
Livro três: Intervenções, de Michel Houellebecq
Edição Alfaguara, 2021
378 páginas
O francês Michel Houellebecq – autor de Submissão, um dos romances que marcam este século – gosta de emitir opiniões provocatórias. Contra a correcção política, desafiando os novos dogmas. Comparo-o por vezes ao saudoso Vasco Pulido Valente. Ou aos espanhóis Javier Marías e Arturo Pérez-Reverte. Pertence à linhagem dos escritores e pensadores que perturbam os consensos estabelecidos.
É uma característica patente neste volume, que beneficia de tradução competente de José Mário Silva e recolhe textos diversos do romancista – crónicas, entrevistas, pequenos ensaios – publicados entre 1993 e 2020. Textos de valor muito desigual. Alguns decepcionantes, outros tocados pelo brilhantismo que o autor empresta a várias reflexões sobre temas em foco: o relativismo cultural, a degradação dos padrões educativos ou o nivelamento por baixo nas sociedades contemporâneas. No estilo desassombrado que se tornou sua imagem de marca e que por vezes abusa de efeitos retóricos, como quando designa de «imbecis» quantos se acomodam ao padrão dominante.
O balanço é positivo: esta antologia justifica atenção por conter fragmentos de Houellebecq no seu melhor. Pessimista militante, sarcástico, melancólico. Quase sempre estimulante. Capaz de nos interpelar mesmo quando nos irrita. Conservador assumido, fala do presente como se sentisse saudades perpétuas do passado – até de um passado que nunca viveu. Elege Dostoievski como exemplo supremo da ficção literária. Elogia o cinema mudo. Enaltece as epístolas de São Paulo. Questiona «se terá havido um verdadeiro progresso desde o tempo da vida nas cavernas.»
Nele transparece sobretudo a paixão pela escrita. Que o leva a disparar contra solenes vultos das letras gaulesas: Sartre, Beauvoir, Malraux, Genet, Robbe-Grillet. E a citar Schopenhauer: «A primeira – e praticamente a única – condição de um bom estilo é ter qualquer coisa para dizer.»
No fim, tudo se reconduz à literatura – outra forma de pronunciarmos a palavra vida. Em frases tão lapidares e comoventes como esta: «Nada neste mundo é mais belo do que a bruma que se levanta do mar.»
Sugestão 3 de 2016:
Política, de David Runciman (Objectiva)
Sugestão 3 de 2017:
A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)
Sugestão 3 de 2018:
Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)
Sugestão 3 de 2019:
Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)
Sugestão 3 de 2020:
ABC da Tradução, de Marco Neves (Guerra & Paz)

Excelente esta série Dez Livros para Comprar na Feira.
Estive com este livro na mão na passada segunda-feira na Bertrand, hesitante. Acabei por não trazer por me lembrar que tive dois meses emprestado o Submissão, acabando por devolver sem passar das primeiras páginas – enquanto não arranjar disponibilidade para este não compro outro Houellebecq, para quem fui despertada há um par de anos por uma entrevista ao autor feita pela Clara Ferreira Alves, publicada no Expresso (deve estar disponível).
Em vez deste trouxe o As Velas Ardem Até ao Fim, de Sándor Márai, de que estou a gostar bastante.
Dê segunda oportunidade a “Submissão”, Isabel. Para mim, é um dos dez melhores romances publicados nestas duas décadas do século XXI.
Sobretudo, arrisca-se a ser profético.
Tal como Kafka e Orwell.
Não tive coragem, ao tempo em que dele tanto se falou e louvou, de comprar Submissão. O tema pareceu-me demasiado verosímil – a duas ou pouco mais gerações de distância – e temi que a sua leitura se revelasse um penoso exercício de masoquismo. Mas admito que ainda o tente fazer, antes ou depois do “Serotonina” que ali está, numa estante, uma e outra vez relegado para outra altura.
De Marai, “As Velas ardem até ao fim” é um breve, sereno, momento de verdadeiro prazer de leitura. Como o é “A herança de Eszter” (nas edições de que disponho, ainda sem riscos de abastardamento ortográfico na tradução portuguesa; agora não saberei dizer). E este seu comentário fez-me ver que desde o dia 25 de Dezembro de 2008 Rebeldes espera pacientemente a sua vez.
Sei que é preciso estar dentro do tempo e um certo desassossego pelo que acabarei por ler o Submissão mas percebo-o, também fujo de autores que agridem. Procuro defender-me. Ofereci-o quando foi badalado a quem me deu eco dessa e outras leituras do autor.
De Márai é o primeiro livro que leio e é como diz: está a ser um prazer sereno.
a degradação dos padrões educativos
Uma das permanentes obsessões da direita, das pessoas de direita. Elas não vão à escola (são adultos) e não sabem o que por lá se passa (a maior parte deles não tem filhos), mas têm este espetro de que os padrões educativos estão a decair. Tal como o meu pai, que se admirava de a mim não me ensinarem todos os afluentes do Douro ou do Tejo, ou todas as linhas férreas de Portugal. É uma típica obsessão dos direitistas, o decaimento dos padrões educativos. O qual decaimento não existe. Pelo contrário: cada vez se ensina mais coisas às crianças e jovens, cada vez eles têm menos tempo para fazer outra coisa que não estudar. Mas a direita e os direitistas continuam na sua obsessão.
Tivessem eles filhos e tivessem que apoiar a sua educação, outra opinião teriam.
Axiomas de Balio, enfim.
o relativismo cultural, a degradação dos padrões educativos ou o nivelamento por baixo nas sociedades contemporâneas
Todas as típicas taras da direita.
Axiomas de Balio II