Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro dez: O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Edição Tinta da China, 2019

267 páginas

 

Há livros que nos atingem com a força de um murro. Alterando a nossa forma de olhar o mundo, de encarar determinados acontecimentos históricos, as nossas certezas instituídas. É o caso deste magnífico romance, um dos melhores publicados nas duas últimas décadas no nosso idioma. Um romance em que os vencidos da longa guerra em Angola entram enfim em cena. Não os militares que recolheram às casernas após dois anos a brincarem às revoluções em Portugal. Mas os civis – aqueles de que ninguém fala, aqueles que tiveram a desdita de figurar no lado B da história.

Dulce Maria Cardoso viveu na pele essa experiência, transformando-a em matéria ficcional com uma autenticidade rara na literatura portuguesa. Adolescente, residente desde a mais remota infância em Angola – sua terra, claro, pois não conhecia outra que pudesse designar assim. Portugal era uma abstracção, plasmada nos rios e linhas férreas que os meninos decoravam nas aulas do ensino básico. Aliás nem diziam Portugal: era a “metrópole”. Não sabiam o que era o frio. Nunca tinham visto televisão. Ignoravam que, por cá, as pessoas vestiam quase sempre de escuro e raras vezes sorriam. Alguns adultos diziam que eles tinham aqui raízes, neste país onde a Coca-Cola estava proibida. Mas as suas raízes estavam lá. Na terra de onde foram arrancados à força e que passaram a transportar apenas na memória sulcada de cicatrizes. Na casa com dálias plantadas pela mãe, nas brincadeiras com a cadela Pirata que nunca mais viram.

Puseram-lhes um rótulo: eram os “retornados”. Mas retornavam como, se nunca tinham cá estado? Eram apontados a dedo, acusados de terem “explorado os pretos”, os professores relegavam-nos para os lugares mais afastados das salas de aula, a própria família daqui os ignorava. Formavam uma insólita irmandade com outros meninos nas mesmas circunstâncias. Aprenderam a substituir palavras: autocarro em vez de machimbombo, frigorífico em vez de geleira, pequeno-almoço em vez de matabicho. Nas horas do crepúsculo, contemplavam os caixotes acumulados no cais, alguns pertencentes a gente que jamais desembarcaria. Apodrecendo à beira-Tejo, rio sem crocodilos nem hipopótamos, cinco séculos depois das navegações que iniciaram tudo.

 

Este romance, publicado originalmente em 2011, está construído em torno de uma unidade familiar básica: pai, mãe, dois filhos adolescentes. Como aconteceu a tantos outros portugueses: pais oriundos de meio rural, com pouca instrução, rumando a Luanda muito jovens. Navegando num porão para fintarem a pobreza.

Mário, o pai, trabalha sem cessar. Acaba por conseguir uma pequena frota de transporte de mercadorias, faz questão de que a filha e o filho já lá nascidos estudem para que não se repita o fado da penúria ancestral. É também ele a semear a esperança naqueles dias fugazes em que a utopia da construção de uma nação livre e multirracial parecia possível numa Angola em que as armas se calavam. «Vamos construir uma nação nova, todos juntos, brancos e pretos, vamos construir uma nação mais rica do que a América.» Os alegres festejos de Ano Novo, em 31 de Dezembro de 1974, são páginas inesquecíveis deste romance.

O sonho não tardou a desfazer-se. E as armas voltaram a rugir, só mudaram de direcção. Apontando primeiro para os brancos – mais de meio milhão foram dali expulsos, em escassos meses, numa das maiores pontes aéreas de todos os tempos. Depois para os negros, fracturados em ódios tribais. Com massacres como o de 27 de Maio de 1977. Com uma prolongada guerra civil que só terminou neste século e deixou duas gerações de mutilados. Com uma feroz ditadura de partido único.

 

Mas de política não se ocupa O Retorno, nem da Angola pós-independência. Esta é a história de uma família em dois continentes, iniciada pouco depois do 25 de Abril de 1974, concluída pouco depois do 25 de Novembro de 1975. Uma família banal, envolvida em circunstâncias excepcionais. A família de Mário, o homem que viu o sonho desmoronar-se. Prestes a entrar na recta final da vida, sem sequer uma mala onde pudesse guardar alguns pertences, quis queimar a casa que construíra para que não fosse violentada por intrusos. Dizia ele: «Um homem pertence à terra que lhe dá de comer» Duas vezes expulso daquilo a que chamava seu país – da primeira vez na Europa, da segunda em África. Jurando perante os filhos que jamais voltariam a expulsá-los de lado algum.

Disto nos fala esta obra. Com rara sensibilidade, com desassombro intelectual, assumindo-se como voz de uma geração traída – demasiado tempo silenciada, demasiado tempo oculta. Relato construído na primeira pessoa, pela voz de um rapaz de quinze anos. Difícil desafio formal, semelhante ao do equilibrista no arame, que a autora supera com distinção. E nos envolve como poucas vezes tem sucedido na ficção contemporânea.

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

17 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. Este romance é uma obra prima em si, mesmo que em torno de tanta sujeira que ainda hoje se acumula em Portugal e nas ditas províncias,; não obstante o fado de embalar de figurões e figuronas que de má política e de má-fé viveram e ainda vivem.
    Porém deixai que os mortos enterrem seus mortos.

  2. Para mim, sem dúvida, um dos melhores romances das últimas décadas, como diz, com seu lugar reservado, por direito próprio, ao lado dos maiores que se têm escrito – passe a redundância.
    Neste livro, a autora consegue o milagre que sempre me deixa arrasada de admiração : chega a todos, permite todos os níveis de leitura, sem nunca perder a qualidade, a pureza cristalina da escrita, a transmissão da indizível complexidade da vida e das vidas de quem habita as páginas em que existem. Ainda hoje me dói que a Pirata não tenha voltado, ainda hoje me parece avistá-la quando o sol nos cega e as ondas do mar permitem todas as ilusões. Grande livro, livro extraordinário!
    Margarida Palma

  3. ” Não os militares que recolheram às casernas após dois anos a brincarem às revoluções em Portugal.”
    E treze anos a lutarem para manterem uma posição indefensável. Com a juventude do país a ser obrigada a servir quatro anos de serviço militar, dois dos quais em situação de guerra, para garantir que a Coca-Cola que se bebia em África era portuguesa.

      1. Livros do Tintim, Astérix, Lucky Luke, Pocahontas, foram queimados no Canadá por um Conselho Escolar Católico a fim de enterrar definitivamente as cinzas do racismo. Podíamos aproveitar esta onda mundial purificadora e queimávamos também as obras de todos os escritores que metiam o branco no preto em vez de meter o preto no branco.
        Será isto o novo normal?

    1. “E treze anos a lutarem para manterem uma posição indefensável. Com a juventude do país a ser obrigada a servir quatro anos de serviço militar, dois dos quais em situação de guerra, para garantir que a Coca-Cola que se bebia em África era portuguesa.”

      Como essa atitude Portugal não teria durado I século.
      E suspeito que não vá durar I século depois do fim do Império.

      1. Sim, porque com essa atitude ganhámos a guerra colonial e tivemos uma descolonização exemplar, ou se calhar … não.
        A guerra parece ter só servido para perder gente e garantir que o inevitável era adiado mais uns anos. Porque enquanto o pau vai e vem folgam as costas, e os colonos.
        É curioso que os que pensam que as guerras são justas e heroicas nunca são os que participam nelas à força.

  4. os vencidos da longa guerra em Angola […] os civis – aqueles de que ninguém fala, aqueles que tiveram a desdita de figurar no lado B da história

    Dir-se-ia que o Pedro se está a referir aos civis angolanos – aqueles que perderam a vida ou ficaram estropiados (por minas antipessoal, por exemplo) aos milhares.

    Mas não: está-se a referir aos refugiados, àqueles que não ficaram estropiados, não perderam a vida, antes puderam reconstruí-la, com não pouca ajuda estatal, em Portugal.

    É curioso. Parece que o Pedro lamenta mais os refugiados do que aqueles a quem não foi dada a oportunidade de se refugiarem.

    1. Não estou a referir aos angolanos. Estou a referir-me aos portugueses.
      Sou português, não sou indiferente ao destino de mais de meio milhão de portugueses arrancados em poucos meses a uma terra que chamavam sua. Em vários casos, há várias gerações.

      Sabe lá você quantos ficaram “estropiados”, quantos foram assassinados lá, quantos cometeram suicídio lá e cá, quantos perderam tudo, quantos tiveram ajuda ou deixaram de ter.
      Sabe lá você o que é passar por um drama destes.
      Não sabe nem quer saber, pelo que o seu comentário dá a entender. Indiferença total pelos seus compatriotas. Como aqueles putos do liceu, aqui, que em 1975 e 1976 chamavam “ladrões” e até “assassinos” aos colegas vindos do Ultramar.
      Hoje, que há rótulos moderninhos para tudo, chamar-se-ia “bullying” a isto. Naquela altura cada qual se desenrascou como pôde.

      E afinal aquela gente, em larga medida, era do mais pobre que havia em Portugal. Muitos tinham lá nascido. Muitos outros já tinham os pais nascidos lá. Todos consideravam aquela terra sua porque todos os governos de todos os regimes, até 1975, consideravam Angola território português.

      Gente que nunca foi retratada na ficção. Que ficou esquecida, ficou marginalizada, ficou oculta.
      Como se fosse pecado falar dela. Dos seus dramas pessoais e colectivos.

      Falou-se muito dos militares, quase ninguém se atreveu a falar dos civis – as maiores vítimas desta guerra em Angola que teve várias etapas. As mais sangrentas ocorreram após a partida dos portugueses.
      Algumas ocorrem ainda hoje.

      Mas do presente não trata Dulce Maria Cardoso neste magnífico romance que está para os portugueses civis de Angola como ‘Os Cus de Judas’, de Lobo Antunes, esteve para os militares que lá combateram.
      Ela teve o mérito de resgatar essa multidão de civis do silêncio, 35 anos depois.
      Estavam no local errado no momento errado. Foram varridos para debaixo do tapete. E silenciados durante tempo de mais.

      Incomoda?
      Perfeito. Só confirma a qualidade e a perenidade deste romance.
      Dos que não incomodam não reza a História.

      1. “Estavam no local errado no momento errado. Foram varridos para debaixo do tapete. E silenciados durante tempo de mais.”
        Pode dizer que ficaram silenciosos tempo demais, já dizer que foram silenciados é um pouco forte. Quem é que os censurou?
        Essa perseguição insana que tiveram foi feita por quem? Tem exemplos?
        É que parece que andamos a tentar reescrever a história, transformando o que foi uma situação muito difícil, consequência de uma guerra idiota que perdemos, com uma perseguição deliberada.
        Não vejo que alternativas havia:
        Continuar a guerra indefinidamente?
        Armar os colonos para que eles continuassem a Guerra Colonial sozinhos, sem intervenção portuguesa?
        Considerar que quem vivia em África, pertencia a África e tinha de lá ficar?
        Considerar os retornados como refugiados estrangeiros?

          1. Lerei quando puder, mas nunca se esqueça que só pode dizer publicamente que os militares andaram dois anos a brincar às revoluções, porque eles fizeram revoluções. Talvez preferisse que se tivessem mantido como sustentáculos do regime a ir para a guerra morrer em nosso nome.

          2. Visão muito errada, essa.
            Os militares não fazem revoluções – fazem golpes de Estado.
            No século XX, em Portugal, fizeram vários.
            Em 1975 andaram a brincar às revoluções, não fizeram revolução alguma.
            E se devolveram a liberdade aos portugueses em 1974 não fizeram mais do que cumprir um dever elementar: tinham sido também eles a tirá-la.

  5. Do seu texto “…assumindo-se como voz de uma geração traída …”, qual traída, traída por quem, como e quando?

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