
PARIS NÃO ERA UMA FESTA
A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz
«Na serra ou na cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito a ver se chega o meu.» (p. 211)
Andou meia vida a afiar a pena sarcástica contra os mais diversos sintomas da estagnação nacional, chegando a advogar a «invasão espanhola» pela boca de João da Ega, personagem lapidar d’ Os Maias. À beira do fim, contemplando a pátria distante do seu posto de exilado profissional como nosso representante consular em Paris, despede-se com uma emocionada declaração de amor a Portugal. Um romance em que trabalhou nos últimos anos, num labor contínuo, fazendo sua a divisa de Gustave Flaubert, o criador de Madame Bovary: «Le mot juste». Sem nunca desperdiçar uma oportunidade de encontrar a palavra exacta.
Essa obra que José Maria d’ Eça de Queiroz tanto foi cultivando como criador na última década de vida e viria a ser impressa só em 1901, ano subsequente à sua morte, é A Cidade e as Serras. Livro-testamento que já não pôde rever por completo (tinha pouco mais de metade do manuscrito corrigido ao falecer, na capital francesa) e descendeu de um conto, Civilização, publicado em Outubro de 1892 na Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro. Também esse conto girava em torno de um Jacinto, burguês endinheirado e roído pelo tédio. Também aí se gera um confronto entre a cidade como símbolo do mundo rendido à tecnologia mas cada vez mais distante da alma humana e o campo redentor, capaz de nos devolver aos valores essenciais. Sumia-se o Eça revolucionário, emergia o Eça bucólico e pastoril.
Mas o talento do escritor transparece, incólume, em cada linha. Logo na ficção curta, com o protagonista contemplando um entardecer sereno, «na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrando na simplicidade» da natureza enquanto as ilusórias conquistas da modernidade jaziam, imprestáveis, na sua abandonada mansão citadina, símbolo do «lixo da civilização» acumulado naquele final do século XIX.

A Casa de Tormes, desde 1990 sede da Fundação Eça de Queiroz
Tudo começa com uma epifania do escritor ao deslocar-se a Portugal, vindo de Paris, para tratar de questões relacionadas com uma propriedade que a sua mulher recebera em herança sem sequer a conhecer. Era a quinta e a casa de Vila Nova, situada na freguesia de Santa Cruz do Douro, concelho de Baião. Hoje sede da Fundação Eça de Queiroz.
Descrevendo-lhe em carta esse recanto do Baixo Douro em Maio de 1892, Eça não poupa em adjectivos, rendido aos encantos da paisagem: «O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso. Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo, que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. (…) É toda em socalcos. Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro.»
Elabora o conto em poucos meses. No ano seguinte, transforma essa experiência em material de maior fôlego, mudando Torges para Tormes: ia nascer A Cidade e as Serras, de parto atribulado, entre queixas persistentes do editor reclamando o manuscrito e as evasivas do escritor, que não cessava de burilar a prosa nos intervalos de textos para consumo imediato em jornais e revistas. Já não veria impresso o livro, parcialmente revisto por Ramalho Ortigão, seu velho amigo e cúmplice de lides literárias.

Eça alarga as fronteiras espaciais do conto, deslocando-o de uma urbe nunca identificada (embora se presuma ser Lisboa) para Paris, à época enaltecida como “centro da civilização” no seu esplendor modernista. Exercendo ali funções consulares desde 1888, conhecia bem a paisagem física e humana da Cidade-Luz, o que lhe permitia ser fiel à estética realista. Jacinto mantém-se sem apelido, tal como no conto: só nos é apresentado com nome próprio, embora oriundo de uma velha família fidalga, o que acentua o carácter simbólico da personagem, equivalente ao país que foi renegando as raízes, desnacionalizando-se.
É um romance construído em perfeita simetria: a metade inicial decorre em França, a segunda em Portugal com breve regresso do narrador a Paris quase no fim, sendo as duas partes intervaladas por uma divertida intromissão em terras espanholas, na mais famosa viagem de comboio da nossa literatura. Que culminará na entrada de Jacinto no país dos seus ancestrais, cruzando a fronteira em Trás-os-Montes.
Vinha acompanhado do melhor amigo e confidente, que ocupa o lugar de narrador omnisciente: Zé Fernandes, ou José Fernandes de Noronha e Sande – este sim, com apelidos, e simbolicamente natural de Guiães, topónimo que de algum modo o identifica como guia do amigo. Em Eça, nenhum pormenor é deixado ao acaso.
É ele também quem nos conduz desde as linhas iniciais: tudo quanto vemos e lemos, é através dos seus olhos e da sua pena. Jacinto surge sempre no primeiro plano, mas em segunda mão. Curioso protagonismo por procuração, como se a todo o momento criador e criatura se confundissem. Como se este Zé que nos orienta pelas páginas do romance mais não fosse, afinal, do que alter ego do escritor, José de nome próprio. Conferindo-lhe nota suplementar de autenticidade.
«O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.» Eis o parágrafo inicial da obra. Apresentando-nos de imediato a figura central, inseparável da presença tutelar do narrador.

É um Eça antigo e um Eça novo que aqui encontramos em simultâneo.
O primeiro, na deliciosa descrição da parasitária fauna social parisiense, que tanto inspirava a lisboeta. Juntam-se ao jantar na sumptuosa residência de Jacinto, situada no n.º 202 dos Campos Elísios, desfilando no magnífico capítulo IV do livro.
Lá estão «os dois homens de Madame de Trèves – o marido, Conde de Trèves, descendente dos reis de Cândia, e o amante, o terrível banqueiro judeu, David Efraim». E Joban, «o Supremo Crítico de Teatro», acompanhado de «um moço muito ruivo» com «perfil de periquito». Dornan, «etéreo poeta» neoplatónico e místico, de ar impassível «na sua majestade obesa». Psicólogos, académicos, especialistas em coisa nenhuma. Um tal Todelle, sempre com «o lenço muito perfumado», íntimo de «todos os enredos de Paris». Uma loura «de ombros tão nus, e braços tão nus, e peitos tão nus, que o seu vestido branco com bordados de ouro pálido parecia uma camisa a escorregar». Sem esquecer um «moço de penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento».
O segundo Eça, inesperado, é um escritor rendido ao singelo encanto do Portugal profundo, por antonomásia figurado nas Serras do título. O romancista já não sente fervor iconoclasta e anseia pelo retorno aos bens mais simples. Este contraste torna-se evidente em dois repastos: o sofisticado jantar dos Campos Elísios, tendo como convidado de honra o Grão-Duque Casimiro, e a ceia rústica improvisada em Tormes, com a mesa iluminada por «duas velas de sebo em castiçais de lata»: caldo de galinha com fígado e moela, arroz de favas, frango assado no espeto com salada recém-colhida da horta.
Duas das mais célebres refeições da literatura portuguesa. A de Paris culmina num episódio divertidíssimo, quando a travessa com o prato principal fica encravada no elevador que a conduzia da cozinha à sala. A do Douro converte o paladar de Jacinto, que abominava favas, à nossa gastronomia rural – cumprindo um ritual iniciático de ingresso físico na pátria espiritual. Já não madrasta, mas mãe extremosa. Como Ulisses voltando a Ítaca, segundo o paralelo traçado por João Medina, um dos maiores estudiosos da obra queiroziana.

Todos os grandes romances estão ancorados em momentos inesquecíveis. A Cidade e as Serras é fértil neles.
Desde logo, a descrição dos prodígios tecnológicos existentes na residência parisiense de Jacinto: o conferençofone, o teatrofone, o fonógrafo, o radómetro, o grafofone, o microfone, a máquina de escrever, a máquina de contar, a imprensa eléctrica (antepassada remota da internet), a fonte esterilizada para lavar os dentes, os ascensores internos. Vários dos quais o escritor viu pela primeira vez na futurista Exposição Universal de Paris, em 1889, quando ali foi inaugurada a Torre Eiffel, então o edifício mais alto do globo.
Depois, a memorável subida dos dois amigos ao alto de Montmartre, onde estava em construção a Basílica do Sacré-Coeur, cujas obras só terminariam em 1914. Lá de cima, como Moisés ascendendo ao Monte Sinai, Jacinto e Zé Fernandes contemplam Paris, filosofando sobre «o esterco vil que fecunda a Cidade», longe das loas que lhe cantam mil poetas: viam a capital do mundo como antítese da Terra Prometida.
Enfim o prodigioso capítulo VII, desenrolado em três países – e que só por si, desenvolvido, daria um romance inteiro. Com Jacinto a gritar: «Alea jacta est! Partamos pois para as serras!» Mas rematando, num derradeiro aceno ao Arco do Triunfo: «É muito grave, deixar a Europa!» (Edição BIS, 2015, p. 113). Depois, com ambos a bordo do comboio internacional, vão desfilando as estações. Passam Chartres, Orleães, Biarritz, Irún (já em Espanha) e Medina, antes de verem a inconfundível paisagem lusitana: um tanque «abafado de limos», abóboras no telhado, mimosas em flor.
Jacinto, atordoado: «Então é Portugal, hem?… Cheira bem.»
Zé Fernandes, em réplica: «Está claro que cheira bem, animal!»
Fatal como o destino: o impenitente citadino acaba rendido à natureza. Nada a ver com Paris: é outro espaço, é outro tempo.
Acaba até confundido com um prosélito do miguelismo, embora afiance à bondosa D. Vicência, tia de Zé Fernandes: «Minha senhora, sou socialista…» Forçando o amigo a explicar à idosa dama que socialista é «ser pelos pobres.» E logo a senhora suspira: «O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai também, e até amigo do Duque da Terceira…» (p. 204)
Outra cena inesquecível.
Apesar das imperfeições (nas pp. 76 e 165 diz-se que Jacinto possuía 30 mil livros, enquanto na p. 146 são mencionados 70 mil), é um dos melhores textos de sempre sobre a identidade nacional – nem sequer faltando alusões nada veladas ao sebastianismo. Devia ser de recomendação obrigatória como iniciação à leitura de todos os portugueses, começando pelos mais jovens.
Mas também tem seduzido estrangeiros. Numa crónica do El País, em Janeiro de 2017, Antonio Muñoz Molina confessava-se rendido ao fascínio deste romance que teima em não envelhecer. Nestas páginas – anota o escritor espanhol – Eça «tem a alegria do jovem Dickens dos Pickwick Papers, a desmesura cómica de Cervantes, uma perspicácia cirúrgica na observação social digna de Flaubert e Zola».
É um romancista crepuscular, muito diferente do cáustico Eça da juventude. Mas não menos talentoso. Legando-nos uma espécie de elegia benévola do Portugal eterno, que persiste para além do brilho evanescente de todas as modas.
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Anteriores textos desta série:
A Escola do Paraíso – Esta Lisboa de outras eras
O Anjo Mudo – Sem tecto, entre ruínas
A Tia Julia e o Escrevedor – Ouvir para crer
Os Teus Passos na Escada – O medo nunca morre
A Torre da Barbela – No reino dos mortos-vivos
A Selva – A grande muralha verde

Ler Eça hoje em dia torna-se um fastio. Somente nos revela que as folhas caídas regressam às origens.
Em tudo o mais que descreve nada mais é que o transpor do realismo para o moralismo. E isto é o retracto do Portugal real e moral. Nada de novo para o progresso que se insinua, se fosse este o desejo de Portugal e dos portugueses, que se dividem em iguais mostrando-se e descrevendo-se como diferentes; vivam onde viver: Paris, Lisboa, Hamburgo, New York…, na ribeira do Porto, nas encostas ou topos das serras, no Chiado ou na Buraca…
Creio não ter entendido o que pretendeu dizer, mas não tem mal.
Sim, tem razão, não é necessário entender Eça: “quando não se tem aquilo que se gosta é necessário gostar-se daquilo que se tem”.
Nunca li Eça. Vou fazê-lo.
Falo (escrevo) aqui do Brasil. Cheguei a este blog há poucos minutos, ao fazer uma busca no Google por ‘blog Portugal política’. Dos blogs listados em resposta a minha procura, escolhi este ‘delitodeopinião’, li algumas coisas, e abri os ‘delitos’ sobre A cidade e as serras, do Eça, e A escola do paraíso, de outro autor.
Gostei bastante das opiniões. Vou procurar o livro do Eça aqui no Brasil; o outro livro, A escola…, este com quase certeza não vou encontrar. Mas vou voltar ao blog de delitos para ler outras opiniões.
Viva, Edson. Obrigado pela sua visita e pelo comentário que aqui deixa.
Tenho a certeza de que gostará deste belo romance de Eça.
Diabo, esta tão certeira evocação deu-me um grande vontade de reler. Um romance que não está na fila, e portanto vai roubar o lugar a outras coisas. Ficas responsável por este atropelo.
Só posso congratular-me por tal atropelo, meu caro José.
Uma postagem a merecer o dia do livro. Gostei muito. Eça é um dos nossos insubstituíveis.
Sim, Bea, foi a minha escolha para o Dia do Livro. Como forma de incentivar a leitura.
Estes postais sobre romances são verdadeiro serviço público.
Confesso que não adorei ” A Cidade e as Serras”, achei-o demasiado citadino, que romanceava as Serras, para além de embirrar fortemente com o Jacinto. Provavelmente, li-o na altura errada ou não o percebi de todo.
Farei um esforço para o reler, pode ser que os anos de exilada profissional mo façam ver de outra forma. Mil obrigadas!
É bem possível, Marta. Dê outra oportunidade ao livro.
E obrigado pelas suas palavras.
Que delícia!!
Vou reler …
Verá que gosta. Talvez ainda mais do que da primeira vez. Eu já li três vezes – e fui gostando sempre cada vez mais.
Quando dou o programa de 11 ano (História, ensino secundário), esse é um dos livros que indico aos alunos para os trabalhos de articulação História/Literatura: )
Faz muito bem.
Este Eça de Queiroz passou a vida toda a escrever romances a dizer mal de Portugal. Chegado à velhice, regressa a Portugal e diz bem dele neste seu último romance.
Faz-me recordar o Pedro Arroja, que passou boa parte da sua vida a defender o liberalismo e depois, a partir de certa altura, passou a achar que Portugal até é um sítio excelente e se passou para o conservadorismo.
Lavoura, a sua – por aqui várias vezes peremptoriamente confessada – aversão a tudo o que tenha mais do que meia-dúzia de páginas (presumivelmente em corpo grande e valentemente espaçado), excepto talvez o que se ocupe da sua área profissional, bem como o estremecido empenho com que já por aqui se declarou indignado, desde logo como pai, pela maçada a que (em todo o caso, creio, maçada largamente formal; na prática passam de ano todas, ou quase) são sujeitas as criancinhas no estudo do que ainda resta de “humanidades” no nosso ensino – e escrevo “criancinhas” porque, quando se é jovem aos trinta e cinco anos, como parece ser coisa por cá dada por adquirida, é forçoso que se seja criança aos dezasseis ou dezassete (e bem depois) -, faz-me crer que você afirma isso que acima escreve com particular tacanhez e um qualquer ódiozito fundado em trauma antigo. E, muito naturalmente, com a mais sólida das certezas: a da ignorância. Reiterada e orgulhosa ignorância.
É um seu direito. Mas veja lá, não leia (não leia mesmo) A Ilustre Casa de Ramires. Dá-lhe uma coisa má. Ou talvez não, afinal: ainda encontraria aí a definitiva demonstração da sua lapidar visão da obra de Eça de Queiroz (e em todo o caso talvez a coisa lhe causasse tal comoção que lhe fizesse mal). Eça de Queiroz que, diz você, “passou a vida toda a escrever romances” e, calcule, escreveu ainda muito mais: contos sublimes, textos preciosos publicados na imprensa do seu tempo (as Farpas, ainda nas primícias, as Cartas de Inglaterra e as Crónicas de Londres, por exemplo); que na sua função de cônsul cumpriu com verdadeira arte a mais enfadonha obrigação de reporte; que tem momentos verdadeiramente superiores na correspondência (do que dela nos chegou, ou se entendeu revelar) com sua mulher e filhos.
Este “post” que aqui nos trouxe, a si gerou a reacção que achou dever revelar-nos. A mim fez voltar ao meu exemplar d’A Cidade e as Serras, da décima edição da Chardron, de 1926. Quase centenário, é verdade, já impresso, é de crer, na grafia resultante da Reforma Ortográfica de 11 de Setembro de 1911, alterada, é também de crer, pelo disposto na portaria 2:553, de 29 de Novembro de 1920. Não já aquela, então, que o autor empregou, mas inquestionavelmente bem mais culta e fundamentada do que a mixórdia que por estes dias se ensina, se impõe, se segue com cretina submissão e que você tanta gala faz em louvar. Mas, seja qual for a ortografia nele empregue, tantos anos depois é para si e na melhor hipótese decrépita. São-no, grafia e obra.
Para mim, não. Pego nesse livro, bem mais velho do que eu e que me chegou às mãos, há vinte anos, como um muito estimado legado, livro desgastado, considerável e dignamente envelhecido (foi usado, com ele aconteceu o que é suposto acontecer com um livro; talvez com algum cuidado a menos, mas afinal o que é suposto acontecer a um livro), exigindo um especial pudor no seu manuseio; o livro pelo qual reli nessa altura essa obra, depois de uma sua primeira leitura na adolescência, numa – digamos então usual – edição da Livros do Brasil, encorajado por meus pais e por um professor liceal que o era por verdadeira vocação. E não sei se nele me lance a uma nova leitura ou se respeitosamente o poupe. O devolva carinhosamente ao seu lugar na estante e peça a meus pais esse outro exemplar da minha primeira leitura. Ou vá comprar um.
Em todo o caso impõe-se voltar a um dos alicerces da minha paixão pelo Douro. E se fosse por aí excederia certamente o limite de caracteres destes comentários.
Por coincidência, a primeira vez que li “A Cidade e as Serras”, com 15 anos, foi precisamente num exemplar dessa mesma edição herdado do meu avô paterno. E que ainda conservo, como preciosa dádiva.
Quanto ao Lavoura, sugere-me um cruzamento entre o Pacheco, do “Fradique Mendes”, e o Eusebiozinho, inolvidável personagem desse chatíssimo romance intitulado “Os Maias”.
Isso é efeito secundário da vacina Astrazeneca, balio?
Já tomou a segunda dose?
A Cidade e as Serras deve ter sido o primeiro livro de Eça que li, seguido de Os Maias e a Ilustre Casa, todos seguidos (antes de precisar de ler o segundo no liceu). Conservo as passagens e momentos mais importantes, as personagens mais marcantes e as frases mais memoráveis. Por outro lado, lembra-me que não conheço a Fundação Eça, onde aliás ele (ainda) está sepultado. É curioso olhar para os prodígios da tecnologia descritos no ambiente cosmopolita parisiense de então e compará-los com o igual entusiasmo que se observa hoje em dia pela mesma tecnologia, e pensar que nem isso impediu o mundo de anos mais tarde entrar em duas guerras mundiais, em que Paris, precisamente, se viu quase no epicentro. De qualquer maneira a acção passa-se após a guerra franco-prussiana, numa altura em que se vivia em relativa paz e grande optimismo.
Deixaste-me com uma dúvida: Jacinto nasceu em Portugal? A ideia com que tinha ficado é que os Jacintos nunca mais tinham regressado desde o exílio voluntário do avô “Galeão” para Paris. A propósito, a travessa da Trabuqueta, que surge logo no início com o encontro do Galeão com D. Miguel, ainda lá está, em Alcântara.
Tens razão, João Pedro. Jacinto nasceu no próprio 202 dos Campos Elísios, onde residia em Paris. O avô “Galião” acompanhou D. Miguel no rumo do desterro, permanecendo fiel ao monarca absolutista:
«Também cá não fico! Também cá não fico!»
E fechou o casarão da Pampulha, em Lisboa, rumando a Paris. Onde viria a morrer de indigestão após um copioso repasto de lampreia de escabeche.
Nascido ainda em Portugal foi outro Jacinto, o filho do “Galião”. Eça descreve-o brevemente assim:
«(…) o Cintinho, menino amarelinho, molezinho, coberto de caroços e leicenços.» Ao crescer, tornou-se «mais esguio e lívido que um círio».
Este segundo Jacinto, o Cintinho alfacinha, é que seria o pai do Jacinto protagonista do romance, tendo falecido três meses e três dias antes do filho nascer.
Tinha essa mesma ideia, a de que Jacinto entrou pela primeira vez em Portugal na atribulada viagem de comboio. Essa descrição do Cintinho lembra um pouco a de Pedro da Maia. O modelo devia ser o mesmo, tirado do romantismo pelo qual Eça não tinha uma simpatia por aí além.
Eça viveu até aos 5 anos praticamente ignorado pelos pais, tendo sido criado pelos avós.
Isso reflecte-se – e de que maneira – em personagens dos seus romances. Não é raro serem órfãos e viverem com avós. Como acontece n’ Os Maias, n’ A Tragédia da Rua das Flores e neste romance. Sem esquecer o Raposo, d’ A Relíquia, que vivia com a tia.
E o Artur Corvelo, de A Capital, outro órfão criado pelas tias que vai para Lisboa carregado de sonhos. Um pouco como Eça, quando lá chegou depois do curso em Coimbra (e também a primeira vez que viveu com os pais e irmãos).
É verdade, João Pedro. Daí a tentação que tantos dos seus biógrafos seguiram – começando pelo Gaspar Simões, em 1945 – de analisarem a obra de Eça à luz das teses de Freud.
Neste caso tão singular, porém, não se tratava apenas de “matar o pai”, seguindo o destino de Édipo. Eça também “matou a mãe”, simbolicamente, em todas as mulheres que desenhava ou esboçava nos seus romances: umas eram megeras, outras devassas.
O menino José Maria era um caso singular: nascido “de mãe incógnita”, conforme consta do registo de nascimento, embora isso se devesse apenas a convenções da época.
A verdade é que o marcou para sempre. E – consciente ou não disso – ele vingou-se nos livros que foi escrevendo.
Excelente publicação, Pedro! Abriu-me o apetite para relaxar a Cidade e as Serras. Eça nunca passa de moda e é sempre um prazer revisitar Paris e Tormes.
Foi uma das minhas numerosas “leituras antivírus” do ano que passou, Dulce.
E produziu magníficos resultados. Como uma forte vacina anti-confinamento. Com Eça viajamos sempre, no tempo e no espaço.
Para que as questões raciais ou outro tipo de preconceitos não sejam ignorados não será melhor anexar à obra uma introdução pedagógica ( tipo bula de medicamentos) como sugere a Associação de Professores de Português?
Assim antes do leitor ler a obra já ficava com a noção dos seus efeitos secundários. E quem lê o Eça arrisca-se a ficar com graves sequelas.
Você brinca, mas muita gente na Net é incapaz de entender qualquer exercício de ironia, levando tudo a sério.
Não se admire de haver quem pegue nessa sugestão e tente pô-la em prática.
Já nada me admira, para mim é o princípio de Peter em acção, e em todos os ramos da sociedade.
Pois.
Se Eça e Camilo, no sec 19, os hei como favoritos – no sec XX, são José Gomes Ferreira, José Rodrigues Migueis, Aquilino Ribeiro, Júlio Dantas, António Lobo Antunes.
Tenho os meus favoritos no século XX português. Na prosa: Castro, Miguéis, Vergílio, Sena. Além do grande Aquilino, claro. Enorme.
Acabo de escrever sobre Aquilino aqui: randes-romances-35-12639586
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/g
Excelente texto, Pedro, também ele uma delícia de leitura.
«na mais famosa viagem de comboio da nossa literatura» – tal como outros momentos, inesquecível, essa viagem, em que tudo se torna mais rústico e primitivo, à medida que as personagens se aproximam da Península Ibérica, com um Jacinto bem assustado desde o início:
«- Que aventura, Zé Fernandes!»
(estou a citar de cor, não leio o livro há muito tempo; mas, em obras-primas, há pormenores e frases que não se esquecem).
Obrigado, Cristina. Este é um romance a que regresso sempre com imenso prazer. Desde logo por ser uma profunda declaração de amor a Portugal, subscrita pelo “estrangeirado” Eça. O mesmo que anos antes reclamara a invasão espanhola.
por acaso a primeira parte do post, já conhecia, pois ouvi na radio um programa de uma visita a essa casa.
Hoje o tema é o Eça.
Noutra ocasiao terei a oportunidade conhecer o que diz o Pedro do campo e da cidade, no tempo presente.
Sim, claro.
Grande texto, Pedro! Parabéns! Vai-me levar, amanhã, aí à 12ª ou 13ª releitura de A Cidade e as Serras.
É um gosto imenso fazer parte desta tribo – felizmente vasta – de apreciadores do excelente romance póstumo de Eça, meu caro. Com esta obra, a literatura portuguesa do século XX começava da melhor maneira, logo em 1901.
Melhor romance dessa década inicial, a léguas de distância de qualquer outro, e um dos dez melhores romances portugueses do século.
Grato pelas suas palavras amigas.
Parabéns pelo seu trabalho de análise. Gostei muito. Saúde!
Muito obrigado, caro Francisco. Votos de boa saúde para si também.