Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro três: ABC da Tradução, de Marco Neves

Edição Guerra & Paz, 2020

106 páginas

 

Há muitas ideias feitas sobre a tradução – quase todas profundamente erradas. Não falta quem acredite ser tarefa ao alcance de qualquer pessoa versada num idioma estrangeiro, munida da primeira ferramenta digital que lhe apareça sob a designação de dicionário. E há até quem julgue tratar-se de ofício condenado à extinção face à galopante progressão desse esperanto dos nossos dias chamado inglês.

Marco Neves – tradutor, revisor, professor de Prática da Tradução na Universidade Nova de Lisboa – escreveu este livro para desfazer tais equívocos. Ao contrário do que muitos supõem, nunca a tradução foi tão procurada. Para os mais diversos efeitos: legislação, investimento empresarial, consumo, lazer. «Todos usamos traduções todos os dias (talvez mesmo todas as horas).»

Com linguagem escorreita e acessível, o autor desmonta outros mitos: o de que existem palavras ou expressões intraduzíveis (incluindo a nossa saudade); o de que traduzir é substituir palavras de uma língua para outra, quando o que se exige é «recriar frases e textos»; o de que legendar um filme se faz num ápice (pelo contrário, «demora muito mais do que a duração do próprio filme»).

É útil sabermos estas coisas. Para darmos valor a uma actividade profissional quase sempre invisível, exercida na solidão e muitas vezes no anonimato, mesmo tendo sido praticada por nomes ilustres. Como Eça, que traduziu As Minas de Salomão, de H. Rider Haggard, ou Blaise Cendrars, que popularizou em França – numa tradução ainda hoje elogiada – A Selva, de Ferreira de Castro.

Vale o esforço? Claro que sim. A nossa vida seria impensável sem estes «operários das palavras» que traduzem «livros, séries, documentários, notificações, manuais, artigos científicos, programas de computador, aplicações de telemóvel, sistemas de GPS, mensagens encontradas pela Polícia Judiciária». Fica a sugestão: visitemos os bastidores desta actividade intelectual que verte para outro idioma tudo quanto possamos imaginar – de um manual de instruções a um relatório secreto, de um romance policial a um catálogo de máquinas de café. Cientes de que «a tradução é mesmo a arte da aproximação entre culturas». E desengane-se quem pensar que é fácil. Porque não é.

 

Sugestão 3 de 2016:

Política, de David Runciman (Objectiva)

Sugestão 3 de 2017:

A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade (Companhia das Letras)

Sugestão 3 de 2018:

Cebola Crua com Sal e Broa, de Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

Sugestão 3 de 2019:

Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China)

36 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. ” o de que existem palavras ou expressões intraduzíveis (incluindo a nossa saudade);”
    Quando é que começou a balela de que saudade não se podia traduzir? Não sei mas tenho ideia de que terá começado com a propaganda nacionalista do Estado Novo. Ou começou antes?
    Depois sempre estranhei quando ouvia dizer que saudade não existe em mais língua nenhuma do mundo. Soava-me a falso. Há milhares de línguas, alguém procurou em todas? Parecia-me que o que queriam dizer era que não tinha equivalente nas 3 ou 4 línguas conhecidas por cá (inglês, francês, espanhol, etc. …).
    Não haverá equivalente em mongol ou numa língua falada na Papua? E em georgiano?
    Houve sempre quem quisesse mostrar que os portugueses eram únicos no mundo, heróis navegadores e que foram fadados para levar a civilização aos povos africanos, etc. Era o que eu ouvia nos tempos da guerra colonial e servia, entre outras coisas, para justificar que tínhamos o dever de participar nessa guerra.
    De resto o artigo parece-me muito interessante.

    1. Neste livro o autor sustenta, com fundamento, que todas as palavras são traduzíveis. Esse mito de que há termos ou expressões “sem tradução” é precisamente isso: um mito.
      Esta foi sempre a minha opinião: tudo é traduzível, naturalmente.
      Gostei de saber que alguém, especialista na matéria, viesse agora escrever sem rodeios que é mesmo assim.

        1. Alegrar-se com o mal dos outros, por exemplo, ou escarnecer, entre outras hipóteses. Não tem que ser uma só palavra, até porque Schadenfreude é a aglutinação de duas palavras antagónicas.
          Como o Lavoura sabe (melhor do que eu, que já esqueci o que aprendi há mais de mil anos) eles juntam várias palavras, formando uma nova palavra, enorme, só para nos baralhar

          Ó Cristina Torrão, dê aqui uma ajudinha, bitte!
          🍁
          Maria

        2. Todas as palavras em língua portuguesa são traduzíveis.
          O bar bar não é traduzível por isso é que os romanos lhes chamavam bárbaros.

          1. Táxi. Julgo ter lido num dos livros do JRS sobre o Gulbenkian, este ser contemporâneo do Alfred Nobel e de um outro ricalhaço Aston Taxi que tinha carruagens (naquele tempo de cavalos) de aluguer.
            É certo que táxi, até na Mongólia ou na Papua, é como se identifica um carro de aluguer.
            Mas o mais interessante, na região do Pais de Gales (UK) não são identificados com táxi mas sim com tacsi …é mesmo pra chatear.

          1. Para o das 18:07, esqueci-me de acrescentar.

            Também não acredito que haja palavras impossíveis de traduzir — tirando alguns nomes próprios.

          2. Não me parece que seja esse o sentido, é mais aquela coisa do “bem feito, ora toma lá que já almoçaste! “.
            Talvez o nosso balio queira esclarecer-nos…
            Domingo feliz, V.!
            🍁
            Maria

          3. Eu acho que malícia é bastante aproximado. Mesmo formalmente, não são assim tão diferentes — em termos de etimologia (que os medíocres defensores do AO querem destruir porque é anterior à porcaria da república) o que em alemão é “alegria no mal/dano” pode corresponder em português a malícia, que contem o sufixo latino -itia que corresponde a um “estado” e o sentido da palavra é algo que é praticado como diabrura ou habilidade: ou seja, um estado (de prazer) na maldade. Mas também nada nos impede de traduzir a ideia em duas ou três palavras, não deixa de ser traduzível. Uma mesma ideia não precisa de ter um só formato pelo mundo fora..

            schönen Sonntag!

          4. O que por vezes é intraduzível (e ainda bem) é a mera substituição de uma palavra por outra.
            Mas o essencial, na tradução, nunca é a palavra. É o conceito, é a ideia.
            Marco Neves fala-nos disto também.

    2. A nossa “saudade” vem do latim solitate «solidão», ou seja alguém que se sente só por estar longe da sua terra, da sua gente, da sua comida, do seu clima e sentir falta disso tudo, mesmo que esteja bem onde está.
      Há tempos, um dos programas ‘Portugueses pelo Mundo’, da RTP1, foi passado junto da comunidade portuguesa de Boston (EUA) em que a grande maioria são imigrantes oriundos dos Açores, mas havia uma jovem de Almada que não pensava voltar pra cá tão cedo, embora tivesse saudades de Portugal e disse: tenho saudades da minha avó,tenho saudades do sol, tenho saudades do mar e tenho saudades do arroz de marisco.
      Será que um imigrante mongol ou da Papua terão esta mesma saudade?

      1. “Será que um imigrante mongol ou da Papua terão esta mesma saudade?”
        Não sei mas gostava de saber. Talvez tenham saudade de outras coisas.

  2. É curioso que, sendo a palavra “saudade” supostamente intraduzível, o título do filme de R.W. Fassbinder Die Sehnsucht der Veronika Voss tenha sido traduzido para português como “A saudade de Veronika Voss”.

      1. “Não há palavras intraduzíveis” Sim, mas há palavras que só se podem traduzir por frases.
        Por exemplo “Ilunga” (da língua tshiluba falada no Congo e no Zaire) não se pode traduzir por uma só palavra em português. Parece-me que é aqui que muita gente faz confusão: entendem que uma palavra não se pode traduzir nos caso de a tradução implicar mais de uma palavra. Acho que pensar assim está errado.

  3. Só estou interessado no ” Cebola Crua com Sal e Broa, ” que já devia ter adquerido há muito tempo, não sei porque foi passando mas como agora foi lembrado não me escapa.
    ” A Rosa do Povo ” não me interessa minimamente já que de há uns tempos para cá fiquei colmatado de poesia.
    Desde as máscaras do presidente, passando pela festa do Avante, prosseguindo com as salas colmatadas do humorista aos estádios de futebol vazios, continuando pela novela do mais puro romantismo Cavani e finalizando na não menos romanesca novela Amorim, tudo é poesia.
    É poesia a mais para tão fraco apreciador. Dispenso portanto a Rosa.

    1. São sugestões minhas de outros anos, que só trago aqui em benefício de inventário. Porque o DELITO é um blogue que se preza de ter memória.

      Registo que você, benfiquista, aprecia os textos do portista MST. É capaz de fazer algum sentido.

    2. Nesse livro há um poema chamado ‘Consolo na Praia’.
      Se o encontrar e quiser ler, tenho quase a certeza que vai gostar.
      E um poema para alguém que perdeu tudo, dando força para um recomeço.
      Pelo que já nos contou aqui da sua vida (com outro nome) este poema até poderia ter sido escrito para si.
      🍁
      Maria

    1. É um tema que me interessa, confesso. Por reconhecer a importância da tradução no nosso quotidiano e por verificar como esta profissão continua tão pouco valorizada apesar de ser cada vez mais indispensável.
      Ainda persiste aquela ideia sem fundamento de que “qualquer um é capaz de fazer isso”.
      Mas não é, nem pensar.

      O livro ajuda-nos a reflectir um pouco sobre tudo isto.

  4. Gosto muito do Drummond de Andrade e a minha ‘A Rosa do Povo’ saíu com o Público em Jan/2015.
    Gostei muito da Cebola Crua do Miguel, é um livro autobiográfico e isso agrada-me sempre.
    Quanto ao livro do Pedro Mexia, confirmo o meu comentário de 2019.
    🍁
    Maria

    1. Drummond é um poeta e cronista de que sempre gostei muito. Um mestre da língua portuguesa, que merecia ter recebido o Nobel da Literatura.

      O livro de MST é talvez aquele de que mais gostei dele – e tenho-os lido quase todos – a par de ‘Sul’, singular colectânea de textos de viagens. Qualquer deles superiores ao semi-falhado ‘Equador’, romance que peca por ter cerca de 200 páginas em excesso e revelar imperdoáveis erros de edição.

    1. Sim, para mim é muito superior na crónica ou reportagem. “Equador”, por exemplo, tem 200 páginas a mais. E tem sérios problemas de edição (pelo menos na edição original, que é a que tenho).
      MST devia ter seguido o sábio conselho de Simenon: «Escrever é cortar.»

      1. E no Rio das Flores perde-se nas explicações sobre tourada, bacarat, a situação política no Brasil nos anos 20, etc. O temor a quaisquer falhas como as apontadas em Equador determinarm uma catrefada de páginas a mais, o que cortou muito ritmo à narrativa.

  5. Rio das Flores é autobiográfico, o Miguel tradicionalista (que está com a família, sobretudo a mãe) e o Miguel desassossegado (que casa com a cigana e se aventura no Brasil). O escritor está em Equador e, pelos vistos, nesta autobiografia declarada.

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