Novas fogueiras na escuridão


Pedro Correia,

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Fotograma (censurado) de Noites Escaldantes: toda a nudez é hoje castigada

 

No momento em que escrevo estas linhas, Woody Allen filma em San Sebastián, no País Basco espanhol, após um ano de inactividade total: 2018 foi uma folha em branco no seu extenso percurso artístico.

Regressa timidamente ao exercício da profissão que o apaixona, muito longe do seu país natal. Mesmo assim, entre críticas duríssimas, vindas da chamada vox populi, à «indecência» do seu comportamento, não faltando quem lhe chame «pervertido» ao vê-lo passar e quem grite contra a «publicidade negativa» que isto trará à cidade, afugentando turistas.

Um quarto de século depois, continua acusado não na justiça verdadeira, mas nos pelourinhos de rua. Motivo: um alegado crime de natureza sexual que jurou sempre não ter cometido e baseado em supostos factos jamais comprovados não apenas na investigação judicial mas também na exaustiva e minuciosa investigação jornalística que a acompanhou.

À falta de verdade, bastou o boato: um dos mais prestigiados cineastas de todos os tempos foi condenado ainda em vida à morte civil, apedrejado nos mais diversos recantos do planeta, impedido de exercer direitos básicos – começando pelo direito ao trabalho. Mesmo assim, com admirável tenacidade, o criador de Annie Hall, Manhattan e Hannah e as Suas Irmãs tenta agora regressar à tona de água, aos 83 anos, combatendo um novo maccartismo – desta vez já não de explícita natureza política, mas sexual.

 

Allen deixou de poder estrear um filme todos os anos: o último que rodou, A Rainy Day in New York, foi adquirido e confiscado pela Amazon, que o manteve em armazém, tornando-o invisível: é um crime de lesa-arte, mas muitos sectores aplaudem o crime, como se fosse um acto heróico. Concluído em 2017, nunca entrou no circuito comercial. O realizador teve de lutar em tribunal para adquirir em nome próprio o direito de exibição em território norte-americano, mas até ao momento não conseguiu encontrar sala de projecção: todos os exibidores receiam sofrer irreversíveis danos reputacionais. Por darem a mão a alguém que, como Woody Allen, ensinou milhões de pessoas a ver, a ouvir (muitos espectadores escutaram pela primeira vez Louis Armstrong e Ella Fitzgerald nos seus filmes) e a pensar.

Actores que interpretaram A Rainy Day in New York – incluindo o protagonista, Timothée Chalamet – apressaram-se a anunciar, alto e bom som, que entregariam o salário a organizações feministas. Como se Allen tivesse peste, um coro orquestrado de actrizes e actores ergueu-se em orgástica condenação daquela alma demoníaca que havia desencaminhado uma enteada no remanso do lar – tomando o rumor como facto, negando o contraditório ao cineasta e apontando-lhe a espada justiceira. De pouco ou nada valeu lembrar que ao longo de meio século de actividade nunca o realizador foi alvo de qualquer queixa por conduta imprópria da parte de qualquer actriz, principal ou secundária.

Não tardou um olhar “revisionista” da obra integral do cineasta, passada a pente fino pelos novos censores morais que nela descobriram inúmeros indícios de pedofilia, agravados pelo impenitente machismo que lhe marca o conteúdo e a forma, antes tão incensadas pela “vanguarda” intelectual novaiorquina.

 

Woody_Allen_at_San_Sebastian_Filmfestival_2008[1].Woody Allen em San Sebastián: insultos e solidão 50 filmes depois

 

Um cineasta que não consegue estrear os filmes. E também um escritor que não consegue editar os livros: até ao momento, nenhuma chancela editorial mostrou interesse em publicar-lhe a autobiografia entretanto concluída: a estridente pressão dos movimentos neopuritanos grita mais alto, condicionando não apenas o acto criador mas toda a expressão pública de simpatia por quem ouse remar contra os novos dogmas.

Imagino um Vladimir Nabokov – que lançou a sua imortal Lolita em 1955, na Europa, após cinco temerosas editoras norte-americanas lhe terem devolvido o manuscrito e só viu o livro impresso nos EUA três anos mais tarde – nos nossos dias: seria alvo de um implacável linchamento moral, sem apelo nem agravo, condenado a expiação eterna.

Imagino um Nelson Rodrigues na actualidade: banido da escrita jornalística, impedido de divulgar os seus folhetins, proibido de encenar as suas peças teatrais em nome do histriónico combate ao «heteropatriarcado», à perpetuação dos «estereótipos de género» e à «coisificação» da mulher. Imagino actrizes que interpretaram filmes inspirados na dramaturgia do autor de Toda Nudez Será Castigada – como Darlene Glória, Vera Fischer, Sonia Braga, Lídia Brondi e Christiane Torloni – a repudiarem aqueles temas e aqueles textos com gestos de indizível horror.

 

Nesta atmosfera de convento proibicionista, povoado de façanhudas madres superioras, as cenas de sexo são abreviadas ou mesmo suprimidas. Filmes que geraram furor nos anos 80, como Atracção Fatal, Noites Escaldantes e O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, seriam hoje rejeitados como infâmia. A nudez tornou-se residual – e quase interdita aos corpos femininos, evitando assim despertar a concupiscência de machos trogloditas, passe a redundância. Tornou-se moda corrente “pixelizar” seios nus para antecipar as tesouras censórias em patrulha permanente às redes sociais.

A “indústria do entretenimento” norte-americana passou a incorporar novas brigadas fiscalizadoras, inspiradas no defunto Código Hays e agora designadas «coordenadoras da intimidade», zelando para que nenhuma actriz sinta o mais leve incómodo sob as ordens de um realizador no cinema ou na televisão. Um Fellini ou um Bergman dos nossos dias veriam as respectivas carreiras abortadas à nascença. Já para não falar num Hitchcock.

 

Enquanto escrevo estas linhas, um cineasta de 83 anos – outrora prestigiado – filma no País Basco, longe da cidade natal que ajudou a projectar como ícone planetário. Demorou quase dois anos reunir financiamento mínimo para retomar a arte que sempre o apaixonou. A Rainy Day in New York – o seu 50.º filme – continua aferrolhado pela Amazon: a milionária multinacional considera que o lançamento da película poderia causar «danos de imagem» à sua marca.

São tempos duros: os novos empestados, como ele, ardem na fogueira sem lhes ser reconhecido o exercício do contraditório. Ou, se o fazem, ninguém os escuta. Porque estão condenados à partida. E não há recurso da sentença.

O mais penoso e lamentável é que tudo isto se passa na liberalíssima América, não num obscuro Estado totalitário.

 

Leitura complementar:

Este filme acaba sempre mal (19 de Janeiro de 2018)

O apedrejamento de Woody Allen (20 de Janeiro de 2018)

70 comentários em “Novas fogueiras na escuridão”

  1. Muito bom! Excelente texto, Pedro.
    Todas as caças às bruxas ficam na história como aquilo que realmente foram : histeria colectiva.
    Não é fácil ser mulher, pelejar pela iguldade, pela equidade e ao mesmo tempo sentir o enxovalho dos pensamentos, palavras e obras do radicalismo inconsequente.

  2. Será apenas nos States?
    Na série GoT houve imensas polémicas dos costumes.
    Que as mulheres eram maltratadas (não fazia mal que um dos vilões esfolasse os inimigos ou os atirasse aos cães, mas violar a mulher é imperdoável), e que os personagem gays morriam.
    Numa série em que a violência excessiva era pedra de toque, a indignação era sobre os direitos das mulheres (numa sociedade com escravos, com feudalismo, com brutalidade como moeda de troca).
    Valha que os pans nunca se lembraram de pedir boicote devido ao modo como is dragões eram tratados.

    1. Os novos interditos são sexuais – patrulhados pelas madres superioras.
      Quanto à violência, nada a objectar. Pelo menos violência contra homens. Se for contra animais aí já se levantam clamores.

  3. A ditadura do politicamente correcto é tão má como outra qualquer. Certos actores só terem notado que Allen casou com a enteada quase 30 anos depois do facto é duma hipocrisia galopante. Têm receio pelas suas carreiras à luz dos likes, e ao agir torpemente mostram-nos como foi possível a caça às bruxas do senador McCarthy. Não há diferenças, tal como dantes é tudo baseado em rumores, com gente a fazer fila para denunciar. E salvaguardar o seu lugar na nova ordem, pelo menos até ser, por sua vez, denunciado.
    Apesar do sucesso comercial limitado da sua obra, Allen é o realizador que mais Óscares deu a ganhar aos seus actores, e até há pouco todos os nomes sonantes de Hollywood trabalhavam com ele quase de borla, pelo prestígio. É claro que sabiam, o caso foi bastante comentado no seu tempo.
    Tudo isto me recorda como no dia 26 de Abril de 74 tanta gente “descobriu” que era de esquerda.

      1. Sobre a “enteada” de Allen – filha adoptada pela actriz Mia Farrow com o ex-companheiro dela – chegou a dizer-se que o realizador tinha «abusado da própria filha».
        Isto foi escrito em centenas de jornais e propagado em largos milhares de redes sociais, com ecos em todo o mundo.

    1. Os sinais são idênticos: rumores transformados em factos, diz-que-disse, imprime-se a lenda. Traições, facadas nas costas, hipocrisia a rodos – um estendal de miséria humana.

      Punir antes de condenar, condenar antes de julgar, julgar antes de acusar, ouvir apenas uma das partes. A negação do que deve ser a justiça.

      Esta gente que aplaude a caça às bruxas contra o Woody Allen é marioneta pronta a servir de pasto a qualquer totalitarismo.
      Hoje, em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que havia entre as décadas de 70 e 90. Estamos cercados de novos tabus e proibições de todo o género em nome de dogmas identitários. Como o recente caso da interdição total de ‘cartoons’ no New York Times – que costumava ser um dos faróis mundiais da liberdade de imprensa – bem demonstra.

  4. Não as vendo, sem pachorra necessária, mas desejando de ser, nelas, capaz de me distrair, e abandonar, assim, o Brandy, as novelas em familia estão soberanamente carregadas de cenas implicitas de sexo.

    Já não falo das 50 Sombras de Grey, é assim não é, Grey?

    O sexo nunca, como hoje, (talvez menos que nos finais de 90) esteve tão presente…usado na publicidade do que quer que seja (as mulheres sabem…o Sunny, aquele detergente para a máquina de lavar), na politica….etc.

      1. “Você é cansativo, sempre a repetir a mesma ladainha.” Enquanto tiver quem lhe responda vai gozando …

  5. Concordo consigo.
    Neste momento não é fácil ser homem. Se uma mulher disser que a toquei de maneira imprópria estou frito. Se for uma criança então é que não tenho hipótese. Se for absolvido (depois de gastar dinheiro e tempo em tribunais) ficarei sempre com o estigma.
    Mas não é só agora que é difícil ser homem. Lembro só a guerra que para mim significou muito por ter participado 8contra a minha vontade) na guerra colonial.
    Íamos todos bater com as costas em África e elas ficavam por cá. E bem, se além de nós as raparigas também fossem, seria pior. Mas tive sorte, voltei vivo e com o corpo inteiro. E penso muitas vezes em casos como o desembarque na Normandia. Que pensariam os rapazes quando os barcos se aproximavam de terra e sabiam que daí a uma ou duas horas estariam mortos? E sabem como eram as chamadas cargas de infantaria? As mulheres deveriam participar em nome da igualdade? E quando a guerra era, antes das armas de fogo, baseada na força física? As mulheres têm problemas mas os homens não ficam atrás. Ainda por cima eles não podem perceber nem sentir as alegrias da maternidade (coisa hoje muito desvalorizada).
    Sou a favor da igualdade de género mas discordo com uma boa parte do que se tem dito. A igualdade no sentido que muitos lhe dão não existe (e ainda bem).

    1. O que eu aqui trouxe nada colide com a igualdade de género. É, pelo contrário, uma perversão desse princípio.
      E é, desde logo, uma perversão da justiça. Por ser condenado um inocente sem provas. Mais: Allen foi condenado sem sequer ter havido julgamento. Invertendo um princípio civilizacional, ele é que tem de provar que é inocente: os acusadores/julgadores nem se deram ao incómodo de demonstrar que ele é culpado seja do que for.

      1. Eu estou de acordo consigo. É difícil ser homem: por definição o homem é sempre culpado mesmo que não se prove nada. Um caso que me impressionou muito foi o de D. Strauss Kan. Se bem percebi, bastou uma mulher dizer “ele violou-me” para ele passar todas as vergonhas. Se fosse comigo seria muito pior pois eu não tenho o dinheiro que ele teve para amenizar as coisas: eu apodreceria na penitenciária.
        O que aconteceu pareceu-me algo que só aconteceria sob o mando do Senhor Obiang.

        1. Cada caso é um caso. Centro-me neste, que foi investigado até à exaustão, durante anos, pela justiça e por muitos jornalistas. Nenhuma investigação concluiu pela culpabilidade do cineasta.
          O que não o impediu de ter sido pendurado no pelourinho.

  6. Filmes fora do circuito não faltam/faltaram: couraçado potempkine (Eisenstein), idade de ouro (Buñuel),… foram interditos durante décadas; desaparecidos/mutilados: The greed (Stroheim), o Godard tem vários bloqueados: pelo darty (rapport darty), pela france telecom (Puissance de la parole); os herdeiros do Eustache escondem os seus filmes que nem a dvd chegam, o Pedro Costa já nem chega a estrear em França… e tudo isto sem guitarrinhas, leia-se, sem sexo… Nada de novo a oeste, cada um é vítima à medida da sua personalidade artística. A do Woody Allen é fraquinha/anódina, por isso só apanhou a pretexto de sexo.

      1. Não aplaudo, não senhor. Mas enquanto os pretextos para queimar o ´próximo’ se vão metamorfoseando, o antídoto é encontrar uma Laureen (Bacall). Convenhamos que não será para todos.

        1. Lauren Bacall, que eu saiba, nunca filmou com Woody Alllen.
          Quem filmou com ele foram outras actrizes bem conhecidas.
          Alguns nomes: Diane Keaton, Kate Winslet, Cate Blanchett, Scarlett Johansson, Naomi Watts, Penélope Cruz, Emma Stone, Rachel McAdams, Emily Mortimer, Kristen Stewart.

          Estas têm outro ponto em comum: nenhuma alinhou nesta histérica caça às bruxas.

          1. Ainda bem, assim se confirma que o mundo não está completamente perdido.

  7. Agradeço-lhe, antes demais, o facto de ter abordado este problema num tempo onde os falsos púdicos – porque hoje vive-se sob um manto de aperencias e falsidade, nao faltam hipócritas que só vêem perigo e defeitos nos outros – tentam a todo custo ganhar fama à custa do outros, justificadamente ou não! E quanto mais berrar no meio da turba, mais capaz de se tornar no próximo censor-mor se achará capaz. Sobre Woody Allen considero a maior das covardias o facto decterem os seus detractores aproveitadobo momento de histeria colectiva – que como todas são isentas de bom-senso e capacidade de razão – para atacar, novamente o homem. Sabendo-se perfeitamente que nada de que o acusaram não teve qualquer sustentabilidade, mais, foi investigado por mais de um estado e pelos seus sistemas jurídicos. Todis chegaram à conclusão que as acusações não tinham qualquer fundamento e que muitas das declarações tongam sido, no mínimo “imaginadas”. Mia Farrow não perdoa o facto de ele se ter casado com a sua filha adoptiva (dela ecdo seu anterior companheiro, não Woody Allen, essa é outra “estória” mal contada). Resumindo, eu continuarei admirador deste génio, e seguirei a sua obra. Não sigo modas, nem a carneirada. Não é inteligente e leva a injusticas infames, esta é uma delas.

    1. O problema é que a grande maioria segue a carneirada. Por inveja, por despeito, por comodismo, por conveniência, por inacção, por “ouvir dizer”, por parecer bem, porque sim.
      Esta gente serve sempre de pasto aos piores regimes.

  8. Caros leitores,

    O W.Allen, è um genio do cinema. Com humorismo, ironia, sarcasmo duro, mordaz, consegue criticar, meter a nu(desafectado, sincero) situacoes hilariantes do dia-a-dia e fazer pensar! Por vezes parece um insulto, as nossas crencas(politicas, religiosas,morais).
    Por outro lado vivemos numa sociedade, em que as bruxas, jà nao voam em vassouras, mas penduradas nos tubos de aspiradores!! Portanto tudo mais rapido, na forma de julgar e sancionar; via net e nao nos tribunais.Hoje nao se pode galantear uma mulher, sem o risco de ir parar ao tribunal.Nao se pode ajudar uma crianca que esta perdida na rua, com medo de ser acusado de pedofilia! Uma sociedade cada vez mais puritana, que por um lado quer castigar o sexo, mas por outro, legaliza a profissao de “prostituicao”, recolhendo impostos!

    1. A liberalíssima Hollywood, vanguarda dos costumes libérrimos, está hoje transformada nisto: novas brigadas censórias, sob a designação «coordenadoras da intimidade», vigiam beijos, medem decotes, fazem imperar a neocastidade e os bons costumes morais.
      Como qualquer madre superiora dum convento das Carmelitas.

  9. Eu, que sou apoiante do movimento Metoo desde a primeira hora, fico triste com esta onda puritana, orquestrada por fundamentalistas, que só veio descredibilizar tudo o que de bom esse movimento representou. Denunciar o assédio sexual no local de trabalho, algo que de tão banal, era considerado até normal por algumas das suas vítimas, foi importante. Mas estas reacções extremistas só vieram dar munições aos opositores de primeira hora desse movimento. Uma pena!
    Adoro Woody Allen e por isso quero muito confiar na justiça – à falta de melhor é sempre esse o critério a escolher – e sinto-me lesada como fã por ser impedida de continuar a ver os seus filmes. E de coração partido por imaginá-lo inocente a sofrer este enxovalho no fim da vida. Uma tristeza.

    1. Eu também adoro o Woody Allen. Sempre adorei e vou continuar a adorar, aconteça o que acontecer.
      Ficarei muito triste se se provar que ele molestou a própria filha (muito zangada mesmo, e a achar que merece severo castigo). Agora ter-se apaixonado e casado com a filha adoptiva da Mia Farrow e de outro homem, penso que isso apenas diz respeito a ambos, não tenho que achar bem ou mal.
      Continuarei a admirar os seus filmes e a maneira extraordinária como sempre dirigiu as suas musas/actrizes (algumas delas suas companheiras, e.g. Diane Keaton e Mia Farrow) a quem ofereceu papéis absolutamente fantásticos.
      E é isto que me ocorre dizer.
      E não vou ficar anónima.
      ⚘
      Maria

      1. O problema, como escrevi, já nem se reduz ao homem: já abarca toda a obra dele. Uma parte vai-se tornando invisível (começando pelo último filme que concluiu), outra vai sendo sujeita a um implacável juízo revisionista que o transforma num debochado e num depravador. Isto apesar, repito, de nenhuma actriz alguma vez se ter queixado de comportamento impróprio da parte dele.

        Há aí mais acima um leitor que, não sei bem porquê, invoca o Chaplin. Se fosse hoje, o Chaplin – que foi vítima do maccartismo político – seria ainda mais perseguido pelo novo maccartismo sexual.

        1. Era só para lembrar que a marginalização dos cineastas é um dos lugares-comuns do cinema.

          Mas dou-lhe razão no que diz respeito a este neo-puritanismo e vou ajudá-lo: não imagina a escandaleira que foi quando há bem pouco tempo a cinemateca de Paris programou um ciclo do Polanski, ainda por cima porque o convidou a ir lá falar dos seus filmes. Eu não gosto ds filmes do Polanski, nem dos do Allen (com raras excepções), mas não há pachorra para tanta histeria.

          1. O Miguel não nos quer revelar duas ou três dessas raras excepções?
            Confesso que fiquei curiosa.
            ⚘
            Maria

          2. Do Polanski achei graça ao primeiro: ´le couteau dans l’eau’ que tinha um sabor a huis-clos a bordo e a ‘Repulsion’ com a C. Deneuve. Do Woody, ´manhattan’ e ´annie hall’ ambos moderadamente e um ,de que não me recordo o título, que era um pastiche do 81/2 do Fellini, e que resultava cómico porque se sentia que ele estava dilacerado entre a vontade de ser irreverente e a involuntária (e compreendível) admiração pelo mestre, esse um dos verdadeiros gigantes. Também porque o Allen, provavelmente sem se aperceber, sempre esteve estetica e ideologicamente mais próximo da televisão (que o Fellini abominava) do que do cinema.

          3. Gosto do Polanski como cineasta – precisamente desde os primeiros filmes, ‘Faca na Água’, ‘Repulsa’.
            Mas o caso de Polanski, para aquilo que aqui interessa, é totalmente diferente do caso de Woody Allen.

    2. A “caça ao pedófilo” ou a “caça ao molestador” transformou-se rapidamente numa espécie de caça ao homem. Em que toda a presunção de inocência é rejeitada. Pelo contrário, existe logo à partida uma presunção de culpabilidade.

      Professores universitários são hoje despedidos nos EUA porque há 20 ou 30 anos puseram a mão num ombro de uma colega ou de uma aluna. Basta uma campanha contra eles nas redes sociais e nos jornais universitários para ficarem marginalizados. Morte civil, também nestes casos.

      O recente saneamento de Ian Buruma do cargo de editor-chefe da ‘New York Review of Books’ é um dos mais lamentáveis exemplos desta nova caça às bruxas, que segue impune.
      Foi despedido porquê? Por ter publicado um ensaio de um canadiano que foi acusado há vários anos de assédio sexual – e absolvido em tribunal.

      Palavras do próprio Buruma, após ter sido afastado:
      «The reason he stepped down is because the NYRB’s owner and publisher, Rea S. Hederman, was concerned about losing advertising revenue as a result of the scandal. ‘No, he did not fire me,’ says Buruma. ‘But he made clear to me that university publishers, whose advertisements make publication of The New York Review of Books partly possible, were threatening a boycott. They are afraid of the reactions on the campuses, where this is an inflammatory topic. Because of this, I feel forced to resign – in fact it is a capitulation to social media and university presses’,»

      https://www.vn.nl/reaction-ian-buruma/?utm_source=t.co&utm_medium=social&utm_campaign=share

  10. Concordo que é uma aberração esta caça às bruxas. E também com a ideia de retrocesso das liberdades.

    Só desejaria o mesmo empenho e objectividade usado agora na denúncia desta caça, para os casos em que existe razão efectiva de queixa. Patente, ou mesmo com condenação alicerçada em provas. Principalmente nos casos onde existe desfasamento de armas – poder – em desfavor da vítima.

    Nestes casos, para lá do berreiro inconsequente em voga, vejo sobretudo pudor, senão mesmo conivência. Quando não mesmo, ridicularização da vítima.

    Bem sei que é mais apelativo – rende mais – tomar um dos lados e hastear bandeiras, mas a realidade – aquela que queima – anda normalmente longe do das grandes proclamações.

    É bom que se lembre que a realidade não queima só do lado do injustamente acusado, mas também dos efectivamente agredidos.

    Isabel

  11. E agora para desanuviar, fazer jus à imagem do post e ao desassombro do homem.

    ‘Na minha próxima vida, quero viver de trás para frente.
    Começar morto, para despachar logo o assunto. Depois, acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a reforma e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável, até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo. E depois, estar pronto para o secundário e para o primário, antes de me tornar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí torno-me um bébé inocente até nascer. Por fim, passo nove meses flutuando num spa de luxo, com aquecimento central, serviço de quarto à disposição e com um espaço maior por cada dia que passa, e depois Voilà! desapareço num orgasmo.’ Woody Allen

    Isabel

  12. Há situações bem piores no mundo do cinema que são escondidas pelo mainstream que domina a informação.
    RICHARD GERE foi expulso de actor por ordem da CHINA…é um conhecido budista defensor…como eu ….do FREE TIBETE

    Mel Gibson foi boicotado por realizar o filme
    A PAIXÃO DE CRISTO.
    e nenhuma distribuidora aceitou o filme

    JIM CAZIEVEL que fez o papel de Jesus Cristo nesse filme…nem entrar em Hollywood consegue…

    Pior…dizer que foi apedrejado mas está vivo e de boa saúde..
    É UM INSULTO BEM GRAVE ÀS MULHERES QUE SÃO MESMO APEDREJADAS ATÉ À MORTE POR ESSE MUNDO ISLÂMICO….incluindo comunidades na UE.

    Comparar com madres superioras etc…..quando hoje as caçadas são feitas pela esquerda ateísta e islâmica….e de falta de imaginação e muito mau gosto.

    Quando o sultão muçulmano do Brunei decretou a morte dos gay à PEDRADA ..o orgulho gay ficou em silêncio COVARDE em todo o mundo….idem para os e as defensores dos direitos para essa minoria…..incluindo célebres ativistas em Portugal.
    Só Elton John levantou a voz…

    1. “Comparar com madres superioras etc…..quando hoje as caçadas são feitas pela esquerda ateísta e islâmica….e de falta de imaginação e muito mau gosto.”
      Esta não consegui compreender. Explique lá …

      1. Facílimo.
        As caçadas puritanas em Hollywood são obra de ATEUS…
        As madres superioras nada e nunca tiveram a ver com isso…só entra nos conventos quer quer.

        Sobre o islamismo ainda é mais fácil.
        Nem precisa ir ao irão visitar a advogada de + de 50 anos presa por 15 e condenada tb a 148 CHICOTADAS por defender as mulheres que recusam vestir o hijab em público.
        Fica lhe bem um tpc…..pesquise no site da international amnesty

        Ou entao vá visitar as comunidades islâmicas na UE cujas entradas têm o nome

        NO GO ZONE

        se conseguir sair viva, então pode estudar quem defende esta kuultura asquerosa nos media Universidades política e redes sociais:
        A esquerda marxista ateísta

  13. li interessado o caso relatado.

    Nao conheço a obra do cineasta, nem de outros, mas sei que estava no topo dos cineastas, e portanto dessa maneira contribuiu para a vida e felicidade de pessoas.

    Ou seja, nao sei se em “vida” o cineasta abordou e combateu os neopuristas. Estou a lembrar-me de um primeiro ministro preso que se queixou das pulgas na cela, mas tinha sido primeiro ministro e nao se preocupou com os presos com pulgas na cela.

    Amiude relembro as fogueiras, que nao existem hoje, ou ainda nao existem hoje, mas que estao na sanha dos neopuristas.

    Mesmo que uma narrativa, o relato emociona. E aplaudo o autor PC pela coragem, assim a outra parte nao se deixe silenciar, amordaçar, e grite mais alto a Liberdade !

  14. Olá Pedro Correia
    Sobre esta autêntica caça ás bruxas do séc. XXI , só se me oferece dizer o óbvio:
    A América sempre foi 1 país de doidos c/ a mania da perseguição !
    No caso do genial Woody Allen, para além da doideira +/- colectiva, ultrapassou-se o limiar da sanidade,para se entrar num javardíssimo assassinato de carácter de 1 bom homem e grande realizador.
    É inadmissível,intolerável e grotesco o k fizeram e continuam a fazer a 1 senhor, k aos 83 anos merecia pelo menos 1 Óscar por aguentar de cabeça erguida tanta sacanice !!
    Obg Woody por nos teres permitido partilhar os teus filmes,obras-primas da 7ª arte k nos divertiram e enriqueceram social e culturalmente.
    Os E.U.A nunca te perdoaram o facto de seres 1 inadptado culturalmente superior ; Não te merecem.
    God save King Woody !!

    1. Assino por baixo (excepto a parte de serem todos malucos).
      A América é um gigantesco melting-pot, há de tudo um pouco (okay, talvez haja demasiados malucos…).

      Quanto ao Woody Allen, bastaria ter apenas realizado o magnífico Manhattan para ficar na história do cinema: aquela abertura é de antologia.
      E todos os outros filmes?
      O homem é genial, as simple as that!
      E felizmente até ganhou alguns Oscars.
      ⚘
      Maria

  15. Bom texto.
    A “liberalíssima” América, aquele país onde o juramento do presidente inclui a expressão ‘God Bless America’, mais parecendo uma qualquer teocracia…

    Que dizer do caso Kevin Spacey, despedido da série House of Cards por um assunto que borregou em tribunal?

  16. Bravo, caríssimo Pedro.

    Esse neopuritanismo é somente o velho exercício hipócrita da preguiça em ser virtuoso por amor da virtude.

    A virtude verdadeira não o é pôr compulsão própria ou alheia.

    Abraço,

    O seu amigo de sempre.

  17. Parte 1:
    Devo confessar que não sou dos que acham o Woody Allen um génio: quando cheguei a Portugal em finais de 1979, um dos meus amigos levava-me a ver todos os seus filmes, anunciando-os antecipadamente como verdadeiras obras de arte. Tirando Manhattan, que sim, até me ficou na memória como um bom filme (e bom não significa, para mim, genial) e Annie Hall que até se via sem adormecer entretanto, das restantes “obras de arte” que vi, nem me pronuncio. Gostos! Sinceramente, a “coisa” resume-se a isto: tenho o Wonder Wheel a ocupar-me memória no meu computador desde Abril de 2018 e ainda não arranjei paciência para o ver… ou coragem para o substituir por mais espaço livre.
    Devo também confessar que, quando algures na década de 90, descobri que ele trocara de amores, a mãe (Mia Farrow) pela sua filha adoptiva, de um anterior casamento (Soon-Yi Previn), a notícia até me soou como uma daquelas extravagâncias típicas do universo do cinema e sobre as quais, eu enquanto padrasto de uma filha nascida de um anterior casamento da minha companheira, ao escrever “extravagância” até me estou a conter… e claro, quando aqui e ali deparava com declarações dele, deste género: «I’ve never even lived with Mia. I’ve never in my entire life slept at Mia’s apartment, and I never even used to go over there until my children came along seven years ago. I never had any family dinners over there. I was not a father to her adopted kids in any sense of the word», o que me vinha à cabeça era que o tipo era um completo cretino… mas sejamos sinceros, essa até era a imagem que ele decidira explorar para o seu próprio sucesso e que muitos intelectualóides, desde então e até muito recentemente, muito admiravam ou passaram a admirar em duplicado! Hoje os cretinos separam-se de acordo com as conveniências ideológicas: inimigos dos meus inimigos, meus amigos são! É que o politicamente incorrecto apenas se tornou no politicamente correcto.
    Confesso também que
    1) apoio incondicionalmente o #metoo, mesmo até sabendo que ele irá provocar muitas evidentes situações de injustiça (há alguém aí que se lembra de qualquer revolução na história da Humanidade, sem que a ela se associe sangue? Ou de qualquer “reaccionário” que não goste de evocar o “sangue” vertido com o intuito de denegrir/parar qualquer revolução?)
    2) sobre o “grande problema” que o Woody Allen enfrentou e ainda enfrenta (https://en.wikipedia.org/wiki/Woody_Allen_sexual_assault_allegation) pouco tenho a dizer… ou como disse alguém, que li algures (e que até “defendia” a inocência do realizador!): eu não estava lá e, por isso, não vi e não sei!
    Posto isto, lamento profundamente que nos tantos 56 comentários feitos ao “post” do Pedro Correia (PC daqui para a frente!) ninguém se tenha atrevido a, sabe-se lá até porquê, ter posto a hipótese de que a Dylan Farrow – o tormento do génio, de acordo com o PC, Allen! – pode até ter razão: alguém descobriu o seu nome no texto do PC? Não? E porque não?… quando afinal ela é a pessoa que, de acordo com o PC, é a responsável por «um novo maccartismo – desta vez já não de explícita natureza política, mas sexual» sobre o seu “génio”?
    Claro, o seu grande argumento resume-se ao habitual – pelo menos quando lhe convém! – «baseado em supostos factos jamais comprovados não apenas na investigação judicial mas também na exaustiva e minuciosa investigação jornalística que a acompanhou»… ou seja, até prova em contrário – que sempre foi negada pela Justiça! – Woody Allen é inocente porque a Justiça assim o decidiu!

  18. Parte 2:
    Não sei bem quando, a propósito da “injustiça” de que era alvo o Woody Allen, entrei numa troca de impressões no Expresso sobre a dita, o que me levou a descobrir um artigo de um dos muitos irmãos da Dylan. Antes de adiantar a ligação para o mesmo, gostaria de dizer que a família Forrow desdobra-se em declarações sobre esta questão, nem sempre de um modo coerente: o que um deles hoje diz, amanhã pode ser dito no sentido oposto. Mesmo até hoje, a maioria dos filhos de Mia – que Allen insiste, para os que querem acreditar nele, nada ter a ver com eles, deambulam ora em descrever a mãe querida ou a mãe diabólica e vice-versa em relação ao tipo que, como ele diz, nunca teve nada a ver com eles… mesmo que na altura do julgamento, todos eles tenham optado por ficar com a mãe em vez do “pai” que, como ele próprio diz, até não só nunca foi pai como eventualmente até se os encontrou, foi por mero acaso…
    Bom, o que eu queria dizer é que este artigo do Ronan Farrow (https://www.hollywoodreporter.com/news/my-father-woody-allen-danger-892572) até me ajudou a perceber algumas coisas sobre o caso e, por isso, gostaria de o compartilhar..
    PS – li algures num comentário do PC a sua abordagem do caso do Ian Buruma. Na realidade pouco tenho a dizer sobre o assunto… para além de que não me revejo na abordagem de “má língua” da mesma pelo que gostaria apenas de deixar uma ligação a um artigo de opinião que entretanto li: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2018/09/resignation-new-york-review-books/563069/

    1. Oxalá você nunca seja atirado para uma fogueira destas também.
      Até lá, aconselho-o a não inverter o princípio da presunção da inocência.
      Compete sempre a quem acusa provar a culpabilidade do acusado. E nunca o contrário.
      Excepto nos regimes totalitários.
      Julgo não ser este o modelo político que recomenda.

      Woody Allen nunca foi processado, acusado, condenado nem sancionado pelo exigente e rigoroso sistema judicial norte-americano.
      É totalmente inaceitável que seja condenado e pendurado no pelourinho das redes sociais, que lhe destruíram a carreira – aos 83 anos – por acusações sem fundamento.
      Com imensos basbaques a bater palminhas.

      Alguns destes basbaques nem imaginam que poderão um dia ser vítimas disto mesmo, embora numa escala mediática imensamente inferior.
      Basta, às vezes, terem uma enteada manipulada com fins malévolos por uma mãe com a asa ferida…

      1. Pedro, nem me apetece responder a esse senhor mas, embora não dizendo o nome da Dylan Farrow, era a ela que eu me referia quando disse que esperava que o Woody Allen fosse severamente castigado se se provasse que ele tinha molestado a filha.

        É verdade que eles sempre viveram em casas separadas, pelo que o WA nunca teve a proximidade “dita normal” com as crianças e jovens adoptados pela Mia.

        Se o Woody era estranho, a Mia também o era.
        Aos 21 anos casou com o Sinatra que tinha 50.
        O casamento durou 2 anos.
        Mia engravidou do André Prévin, que se divorciou para casar com ela. Tiveram já nem sei quantos filhos e adoptaram a jovem que é agora casada com o Allen.
        Entretanto a Mia chegou a dizer que o primeiro filho que teve com o Prévin afinal era do Sinatra!?!
        Tanta confusão que até eu estou confusa!!!
        Na altura, como gostava muito de ambos (still do!) li muito sobre o assunto, agora fui relembrar factos e nomes à net por causa deste postal do Pedro.
        Gosto muito da Mia Farrow mas na altura fiquei convencida que ela tinha manipulado a Dylan, por raiva e despeito (o que até compreendo), porém como saber?
        Não tenho certezas de nada.
        Um grande realizador, uma grande actriz, vou gostar sempre muito de ambos, aconteça o que acontecer.
        ⚘
        Maria

  19. Devo confessar que não sou dos que um até acharam o Woody Allen um génio: tirando Manhattan, que sim, até me ficou na memória como um bom filme (e bom não significa, para mim, genial) e Annie Hall que até consegui ver sem adormecer, sobre as suas restantes “obras de arte” que vi, nem me pronuncio. Gostos!
    Devo também confessar que quando, algures na década de 90, descobri que ele trocara de amores, a mãe (Mia Farrow) pela filha dela, adoptada num seu anterior casamento (Soon-Yi Previn), a notícia até me soou como uma daquelas extravagâncias típicas do universo deles e sobre as quais, eu até enquanto padrasto de uma filha nascida de um anterior casamento da minha companheira, ao escrever “extravagância”, na realidade até me estou a conter… e claro, quando ali e acolá deparava com declarações dele, do género, «I’ve never even lived with Mia. I’ve never in my entire life slept at Mia’s apartment, and I never even used to go over there until my children came along seven years ago. I never had any family dinners over there. I was not a father to her adopted kids in any sense of the word», o que me vinha à cabeça era quanto o tipo era um completo cretino… mas sejamos sinceros, ele não só nunca fez qualquer tentativa para negar que o era como até usou essa imagem para o seu próprio sucesso.
    Confesso também que sim, que
    1) apoio incondicionalmente o #metoo, mesmo até sabendo que ele irá provocar muitas situações de injustiça – não me lembro, na história da Humanidade, de movimentos de reacção às injustiças que não tenham provocado também elas, situações de injustiça. Evocar isso, como pretexto para condenar esses movimentos, é apenas se não uma manifestação de apoio às injustiças, um apoio declarado à hipocrisia;
    2) sobre o “grande problema” que o Woody Allen está a enfrentar (https://en.wikipedia.org/wiki/Woody_Allen_sexual_assault_allegation), também não tenho muito a dizer…
    a) não creio que o rótulo de “génio” ou a tentativa de apresentar questão como, deve-se desligar a criatura da sua obra, até sejam argumentos que possam ser entendidos como sérios: a História da Humanidade está cheia de “génios” que, no seu campo de actividade, até se revelaram por cometer crimes contra a própria Humanidade (se os desconhecem, posso citar vários casos!) e sobre o «desligar o homem da sua obra» é como tudo: se ao menos o homem (ou qualquer um dos seus apoiantes) se desligasse da sua obra, eu até compreenderia o argumento!
    b) confesso que, no início, também não dei qualquer grau de seriedade às acusações de abuso sexual da Dylan contra o “génio” Allen que – e isto é essencial aceitar! – era, de facto, o seu padastro (algo que, como já disse antes, ele até passou a dizer que não que, nunca foi, não é e nunca será! Mesmo apesar de continuar a receber, aqui e ali, o apoio de outros filhos da Mia que, como ele diz, nunca foram deles! Serei eu uma espécie de aberração que acha estranho que uns não-filhos de um não-casal, de repente até se ponham a defender as posições do não-companheiro da madrasta, ie, do seu não-padrasto?), até ao momento em que li um artigo de um dos seus irmãos, Ronan Farrow (https://en.wikipedia.org/wiki/Ronan_Farrow), em que ele explicava uma série de questões que me conseguiram levar a perceber porque raio a Dylan, até na realidade só tinha o apoio da sua mãe, Mia, na sua “campanha”: https://www.hollywoodreporter.com/news/my-father-woody-allen-danger-892572.

    PS – li algures num comentário do PC a sua abordagem do caso do Ian Buruma. Uma vez mais, pouco tenho a dizer sobre o assunto… para além de que não me revejo na abordagem de “má língua” da mesma pelo que gostaria apenas de deixar uma ligação a um artigo de opinião que entretanto li: https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2018/09/resignation-new-york-review-books/563069/

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