Diário do coronavírus (11)


Pedro Correia,

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Foto: Miguel A. Lopes / Lusa

 

O primeiro-ministro foi almoçar com o presidente da Assembleia da República. Isto é notícia cá na terra: convocaram-se os jornalistas, que logo acorreram, e todos derramaram abundante eco de tal facto.

No final, Rodrigues não teve nada de mais interessante para dizer do que recomendar, ele também, o voto em Rebelo de Sousa, o candidato socialista. Costa, bem ao seu estilo, ironizou algo desdenhosamente com um dos raros méritos da pandemia: agora já não anda a ser tocado ou atropelado por jornalistas, que mantêm irrepreensível zelo na manutenção da distância física. A que quase todos chamam “distanciamento social” – expressão de óbvia importação dos States, a terra de todos os absurdos. E nós adoramos aportuguesar de imediato qualquer expressão imbecil que traga selo “amaricano”.

 

Rebelo de Sousa, também muito ao seu estilo, decidiu não ficar atrás. No dia seguinte (ontem) decidiu ele almoçar num restaurante e fez questão de que isso fosse igualmente notícia.

Falta muito pouco para regressarmos ao espírito da época em que se imprimiu a primeira notícia do Diário de Notícias, a 29 de Dezembro de 1864: «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».

 

Convocados os jornalistas, que acorreram com idêntico zelo ao que haviam revelado na véspera e o mesmo sacrossanto respeitinho sanitário, Sua Excelência abancou no restaurante usando máscara e luvas, enquanto o Chefe da Casa Civil da Presidência da República, sentado à conveniente distância de dois metros, transportava uma aparatosa viseira.

Lá estiveram nestes preparos, muito “higienizados”, enquanto a cordata chusma de repórteres filmava e fotograva. Sem que ninguém ousasse dirigir ao Presidente a pergunta que se impunha: «Se veio aqui para demonstrar aos portugueses que agora já podem ter confiança nos restaurantes por que motivo está sentado à mesa de máscara e luvas, e a pessoa que o acompanha veio de viseira, à semelhança dos agentes da GNR quando inspeccionam veículos suspeitos?»

 

Ao nosso enluvado e mascarado Presidente parece não ter chegado ainda o eco das mais recentes “evidências científicas” divulgadas pela Organização Mundial de Saúde: não existem provas de contágio de Covid-19 através de superfícies eventualmente contaminadas. Segundo a OMS, a constante desinfecção das ditas é um mero placebo, equivalente ao copo de água que alguns tomam todas as manhãs em jejum e certamente menos intrusiva do que a hidroxicloroquina sem prescrição médica que Donald Trump ingere: dá «maior tranquilidade à população». 

Que bom: poderemos recuperar a vontade de “tocar em superfícies”. Faltam poucos dias para que as damas sanitárias que nos pastoreiam anunciem a Boa Nova aos indígenas em conferência de imprensa. 

Mal posso esperar.

52 comentários em “Diário do coronavírus (11)”

  1. Pedro Correia, no actual estado das coisas, qualquer comentário arrisca-se a ser banido pelo “Lápis Rosa” e como já me falta adjectivos (e até palavrões) para etiquetar a criatura, abstenho-me.

        1. Presumo que o senhor da viseira terá envergado também colete antibalas antes de ter corajosamente entrado naquele restaurante. Depois disto, é fácil imaginá-lo na Síria ou no Afeganistão.

    1. Lápis rosa já com tonalidades de vermelho…..

      Deve faltar “poucochinho” (palavra do léxico , muito em uso…..) para também a Santa Inquisição , apadrinhar uns tantos blogues com o fornecimento de gigas e tetragigas de setreaming das prosas que regurgitem hossanas ao querido líder…

      A.Vieira

      1. Rosa das cores, aprendida em 1967 no ensino particular, para ingressar no ensino secundário.
        Se ao vermelho adicionar-mos branco dá rosa, se adicionar-mos amarelo dá laranja. Como se vê o vermelho é sempre a base.

      1. Palitar os dentes, à mesa, não se coaduna com gente distinta.
        A menos que o elevado predicado tenha sido deixado em casa a cumprir o isolamento social decretado.
        Em todo caso acho que a distinção – subentendendo-se que mande às urtigas as preconizações governamentais e decida acompanhá-los, – não corre grandes riscos de atónita visualização circundante, já que comendo através da máscara pouco haja para palitar.

  2. Dois pontos :

    Ferro Rodrigues mastigou de boca aberta?
    Celito comeu através da máscara? (sem dúvida uma boa ideia para os que querem perder peso)
    A OMS em particular e a comunidade científica em geral tem tido um papel lamentável, desacreditando as instituições, mais as suas recomendações e alimentando as vozes e regimes populistas. Longe não estará o dia em que nos dirão que o vírus nunca existiu. Foi tudo uma experiência psicossomática e colectiva

    Afinal foram quatro.

    Excelente essa notícia das suas majestades 🙂
    Gracias pelo link.

  3. Faz quase 5 anos que o Pedro Correia aqui andou a fazer campanha pelo actual PR apesar de Pedro Passos Coelho ter avisado que se tratava de um cata-vento.
    Em relação á OMS os factos têm falado por si, de modo que nem é preciso rebater.

    WW

    1. Caro Vorph, com os “apoios à comunicação social” aí a serem distribuídos, não convém meterem-se com o PS. Há que satisfazer quem gere o saco do dinheiro: a Cofina corre com o Ventura, a Visão investiga o Ventura, a TVI anda às turras com a Ana Leal, a SIC de Balsemão é o que é e sempre foi, as revistas do social fazem capas com Costa…Consta-me que Kim Jong-un já enviou uns assessores para aprenderem como se faz.

  4. Num diário paralelo, não fiquei chocado com as declarações de Lula da Silva — fiquei mais chocado com a gramática e a ortografia usada por aquele social-bandido e pergunto-me quando é que o Brasileiro passa a língua oficial do Brasil e usam o domínio br. na wikipédia e nós ficamos com o Português normal e depois saímos finalmente da CPLP e desenvolvemos o País sem laços com as antigas colónias.

  5. Em nome da economia está tudo bem!!!

    Pinóquio por onde andas tu?

    como alguém disse e escreveu :

    Enfim…” como é linda a puta da vida!”

    1. Como dizia o grande poeta brasileiro Rui Barbosa em bom português: … a puta da vida é mais curta que comprida.

  6. País do faz de conta.

    Obrigado, mas abdico de ir ao restaurante de viseira para ser servido por um empregado mascarado. A restauração e hotelaria que espere pelos estrangeiros, é o seu público predilecto.

    O futebol regressou em força. Fora de campo, pois claro. Tramas palacianas, impugnações e alianças. Aqui, a normalidade ainda é normal.

    1. Muito bem apanhado.
      Durante anos me indignei por pagar 2,5€ por uma simples cerveja numa esplanada da baixa… e no sítio mais barato.

      E agora vêm pedir aos portugueses para ajudarem a restauração portuguesa, que se encontra dirigida para os turistas à anos.

      Pois por mim esperam sentados pelos turistas.

  7. Mas que foto bonita!!!

    Eu quando for comer fora ,levo máscara , viseira ,bota de cano Alto e dois pares de cueca.
    O seguro morreu de velho.

    Mariama Baldé

    1. Mariama, mariama, à mim tá pensa ki vó kueka cá ten, u vo cá ná é di Bissau.
      mmmmffffff bajuda pronta.

  8. Este post faz lembrar os velhos tempos estivais em que os jornalistas rumavam ao barlavento algarvio para fotografar e entrevistar a comitiva do monarca que nos reinou entre a década de setenta e noventa. Quem por lá andava tinha que se desviar não fosse ser atropelado pela trupe. E para sempre ficaram registados os momentos finais dos repastos nas estreitas ruas de Lagos, que sempre acabavam ao sinal de Sua Majestade Soares, displicente e sem modos, a empurrar o prato para a frente.

    1. Estes repastos são novidade absoluta. Está encontrada a solução mais radical para evitar a azia, o enfartamento e o refluxo esofágico.
      Máscara e viseira, a partir de agora, protegem-nos de tudo isso.

  9. Alerta CMTV… ………….Alerta CMTV…………..Alerta CMTV………Alerta CMTV

    “Andre Ventura picado por uma vespa asiática a porta de um restaurante em Lisboa”

  10. O meu marido mira-me pelo canto do olho, enquando assisto às notícias sem comentar , o que é deveras incomum. Pergunta-me se não reajo às ” bacoradas” do “meu” presidente.
    Eu apenas encolho os ombros. Pensei que me conhecia melhor.

  11. Se a ideia de Marcelo era transmitir tranquilidade aos portugueses, sugerindo-lhes que podem frequentar os nossos restaurantes sem medos, errou profundamente, ele que estava ali, como hipocondríaco confesso que é, mais que constrangido, a jantar com luvas higiénicas, como se estivesse num serviço hospitalar para doenças infecciosas.
    O vídeo que passou na TV, em vez de transmitir calma, quase transmitiu pavor. E ninguém, dos que ganham a vida a aconselhá-lo, lhe abre os olhos? Ou, como ele dizia do outro, será que o nosso Presidente está lélé da cuca?

      1. Repare-se que a peça saiu na Tv no mesmo dia em que a OMS veio dizer que afinal o vírus da COVID-19 pode não ser transmissível através de superfícies e objetos.

  12. Com abertura segura dos restaurantes, pelo Sr. Presidente o sector de marmitas e lancheiras mostra-se preocupado com a concorrência desleal.

    Que futuro para as marmitas e lancheiras em Portugal….?

  13. Percebe-se perfeitamente a atribuição de subsídios àquilo que , na paróquia, passa por “comunicação social”…

    JSP

  14. Não consegui encontrar informação nova no site da OMS sobre a propagação do vírus em superfícies plásticas ou metálicas. A notícia do El Mundo está cheia de incertezas – pode ser que não, o que está longe de ser uma certeza. Seria uma boa notícia, se fosse um facto. Deixava era a questão de como é que o vírus se transmitiu tão depressa, se não foi por esse meio.

    1. Continuam a apanhar bonés.
      Veja-se a questão da amamentação de recém-nascidos de mães infectadas.

      Num mês desaconselham a amamentação, noutro mês já dizem que não há problema.

      Antes:
      https://expresso.pt/coronavirus/2020-03-18-Covid-19.-OMS-recomenda-amamentacao-de-bebes-mesmo-que-a-mae-esteja-infetada.-E-Portugal-

      Depois:
      https://www.tsf.pt/portugal/sociedade/bebes-de-maes-com-covid-19-devem-ser-testados-nas-primeiras-24-horas-de-vida-12211843.html

      1. Temos de dar o desconto, o vírus é novo, é possível que à medida que o vão conhecendo melhor mudem as conclusões. É assim a ciência, ainda há uns tempos a Terra era plana e centro do universo.

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