
Ana Vidal: «Porque será que tantas pessoas que se dizem amantes de livros insistem em dizer “desfolhar” (em vez de “folhear”) um livro, sem perceber que estão a contradizer-se por completo? Desfolhar um livro é arrancar-lhe as páginas, mutilá-lo, maltratá-lo. E um livro é tantas vezes um espelho de nós, como na história de Dorian Gray. A ironia está em que destruir um livro é partir esse espelho, negando-o e negando-nos. Ou seja, desejarmos a nossa própria destruição.»
Gui Abreu de Lima: «Conheci-o ainda antes de todas as muitas vindimas, peixeiras e lavradores, como topógrafo da Celulose de Angola. Usava bons botins de carneira, passava dias fora de casa, voltava cheio de pó e de saudades e era o herói dos seus ajudantes a quem chamava “os meus capatazes”. Nenhum branco mandava comprar uma grade de cervejas todos os dias para o pessoal beber nas longas horas que passavam no mato. Quando deixamos o Alto-Catumbela, esses homens formaram uma barreira à nossa frente, choraram como crianças e vi o meu Pai abraçar um por um, desfigurado de tanto desespero.»
José António Abreu: «A Netflix é um serviço de fornecimento de conteúdos televisivos, por cabo e internet (um pouco como o videoclube dos operadores portugueses), que também produz conteúdo próprio. Parece ter como modelo e alvo a HBO, o que, reconheça-se, é apontar ao sítio certo. Os seus canais de distribuição permitem-lhe recolher estatísticas detalhadas do que os espectadores consomem (evitei propositadamente o verbo “ver”) e da forma como o consomem.»
José Navarro de Andrade: «Longe vão os tempos em que André Breton cunhou com o nome de Salvador Dali o anagrama “avida dollars”, estigmatizando o seu comercialismo e a sua indiferença às grandes causas do século, num gesto se calhar ultrapassado e desmentido pelo tempo, mas que o establishment da crítica Benjaminiana ainda hoje teme reconsiderar.»
JPT: «Escrevo em blogs há uma década. Nisto são dez anos de verborreia. Agora juntei um conjunto dos postais de que ainda gosto e agreguei-os num calhamaço. A alguns modifiquei, ligeiramente. Agrupei-os sob temáticas: Moçambique; Portugal; Cooperação (Ajuda Pública ao Desenvolvimento); Lusofonia (e Acordo Ortográfico); Algures; Bloguismo; Sporting; Baby blogging; jpt (memórias). Ao longo dos anos de quando em vez surgem conflitos entre apoiantes dos diversos partidos, em particular entre os dois grandes partidos históricos, Renamo e Frelimo, opositores na terrível guerra civil que avassalou Moçambique entre 1976 e 1992. Essa do milhão de mortos, dos cinco milhões de refugiados. Mas os contornos militares deste acontecimento são verdadeiramente inesperados. Deixando temer um mal até maior, mais continuado – ainda que não haja, hoje em dia, contexto internacional regional de sustentação de um conflito prolongado.»
Patrícia Reis: «Senhor / se a fé regressar / entrar em cada poro da minha pele / preenchendo o coração / então estarei sozinha / mas tu estarás comigo.»

Excelente, o post de José António Abreu (um autor que lamento que o Delito tenha perdido).
Também eu. Foi, seguramente, um dos melhores que passaram por cá.
Pois também apreciava as G. Abreu Lima, e outros entre os quais Bandeira.
Quem veio depois também não desmerece.
Justíssima observação.