Virou a maré?


Paulo Sousa,

Nos últimos dias os nossos media têm estado ocupados com a transmissão das cerimónias que se seguiram ao desaparecimento da Rainha Isabel II, mas pelo Twitter tem sido possível seguir os últimos desenvolvimentos na Ucrânia.

Pode ser ainda demasiado cedo para garantir que a maré virou irremediavelmente, mas é inegável que as tropas russas, mal treinadas, mal equipadas, com um péssimo apoio logístico e com uma moral em farrapos, estão a recuar na frente norte, tendo já perdido alguns territórios que controlavam desde 2014.

Após um brilhante golpe de contra-informação em que as forças ucranianas anunciaram um ataque a sul em direcção a Kherson, acabaram por surpreender num ataque  a norte.

Assim, e segundo alguns relatos, nos últimos 5 dias a Ucrânia conseguiu conquistar mais território do que a Rússia nos últimos 5 meses. Estamos a falar em mais de 2000 quilómetros quadrados e são bem visíveis neste mapa.

O esforço russo em repor as imensas baixas que tem sofrido acabou por obrigar à inclusão de pessoas menos jovens e com aparente pouca apetência para o combate, proporcionado imagens confrangedoras. Todas as dificuldades que as forças russas mostraram nos últimos tempos deixavam antever que seria uma questão de tempo até que o contra-ataque ucraniano se desencadeasse.

Desde há dois dias, são cada vez mais os registos de rendições russas e de várias cidades recuperadas pelas forças ucranianas. As imagens da forma como os soldados de Zelensky são recebidos, por falantes russos, com flores e abraços, celebrando a sua libertação mostra a emoção da libertação e faz lembrar o fim da Segunda Guerra Mundial.

free ukraine.png  Foto @marra_ua

Nos canais oficiais da TV russa, tão profícuos em propaganda putinista, o mal estar é inegável e alguns apelam já à oração pelos soldados.

Em São Petersburgo, a cidade de Putin, alguns deputados municipais apelaram a que este seja acusado de traição, preso e condenado. O que era impensável há pouco tempo atrás está já a acontecer e acentua a tendência.

A guerra não terminou, nem terminará rapidamente. O Inverno chegará entretanto, o factor climatérico irá impor-se e, como sempre na história, terá uma palavra a dizer, mas a moral ucraniana está definitivamente em altas, exactamente ao contrário do que se passa com os seus invasores.

A desorientação russa em curso é comprovada também pelas sugestões que vão surgindo no sentido de se recorrer a armas nucleares tácticas, o que certamente levaria a que os países vizinhos da Ucrânia exigissem à Nato um envolvimento directo no conflito. O desespero das forças putinistas pode fazer subir ainda mais o grau de risco global desta guerra, mas ao mesmo tempo na frente diplomática as negociações parecem ser cada vez mais urgentes para Moscovo. A confirmar-se tudo isto, a Ucrânia, o ocidente, a Nato, a UE, só a devem aceitar negociar quando a situação de Rússia for ainda mais desesperada. A China também concordará com isso. Já aqui escrevi sobre isso.

Lukashenko, o fantoche bielorusso, sabe que a sua sobrevivência está indexada à de Putin mas tem a vantagem de ainda estar a tempo de procurar exílio na Síria, na Eritreia ou noutro qualquer paraíso do mesmo naipe. Já Putin, não será desta que um ditator sobreviverá a uma derrota numa guerra.

13 comentários em “Virou a maré?”

  1. “….negável que as tropas russas, mal treinadas, mal equipadas, com um péssimo apoio logístico e com uma moral em farrapos…” para quem dizia que era o mais poderoso exército do mundo e que vinham por abaixo, afinal era tudo um alarmismo à cmtv.
    “A confirmar-se tudo isto, o ocidente, a Nato, a UE, só a devem aceitar negociar quando a situação de Rússia for ainda mais desesperada”, o ocidente, a Nato, a UE ? Negociar o quê? A guerra é com a Ucrânia, ou já se está a querer dizer ‘vamos lá conversar que isto da energia está a ficar muito cara para o inverno que aí vem’.
    E os generais tvs o que é que dizem destes avanços do exército ucraniano e dos totós do exército russo?

    1. Quem não quer negociar agora é em primeiro lugar a Ucrânia, que já colocou como fasquia a recuperação de todo o território, Crimeia incluída, pagamento de indeminizações e julgamento dos crimes de guerra. Vamos ver até onde conseguirão ir.

  2. O arrastar da guerra até ao inverno será benéfico para quem a está a perder. Os russos sabem-no. Se os Russos quiserem negociar agora seria de aceitar. O mundo não pode estar em guerra no fim do inverno (março de 2023)

    1. A Ucrânia tem dezenas de milhares de soldados a serem treinados fora do país, nomeadamente no Reino Unido, e isso garante-lhe a chegada de reforços regulares de soldados bem equipados, bem treinados e motivados. Não sei até que ponto sustenta a primeira frase.

      1. soldados bem equipados, bem treinados e motivados

        Bem treinados, acredito. Motivados, não sei – os soldados ucranianos são-no por obrigação, pois a Ucrânia força a generalidade dos seus homens a serem soldados; alguns eventualmente teriam tido vontade de se safar. Bem equipados, também duvido – a Ucrânia ainda está em inferioridade de armamento relativamente à Rússia.

  3. O Paulo Sousa tem que ter cuidado com a propaganda. Nem tudo o que é divulgado é verdade. Que a Rússia perdeu território é verdade, até porque a própria Rússia já o reconheceu. Já o resto, a moral das tropas russas, o seu equipamento, o apoio que recebem, etc, tudo isso é muito mais duvidoso.

  4. a Nato, a UE, só devem aceitar negociar quando a situação de Rússia for ainda mais desesperada

    O Paulo Sousa vive numa zona com invernos moderadamente frios, e de qualquer forma deve aquecer a sua casa em boa parte com lenha.

    Um alemão ou um polaco ou um checo, que tem que aquecer a sua casa a gás natural, com a perspetiva de este estar a um preço incomportável no próximo inverno, é capaz de ter uma perspetiva diferente da do Paulo Sousa.

    1. O balio não estava nada preocupado quando o G7 e a UE decidiram não financiar projectos com “combustíveis fosseis”. Ou quando o Biden sustituiu o Trump e começou a atacar tudo o que são energias “não alternativas” e prometer a subida de preços dos combustiveis.

      Os preços que temos hoje não se devem na maior parte à guerra. Deve-se á destruição de alternativas provocadas pelas políticas extremistas dos autodenominados moderados.

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