinker, que parece legítimar um tipo de sociedade, que crescentemente concentra nuns muito poucos a riqueza gerada por muitos (onde Pinker e Gates se incluem, com as devidas correções). O “livro” foi , já,usado para legitimar a desmatagem da Amazónia. Os argumentos de defesa de Pinker, sobre a grandeza da civilização ocidental, foram usados em XIX, para aquelas cenas manhosas europeias sobre os pretos selvagens. As recolhas estatísticas, sérias, têm para aí 150 anos. Um suspiro de tempo. Tentar aferir o sentido da história numa centúria é tarefa arriscada.

    Pinker polémico, também, por ter pago a defesa de Epstein.

    A questão, a meu ver, não é saber onde estamos, mas onde poderíamos estar com tudo o que hoje temos ao nosso dispôr (a mercantilização da vida, da morte, é uma desgraça).

    PS: gosto contudo de autores polémicos como Pinker e Matt Ridley (O Optimista Racional).

    Sobre Pobreza extrema, a sua Estatística, façamos o seguinte raciocínio pessimista. Imaginemos que os seus índices estão melhores porque há 100 anos morria-se aos 30 anos e hoje aos 50 por factores a ela associados. Comparemos agora ambas as sociedades. Motivo de orgulho? Não me parece

    1. Estamos melhores que há 50 anos. O caso português é nesse período de tempo um exemplo disso mesmo.
      E como poderíamos estar, em Portugal, com políticas diferentes? Muito melhor mas isso não impede que olhemos para trás e tenhamos consciência da evolução.
      Não conheço o Steven Pinker de nenhum lado além do que escreveu neste livro que agora comecei. O texto é sobre as ideias, ela não precisa das minhas recomendações.

    2. pois , Pinker só podia defender quem está a ganhar com isto tudo.
      também gostava de saber qual será a visão optimista do caminhar do mundo. será que é a mercantilização de tudo ? todos empregados de umas poucas Titãs ?

  6. Sendo profundamente pessimista, nunca tive qualquer dúvida que a riqueza mundial tem aumentado devido ao avanço espectacular da ciência e da técnica; também não duvido que os pobres de hoje são percentualmente menos; também não duvido que esse progresso material se deve, depois da primeira revolução industrial, à economia capitalista; e que a diminuição da exclusão se deve às políticas sociais em que se podem apontar como marcos, Bismarck e a doutrina social da Igreja.
    Mas também creio – sem gráficos, admito – que a pobreza industrial e citadina é muito mais degradante do que a pobreza rural e agrícola. Ora a última tem diminuído percentual e agudamente, enquanto a segunda tem aumentado, estando agora num limiar potencionalmente explosivo com o fim das indústrias de mão-de-obra intensiva, quer pela automação, quer pela digitalização e, nas sociedades ricas, ainda pela globalização e pela deslocalização.
    Lembro-me há imensos anos, mas já na minha vida adulta que os negros da África do Sul eram de longe os que melhor viviam, de todos ao sul do Saara; mas eram igualmente os mais revoltados, pela injustiça de terem ao lado uma comunidade muito mais rica. É que pobreza não é apenas uma estatística de bens materiais e serviços mas é igualmente uma situação relativa em relação à distribuição da riqueza. O que eu vejo e sinto, é que a classe média dos meus pais, tinha menos do que eu em bens materiais mas socialmente estava perto do topo da sociedade de então, enquanto hoje me situo no que se pode chamar a classe dos novos pobres, os que herdaram algum património que já não conseguem sustentar ou que têm de deixar a cidade ou costa para conseguir manter um nível de consumo semelhante ao que tinham. Para esses, que já viveram melhor e que não puderam proporcionar aos filhos o que lhes foi proporcionado, não creio que exista livro que lhes restitua o optimismo.
    Sem falar de outro enorme problema, que é a exploração excessiva dos recursos e o desperdício que, na minha opinião pessoal, são sintomas de males mais profundos, a começar pela degradação da educação, mascarada pela quase universalidade da instrução ou, se quiserem, pelo abandono dos princípios e éticas de formato religioso, por outros derivados de concepções filosóficas baseadas no racionalismo e no antropocentrismo e que têm promovido o materialismo e conduzido regularmente a excessos e mesmo verdadeiros desastres.
    Depois, o iluminismo entrou em Portugal pela mão de Pombal, que tem a maior estátua de Portugal o que também não parece motivo para optimismos.

    1. A classe média rural de há 50 anos era muito mais pobre que a actual classe média urbana. Existem grandes diferenças nas expectativas do que a vida pode vir a ser, assim como na ansiedade gerada pela pressão consumista.

  7. Sobre as leis do progresso (Hegel e a Filosofia da História,ou não):

    Independentemente do modelo seguido podemos estar certos que,sendo o Homem dotado de certa razão ou/e estando a história sujeita a leis históricas desconhecidas, mas tão verdadeiras como as leis naturais, os tempos de hoje serão, no geral, sempre melhores do que os de ontem. A Rússia de XVIII era pior do que a URSS de XX. Portugal de XIX era pior que o 40 de XX. A África de XVII era pior do que a África de XVIIII. Resta saber quanto desta melhoria se deve a ele, Homem? Resta saber se os modelos criados pelo Homem criador foram e são um empecilho da história

      1. De solavanco em solavanco até ao solavanco final!
        A História, tal como o Universo, é feita de parábolas ( exacerbação dum contínuo) e catástrofes ( interrupção dum contínuo ). Resta saber ( o que me parece muito provável ) quando irá acabar a História. Já o Universo… é ideia ou matéria que deixo ao cuidado dos deuses.

  8. Comam dos frutos da árvore do conhecimento , sibila Parker…. pondo ao mesmo tempo as barbas de molho. desde Marxs que intelectuais judeus só me metem medo.

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