O grande vencedor?


João Pedro Pimenta,

 

Ao ver as capas dos jornais, dir-se-ia que o grande vencedor destas autárquicas é Fernando Medina. Que é o PS no seu conjunto não restam quaisquer dúvidas e só alguém muma dimensão paralela o poderá negar. Que Medina ganhou também não. Mas ser o grande destaque? Medina perdeu a maioria absoluta e 9% em relação a há 4 anos, mas parece que todos se esqueceram disso (e Assunção, sem o PSD, apenas juntando o PPM ao CDS e MPT, teve quase tanto como Fernando Seara em 2013). Além do mais, teve todas as facilidades e mais algumas, entre apoios, divisão dos adversários, boas notícias para o Governo, etc. Entretanto, Rui Moreira não só voltou a ganhar… como subiu até aos 44% e conquistou a maioria absoluta. Teve um caminho muito mais espinhoso, não tinha os meios nem os apoios que Medina teve, em termos de partidos apoiantes só contava com o CDS e o MPT a seu lado, e para mais, até as sondagens lhe foram adversas – as mais favoráveis ficaram aquém do resultado real. No entanto, parece que a única matéria de destaque é o seu discurso. E o PS, que teve um extraordinário resultado no Grande Porto (tirando a perda de Vila do Conde), fica arredado da governação da cidade por culpa do pecado da gula da sua direcção nacional. Ao mesmo tempo, o PSD, que até há 4 anos governou esta cidade com maioria absoluta, teve um resultado irrisório. E diga-se o que se disser das crí­ticas de Moreira, a culpa não cabe só a Álvaro Almeida, que realmente, e para o bem ou para o mal, não tem um perfil muito político. Por outro lado, os partidos mais à esquerda tiveram também fracas percentagens: a CDU por pouco ficava pela primeira vez fora do executivo. Talvez seja a altura de se ir renovando, pese o bom currículo de Ilda Figueiredo. O BE subiu um bocadinho, mas como sempre ficou fora. Pela 4ª vez, Teixeira Lopes ficou à  porta da vereação. Também aqui deviam pensar em fazer algumas mudanças, até porque dá ideia que o Bloco no Porto só tem actores ou sociólogos.

 

Ainda sobre as sondagens e seus erros: trabalhei muitas vezes para as sondagens do CESOP da UCP, de urna às costas ou de computador à  ilharga, por terras remotas e por subúrbios que desconhecia. Conheço os métodos rigorosos que utiliza, e por isso é que as suas previsões são as mais certeiras (foram os únicos a prever o triunfo de Moreira há 4 anos, e também os primeiros a prever a revalidação da maioria cavaquista em 1991). Desta vez, ao dar empate com o PS, falharam redondamente. Prova-se que as crí­ticas de Moreira tinham razão de ser. Espero que tenha sido um percalço sem continuidade e que voltem ao rigor e exigência que sempre tiveram.

 

Foto de João Pedro Pimenta.

 

O estado da situação no Porto, um mês após o cisma Moreira-PS.


João Pedro Pimenta,

Já se passou mais de um mês desde que Rui Moreira declinou o apoio do PS à sua candidatura. A minha percepção da coisa não mudou muito desde então, mas preferi esperar que o pó dos acontecimentos políticos assentasse. E não faltaram outra novidades autárquicas, até o regresso de Valentim Loureiro às batalhas eleitorais. Ou do caso Selminho, que voltou como arremesso de lama eleitoral e que promete continuar a dar que falar.

 

Antes de mais, uma nota: votei em Rui Moreira em 2013 e tenciono voltar a fazê-lo. Aliás, andei a fazer campanha nas ruas, por vezes sob a intempérie, onde a alguns dias da eleição já se notava uma notória tendência de voto no candidato que venceu (não há como a campanha porta a porta para se perceber isso, mais do que os comícios que hoje em dia são sobretudo encontros gastronómicos com presença maciça de militantes arregimentados). Por isso, perdoem a parcialidade, mas também resulta do que observei nestes 4 anos e no que retiro do momento político actual.

 

O rompimento entre o movimento de Rui Moreira e o PS deu-se após alguns sinais de nervosismo por parte do primeiro, com a discussão de lugares e depois de Ana Catarina Mendes considerar que a eventual vitória de Moreira seria contabilizada como sendo do PS. Pelo meio, já tinha havido o desacordo de inúmeros elementos do PS, do Porto e não só (Francisco Assis, por exemplo), a contestação à liderança distrital de Manuel Pizarro e as acusações sibilinas de Manuel dos Santos, lá da sua prateleira dourada no Parlamento Europeu, para além de algumas divergências de Manuel Correia Fernandes, que detinha o importante pelouro do urbanismo. Mas o acordo firmado em 2013 corria bem, e Pizarro tinha a confiança de Moreira. Não era por ele que as coisas dariam para o torto. Como muitas vezes acontece, os movimentos subterrâneos e as intrigas partidárias acabaram por resultar, com a preciosa ajuda da cúpula política. Não sei se era intencional, mas a verdade é que Ana Catarina Mendes conseguiu implodir o acordo e deixou Pizarro numa situação complicadíssima. Alguns socialistas agradeceram. Outros sentiram-se traídos.

 

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Quem ganhou e quem perdeu? À primeira vista, Moreira ficou sem algumas cruzes no boletim e a quase certeza da maioria absoluta. Mas provavelmente ganhou mais do que perdeu. Ficará com menos votos do que os que teria se o PS o apoiasse, mas conseguiu manter a independência formal do seu movimento e afastar a ideia do “domínio da câmara” por parte do PS (cujos vereadores, de resto, renunciaram aos respectivos pelouros). Mantém o apoio do CDS, que conseguiu sempre manter-se no grupo vencedor de forma sabiamente discreta, e agora do MPT e do Nós, Cidadãos, além do grupo que já o apoiava e que tem várias origens políticas. O grande problema, que afectou o executivo nestes quatro anos, é que o núcleo duro se enfraqueceu com os desaparecimentos de Paulo Cunha e Silva e Manuel Sampaio Pimentel (e outros, infelizmente), ou a partida de Azeredo Lopes. Será esse o principal desafio de Moreira, que até agora só prometeu conservar o pelouro da cultura nas suas mãos. De resto, o plano para a cidade tem-se cumprido, com ênfase nos pilares a que deu maior importância (a cultura, a economia e a coesão social), e a saúde financeira não se afasta muito do rigor dos tempos de Rui Rio. E nalguns casos, como a resolução do problema da Feira do Livro, provou-se que pode haver apostas públicas na cultura sem necessidade de enormes gastos. Mas há mais problemas a resolver, como o do trânsito.

 

Quanto ao PS, fica numa situação muito complicada: não pode criticar o executivo de que fazia parte, não pode apresentar um programa demasiado parecido com o da lista de Moreira, com o risco de se secundarizar, nem afastar-se totalmente, sob pena de ser acusado de oportunismo. Pizarro e os seus camaradas têm aqui um quebra-cabeças difícil de resolver. Até porque se Moreira voltar a ganhar sem maioria, poderá muito bem voltar a precisar da confiança do cabeça de lista do PS (não necessariamente dos outros).

 

O PSD perde também o argumento de que a câmara era “controlada pelo PS (ou, numa deriva incompreensível, pela “extrema-esquerda”)”. Tem como candidato alguém que parece ser a antítese de Luís Filipe Menezes: o independente, discreto e pouco conhecido Álvaro de Almeida. Mas talvez por falta de experiência e de tacto político, ou por total ausência de ideias, Almeida tem levado a cabo uma campanha absurda, em que acusa Moreira de “não ter cumprido nenhuma promessa” (lembrou-se provavelmente das escadas rolantes para o Palácio de Cristal) e de ser um “traidor”, “déspota”, “populista”, etc. Só falta mesmo chamar-lhe terrorista ou jiadista, mas já não deve faltar muito.

 

À esquerda, o regresso do PS a uma candidatura própria pode ser impeditivo de uma maior capitalização de votos nesse espectro. Nesse sentido, a aposta em nomes conhecidos pode não ser a melhor jogada. A CDU volta a lançar Ilda Figueiredo como candidata à câmara, vinte anos depois da sua última candidatura, e para a assembleia municipal o seu sucessor na vereação, Rui Sá, gabado pelo seu trabalho enquanto vereador com pelouro no primeiro mandato de Rui Rio, numa daquelas improváveis coligações “vodca-laranja”. O Bloco de Esquerda jogava forte, com a candidatura de João Semedo, ex-“coordenador” do movimento, com larga experiência política e há muito a viver na cidade (e um dos raros bloquistas do Porto que não é nem actor nem sociólogo). Mas hoje mesmo, por razões de saúde, Semedo desistiu da candidatura à câmara e trocou de lugar com João Teixeira Lopes, passando assim a candidato a deputado municipal. A infeliz circunstância pode diminuir as hipóteses do Bloco conseguir pela primeira vez um lugar na vereação do município, até porque Teixeira Lopes por mais do que uma vez experimentou a mesma candidatura e teve sempre resultados bisonhos.

 

As eleições para a câmara do Porto prometiam ser uma maçadoria, mas afinal aqueceram com estes pequenos terramotos políticos. Será mais uma querela autárquica a seguir, a merecer atenção em algumas matérias importantes para a cidade, embora preveja que a ordem dos resultados vá ser a mesma de 2013. Aliás, não faltam motivos de entretenimento no distrito do Porto: temos os regressos de Valentim Loureiro, de Narciso Miranda (que anuncia a candidatura, mesmo a calhar, no dia do Senhor de Matosinhos), de Avelino Ferreira Torres, e até o filho de Vieira de Carvalho concorre à Maia. Vá lá que Fátima Felgueiras e Luís Filipe Menezes resistiram à tentação de ver as suas fotos novamente nos cartazes.

Uma campanha alegre no Porto.


Luís Menezes Leitão,

O PS no Porto tem tido tanto sucesso que decidiu apresentar duas equipas como candidatas à Câmara. Rui Moreira é a equipa A, enquanto Manuel Pizarro é a equipa B. Ao contrário do que sucede no futebol, nas autárquicas as equipas A e B podem jogar na mesma Liga. E já se sabe que no fim repartirão os pelouros na vereação como sempre fizeram. Vai ser uma verdadeira campanha alegre.

Queremos mais estacionamento?


Tiago Mota Saraiva,

 

Se cada cidadão eleitor em Lisboa e no Porto tivesse um automóvel próprio as viaturas estacionadas nas nossas ruas ocupariam 6,2% e 6,5% das respectivas áreas da cidade. Se a esse número acrescermos o da média diária estimada de automóveis que entram nas duas cidades (700.000 e 70.000), podíamos ter o território de cada uma das cidades ocupado em 14,9% e 8,6% por estacionamento automóvel – o que poderá não andar longe do que sucede actualmente. Em Lisboa, os cerca de 1500 hectares potencialmente ocupados por automóveis correspondem à área de duas freguesias de Marvila ou sete Arroios.

Estes números servem para se perceber a radicalidade do problema e a necessidade urgente de construir políticas que alterem esta escalada de ocupação do território. A circulação dentro da cidade ou a existência de famílias com frota automóvel a residir em contexto urbano devem ser desincentivadas ao mesmo tempo que o custo dos transportes públicos deve diminuir e a sua frequência e qualidade aumentar. Por outro lado devem ser aceleradas as políticas de incentivo à mobilidade pedonal e ciclovias que têm vindo a ser desenhadas.

O sucesso do movimento de vizinhos do Jardim do Caracol da Penha em Lisboa – que mobilizou a população através de uma petição entregue na Assembleia Municipal e terá conseguido travar a pretensão da EMEL de construir no decorrer deste Verão um parque de estacionamento a céu aberto nos terrenos de uma antiga quinta com 1 hectare numa das zonas de Lisboa com maior carência de espaços verdes – deve ser motivo de reflexão. A resposta ao problema de estacionamento tem de deixar de ser sempre a criação de mais estacionamento. Temos inúmeros casos que demonstram que a afectação de mais espaço urbano a lugares de estacionamento não só não resolve como, a médio prazo, agrava o problema incrementando a solução do transporte individual.

Sendo certo que esta questão não se resolve da noite para o dia nem com um decreto, devemos trabalhar para que as decisões vão todas no mesmo sentido. Não se pode promover o uso da bicicleta ao mesmo tempo que se estimula o incremento do automóvel e tem de se perceber que, em certas circunstâncias, a criação de uma nova carreira de autocarro pode resolver um problema de estacionamento.

 

(publicado hoje no i)

Da propriedade dos turistas


escafandro,

 

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AHAHAHAH

Acabámos de saber (estupefactos) por um Secretário de Estado, que o crescimento do turismo no Porto não se deve nem à política de promoção que a cidade tem feito nem ao extraordinário trabalho que os portuenses (empresários e cidadãos) têm feito.

A razão para o enorme sucesso do turismo deve-se ao trabalho deste Secretário de Estado e à presença do Porto na imprensa internacional que, por sua exclusiva e enorme competência, tem promovido a cidade no estrangeiro.

E é bem verdade, basta olhar para a capa do New York Times, para as centrais da Monocle, para a última página do Libération, para a página 4 do El País para se perceber a presença deste enorme Secretário de Estado e o competente trabalho que o seu Governo tem feito na promoção do Porto. Estão a vê-lo? Reconhecem-no? Chama-se Adolfo Mesquita Nunes… Palavras para quê, é um artista português.

 

Mudei-me de Gaia para o Porto no ano passado. Não votei, pois, em Rui Moreira – mas tê-lo-ia feito se já residisse no Porto em 2013. Isso não me impede de considerar absurda, para além de infantil, a reacção de Moreira às declarações feitas por Adolfo Mesquita Nunes, o secretário de Estado do Turismo, ao Jornal 2 da RTP da passada quinta-feira. Mesquita Nunes disse não apenas o que devia dizer mas o que qualquer portuense com dois dedos de testa sabe: o turismo no Porto cresceu em resultado de uma conjugação de factores, entre os quais se destacam a captação de voos de companhias low-cost para o aeroporto Francisco Sá Carneiro, a estratégia de promoção assente nos meios digitais e na publicação de artigos em revistas e jornais estrangeiros (em vez de em «eventos») e os investimentos privados na cidade, que a dinamizaram muito para além do que as «forças intelectuais» sedentas de subsídios públicos que se opuseram constantemente à acção de Rui Rio alguma vez conseguiram. Aparentemente, Moreira queria mais. Queria (como parece ficar óbvio pela colecção de imagens que afixou na sua página do Facebook) uma palavra de reconhecimento a quem é presidente da autarquia há pouco mais de um ano. Queria palavras bonitas sobre a capacidade de iniciativa dos portuenses (que existiram) mas não palavras realistas sobre outros factores (é evidente que a Ryanair desempenhou um papel crucial). Esta incapacidade para analisar fria e racionalmente os assuntos, prescindindo de vaidadezinhas que seriam estéreis se não fossem afinal prejudiciais, é um dos grandes problemas dos políticos portugueses (e não só deles; trata-se de uma característica bastante disseminada). Lamento que Moreira se esteja a deixar cair em reacções tão básicas, injustas e improdutivas. Até porque, não tendo tido oportunidade de votar nele em 2013, gostaria de poder fazê-lo no futuro.

 

P. S.: Não consegui encontrar o vídeo completo da entrevista. O excerto a que se pode aceder na página do Facebook de Rui Moreira é tão representativo como um quadradinho retirado bem do centro da bandeira portuguesa é representativo das cores que a compõem.

 

Disclaimer: Apesar de Adolfo Mesquita Nunes ser colaborador do Delito, os únicos contactos que mantive com ele foram através de emails genéricos, direccionados a todos os participantes no blogue. Ainda um dia hei-de ir a um almoço de delituosos mas, até lá, o único que conheço pessoalmente – e não tão bem quanto gostaria – sou eu.

Figura nacional de 2013


Pedro Correia,

RUI MOREIRA

Pela primeira vez uma lista independente (embora com o apoio de um partido, o CDS) venceu uma eleição para uma grande cidade portuguesa, conquistando seis dos 13 mandatos em disputa. Aconteceu no Porto, nas eleições autárquicas de 29 de Setembro, quando Rui Moreira, obtendo 39% dos votos, derrotou o socialista Manuel Pizarro e o social-democrata Luís Filipe Menezes, num dos mais disputados confrontos eleitorais de que ali há memória.

Empresário e dirigente associativo, de 57 anos, Rui Moreira distinguiu-se sobretudo como presidente da Associação Comercial do Porto, sucedendo no município da Invicta ao social-democrata Rui Rio, que cumpriu três mandatos consecutivos. Rio foi, aliás, um dos protagonistas da campanha ao anunciar publicamente que não votaria em Menezes, o candidato oficial do PSD. Uma declaração que facillitou a vitória de Rui Moreira, conhecido adepto do FC Porto e ex-comentador de futebol na RTP.

Fala-se já dele para novos voos políticos, mas por enquanto o novo autarca portuense – que tomou posse a 22 de Outubro e obteve entretanto o apoio do PS para obter maioria nos processos de decisão – promete concentrar todas as energias no trabalho camarário do Porto, a que chamou “cidade livre”. Um dos seus primeiros actos como autarca foi normalizar as relações entre o município e o FCP, interrompidas no início do mandato de Rio.

 

Rui Moreira foi considerado a figura nacional de 2013 em votação interna do DELITO DE OPINIÃO, sucedendo a José Mourinho (figura nacional de 2010) e Vítor Gaspar (figura nacional de 2011).

Logo a seguir nesta votação ficou o povo português, no seu conjunto, pelos sacrifícios que enfrenta e a forma como os tem suportado. Em terceiro lugar, o presidente do Tribunal Constitucional, Joaquim Sousa Ribeiro. Seguiu-se Vítor Gaspar, que se demitiu de ministro das Finanças no início de Julho.

Houve ainda votos isolados em Rodrigo Leão, Cristiano Ronaldo, Paulo Valente Gomes e Bruno de Carvalho.

Foto Paulo Pimenta/Público

O ataque do Porto ao Sporting


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Há dois meses, a propósito da novela Bruma, aqui ecoei as minhas suspeitas de que o jovem jogador iria para o Porto, o que mostraria o intento portista de praticar o clubecídio. Pois tão arruinado foi o Sporting pelas suas últimas direcções que recrutar-lhe agora, gratuitamente, os jovens jogadores só pode denotar uma vertigem assassina, a vontade de exterminar o clube enquanto grande instituição desportiva nacional. Como é sabido tal acabou por não acontecer, Bruma partiu para a Turquia e os interesses do Sporting, enquanto clube formador, foram defendidos.  Mas a trapalhada não tinha terminado. Nesse conflito o “inefável” apoderado de Bruma tinha também retirado dois outros jovens prometedores jogadores do clube, Cassamá e Sambú. Assinaram agora pelo F.C. Porto. O que mostra algum fundamento da minha suspeita: o andradismo manobrava na sombra, ambiciona o clubecídio, e nisso terá também namorado o outro membro do trio.

Mas mais do que o interesse por prometedores futebolistas o ocorrido, isto do Porto ir contratar dois miúdos de 15 e 16 anos em conflito com o seu clube formador (apesar de todos aqueles pactos inter-clubes, de que se lê nos jornais), não passa de uma demonstração de força, um marcar de terreno. E faz-me lembrar um velho episódio, tão parecido é ele.

Em princípios da década o charmosista Julio Iglesias atacou o mercado americano anglófono, desembarcando em força. O velho elefante ripostou. Poderoso ainda, e tanto que já sem precisar de encomendar aquelas antigas “propostas irrecusáveis”, mas já no ocaso (pois isso manda a lei da vida), Sinatra decidiu marcar o território, a demonstrar que a “voz”, o “charme”, o “Papa” era ainda ele, e aquele o seu reino. E fez a sua demonstração de força, chamou o grande treinador Quincy Jones, um “special one”, convocou as figuras menores do panteão, assim reduzido a sua corte de figurantes. E fez isto, o seu último trabalho a solo, que mais explícito não podia ser:

 

Frank Sinatra – LA Is My Lady

Depois continuou. Naquela obrigatória decadência da idade que só os admiradores (eu um deles) não queriam notar, preferindo olhar (ouvir) para trás. Pois a força, essa, enorme, vencedora, já tinha estado. 

 

Frank Sinatra – The Lady is a tramp

I’ve Got You Under My Skin – Frank Sinatra | Concert Collection

Cada vez mais longe desta forma de fazer política


Pedro Correia,

 

Tanto barulho para nada. Rui Rio arrisca-se a decepcionar uma vez mais aqueles que insistem em chamá-lo ao salão. Numa entrevista concedida em horário nobre à televisão pública, o ainda presidente da câmara do Porto voltou a aflorar o perigoso discurso antipartidos (como se não fosse membro de um, tendo sido aliás seu vice-presidente) com expressões de profundo nojo pela vida política (como se não desempenhasse há mais de duas décadas funções políticas).

Expressões como esta: “Sinto-me cada vez mais longe desta forma de fazer política.” E esta: “Isto em que nós vivemos já nem sei bem se é uma democracia.”

Palavras dignas de qualquer dos habituais intervenientes da Opinião Pública da SIC Notícias.

 

Seria de esperar algo um pouco mais profundo do ex-vice-presidente da JSD, ex-secretário-geral do PSD, ex-vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e ex-vice-presidente dos laranjinhas, que à beira de concluir 12 anos de mandato na Avenida dos Aliados fala como se não tivesse partido e recomenda – não recomendando – uma via alternativa. “Há um movimento do topo da sociedade portuense para a existência de uma candidatura independente, fora dos partidos”, destacou, apontando em direcção de Rui Moreira sem no entanto ter o desassombro de anunciar que lhe destina o voto. A falta de clareza de alguns protagonistas é um dos principais problemas da nossa vida política, como há muito sustento. Incluindo aqueles que, como Rui Rio, tanto gostam de apregoar frontalidade.

De caminho, nesta entrevista, o autarca disparou contra Luís Filipe Menezes, indicado pelo PSD para concorrer à sua sucessão. Nada de admirar, dadas as públicas divergências que ambos mantêm há longos anos. Mas Rio – apresentado pela RTP como “um homem cuja palavra pode ser decisiva para o resultado final” – caiu num lapso: por duas vezes falou como se Menezes tivesse a eleição assegurada. A primeira quando disse isto: “Não posso apoiar, de forma nenhuma, quem vai fazer o contrário daquilo que estive a fazer.” A segunda, aqui: “Tenho a obrigação ética de me demarcar muito claramente daquilo que eu sei que vai destruir tudo aquilo que foi feito [no Porto].” Tem a certeza de que Menezes vai fazer e vai destruir, doutor Rio? Essa forma verbal indicia que já dá por garantida a vitória do seu rival.

 

E da entrevista conclui-se o quê? Que Rio tenciona abandonar a política, ingressando na actividade privada, porque precisa de “ganhar um pouco mais pois os salários na política, ao contrário do que as pessoas pensam, são muito baixos”.

Tem todo o direito de o fazer, como é óbvio. Mas afinal, com o actual autarca a dissolver-se em breve na nossa linha do horizonte, quem poderá protagonizar a regeneração por que tanto ansiamos na política portuguesa?

Promessas de campanha numa autarquia sobreendividada


escafandro,

Só vejo duas hipóteses: ou é mentira ou irresponsabilidade. 

 

Entretanto, na outra margem do rio, o responsável pelo sobreendividamento de Gaia esqueceu-se de colocar o símbolo do PSD nos cartazes de campanha mas promete heliportos, cortar o trânsito em parte da rotunda da Boavista e, numa tentativa de agradar aos abrunhosas do burgo, órfãos de carinho e fundos públicos há doze anos, centros de artes, fazer de Wim Wenders o embaixador do vinho do Porto e forçar a Academia de Hollywood a atribuir o Óscar honorário a Manoel de Oliveira. Diz o candidato: «É no centro-esquerda que se ganha a maioria absoluta e é para aí que aponta o nosso objectivo.» Julgando pela história recente do país, o centro-esquerda é bem capaz de lhe dar a vitória.

Porto, Texas.


Luís Menezes Leitão,

 

Julgava eu que os tribunais tinham julgado Luís Filipe Menezes impedido de se candidatar à Câmara do Porto. Mas, como se escreve nesta crónica, ele não desiste de contrariar as decisões judiciais, podendo até utilizar o slogan: “Ninguém pára o Menezes se ele quiser concorrer 50 vezes!“. E de facto parece que vivemos no faroeste, onde os autarcas ignoram olimpicamente os tribunais do país, defendendo o seu direito a ser presidentes de câmara até à eternidade. Deve ser por isso que Menezes faz propostas como de a convidar Wim Wenders, o realizador de Paris, Texas, para embaixador do vinho do Porto ou de fazer a academia de Hollywood dar o óscar de carreira a Manoel de Oliveira em 2015, altura em que o mesmo fará os seus jubilosos 107 anos. Estas propostas têm toda a lógica. Com a eleição de Menezes, o Porto poderá passar a intitular-se Porto, Texas, cidade onde os tribunais não contam, já que é o xerife que tudo decide. E daqui a 100 anos Menezes ainda estará no cargo, já que nem sequer terá atingido os seus trinta mandatos, que é a única limitação que se deve considerar que resulta do espírito da lei de limitação de mandatos.

Um livro todos os dias


Pedro Correia,

A pedido de alguns leitores, lanço aqui uma nova série a partir de segunda-feira. Sugerindo um livro por dia até ao fim do ano. Como já tinha feito em 2012, por ocasião das feiras do livro de Lisboa e Porto – iniciativa que retomei em Maio e Junho de 2013, enquanto durou a Feira do Livro de Lisboa (a do Porto, lamentavelmente, não se realizou este ano, o que revela muito sobre a indigência cultural dos gestores políticos da cidade).

Antes que alguém me faça a pergunta, fica desde já prestado o esclarecimento: todas as obras recomendadas – dos mais diversos autores, géneros e estilos – terão uma característica comum. Essa mesmo, que já adivinharam: são escritas na grafia pré-acordista – a que continua a ser seguida pela larga maioria dos portugueses, incluindo alguns dos mentores políticos do acordês, a quem devia aplicar-se a regra de São Tomás, mas invertida: não faças o que ele diz, faz o que ele faz.

E ninguém diga que não compra livros por rejeitar as aberrações ortográficas plasmadas no convénio pseudo-académico de 1990: são inúmeras as obras que continuam a ser editadas em Portugal segundo a norma pré-acordística. Como procurarei demonstrar também, dia a dia, com as sugestões que aqui deixar.

Pânico no túnel.


Luís Menezes Leitão,

 

Lê-se e não se acredita. Parece que Luís Filipe Menezes não quer abandonar Gaia sem deixar os gaienses afundados — literalmente — em mais um projecto megalómano e despesista. Efectivamente “a Câmara de Gaia está a projectar a construção de um túnel rodoviário mergulhado nas águas do Douro para ligar a praia de Lavadores (Gaia) à zona do Castelo da Foz (Porto). A obra custa 54 milhões de euros. Para o túnel ser sustentável deverá ser portajado“. Vão ser assim gastos 54 milhões de euros para permitir aos milhares de carros que todos os dias desesperam na Praia dos Lavadores para chegar ao Castelo da Foz que lá cheguem num moderno túnel. E como não poderia deixar de ser, é necessário pagar a portagem, coisa que não existe em nenhuma ponte do Porto. Naturalmente que o túnel só será viável com mais uma parceria público-privada, em que a autarquia assegurará ao privado o retorno do investimento, já que, se o privado contasse apenas com o dinheiro das portagens a receber, não haveria túnel até ao dia do juízo.

 

Enquanto houver autarcas com estas ideias despesistas e megalómanas, o país está completamente perdido. Não vale a pena o Governo pedir sacrifícios, pois com autarcas assim nunca veremos a luz ao fundo do túnel.

Vamos lá, rapaziada


Rui Rocha,

Momento 1:

 

Publicação no TAF da seguinte nota:

 

Leio hoje no Público: “Em vésperas de extinção Gaianima faz ajustes directos de 130 mil euros.” “Os contratos foram feitos com as empresas NextPower Comunicação Lda e com a Boston Media Comunicação Imagem SA”.

Conheço relativamente pouco as máquinas partidárias, mesmo a do PSD, mas nesta notícia (além do relato preocupante de um ajuste directo numa empresa municipal) o nome da empresa “NextPower” soou-me familiar e fui investigar. Confirmou-se. Segundo o seu perfil do LinkedIn, Fernando Moreira de Sá (julgo que militante do PSD), um activo apoiante de Luís Filipe Menezes e de Carlos Abreu Amorim, é CEO da NextPower e de outra empresa chamada Comunicatessen. Constatei também que os domínios oficiais na Internet das campanhas para o Porto e para Gaia foram registados em nome da Comunicatessen. Daí que surja naturalmente a pergunta: é afinal a Gaianima (empresa municipal de Gaia presidida por Ricardo Almeida, também presidente da Concelhia do PSD/Porto) que está a pagar as campanhas de Menezes e de Amorim?

 

Momento 2:

 

Miguel Noronha faz eco no Insurgente da nota publicada no TAF.

 

Momento 3:

 

Fernando Moreira de Sá responde no post de Miguel Noronha.

 

Com especial interesse, sublinhem-se

 

3. A Nextpower não trabalha a campanha de Carlos Amorim que, aliás, nem tem nenhuma empresa de comunicação a trabalhar com ele mas sim um assessor de imprensa que nunca trabalhou em agências…

 

11. Por último, deixo uma pergunta: acham que seria assim tão estúpido para fazer tudo às claras se existisse alguma coisa a esconder? Não acham, no mínimo, estranho?

 

Extremamente interessantes são também alguns dos comentários feitos por leitores do post do Miguel Noronha. Quanto ao ponto 3 da resposta de Fernando Moreira de Sá, importa ter em conta o que se dirá no Momento 4. Já no que diz respeito ao ponto 11, devo desde já salientar que é um argumento tão imbecil que dificilmente se compreende que seja utilizado por alguém que faz da comunicação e da mensagem a sua profissão. 

 

Momento 4:

 

Leitor do post de Miguel Noronha, perante a afirmação do ponto 3 da resposta de Fernando Moreira de Sá recorda que aqui está a time-lapse final da apresentação do candidato Carlos Abreu Amorim (Gaia não pode Parar). Um trabalho que nos orgulha.” – NextPower Norte.


Momento 5:

 

Este vosso servidor tenta contribuir modestamente com a transcrição de uma passagem que encontrou por aí e que também pode ter o seu interesse no esclarecimento do ponto 3 da resposta de Fernando Moreira de Sá:

 

A equipa de comunicação digital da candidatura de Carlos Abreu Amorim/Gaia Não Pode Parar lançou a primeira time-lapse de um evento de apresentação de uma candidatura autárquica em Portugal nas redes sociais.


Publicada na página Vimeo da candidatura e mais tarde partilhada na respetiva página de facebook e twitter, este vídeo resumo em pouco mais de 30 segundos as duas horas e meia do evento realizado no passado sábado nas Caves Ferreira, em Vila Nova de Gaia.

Segundo os seus criadores, a SpinFilmes/Nextpower Norte, a mesma foi filmada com duas diferentes câmaras GoPro (GoPro Hero2 e a mais recente GoPro Hero3) colocadas em dois locais específicos do espaço.

Segundo os autores deste trabalho, “a aposta nas redes sociais permite, de forma mais económica, conseguir passar a mensagem a milhares de pessoas. Estas serão as primeiras eleições autárquicas em Portugal onde o digital e em especial as redes sociais, vão ter um papel muito especial”.

A Spinfilmes/Nextpower Norte, segundo dados da empresa, está a gerir, em termos de comunicação digital, mais de uma dezena de perfis de facebook relacionados com as próximas eleições autárquicas.

 

Conclusão preliminar: 

 

Sim, podíamos investir o nosso tempo discorrendo longamente sobre o momento e a oportunidade em que estas coisas surgem, trazendo ao caso máximas populares sobre comadres e as suas zangas ou aproveitando para salientar que é incrível como se escreve mal em certas actividades de “comunicação”. Exacerbadamente rigorosos que fôssemos e até bateríamos no peito com indignação arengando sobre a utilização do dinheiro dos nossos impostos, as funções sociais do Estado ou a taxa de solidariedade imposta aos pensionistas. Claro que nada disto vale a pena. Resta-nos emigrar para longe desta porra toda ou ficar, fazermo-nos de parvos, e cantar com o Emanuel. Vamos lá, rapaziada: