![]()
Não caberia num postal, nem a informação pública o permitiria, elencar aqui tudo o que a Rússia já perdeu desde que o seu ditador Putin decidiu avançar contra a Ucrânia. A ocupação de território ucraniano já tinha começado há mais tempo, mas quero apenas aqui referir o que se passou nos últimos 77 dias.
Na história das últimas décadas, 77 dias são uma gota de água no oceano, mas ainda assim já foram suficientes para que o segundo melhor exército do mundo tenha passado a ser o segundo melhor exército na Ucrânia.
A estratégia tomada pelo Kremlin levou a que muitas da suas fragilidades tenham sido reveladas. Enquanto as torres dos seus tanques subiam pelos ares, o navio porta-bandeira Moskva avançava no Mar Negro em sentido contrário. Enquanto a imensa coluna com 60 km de veículos treinava tiro aos patos, mas no lado dos patos, a desorientação dos seus soldados obrigava os tractoristas ucranianos a fazer horas extraordinárias. E entretanto confirma-se que a evolução das capacidade dos drones tornou obsoleta a imensa frota de blindados russa.
A inoperacionalidade das suas comunicações, das suas linhas de comando, as continuas falhas logísticas, a falta de sorte dos seus generais, a desmotivação das suas tropas, tudo ajuda a que o sentido da guerra se tenha tornado cada vez mais claro.
Os desenvolvimentos mais recentes, com o reforço maciço do apoio americano e em que até a inicialmente reticente Alemanha decidiu começar a enviar armamento pesado, de ataque, para as forças ucranianas, fará com que o previsível arrastar da guerra se torne demasiado exigente para o invasor.
Fora da fronteira da Ucrânia, a Rússia também conseguiu, em apenas 77 dias, ficar isolada internacionalmente, conseguiu que a Finlândia e a Suécia dessem passos definitivos para aderirem à Nato, conseguiu que os EUA tenham recebido longas encomendas de armamento por parte dos países europeus, conseguiu que a União Europeia se mostrasse mais unida que nunca, tendo alterado até a sua política de defesa e que pela primeira vez tenha decidido usar os seus fundos para a aquisição de armamento. Conseguiu também ficar fora do próximo cocktail energético europeu, e isso pode durar muitos anos.
De tanto querer ajustar contas com a “humilhação” sofrida aquando do desmoronamento da URSS, Putin faz lembrar Hitler quando tentou igualmente acertar contas com o passado e com a forma como a Alemanha sentiu a derrota de Versalhes.
Mesmo sendo impossível consegui-lo, se fizermos por ignorar todos os crimes que foram cometidos contra civis, o que é público e notório, e que ficará na memória de todos durante muito tempo, é a imensidão de episódios que destruíram completamente a respeitabilidade do exército russo, assim como do regime de turno no Kremlin. Sem motivos para ser temido, nada pode segurar Putin ao poder.
Se alguém aprendeu alguma coisa com a história, concordará que a Rússia pós-Putin deverá ser apoiada e ajudada a regressar ao concerto das nações. Nesse sentido vale a pena ouvir as recentes palavras de Macron. Não se pode construir uma paz (duradoura) com a humilhação da Rússia. Para entender esta frase, importa não repetir um dos erros maiores de Putin, e que consiste em confundir-se com o país. A Rússia não é Putin.
Quando dentro da Rússia a maré virar, e é inevitável que vire, ninguém aceitará ser liderado por um líder perdedor que arrastou o país para a humilhação.
A desintegração da Federação Russa em diversos estados seria uma possibilidade, mas a China não permitiria que isso acontecesse. É muito melhor ter um vizinho gigante e politicamente frágil, que lhe permita um acesso privilegiado aos seus recursos naturais, do que uma ninhada de Kadyroves armados com ogivas nucleares.
Agora vamos ver como é que irá envelhecer este postal.

Ou muito me engano ou irá envelhecer bem, Paulo. Tudo quanto há de essencial sobre o tema fica aqui expresso.
Há ainda a hipótese de Putin aceder aos apelos de António Guterres. Mas não me arriscava a afirmar isso, Pedro.
O problema é que, mesmo que Putin aceda aos apelos de Guterres e retire parcialmente as suas tropas, a guerra não acabará, uma vez que a Ucrânia não desistirá de recuperar integralmente o seu território anterior a 2014. Ou seja, a Ucrânia continuará a bombardear sem descanso o Donbass e, eventualmente, a Crimeia.
Para que uma guerra termine não basta que um o deseje, é preciso que ambos o desejem. E a Ucrânia, patentemente, não deseja terminar a guerra.
Se lhe roubarem a casa, você convida os ladrões para um cafezinho ?
Se lhe roubarem a casa, você convida os ladrões para um cafezinho?
Depende. A Geórgia aceitou que a Rússia lhe comesse uma parte substancial do território e nunca mais voltou a fazer barulho por causa disso. A Ucrânia poderia agir da mesma forma, mas afirma não estar disposta a isso.
A Geórgia nunca aceitou isso. Foi forçada a submeter-se à lei da força, nada mais.
Nem a Geórgia nem a comunidade internacional. Esse território ilegalmente ocupado por tropa russa e mercenários neonazis russos é considerado georgiano de pleno direito.
Putine estava interessado nos cereais, ferro e carvão,
mas revelou todas as fragilidades de quem vivia exclusuvamnte dos produtos fósseis
A regra já foi identificada há muito. Quem exporta recursos naturais e importa tecnologia não pode aspirar a preponderância geoestratégica.
sigo o conselho do «Juon Pinto » sobre prognósticos
conseguiu que a União Europeia se mostrasse mais unida que nunca
Não creio que isso seja verdade.
Nem Orban vetou, ou se opôs, às medidas mais afirmativas contra Putin…
Orbán opôs-se a que a UE deixasse de importar gás natural e petróleo da Rússia. E ameaçou vetar.
Ademais, a UE encontra-se dividida quanto à integração nela da Ucrânia, e quanto à paz a alcançar – a França e a Alemanha querem uma paz sem humilhação da Rússia, a Polónia não quer a paz.
Se achar que o facto da UE ter passado a assumir despesas com armamento, não tem importância, nem traduz uma profunda mudança, então não há nada que o faça entender o que coloquei no postal.
O facto de os gastos militares da UE aumentarem tem certamente bastante importância. Mas mesmo nisso não creio que a União Europeia esteja muito unida, nem que vá permanecê-lo muito tempo. Haverá certamente muitos países que não aumentarão assim tanto os seus gastos militares, ou que não o farão durante muito tempo. Até porque têm pouca disponibilidade financeira para isso.
Ainda acha que merece a pena responder-lhe???
‘Balio’ Lavoura continua a emitir opiniões alinhadas pelo prisma de Moscovo. Expressa até os mesmos desejos de Putin – neste caso o desejo de que a União Europeia se desuna.
Parecem guiar-se pelos mesmos ciclos lunares, ele e o genocida.
que a Finlândia e a Suécia dessem passos definitivos para aderirem à Nato
Ainda não deram, e não é certo que venham a dar.
Temos de aguardar para ver como é que o postal irá envelhecer.
Já deram.
Nada envelhece tão mal, nestas caixas de comentários, como os bitaites do leitor ‘balio’.
Claro que a Rússia não é Putin. Creio que apenas o próprio Putin estará alienado dessa realidade. Este postal , daqui a um ano no máximo, vai ser considerado esclarecedor e premonitório, Paulo.
Enquanto esperamos por isso vamos usufruindo desta Primavera esplendorosa. Se eles começam a carregar nos botões nucleares, acabam-se as dívidas e as hipotecas, Dulce.
Aproveitemos
Depois do desaire russo a NATO tem de fazer com a China o que fez com a Rússia. E o nosso triunfo será completo.
A China já lá está há mais tempo como adversário estratégico do ocidente. O que está em curso é o encolhimento da Rússia.
A bem de todos nós esperemos que o seu postal envelheça graciosamente, se me permite a expressão.
Ainda assim, tenho alguns receios que este conflito se estenda por bastante mais tempo do que gostaríamos. A Ucrânia vencer esta guerra não é, na minha opinião, exactamente o mesmo que derrotar a Rússia de Putin. Não sei se me fiz compreender, mas não sei explicar de outra forma o que pretendo dizer.
A Ucrânia terá muita dificuldade em conseguir regressar às fronteiras anteriores a 2014. Arrisco dizer que sairá claramente mais ocidentalizada, avançará rumo a uma democracia mais sólida (a que tinham tinha sérias fragilidades), receberá fortes ajudas para a sua reconstrução e modernização (pela concorrência na captação de fundos europeus entendemos melhor todos os engasgos de António Costa relativos à entrada de Ucrânia na UE) e numa década será um país muito mais próspero que a Rússia, que por sua vez após esta guerra avançará para um Inverno económico.
Os engasgos :), – teve muita graça – compreendem-se muito bem como diz apesar de na verdade não terem graça nenhuma pelo que significam.
Partilho da sua opinião e esperança apesar de o caminho que temos pela frente, e onde a Ucrânia se inclui, não se avizinhar fácil.
[a Ucrânia] numa década será um país muito mais próspero que a Rússia, que por sua vez após esta guerra avançará para um Inverno económico
Tenho muitíssimas dúvidas em relação a ambas as partes deste afirmação.
A economia russa não está mal. O país continua a viver essencialmente à custa de recursos naturais, mas esses recursos são, de facto, cada vez mais valiosos. Não vislumbro qualquer inverno para a economia russa globalmente, embora alguns setores certamente estejam a sofrer bastante.
A Ucrânia está barbaramente destruída e ainda o será mais. Para além de ter perdido (com a amável cooperação do Paulo Sousa!) uma parte substancial da sua população. Mesmo com muito dinheirinho europeu (se o houver!) lá enfiado, dificilmente deixará de ser um país tão dependente de recursos naturais como a Rússia – só que, com muito menos recursos naturais.
Sensato post. “Quem vai à guerra dá e leva”.
Entretanto esperemos que rapidamente a opinão pública russa, confrontada com a realidade das baixas entre familiares e amigos, por uma tão dúbia causa, reaja. A forma mais rápida de terminar este recorrente belicismo. Não será fácil, como frequentemente se constatou, entre disciplinados povos germânicos e eslavos.
Por cá “os brandos costumes” a reacção à dúbia “Angola é nossa” demorou 10 longos anos a perecer. Foi o pobre do Caetano que herdara do ditador a intervenção militar especial que (também) caiu da cadeira do poder. Não soube ou não conseguiu terminar a dita intervenção especial.
Putin também parece não estar praí inclinado. Agora esperemos que brevemente caia do trono imperial. Consta que já há por lá uns Caetanos à espera.
Não colocaria muitas fichas na queda de Putin por pressão da opinião pública. Apostava mais num enredo palaciano.
Macron não é grande pensador nem estratéga.
A óbvia referida reacção do vencido à “humilhação” demorou uma década (1919-1931). Tudo depende da estrutura mental e social do “vencido”, que iniciou a I Guerra em 1914 e iniciou a II em 1939, (esta também em comum acordo com a Rússia!). As estruturas mentais e sociais mantêm-se, na Alemanha e na Russia. Nada mudou, nem vai mudar. Paciência.
A actual reacção em curso, demorou 50 anos a surgir. Institucionalizou-se em 2000 com a criação de uma UE, made in germany e com um tímido, outra vez reconhecidamente lírico, interesse francês.
Actualmente a reacção, a “des-humilhação”, é indubitavelmente alemã e russa, com um fortíssimo travo anti-EUA.
Em vez de ser por acção militar era económica, baseada na energia. Concertada entre Gerhard/Dorothea/ Vladimir. Agora é intervenção militar especial….
Mas o objectivo é o mesmo, poder e riqueza. Perguntem aos ucranianos.
Após a Segunda Guerra Mundial a Alemanha e o Japão tornaram-se países muito diferentes. A Rússia não. Mantém-se czarista.
Exacto. Por sua vez a Alemanha inventou a UE via um buffer, para despistar, em Bruxelas, cheio de funcionários bem pensantes e melhor alimentados.
Hãaaa?
1. Fiquei profundamente decepcionado e ainda mais preocupado com o discurso de Putín no 9 de Maio. Não disse nada. Nem que os objectivos militares estavam cumpridos nem que objectivos militares iria cumprir. Parece assim realista a posição debitada (uso o termo propositadamente) por Biden de que parece que Putín não tem uma estratégia de saída.
Considero certo que Putín, iludido pelos seus serviços que lhe diziam o que queria ouvir, esperava que os russos fossem recebidos como libertadores. Quando isto não aconteceu, nem sequer no Donbass com maiorias russófilas e russófonas, passou à destruição maciça de infra-estruturas e à táctica de aterrorizar civis, como na Chechénia e na Síria, sem mesmo se conter no Donbass, como aconteceu e continua a acontecer.
Só que isto impede qualquer saída limpa. Ou desiste dos principais objectivos – o Donbass, o corredor terrestre da Rússia à Transnítria com a redução da Ucrânia a um país continental sem acesso ao mar – arriscando a reacção interna ao desaire que será impossível de ocultar; ou, procede, aceitando o enfraquecimento militar por mais meses de guerra e, se consolidar ganhos territoriais, deixará a Rússia obrigada a empenhar-se na reconstrução, sob pena de assistir à deserção dos aliados no Donbass, a juntar-se ao terrorismo ucraniano que antevejo provável e violento.
O que me assusta é que ambos os cenários, do ponto de vista de Putín, podem justificar o emprego de bombas nucleares tácticas. E que isso possa ser apenas o princípio.
2. Os EUA são actualmente a única grande potência do mundo que pode viver em autarcia. Tem practicamente tudo e é exportador de energia e alimentos. Outros igualmente poderiam (China, Rússia, Índia e até Angola) se arrumassem a casa.
A China, tem carvão, está a desenvolver brutalmente o nuclear com auxílio da Rússia mas não tem hidrocarbonetos de que é o maior importador mundial. A Índia é fortíssima em alguns sectores mas desequilibrada noutros e tem, por enquanto uma quase dependência (70%) de armamento russo (da antiga URSS).
A crise demográfica é quase geral. Muito grave na Rússia e China,e, no chamado ocidente, apenas escapam os EUA, a Nova Zelândia e a França, esta última por motivos negativos (muito maior natalidade nas comunidades imigrantes). Na Europa, só não é já irreversível em Espanha e Reino Unido. Em particular Portugal, como nação uniracial, unicultural e uniconfessional, é já terminal.
A Europa ainda tem carvão (que não que usar) ainda não tem nem vai ter nuclear e renováveis em quantidade e tempo útil e não tem hidrocarbonetos, salvo em pouca quantidade e extracção problemática no Atlântico Norte. Pior do que tudo, tem pouquíssimos minerais, zero de terras raras, essenciais ao modernismo tecnológico e é fortemente importadora de alimentos (única exepção a França).
Por tudo, resolvido o conflito na Ucrânia e substituído Putín, preferencialmente por um opositor e não um seguidor-sucessor, a sobrevivência da Europa passa por, com ou sem NATO, uma aproximação à Rússia, exportadora de energia e de alimentos e com as maiores reservas minerais do mundo na Sibéria.
Exactamente como o discurso actual de Marine le Pen (ainda mais rejeitada do que o carvão).
Se vejo alternativa? Talvez. Desistindo da evolução do 5G, passando um pouco mais de frio e um pouco mais de calor, mudando radicalmente o paradigma dos transportes e, perdoem-me a brutalidade, alargando o conceito de eutanásia porque o estado social europeu será incapaz de suportar o envelhecimento populacional, sobretudo agora com um orçamento crescente para defesa.
E, cheira-me, em qualquer caso, a liberdade será uma parente pobre na nova realidade.
Putin foi económico no discurso porque não tinha nada para mostrar.
Sobre a questão nuclear, arriscava dizer que isso não acontecerá porque a China não o permite. Já tem poder para impor isso à Rússia e não vai deixar de o exercer.
Há um facto insofismável, após 77 dias de agressão russa à Ucrânia: Moscovo não registou até agora qualquer vitória.
Nenhuma para mostrar. Nem no campo político nem no campo diplomático nem no campo estratégico nem no campo militar nem no campo comunicacional nem no campo reputacional.
Um zero bem redondo.
“…, podem justificar o emprego de bombas nucleares tácticas….”.
Sim é um susto. Mas Putin sabe que nada impede a Ucrânia de já ter -novamente pois já as teve- armas nucleares, desta vez a crédito, para pagar mais tarde.
E Putin bem sabe que a Ucrânia não hesitará em retaliar.
Estimamos que este periclitante equilíbrio já conste das respectivas estratégias.
Compraram as armas nucleares na Feira do Relógio, com um financiamento do BES… qualquer coisa dessas.