É preciso é que a bola role


Pedro Correia,

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Recomeça hoje o mais estranho campeonato nacional de futebol das nossas vidas. À porta fechada, como se as bancadas dos recintos desportivos, ao ar livre, fossem perigosíssimos focos de contágio. Isto quando o Governo já autorizou a reabertura de centros comerciais.

Um campeonato que esteve parado quase três meses, que tenta mudar as regras da competição a meio como se isso não atentasse contra a elementar ética desportiva. Com uma equipa açoriana a jogar voluntariamente muito longe de casa, transformando numa farsa o discurso contra a macrocefalia lisboeta. Com a perspectiva inicial de se disputar “no menor número possível de estádios”, que começaram por ser apenas nove mas que afinal serão dezassete. Tudo e o seu contrário sempre a pretexto do novo coronavírus.

 

Um futebol que assume o divórcio compulsivo entre jogadores e público, embora ainda lhe chamem espectáculo, apesar de proibirem sócios e adeptos de frequentar as bancadas dos seus estádios, enquanto se permite que a malta acorra ao Campo Pequeno para aplaudir o humorista Bruno Nogueira, com a complacente presença do primeiro-ministro. 

E a gente, do lado de fora, aplaude também. Cada vez menos cidadãos, cada vez mais súbditos deste Estado em incessante produção de decretos e portarias desdizendo numa semana o que dissera na semana anterior e vai tolerando chocantes excepções, até ao alegado “estado de emergência”, enquanto proclama o primado da igualdade perante a lei.

 

É preciso é que a bola role sobre a relva e que a gente se entretenha de olhos fixos na pantalha. Todos embalados na cantilena do “novo normal” com o estribilho “vai ficar tudo bem” a servir de placebo enquanto nos dias pares se grita às pessoas para recolherem a casa (e se for preciso encerram-se em “cerca sanitária”) e nos dias ímpares se estimula as pessoas a saírem de casa e “consumirem” seja o que for com o dinheiro que deixaram de ter.

Que soe o apito inicial. Quero lá saber do “desconfinamento”, estou-me nas tintas para a “curva exponencial”, tenho raiva a quem sabe o que é uma zaragatoa: quero é bola. Eis-me pronto a trocar o estádio pelo sofá, em festiva celebração do “distanciamento social” – expressão que todos usam sem fazerem a menor ideia do que significa.

Até já estou de cachecol, apesar do calor. E se a Senhora Directora-Geral da Saúde mandar, assisto obedientemente aos jogos em casa de máscara e luvas, como faz agora o Senhor Presidente quando frequenta um restaurante para mostrar aos portugueses como este doce país se tornou muito mais seguro com ele ao leme.

50 comentários em “É preciso é que a bola role”

  1. Acredito que até ao fim do campeonato esteja público nas bancadas.
    O Salvador já o referiu de mansinho, outros se seguirão, e consoante a pressão, a DGS e Governo (ou será Governo e DGS?) irão ceder, isto depois de analisarem, estudarem e concluírem que não prejudica a curva ter um estádio a 2/3 da sua lotação (o que para 90% dos jogos é uma enchente).
    Entretanto, as federações das modalidades de pavilhão ainda estão a estudar… 2020/21. Sim, ninguém faz a mínima ideia de como correrá, se correr, a próxima (a PRÓXIMA) temporada.
    Nós, vamos andando entre um fique em casa, e um saia e compre coisas.
    Já se percebeu que, numa economia em que o motor é o consumo, a gasolina dos próximos meses vai ser o portuga. Os transportes, a restauração, o comércio, com o êxodo dos estrangeiros, têm de ser sustentados pelo consumo dos nativos. Desde que estes lavem as mãos e mantenham 2 metros para o patriota seguinte.
    Gostaria de saber a actual opinião daqueles que, nas últimas semanas, nos foram vendendo a bondade do ar puro, das águas límpidas, e dos veados a passearem nas praças urbanas, sobre o impetuoso regresso do carro, da fila de trânsito, das filas para o barco, dos aglomerados de peões à beira da passadeira. E quão satisfeitos estão o Medina e o Costa com a diminuição da emissão de gases para atmosfera nestas últimas semanas. E se compensam a queda de receita nos imposto sobre os combustíveis, que tanto jeito dão para pagar os layoffs.

    1. Ou não. Se o Porto empata e o Benfica ganha, amanhã surge um comunicado a dar por terminada a prova, por falta de condições. Sagra-se campeão o actual primeiro classificado.

    2. Depois das ideias estapafurdias, como a dos semáforos nas praias e os restaurantes só com um terço da lotação, agora já abre quase tudo.
      Teatros, cinemas, museus, creches, aviões, restaurantes, salas de concerto, centros comerciais…

      Só os estádios de futebol continuam interditos. Uma perfeita estupidez. Que conta com o aplauso acéfalo da “imprensa desportiva”, que faz mais vénias ao poder que nunca.
      Ninguém se atreve a contestar isto.

  2. E neste lento martírio onde a minha juventude se finava, veio a redondinha ligeira como uma sílfide lançar-se para os meus braços.
    As regras foram adulteradas? E depois? Desde quando elas foram respeitadas?
    Desde que um célebre jogo teve intervalo de um mês, falar de regras é de uma ingenuidade confrangedora.

      1. Deve ter sido a cunha, deve.
        De outro modo como se explica terem varrido o Barcelona num ano, e o Real Madrid imediatamente a seguir, no outro.

    1. Também houve um jogo que só não teve um mês de tempo de compensação, porque uma determinada equipa marcou golo, senão….

  3. Oops, o texto inicial foi colocado sem terminar, as minhas desculpas.

    Hoje um equipa a reparar um esgoto, os trabalhadores estavam todos quase uns por cima uns dos outros por necessidade do trabalho. Só um estava com máscara. Uma mulher.

    lucklucky

    1. O que me interessa saber, o resto passo a quem queira inflamar o assunto, portanto o que me interessa saber nessa amálgama de trabalhadores e uma trabalhadora uns por cima dos outros, qual a posição da trabalhadora.
      Estava por cima ou por baixo?

      1. Pronto! Lá tinha de vir um anónimo metamorfosear o futebol em pornografia.
        Não que não possa. Tanto pode que pôde. Mas de uma maneira mais subtil e enviesada de molde a enaltecer e não denegrir os actores

    2. O que faz um esgoto, na mente humana, começam logo as fantasias.
      Um ajuntamento de homens a molhada abeirados aos pés de uma mulher mascarada.

      1. Vejam só, então não é que o C e o V ficam mesmo juntos no teclado?
        Não gosto de futebol. Já gostei. Mas depois aconteceram coisas feias no Sporting, no Benfica, no Porto, na FIFA, os políticos meteram-se no meio, há confrontos regulares entre claques mafiosas, estações de serviço vandalizadas, espectadores mortos e “cânticos” especificos para comemorar isso. Parece mais uma gigantesca máquina de lavar dinheiro do que desporto.
        E há fanáticos. Muitos. E não gosto de fanáticos de coisa alguma, seja ela os Beatles ou o Islão.
        Há outros desportos. Não parece, porque as secções de desporto de tudo e mais alguma coisa só falam de futebol, mas há.
        Já gostei de futebol, mas depois acho que cresci e tomei algum juízo. Tenho mais que fazer.

        1. António a 03.06.2020 às 21:13

          Coisas feias, mas também acontecem coisas bonitas.
          O que se passou ontem em Famalicão foi de uma beleza indescritível, plenitude de beleza futebolística.

          1. Li agora que o autocarro do Benfica foi apedrejado. Não sei onde nem me interessa ler a notícia. Coisas belas…

  4. Os bimbalhas já estão radiantes preparando ajuntamentos ilegais em casebres de má reputação, com o seu garrafão de vinhaça ,libertando as bocarras uivantes de apoio ao seu clube.

      1. A violência já começou com um ataque ao autocarro do Benfica.
        Futebol como desporto é bonito, mas toda a envolvente é do piorio.

        Asnónimo

  5. Só por curiosidade Pedro, defenderias antes que se terminasse o campeonato como está?

    Não me parece que exista uma solução perfeita do ponto de vista desportivo, por isso, exclusivamente sob esse ponto de vista, há muitas soluções que farão sentido.

    Já agora: apesar de o FCP ser o campeão se se terminasse a Liga como está, não me incomodaria nada. Estaria perfeitamente de acordo.

    1. João, devíamos ter feito como fizeram França, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Escócia, Chipre ou México. Só para citar alguns exemplos.

      O campeonato acabava ali – como de facto acabou.
      Três meses depois, é outra coisa.
      E se querem mudar agora as regras- como a dos cinco suplentes, que só favorece equipas mais poderosas, algo até agora inexistente – ainda tornam tudo mais ridículo, mais injusto e mais inaceitável.

  6. Será que existe algum outro país com um “humorista de Estado”? Talvez não. Todavia, num país onde se diz que campeia a ingratidão, o denodo com que o PS, – perdão, o Estado, a comunicação social independente e a sociedade civil – reembolsam os relevantes serviços prestados pelo Sr. Nogueira e pelo Sr. Abrunhosa no fatídico quadriénio 2011-2015, acabam por ser comoventes.

    1. Infelizmente os humoristas que existem são todos “do Estado”.
      Há quantos anos não vemos, por exemplo, um cartoon incómodo para o PM ou o PR num jornal nacional?
      Nisto, estamos pior do que em qualquer dos regimes precedentes, desde a monarquia constitucional.

      Um cartoon em Portugal hoje existe para louvar o poder, não para criticá-lo. Excepto se for para criticar o Trump ou outro dirigente longinquo, que “não chateia”. Nem sequer lê o jornal.

      1. É. Pelos vistos, isto de precisar da teta pública (e dos favores da “comunicação social independente” e da “sociedade civil”) para pagar as prestações da casa acaba por restringir muito mais da liberdade criativa do que as sevícias da DGS (a original). É só comparar a obra do Zeca Afonso com a do Abrunhosa.

        1. O Abrunhosa durante muitos anos apelou à insurreição.

          Ou ficou mole com a idade, ou mudam-se as cores mudam-se as vontades

      2. Desde o gajo do PCP e do Benfica ao outro gajo do Benfica são todos humoristas do Estado e vieram todos das Produções Fictícias onde além de ser todos do Benfica agora também são todos ou quase todos do Estado.

        Isto é que é nojento, ó JPT!!!!

  7. Alto lá — cerca sanitária só se forem brancos lá do Norte. Se forem pretos dos subúrbios de Lisboa é uma discriminação intolerável, diz o chefe tribal Costa.

    Ou seja, os ovarenses não se podem deslocar para não infectar mais ninguém. Os blacks podem ir trabalhar e infectar meio mundo que tásse bém.

    Bardamerda para esta gente. Ponham lá uns mais quadradinhos pretos mas é onde o sol não brilha.

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