
Livro um: Águas de Bacalhau, de Nuno Gonçalo Poças
Edição D. Quixote, 2026
381 páginas
Colectânea de crónicas publicadas ao longo de uma década por este estimulante observador da política portuguesa que se destacou num excelente livro de investigação sobre a organização terrorista FP-25 (Presos por um Fio, 2021) e numa biografia de Francisco Lucas Pires (O Príncipe da Democracia, 2024). Advogado, militante da opinião, Nuno Gonçalo Poças é um espectador comprometido: não se resigna ao ver Portugal em contínua divergência com os padrões de prosperidade do espaço europeu em que nos integrámos há 40 anos.
Em 1994, 37% de portugueses viviam na pobreza antes de receberem prestações sociais. Em 2023, esta percentagem subira para 44%. «Alguma coisa entre nós subsiste de errado quando todos os mecanismos do Estado não estão feitos para que a sociedade gere riqueza e para que haja cada vez menos gente a precisar do dinheiro dos impostos para viver, mas para o contrário.»
Ao invés de tantos outros, não gasta energias a dissecar labirintos partidários, cheios de intrigas e tricas. Não é isso que lhe interessa. O seu pensamento centra-se nas causas do nosso endémico atraso estrutural, no incumprimento do tal terceiro D (de Desenvolvimento) prometido em 1974 pela Revolução dos Cravos sem concretização condigna para os mais jovens.
«O país parece estar eternamente morno, algures entre a miséria dos países mais pobres e a riqueza económica e cultural dos países mais ricos. É um contentamento com a banalidade que só descontenta meia dúzia de tontos – é o meu caso, estupidamente», observa com ácida ironia.
Nuno Poças fez um percurso consistente desde os blogues até ao Observador, onde hoje mantém presença regular. Inconformado com este país incapaz de dar o salto em frente que todos quantos nasceram na geração de 80 (como ele) legitimamente sonharam. Se outras nações da UE progrediram, porque não sucederá o mesmo connosco? Nestes textos, escritos entre 2015 e 2025, não faltam respostas. Basta ler, por exemplo, “Uma espécie de democracia”, “Um pedaço de revolução por fazer”, “Derrubar o Muro de Adriano” ou “Exijam um Presidente da República”.
Outros encolhem os ombros. Ele não. É a atitude certa: faz bem em insistir. Até que as coisas mudem.
Sugestão 1 de 2016:
O Islão e o Ocidente, de Jaime Nogueira Pinto (D.Quixote)
Sugestão 1 de 2017:
A Máquina do Tempo, de H. G. Wells (Antígona)
Sugestão 1 de 2018:
Delito de Opinião, de vários autores (Bookbuilders)
Sugestão 1 de 2019:
O Fundo da Gaveta, de Vasco Pulido Valente (D. Quixote)
Sugestão de 2020:
As Sílabas de Amália, de Manuel Alegre (D. Quixote)
Sugestão de 2021:
No Devagar Depressa dos Tempos, de Marcello Duarte Mathias (D. Quixote)
Sugestão de 2022:
O Caminho Fica Longe, de Vergílio Ferreira (Quetzal)
Sugestão de 2023:
O Olhar Mais Azul, de Toni Morrison (Presença)
Sugestão de 2024:
Canções Para o Incêndio, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)
Sugestão de 2025:
As Janelas Defronte, de Georges Simenon (Cavalo de Ferro)

o desenvolvimento português post 25 lembra-me os anti Janízaros;
1 passo à frente e 3 atrás.
sou um dos parvos que regressou