Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro dez: De Quase Nada a Quase Rei, de Pedro Sena-Lino

Edição Contraponto, 2020

623 páginas

 

Fala-se muito do Marquês de Pombal, mas grande parte dos portugueses conhece-o mal. Personagem cheia de luzes e sombras, com vocação para mandar, dispôs de poder quase absoluto durante um quarto de século. E foi decisivo em questões diversas, começando pela reconstrução de Lisboa após o devastador terramoto de 1755. Mas também na consolidação do nosso domínio no Brasil, demarcando fronteiras com a coroa espanhola, no desenvolvimento da instrução pública, na promoção da nossa indústria de lanifícios e na criação da primeira região vinícola do mundo, valorizando o Vinho do Porto como emblema de Portugal.

Viveu longos anos fora do País, como nosso representante diplomático em Londres e Viena, o que lhe rasgou horizontes e lhe consolidou a noção de que o poder só é útil se for exercido sem estados de alma nem contemplações filosóficas. Tinha a noção de que esta nação periférica só galgaria etapas rumo ao progresso com o impulso de um governo forte, exercido em nome da autoridade régia mas orquestrado por ele, enquanto punha e depunha figuras secundárias.

É natural que alguém tão marcante tenha fascinado os nossos escritores, que lhe dedicaram biografias. Aconteceu, por exemplo, com Camilo Castelo Branco e Agustina Bessa-Luís. Mas o mais bem-sucedido neste domínio é um contemporâneo que se vem notabilizando sobretudo pela escrita poética: Pedro Sena-Lino assina aqui um minucioso retrato do Marquês, sem lhe enaltecer em excesso as virtudes nem lhe esconder os defeitos. Numa escrita elegante e bem fundamentada em documentos da época, incluindo cartas do biografado, que gostava de escrever para a posteridade, consciente de que viria a figurar em destaque nos manuais de História.

De Quase Nada a Quase Rei: excelente título capaz de resumir o sinuoso percurso de Sebastão José de Carvalho e Melo (1699-1782), que à mercê de caprichos do destino e da sua vontade férrea se tornou um dos dirigentes mais afamados na Europa do seu tempo. Acima dele, no reino lusitano, só estava o monarca, D. José, que lhe confiou plenos poderes. O cenário mudou em 1777, com a ascensão ao trono da sua filha, D. Maria I: Pombal caiu em desgraça, foi desterrado para sempre de Lisboa e por pouco não teve a mesma triste sorte de vários opositores políticos que mandou executar com requintes de malvadez. Viria a morrer longe da corte, abandonado pela legião de aduladores que o rodeava nos tempos áureos.

Mas o seu nome, de facto, passou à História. Ele cuidou disso nos documentos epistolares que nos legou. «É a partir desta imagem de Sebastião José por si construída como defesa no final de vida, e perpetuada em parte pela I República, que outras figuras políticas portuguesas se vão construir – como António de Oliveira Salazar», assinala Pedro Sena-Lino. Numa frase que talvez prenuncie outra biografia da sua lavra.

 

 

Sugestão 10 de 2016:

Bairro Ocidental, de Manuel Alegre (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2017:

Santos e Milagres, de Alexandre Borges (Casa das Letras)

Sugestão 10 de 2018:

Sonhos Públicos, de Joana Amaral Dias (D. Quixote)

Sugestão 10 de 2020:

A Minha Intenção, de Czeslaw Milosz

Sugestão 10 de 2021:

O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

9 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. Um dos grandes responsáveis pelo nosso atraso nas décadas e talvez mais que se seguiram. De uma penada destruiu a alfabetização e grosso modo o ensino em Portugal.

    1. > destruiu a alfabetização e grosso modo o ensino

      Tinha de ser. Os merceeiros passaram a adorar o Progresso, e as escolas do deus antigo tinham de ser encerradas.

      As novas só faziam um quarto do serviço (ou lá quanto era), mas não se fazem omeletas sem partir ovos. Agora era “Écrasez l’infâme!”

  2. Os monárquicos não perdoam ao Marquês, os monárquicos e os padres.
    Quem manda reconstruir uma cidade a esquadro e compasso é para desconfiar.

  3. durante as longas permanências na Áustria baixa procurei no Arquivo Imperial factos ocorridos na Áustria. um bandalho que ao tempo pertencia ao Tribunal Constitucional nunca me devolveu os 3 volumosos ‘dossiers’ que lhe emprestei com os apontamentos das 30 Potências Maçónicas portuguesas.
    realiza-se hoje a festa da aldeia onde nasci, assim como o eng. Sena-Lino ligado à família da mulher do Dr. José Ramos Preto, 2 vezes PM

  4. “Diz-se nobre, mas não pertence às velhas famílias tradicionais.”
    “Era conde porque era casado com uma condessa austríaca, D.Leonor Daun.”
    “Muitos nobres por troça, só lhe chamavam Sebastião José. “
    “Foi em 16 de Outubro de 1769 que o rei lhe concedeu o título de marquês de Pombal.”
    “Pombal caiu efectivamente em desgraça, foi apedrejado e acusado de corrupção. “
    Agora percebo a origem do nome da Operação Marquês.

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