

Após 14 meses de guerra na Ucrânia (a Guerra da Crimeia da nossa era, por assim dizer) cheguei, decerto que tardiamente, a algumas impressões. Entre o grande manancial de informação existente julgo que o pequeno romance “O Americano Tranquilo”, de Graham Greene, será muito de interesse principalmente para quem se interrogue sobre a intervenção do mundo “ocidental”, suas dinâmicas e contradições. A “oposição ocidental” compôs-se de alarido e sanções económicas. Estas são relativamente irrelevantes para a economia russa, dado que nem terão um conteúdo maximalista, vedado devido à profunda imbricação das economias europeias com a economia russa, em particular as de alguns países muito industrializados. E além-Europa este conflito será assumido de forma diversa, o que permite confirmar uma constatação que foi óbvia desde, pelo menos, o início de XXI, a enorme mudança “geopolítica”. Se em tempos recuados o “mar do meio” foi o Mediterrâneo desde XVI que se tornou o Atlântico. E agora é o lago Índico-Pacífico. Algo que se nota até no “sul” africano, onde Lomé/Cotonou (quase) já não importam, os modelos de futuro e as interacções ambicionadas estão alhures e dos europeus se deseja que sigam irrelevantes.
Quanto ao seu desfecho – que espero o mais breve possível -, e ainda que sendo eu pouco lido em história militar e nas ciências desse ramo, tenho uma vaga ideia de que diante de uma invasão de um país por forças estrangeiras bastante mais poderosas haverá, grosso modo, quatro tipos de respostas: 1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (como na II Guerra Mundial o foi a japonesa e a alemã na frente oriental); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais.
É certo que tinha eu sido contaminado – talvez mesmo alienado – pela omnipresente máquina de propaganda da UE/EUA, e até intoxicado por enviesadas reescritas da história recente, que aludiam às constantes invocações russas, após a dissolução da URSS, nas instâncias multilaterais relativas às suas prerrogativas sobre as “minorias russófonas” nos novos países emanados daquela defunta federação. Decerto que por isso cheguei a pensar que a iniciativa militar defensiva russa tinha como objectivo recuperar o velho mapa, imperial, da URSS, nessa flutuação constante que é a história dos Estados da Europa Central e Oriental. Seja em termos absolutos, seja em termos de disseminação de protectorados do Báltico ao Cáspio. E parecia-me ainda que o desígnio de evitar a expansão da OTAN a Leste era siamês de um outro, o de retroverter a expansão da União Europeia, tanto nas suas características de integração económica como, e até mais, de comunhão político-ideológica. Assim obtendo a evidência da incúria e tibieza europeia, que vem impedindo o estabelecimento de uma verdadeira autonomia estratégica, o que promoveria ainda maiores dissensões e a concomitante fragilização da UE. O que alimentaria o desígnio russo, o estabelecimento de um novo COMECON a oeste, decerto que já em moldes basto diversos. E desse modo uma crescente área de influência política, económica e militar. E que seria um extraordinário reforço para enfrentar não só a máquina bélica norte-americana mas também a vigorosa extroversão chinesa, cuja tenaz na velha “Rússia” asiática aparece agora imparável. Estas últimas questões de relações internacionais que são excêntricas aos meus interesses e leituras predominantes, mas sobre as quais me permito referir o pouco que li há já alguns anos, aquele “As Novas Rotas da Seda”, de P. Frankopan, porventura ele mesmo mais um agente publicista do “complexo da indústria de armamento norte-americana”.
Percebo agora, lamentavelmente só após estes 14 meses, que os problemas são bem diferentes. Compreendo melhor a razão de ter Macron cortado desde logo o contacto com o poder de Moscovo, só agora – porventura em desespero – tendo invertido um pouco o rumo. E também o facto do alemão Scholz se ter aprestado de imediato a inundar a Ucrânia com o seu imenso arsenal – entre os quais os agora célebres tanques Leopard, esses ditos Rolls-Royce da artilharia móvel (ou cavalaria moderna, se se preferir romantizar o belicismo) dos quais até Portugal tinha 3 funcionais dos 37 que comprara (sem que alguém convoque “responsabilidade política” sobre o assunto, já agora). E percebo também a razão da coalizão das diplomacias da UE e dos EUA para colocarem um seu “homem de mão” como secretário-geral na ONU, ao invés do que estava planeado, a eleição de uma personalidade do Leste europeu, decerto que mais agregável aos interesses russos – e menos sensível aos objectivos “ocidentais”, em particular o da expansão territorial da OTAN. Percebo também só agora que a saída das tropas norte-americanas do Afeganistão se deveu ao primado da sua recolocação (em moldes porventura diversos) nos restantes países da Ásia Central – e decerto que por isso se afadigam estes em reuniões bilaterais e cimeiras multilaterais com a China, no intuito não só de incrementarem a já enorme interacção económica mas como de salvaguardarem a sua soberania dos perigos dos anseios expansionistas norte-americanos naquela região, integrando-se numa grande Entente sob égide sino-russa. Percebo ainda, através da interpretação da documentação dos poderosos “think thanks” influenciadores do imperial Pentágono, que o objectivo final “ocidental” é o da fragmentação da própria Rússia, usando para isso as velhas divisões tribais ali existentes, nisso prosseguindo o sempiterno princípio greco-romano de “dividir para reinar”. Desse modo procurando afrontar as aspirações chinesas de alargar a sua influência político-económica a Oeste das suas fronteiras.
Chego a estas conclusões através de um feixe de razões: porque leio para além das publicações ao serviço dos interesses ocidentais; porque concluí que a União Europeia não serve, tanto se se congregar em atitude avessa a um interesse externo como se se desunir em atitude avessa a um interesse externo; porque esta guerra custa caro aos países “ocidentais” e promove inflação. A qual já aqui denunciei, em postal doloroso. E porque o actual poder ucraniano é ilegítimo: nascido de um golpe de Estado, apoiado por uma escassa minoria da sua população, ocupado por indivíduos que são judeus, nazis, drogados, corruptos e até encimados por um comediante.
Blogue da Semana
Tudo isto dito o blogue da semana é o de um bloguista que vou lendo desde os nossos tempos de Moçambique. Chamava-se Ucrânia-Moçambique. Chama-se agora Universo Ucraniano.
Slava Ukraini / Слава Україні!
(aos russófilos que quiserem comentar neste postal deixo uma nota: não se incomodem).

há 100 anos dizia Oswald Spengler em LA DECADENCIA DE OCCIDENTE
las civilizaciones tienen un ciclo de vida, que parte de las circunstancias que las hacen nacer, pasa por su desarrollo … e pum
Peter Frankopan em LAS RUTAS DE LA SEDA (2015) mostra a deslocalização política para Oriente e os novos aperitivos, mas existe quem vive no passado