
NO REINO DOS MORTOS-VIVOS
A Torre da Barbela, de Ruben A.
«Tinha que acreditar no mundo do impossível e mover-me lá dentro com os arrepios da tragédia colectiva.» (p. 262)
Tradição e modernidade. Cosmopolitismo clássico e absurdo contemporâneo. Vistas largas, contemplando a História, mas satirizando gestas patrioteiras na estreiteza do presente.
Tudo isto se conjuga nas páginas d’ A Torre da Barbela, título fundamental da nossa ficção literária do século XX, capaz de questionar a identidade nacional até aos alicerces com tintas surrealistas mescladas de prosa barroca, cruzando arcaísmos com neologismos sintácticos e vocabulares. Enquanto desperta sorrisos no surpreendido leitor.
Este romance nasceu da paixão simultânea de Ruben Alfredo Andresen Leitão (1920-1975) pela investigação histórica e pelas terras encantadas da Ribeira Lima que o levaram a estabelecer residência de Verão na aldeia de Carreço, a norte de Viana do Castelo. Fantasia e factos harmonizam-se aqui em comunhão perfeita. Precedendo em duas décadas a vaga imparável do romance histórico e antecipando o próprio “realismo mágico” que Gabriel García Márquez celebraria três anos depois, com Cem Anos de Solidão.

Cultor de paradoxos, Ruben associa lendas e trovas medievais a inovadoras técnicas romanescas neste livro inimitável – inventando palavras, suprimindo a cronologia, impondo anacronismos. Mas sem nunca perder o fio à meada. Aqui rebela-se contra «um destino embebido de fatalismo» enquanto declara amor a Portugal, onde tantas vezes se sentiu estrangeiro. Acabaria por morrer em Londres, ficando sepultado em Carreço por seu pedido expresso.
Nas palavras do autor, A Torre da Barbela «é o drama lírico da raça portuguesa através de oito séculos de história pátria, com altos e baixos, amores e ódios, mortes e vidas, dias e noites, inteligentes e estúpidos».
Situada na margem esquerda do Lima, entre Vitorino das Donas e Paço de Vitorino, a fictícia Barbela é «a única torre triangular da Península Ibérica» cuja existência remonta aos tempos da fundação da nacionalidade, sendo-lhe agregado um solar seiscentista. De dia, rondam ali turistas seduzidos pelo panorama e pelo património. Mal a noite cai, os corpos dão lugar aos espíritos: fantasmas de séculos diferentes unidos por laços de parentesco abandonam pedras tumulares e convivem em surreais e catárticas sessões de cavaqueira. Pura reinvenção do microcosmo lusitano: é como se víssemos Portugal deitado no divã do doutor Freud.
«Do alto daquela Torre, outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, seiva virgem de uma nação. Toda a História se abria com a paisagem.» Eis a Barbela, apresentada nas páginas iniciais. Paredes ainda intactas, mas já sem fidalgos lá dentro.
Os donos contemporâneos, vivendo longe, mal a visitam. «Dos Barbelas nem cheiro. Nada. Apenas um caseiro papagueando frases» aos visitantes que a demandam.
Um deles, africanista com fortuna argamassada em Angola, propõe-se comprar aquilo: «Rapo da carteira e pago já! (…) Vai tudo abaixo. Mesmo a Torre, para que é preciso isso? Ainda queria que me explicassem essas coisas da História. Para que é que serve? É preciso é milho, feijão, porco, angolares, comprar enquanto o escudo está desvalorizado, comprar tudo. Eu cá tratarei de transportar este monumento nacional para outra banda. Ficava bem em Campo de Ourique onde tenho lá uns prédios de rendimento.» (p. 318)

A vida verdadeira é a vida de fantasia, iniciada «todas as tardes, ao cair do crepúsculo», quando dos sarcófagos emergem o Cavaleiro da Barbela, gabando-se de ser «a pessoa mais lendária do mundo», e Dom Raymundo, primo colateral de Dom Afonso Henriques e trovador medieval, alvo da paixão de sua prima, a beata Dona Urraca, «alucinado a dar ordens gagás a quem lhe passava ao largo».
E a bela Madeleine, do ramo francês da família, em visita de férias ao Alto Minho, onde vai sobressaltando corações. E Dom Mendo, «o primeiro nauta dos Barbelas a dobrar o Cabo da Boa Esperança». E Dona Mafalda, habituée dos chás galantes do século XVIII. E a princesa Brites, que «tinha sido célebre no século XIX», imortalizada num busto de Rodin. E o menino Sancho, morto-vivo prematuro, putativo filho do Abade de Moutosa. E a esbelta Dona Mafalda, que terá sido favorita de Dom João V. E os aventureiros Dom Pero e Dom Payo, «mal chegados da viagem à Índia e às terras do Prestes João».
E há uma bruxa a infundir receios ancestrais. E até um bobo castrado, oriundo de Itália.
Sem esquecer o fantasma mais recente, o Dr. Meirinho, «conhecido nas listas de admissão à Universidade de Coimbra como Ramiro Barbela de Souza Moutinho e Silva Mayor, visconde da Ponte Seca». Protótipo do burocrata do Estado Novo, que se gaba de não ter lido um livro desde o último dia de aulas: «Tenho no meu palmaré 724 horas de aeroporto. Inaugurações, homenagens – e isto nos meus cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco anos de posse no respectivo cargo.» Dotado de uma vacuidade sem mácula, especialista em coisa nenhuma: «Escrever discursos de inauguração e agradecimento, ir às diversas províncias e recomendar a prática mais consentânea em qualquer grave emergência. Condecorar. Programar. Anunciar.» (p. 48) Alma gémea dum Acácio ou dum Pacheco, faz questão de proclamar: «Aqui, ou em qualquer parte, eu não transijo com os princípios morais que me foram transmitidos pelos meus maiores. Perante o perigo a intransigência, perante a ordem o bem comum.» Em óbvia paródia à retórica oficial do salazarismo.
Os tempos históricos vão-se alternando através destas vozes dispersas, protagonistas de uma exuberante sinfonia coral: «Era o inédito que se apoderava daquele grupo de pessoas da família Barbela. Para eles, o criar inédito era o dia a dia.» Naquele país de sessenta, «onde os mortos são vivos e os vivos são mortos», como assinalou com argúcia o ensaísta Mário Sacramento, cultor do realismo social rendido a esta arcaica trama romanesca que não cessa de piscar um olho aos tempos modernos.
Surgida num país aprisionado, A Torre da Barbela é também um grito desassombrado contra o cinzento destino pátrio, aqui simbolizado no Cavaleiro, supostamente inspirado no poeta Ruy Cinatti, um dos amigos literários do autor. «Bem ou mal, queria a sua liberdade. Foram séculos de cumprir certinho e bem educadinho uma vida de empastelamento sem lhe perguntarem o que queria ou o que pensava. Não suportava mais essa independência animal, essa vida de cavalariça histórica que lhe impingiam rotineiramente.» (p. 216)
Mortos ressuscitados, vivos mumificados, espectros reais introduzindo-se numa história povoada de fantasmas – proeza invulgar na nossa literatura. Originalíssimo retrato metafórico da megalomania lusa, alternando com ciclos depressivos nesta nação tão ciclotímica.

Foi um romance com vida atribulada: enfrentou a recusa inicial de nove editoras antes de ver a luz do dia, em 1964. Havia ali vanguardismo a mais para a proverbial miopia das elites portuguesas: a Arcádia fechou-lhe a porta, com «parecer desfavorável à sua publicação». O mesmo fizeram a Europa-América e a Dom Quixote, por exemplo.
Acabou por vir a público com a modesta chancela da Livraria Portugal. Em 1966, receberia uma distinção tardia mas retemperadora: o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, que anos antes distinguira Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio e Fernando Namora, entre outros nomes consagrados.
Se há livros que permanecem imunes ao desgaste do tempo, este é um deles. Ruben A. Leitão, que nos legou esta obra-prima e é hoje nome de modesta rua lisboeta, viveu poucos anos mais, espartilhado entre uma ditadura que detestava e uma revolução que cedo o desiludiu com o seu credo extremista. David Mourão-Ferreira traçou-lhe um justo epitáfio em forma de bilhete-postal impresso na fotobiografia O Mundo de Ruben A. (Assírio & Alvim, 1996): «Chegar, partir: que outros verbos conjugaste mais amiúde? Daí a preocupação de pouco peso na bagagem, até mesmo no passaporte. Uma só letra servia-te de andaina e de apelido. Mas era – tinha de ser – a primeira do alfabeto.»
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Anteriores textos desta série:
Os Maias – O século XIX aqui tão perto
Sinais de Fogo – Do amor e da guerra
A Escola do Paraíso – Esta Lisboa de outras eras
O Anjo Mudo – Sem tecto, entre ruínas
A Tia Julia e o Escrevedor – Ouvir para crer
Os Teus Passos na Escada – O medo nunca morre

Comparando o grafismo genial da capa da 1ª edição com a tristeza iconoclasta das edições seguintes (agora há uma 3ª edição em acordês) vale a pena perguntar: o que mais se terá perdido entretanto.
Há cada vez capas piores. Passou o tempo dos ilustradores talentosos ou mesmo geniais – um Sebastião Rodrigues, um Bernardo Marques, um Cândido Costa Pinto, um João Câmara Leme, um Paulo Guilherme, um Lima de Freitas, um Armando Alves, um João Botelho…
Agora vigora o produto industrial, o “banco de imagem”, a chapa cinco.
Este romance teve, de facto, uma excelente capa na edição original – aqui reproduzida. Na década de 80 houve outra muito boa, da editora Distri, já desaparecida.
Dizem-me que circula agora uma versão, dos Livros do Brasil, redigida em acordês
– português adulterado. Nem pensar em recomendar tal coisa. Sugiro esta, da Assírio & Alvim, escrita como Ruben A quis e fez.
Data de 2005 mas creio haver reimpressões mais recentes.
Muitos desses ilustradores não eram os ilustradores/designers que fazem uns bonecos no Illustrator. Eram pintores ou desenhadores consagrados, muitos deles professores de Belas-Artes ou da Escola António Arroio como Lima de Freitas ou Querubim Lapa. Não é saudosismo — é uma questão de atelier. Da envergadura do próprio trabalho.
Concordo. E deixo aqui a promessa de lançar uma série sobre capas e desenhadores/pintores/ilustradores que tanto valorizaram os livros em Portugal durante décadas.
Merecem ser lembrados.
Muitas das capas eram feitas por pintores anónimos e que ganhavam à tarefa.
Cheguei a trabalhar para a Agência Portuguesa de Revistas. Fazia capas para o Mundo de Aventuras, fazia títulos e traduções. Era tudo pago à unidade. Ainda me lembro que pagavam por cada título vinte escudos. As traduções eram pagas à página. Velhos tempos, boas recordações.
Bem me lembro dessas capas do Mundo de Aventuras. Todas muito chamativas e coloridas. Atingiam o público-alvo, de que eu fazia parte.
Já tinha ouvido falar deste título, mas não tinha lido nada sobre ele. Deixaste-me intrigado! Já sei o que procurar na edição deste ano da Feira do Livro.
Podes crer que é um dos romances lapidares do século XX em Portugal, João. De um escritor que nunca caiu nas boas graças do regime, à época, nem integrava as capelinhas da oposição “oficial” no plano estético, dominada pelo realismo social com hegemonia comunista.
Ruben A permaneceu nessa espécie de terra de ninguém e foi silenciado por causa disso.
Se não estou em erro, as capas dos Livros do Brasil (aquelas todas iguais da Colecção Mundo — acho que era o nome…) foram desenhadas originalmente por Querubim Lapa. Não eram assim nada de especial mas tinham um arzinho.
A nova edição de A Torre de Barbela acho que tem uma fotografia ou uma coisa assim com ar de close-up de uma gravura. Não cheguei a ver com atenção porque assim que reparei que aquilo estava tipografado em acordês o livro começou a queimar-me as mãos e apareceu o Demónio e tudo. Minto, era um turista tatuado.
Esta série mais recente dos Livros do Brasil pretende recriar o grafismo da antiga Colecção Miniatura (da mesma editora, ainda com o seu proprietário histórico) concebido pelo pintor Bernardo Marques. A ideia é boa, mas sou incapaz de recomenda-la por surgir com escrita adulterada. Vale a pena, sim, ler as obras da colecção original que ainda se encontram nos alfarrabistas.
Sim. Fui ver alguns livros que tenho aqui… A colecção grande era a Dois Mundos (tinha os romances, etc). Depois havia a tal série com uma espécie de “frontão” latino, que eu penso que foi desenhada pelo Querubim. Era normalmente para ensaios e ficção alternativa: Borges e Camus, por exemplo, estavam nessa colecção que não tinha nome. Depois havia pelo menos 3 colecções de livros de bolso: essa que referiu, a “Miniatura” (que usava fotos estampadas); a de ficção científica (as capas do Philip K. Dick são memoráveis, eram acinzentadas e tinham uma espécie de moldura redonda numa cor “arrojada”, magenta ou azul eléctrico); e por fim a fabulosa Colecção Vampiro que tinha vários artistas a trabalhar nas capas, quase todas impecáveis. As novas re-edições, também em acordês, não lhes fazem justiça.
O problema dos Livros do Brasil era mesmo as traduções, às vezes o mesmo livro era traduzido por 2 ou 3 pessoas diferentes. Disseram-me, nunca fui verificar.
Conheci pelo menos dois desses tradutores. Um deles era pago à tarefa: em 15 dias traduzia um policial para a Vampiro, noutros 15 dias traduzia um de ficção científica para a Argonauta. Dava muito traquejo, seguramente. E algum dinheiro.
Grande romance é o publicado hoje. 7 anos a escrever, nem os russos fizeram tais calhamaços.
Isso é outra conversa, nada tem a ver com o tema que trago aqui.
É um livro assustador…
Um livro intemporal. Talvez algo assustador também.
Gostei do texto. Fiquei curiosa. Vai para a lista dos próximos livros.
Gostei muito, Susana. É um livro que exige muita atenção e disponibilidade do leitor. As primeiras 50 páginas devem ser lidas mergulhando totalmente nesta escrita, sem dispersão por outras tarefas.
Depois ficamos rendido ao tema e ao estilo – e torna-se mais fácil conviver com estas personagens surreais que de algum modo representam o Portugal de sempre. Entre magníficas descrições da paisagem da Ribeira Lima, de que tanto gosto e a que tanto estou ligado. E também aparece Viana, que sempre será uma das “minhas” cidades.
👍🏻
Eu tive uma fase em que só lia escritores portugueses. Depois passei a ler apenas escritores internacionais de século XX. Depois livros de autores ingleses do século 18 até meados do século XX na língua original. Depois literatura infantil-juvenil. Agora tenho sentido a falta de literatura em língua portuguesa novamente. Mas não sou fã dos escritores contemporâneos. Até leio, mas raramente me marcam a alma. Ferreira de Castro e Rentes de Carvalho foram duas excepções. Vou ver se encontro este Torre de Barbela na biblioteca. 🙂
Por espantosa coincidência, que assinalo com gosto, tenciono escrever sobre esses dois escritores nos próximos textos desta série.
Tenho de ler esta Torre da Barbela e os O Mundo à Minha Procura. Bem lembrado, Pedro, de um autor (também do nome PPD) que teria feito cem anos em 2020 e cujas comemorações foram adiadas, como tudo o resto, por causa da pandemia. Por razões geográficas, e mesmo toponímicas, de amizades e até arquitectónicas (ainda hoje falei com o autor do livro “A casa Ruben A”) é um autor que me é próximo mas de que desconheço a maior parte da obra. E agora vim a saber que a Torre que dá título ao romance se passa em Vitorino das Donas, onde já estive várias vezes – o Paço em questão é agora um hotel rural. Está visto, tenho mesmo de pegar no Ruben A.
Verás que não te arrependes, João Pedro.
Começa por “O Mundo à Minha Procura”, a autobiografia dele, em três volumes. Uma das melhores obras de memórias que li desde sempre. Lê-se muito bem. E um portuense como tu tem motivos acrescidos para gostar ainda mais dela, como verás.
Quanto à “Torre da Barbela”, talvez um dos dez melhores romances portugueses do século XX, o silêncio generalizado em torno desta obra só pode explicar-se pelo facto de Ruben nunca ter integrado capelinhas políticas ou literárias, dessas que cultivam e promovem as celebridades prontas-a-servir, de emblema na lapela. Mas estou convicto de que será um livro que vai resistir ao teste supremo, que é o teste do tempo.
Ainda por cima vivo perto da actual rua Ruben A (também há uma em Lisboa, ao Príncipe Real, onde ele morou), que segundo me contam surge em O Mundo à Minha Procura com o antigo nome de viela do Sobreirinho, e que também fica perto da sua antiga casa Andresen.
Há episódios posteriores também dignos de nota, que já não aparecem n´O Mundo…Por exemplo, a viagem, nos anos 50, num London Cab que ele tinha adquirido, de Londres à casa de Carreço, passando por Paris, Chatres e Bordéus. Na fronteira com Portugal, a guarda perguntou:”os senhores são portugueses ou estrangeiros?” Resposta de Ruben, em bom português: ” somos estrangeiros”. “Façam favor”, respondeu logo o guarda. Devia ser o autêntico Grand Tour.
Por coincidência (chamemos-lhe assim) também eu trabalhei durante cinco anos na Rua Ruben A Leitão, embora em Lisboa – ao Príncipe Real.
Uma espécie de sinal do destino. E nessa rua conheci também grandes nomes das letras portuguesas. O poeta Ruy Cinatti, por exemplo.
Se ainda não conhece “Um adeus aos deuses” recomendo-lhe vivamente. Venho de o ler. É um relato, vagamente surrealizante, de uma viagem à Grécia – pleno de humor, e de um virtuosismo verbal e imagético como é raro encontrar seja em que língua for. É de 1963 pelo que não seria de admirar se a viagem e o relato tivessem sido uma fonte de inspiração para este da Barbela. Vou reler “A Torre de Barbela”.
Não conheço ainda. Agradeço-lhe a sugestão. E não me espantaria que houvesse relação entre um livro e outro, dada a proximidade temporal.
Ruben A é, para mim, um dos grandes escritores portugueses do século XX. Pena ter morrido tão cedo, com apenas 55 anos.