
Livro dez: À Flor da Língua, de Gregorio Duvivier
Edição Tinta da China, 2026
205 páginas
Este livro não engana: Gregorio Duvivier, comediante brasileiro, é um apaixonado pela língua que nos une – de tal maneira que ela constitui a principal matéria-prima dos seus espectáculos. Além de ser criador de neologismos, como por exemplo pilanco, sinónimo de pancebo, que não significa nada.
Com o bom humor que o caracteriza, costuma dizer que se «deformou em Letras» na Universidade Católica do Rio de Janeiro. Agora é ele quem ensina, sorrindo. E fazendo sorrir o leitor. Desmentindo aqueles carrancudos sempre prontos a jurar que o nosso idioma não é propício a graças.
Apetece recomendar-lhes À Flor da Língua: são bem capazes de mudar de ideias. Aqui encontramos palavras iniciadas por todas as letras do alfabeto – de A (de adivinhadas) a Z (de zaragatoa).
Duvivier anota os adjectivos que apenas subsistem agregados a um substantivo, seu irmão siamês. «Frondoso só aparece ao lado de árvore. Caudaloso só anda com rio. Baldio só quer saber de terreno. Crasso, tadinho, foi logo casar com erro. Hediondo só sai com crime.» Há até palavras de frase única: «O desaforo, pobrezinho, só é citado quando alguém diz que não o leva pra casa.» Algo semelhante sucede ao dizermos «não sou da sua laia». Coitada: «Ninguém jamais foi da laia, ou frequentou a laia, ou se mudou pra laia: a laia só serve para não sermos dela.»
Sou solidário com ele ao vê-lo saudosista do pretérito mais-que-perfeito num tempo em que «já ninguém diz quando eu fora, eu estivera». Ou de palavras obsoletas, como açougue ou enxaguar. Com uma ressalva: só caíram em desuso deste lado do Atlântico. No Brasil são de uso corrente.
Estamos em sintonia também na oposição ao acordo ortográfico e à proliferação de cancelamentos diversos. Por exemplo, da palavra mulato, alegadamente insultuosa por derivar de mula. «Mas a origem pejorativa é controversa: há quem garanta que a palavra vem do árabe muwallad, mestiço. E Nei Lopes lembra que, mesmo que a palavra tenha vindo de mula, não viria da mula portuguesa, mas do latim mula, que quer dizer apenas… misturar.»
Língua plena de contradições, a nossa. «O diminutivo quase nunca diminui coisa alguma. Um minutinho não é um minuto menor. Ao contrário: costuma durar uns três ou quatro minutos. Um segundinho pode durar até trinta segundos regulamentares. Devagarinho é mais devagar. Rapidinho é mais rápido. Enquanto quem está pertinho está mais perto, quem está longinho está menos longe. Enquanto a tardinha é no final da tarde, a noitinha fica no começo da noite.»
Os portugueses levaram pelo menos cem mil palavras para o Brasil. Infelizmente, observa Duvivivier, «há todo um rol de palavras que nunca atravessaram o Atlântico»: permaneceram ancoradas cá na terra.
«Gosto especialmente da palavra ronha – e de praticá-la». No Brasil ignoram que «se refere à prática de abrir os olhos, mas permanecer na cama». Originalidade lusitana que justifica homenagem com caução intelectual: «Na ronha permanecemos naquele meio-termo que Proust demorou dez páginas pra descrever, mas aos portugueses bastaram cinco letras.»
Sugestão 10 de 2016:
Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)
Sugestão 10 de 2017:
Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)
Sugestão 10 de 2018:
Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)
Sugestão 10 de 2020:
A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz (Cavalo de Ferro)
Sugestão 10 de 2021:
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso (Tinta da China)
Sugestão 10 de 2022:
De Quase Nada a Quase Rei, de Pedro Sena-Lino (Contraponto)
Sugestão 10 de 2023:
Perseguição, de Jorge de Sena (Assírio & Alvim)
Sugestão 10 de 2024:
O Príncipe da Democracia, de Nuno Gonçalo Poças (D. Quixote)
Sugestão 10 de 2025:
A Neve Estava Suja, de Georges Simenon (Cavalo de Ferro)

A feira acabou ontem e espicaça-me para ir comprar este livro. Sinto-me enganada.
Há quem pense que o País é só Lisboa, mas não é.
Exemplos:
– Feira do Livro de Coimbra, de 19 a 28 de Junho
– Feira do Livro de Braga, de 1 a 17 de Julho
– Feira do Livro do Porto, de 21 de Agosto a 6 de Setembro.
Se não fosse uma injustiça, apetecia-me brincar e dizer que o Duvivier é um “millôrzinho”.
Não será um Millôr, mas é sem dúvida mais do que um millôrzinho.
Para ler devagarinho. Ou rapidinho, depende de cada um. Na ronha, de preferência.