Ficar em casa doente, numa caminha quente e paparicada, sabia pela vida. Ficar em casa fechada quando lá fora se cantava na rua, havia lágrimas, sorrisos , música, alegria e abraços, era pura tortura, mas rapidamente tudo foi regressando à normalidade.
Normalidade é uma palavra com uma espécie de aura positiva, mas as normalidades têm tantas vezes tão pouco do dito “normal”. Foi o que aconteceu no dia em que regressámos ao liceu. As alunas não traziam as batas vestidas, nem as mochilas com livros, nem os cabelos presos, nem os sorrisos forçados… muitas trouxeram instrumentos musicais e por todo o lado se entoava a Grândola Vila Morena. A Clara estava como eu, sentada nos degraus que levavam ao pavilhão de ginástica e com a bata atada à cintura. Falávamos do que se sabia pelas notícias e das novidades do Liceu. Queriam sanear a professora de história e a de Inglês. Sanear. Palavra que na altura ligava de imediato a esgoto e que passou a fazer parte do léxico liceal no pós Revolução. Tocou para a entrada. Levantámo-nos para ir para a sala , mas fomos das poucas a fazê-lo. As contínuas vieram ao pátio e instigaram ao cumprimento, mas estava calor, não apetecia nada e a beira Tejo era já ali em baixo. Aquele dia passou-se no limbo da revolta pela inacção. Os que se seguiram foram mais do mesmo, até que tudo aqueceu. Até o tempo.
Um grupo de alunas dirigiu-se à esquadra do Calvário e pediu um megafone emprestado. Então, debaixo de um sol escaldante e envolvidas no ambiente e no som das palavras de ordem, votámos greve geral de alunos e fomos todas para a “praia”. Era ver meninas bem educadas de calças arregaçadas, ou sem calças ou até em cuecas e soutien , naquela estreita língua de areia ao lado da Torre de Belém, a então chamada “Praia da Torre do Pé Descalço”, numa espécie de alienação colectiva, como se fora a primeira vez que viam mar. Nem sei se os nossos pais alguma vez souberam desta maluquice.
O ritmo manteve-se frenético até às férias grandes, com as notas a descambar miseravelmente, mas no fim, com a nova média de 9,5 valores para transitar de ano e candidatar-se à faculdade, foi o autêntico paradigma da festa da vida.
Nesse ano os meus pais cumpriram uma promessa: deixaram-me ir a Londres. Na companhia do Vitinha, da Lena e da Guida, aquela família que nós escolhemos e que foi sempre a nossa, num belo dia de Agosto saí no “Eagle” do Cais da Rocha do Conde de Óbidos até Southampton. A viagem demorou três dias. Vomitei-os todos. Fiz os dezasseis anos a bordo com festejos por parte dos amigos e da tripulação, mas estava mais interessada na localização do WC mais próximo.
Londres era diferente apesar da chuva em pleno agosto e da monocromia pintada pelo nevoeiro, mas era Londres e só podia ser fantástico, . Foram duas semanas de uma viagem inolvidável, saindo depois para Paris e Madrid.
De todas as paragens, escrevi postais à Clara, para que podesse viver comigo parte desta deslumbrante aventura.
O regresso encontrou tudo no alvoroço da normalidade de 1974.

os meus pais cumpriram uma promessa: deixaram-me ir a Londres
Os pais da Dulce deviam ser de uma classe social muito alta, para nesse tempo terem dinheiro para mandarem uma filha de 16 anos a Londres, Paris e Madrid.
Nem por isso, balio. Eram gente que trabalhava muito e se podia permitir pequenas extravagâncias , como aquela. Numa família de cinco pessoas só uma viajou ( para os cinco não era viável) como recompensa de um excelente desempenho, que acabou por se afigurar infrutífero, mas não deixou de valer pelo esforço. Em 1974 tinha média de 17.
Em 1974, mesmo gente que trabalhava muito não se podia permitir extravagâncias como mandar uma filha menor passear a três (três!) capitais estrangeiras. Só se fosse gente de classe deveras alta.
Isso é o que o balio pensa e não podia estar mais fora do contexto da época. Diga-me lâ : quanr0tos anos tinha em 1974.
Menos cinco que você. E já agora acrescento que saí do país pela primeira vez também aos 16 anos, numa viagem de autocarro a Paris, mas somente porque se tratava de uma viagem subsidiada pela Alliance Française, que eu frequentava. Quando muitos anos mais tarde me dei ao luxo de ir a Londres, tive antes que passar duas semanas num campo de trabalho em Inglaterra a apanhar fruta, porque os meus pais, mesmo podendo perfeitissimamente suportá-las (o meu avô materno foi um industrial portuense, bastante rico), não me pagavam extravagâncias.
Está a ver? Uma criança. Não devia ser ressabiado porque a vida umas vezes lhe deu limões num campo de trabalho em Inglaterra. A minha família não era a sua, extremamente rica e industrial do Porto. Era gente que vivia do trabalho, mas gostava de viajar, de se aventurar por aí fora, de ir à descoberta e viver o desconhecido. Já escrevi bastante sobre isso. Eu apenas tive sorte em ser a filha mais velha. Fui a primeira a poder se agraciada com uma viagem, mas tive que trabalhar para a merecer e para o dinheiro que levei para os meus gastos.
É estranho que uma família como a sua, bastante rica, se candidatasse a viagens subsidiadas em detrimento dos mais necessitados.
Desde quando um industrial não pode viver do seu trabalho?
Sim,ir para fora, naquela altura, não seria para qualquer um. E como o Balio, disse, muitos trabalharam muito, e outros pouco , para terem exactamente o mesmo. Nada.
A diferença é que nunca tive um “avô materno foi um industrial portuense, bastante rico” , era tudo gente de classe média, trabalhadora, que gostava de ser diferente. Pode chamar-lhe novo-riquismo se quiser, eu chamo-lhe mentalidade aberta à inovação. Trabalhavam, para ter e poderem usufruir do que tinham. Vivia-se melhor em 74 do que em 58, 60 ou mesmo em 70, quando fizemos a grande viagem de automóvel até Solingen.
Ir para fora foi sempre para todos, uns como o Balio, outros como eu e outros em grande estilo. Os meus primos mais velhos estiveram na Alemanha e em França a trabalhar em quintas e em Espanha a apanhar tomate e correram meia Europa. Creio que comigo não aconteceu o mesmo porque após a alegria da liberdade, criou-se um clima de instabilidade e os meus pais tiveram medo de me deixar sair sozinha por aí, coisa que eu teria adorado fazer.
Num tempo em que isso era raro, tive educação pré-escolar. Eram duas amigas, novas e até bonitas, uma inglesa de nascimento. Devo explicar que o motivo não era bom. A minha mãe foi diagnosticada com cancro pouco depois de eu nascer e deram-lhe poucos meses de vida. Afinal durou mais 5 anos, e ainda teve mais duas filhas, isto a receber Raios X duas vezes por semana. Talvez por isso quando o médico da Fundação Champalimaud me disse que após as sessões de rádio-cirurgia eu devia evitar o contacto com grávidas ou bébés, não contive uma gargalhada. É que as minhas duas irmãs mais novas não tiveram qualquer patologia e ambas tiveram filhos sem problemas o que significa que nem os aparelhos reprodutores foram afectados pelo raio X bissemanal.
Pois, devido à doença da minha mãe, tive pré-escolar e passei grande parte das férias de Páscoa, Verão e Natal em casa de famílias amigas, todas com muitos filhos, os mais velhos em idade escolar.
Depois fiz a 1ª e 2ª classe num colégio particular – pequeno, familiar e nada caro – que tinha a vantagem inultrapassável de estar a 100 metros da minha casa. Mas, numa decisão que eu entendo menos feliz, na 3ª classe fui enviado para os Salesianos, no Estoril. Nesse tempo, os Salesianos eram frequentados numa pequena parte, pela nata financeira de Estoril-Cascais e numa muito maior parte, por alunos pobres do “hinterland”, Abóboda, Manique, Tires, etc.,etc.. Ora eu não me integrava em nenhuma das categorias e ainda hoje acho que foi uma má experiência.
A bata era obrigatória, o que eu detestava, aproveitando qualquer pretexto para a evitar até que fui chamado ao padre Miguel que, explorando a minha vaidade – és um rapaz inteligente – me disse que, enquanto meninos como eu tinham roupas em boa ordem e meninos como os tal e tal até tinham roupas de marca, o José – com quem eu me dava particularmente bem – tinha as calças passajadas e possivelmente a camisola com um ou outro buraquito e, se não fosse a bata, ficaria envergonhado.
Mal ou bem, tinha 8 anos, interiorizei que a bata não era uma agressão à minha liberdade de vestuário mas uma protecção aos que não tinham acesso a essa liberdade.
Ora dois dias após o 25 de Abril, vi noticiado que as meninas do Maria Amália, tinham banido o uso de batas e que o movimento de repúdio às mesmas estava a generalizar-se em Lisboa. Aí nasceu a minha primeira dúvida.
A segunda, bem mais grave, foi uma semana depois, na crise da demissão de Palma Carlos quando soube que um pequeno número de militares, não eleitos mas auto-denominados Conselho da Revolução, era quem mandava de facto. É que eu fui muito precoce no interesse por política e já sabia que um pequeno número de militares não eleitos que tem o poder de facto, em ciência política, chama-se um soviete.
Em 75 o Conselho da Revolução poderia assemelhar-se a um soviete , sim.
Eu morava ali entre o Alto do Duque e o Restelo e habituamo-nos a ver movimentaços frequentes de blindados do braço armado do MFA. 8sto até Novembro, claro.
A verdade é que as batas, assexuadas e iguais eram frequentemente tapa-misérias, Francisco, quer na indumentária, quer na anatomia, que na época se queria anafada.
Gostei de ler. Porém há sempre um aroma, indisfarçável, de novo riquismo. E não tem mal nenhum
Já tinha saudades suas .
Festas Felizes
O dia em que o país virou de pernas para o ar. Ontem, de bata, no liceu; hoje, de cuecas e soutien na praia. E viva a liberdade
Quanto às viagens para o estrangeiro, por acaso, também fomos a Londres, nessa altura (um pouco mais tarde, em Agosto de 1976). “Fomos” significa a minha família: os meus pais, o meu irmão e eu, que tinha 11 anos, o meu irmão é um ano mais novo. Também não éramos ricos, os professores primários não ganhavam muito. Mas havia dois, lá em casa. E, nessa altura, havia viagens baratas, o meu pai descobriu essa semana em Londres em promoção, numa agência de viagens. Não foi a primeira vez que fomos ao estrangeiro, demos uma volta por Espanha, em 1973, com uma tenda de campismo no carro.
Em Londres, tivemos muita sorte: uma semana cheia de sol e 30ºC ! Os ingleses andavam todos a bufar e comiam gelados às dúzias
Eu fui de barco, mas o que não daria para ter ido de avião. Ao que parece as viagens de avião eram muito mais caras do que ir num daqueles paquetes que transportam o autocarro da agência portuguesa, Cristina. Mas sempre houve viagens em conta se as soubermos procurar. Ainda agora, que não é necessário calcorrear quilómetros a carregar quilos de prospectos, há verdadeiros achados online.
Londres, em comparação com Paris, desapontou-me bastante. Não sei se estava à espera de encontrar os Beatles em Abbey Road, mas estranhei tudo, principalmente a comida.
A anónima que foi a Londres em 1976 sou eu.

Sorry, não tinha feito log-in
Dulce, não me leve a mal, mas isso de vomitar todos os dias é graçola metafórica ou a Dulce ( Doce) é a encarnação de Cronos?
Cronos, filho de Urano (Céu ) e de Gaia (Terra ), era casado com a irmã, Reia. Teve seis filhos (Zeus, Hades, Poseidon, Hera, Héstia e Deméter). Temia uma profecia que prenunciava que lhe seria tirado o poder por um dos seus filhos. Decidiu matá-los e devorá-los. Mas Reia conseguiu salvar Zeus, e este, já crescido, com a ajuda dos titãs, fez Cronos vomitar os irmãos.
A propósito das viagens nos anos setenta serem só para ricos, ocorre-me o velho truismo, mais ou menos intemporal, que diz que “só viaja quem é rico”. Exageros à parte ( não é necessário ser-se rico para viajar ), à época, isto era muito mais verdade do que hoje. Sendo que os pobres, obviamente, não viajam. Contudo há sempre circunstâncias mais ou menos favoráveis, independentemente da condição social, que propíciam alguns prazeres e até devaneios que à partida não são as nossas prioridades: eu passei a viajar muito a partir dos dezasseis anos ( com autorização escrita, devidamente assinada pelos meus pais e reconhecida notarialmente ) porque tinha um amigo, filho único, que não era rico, mas o pai era um industrial relativamente bem-sucedido , culto, tal como a mãe, e muito felizes da vida. Ele já era maior de idade, tinha automóvel, e fazia questão que eu o acompanhasse em viajens por essa Europa fora durante as férias de verão. Ficávamos sempre em parques de campismo – mesmo nas grandes cidades -, não só para facilitar a socialização mas também para poupar. Apesar de tudo o dinheiro não é elástico.
Recordo-me de acampar em Monte-Carlo – onde até o campismo era diferenciado ( como é costume dizer em gestionês ) e testemunhar uma das mais hilariantes tradições/rituais/adiçoês de que tenho memória: uma parte bastante considerável dos ‘pés descalços’, que não aparentavam outra coisa senão o que realmente eram, quando caía a noite, passada uma hora ou duas após o jantar, aperaltavam-se, eles com smoking e laço ou gravata preta, elas com vestidos de noite, e iam felizes da vida gastar o pouco que tinham ( mera presunção minha ) durante a noite no chiquérrimo casino do condado.
Além disso, por feliz acaso, passei a ir muitas vezes a Paris, de comboio – onde passei muitos e inesquecíveis meses -, porque lá vivia, por razões profissionais, uma das minhas irmãs. Nessa altura também vagueei muito pelo norte de África. Mas viajar para outros continentes
não era muito comum. Nos tempos que correm viaja-se para todos os continentes com enorme facilidade. E os jovens universitários fazem Erasmus onde querem.
Eu sei que é preciso ter alguma sorte, mas, como vêem, não é necessário ser rico.
Não seria nada mau poder ser o Cronos e poder esculpir o tempo ao meu belo prazer, mas infelizmente JM, foram 2 dias de um enjoo indescritível e enquanto a embarcação não saiu das águas revoltas do Golfo da Biscaia não aproveitei um segundo sequer de viagem.
Memórias de viagens são sempre fantásticas. Ninguém precisa ser rico para viajar. Na minha família de cinco pessoas, viajei eu com os amigos, porque não podíamos ir todos. Isto não faz do meu pai um Rockefeller, caramba, apenas uma pessoa com uma mentalidade aberta, que gostava de proporcionar aos filhos o que nunca tinha tido ele próprio oportunidade de concretizar. Eu sou assim também.
Aquele seu apontamento sobre Monte Carlo faz-me lembrar uma tarde em que fui com uma amiga nossa chiquérrima, comprar perucas na rua mais emblemática de uma grande capital europeia. Acompanhei-a mais a título de tradutora, porque aquilo tudo era uma grande seca. Depois de horas a provar e mandar pentear duas perucas à sua vontade, decidiu comprar. Arrancou-as dos manequins para dentro de um saco de plástico, pagou e andou, sob o olhar incrédulo da funcionária da loja.
Adoro poder trocar lembranças, porque no final de tudo, a longo ou curto prazo, será apenas o que nos resta.
Festas Felizes JM
Foi uma noite de insónias e deu-me para as memórias, também suscitadas pela leitura do seu postal. Pelos vistos cometi uma gafe: onde se lê condado deve ler-se, obviamente, principado.
Sinceros votos de Festas Felizes para si e toda a família.
Obrigada, JM, igualmente para si e para todos os seus.
Obrigada , JM. Igualmente para si e para todos os seus.