Música recente (97)


escafandro,

Slowdive, álbum Slowdive.

Os ingleses Slowdive surgiram em 1989 e lançaram o primeiro álbum em 1991. Por esta altura haviam sido enquadrados no movimento shoegaze, já a passar de moda. Os três álbuns lançados até 1995 tiveram vendas modestas e foram recebidos com frieza pela crítica. A banda entrou em hibernação. Reanimada em 2014 (um dos primeiros concertos ocorreu no Festival Primavera Sounds, do Porto), lançou um novo álbum há um par de semanas. É constituído por oito temas dominados pelo registo langoroso, de suspensão ou queda lenta (poucas bandas terão um nome mais adequado), que caracteriza o estilo, mas apresenta um nível de bom gosto inegável e toques inesperados (inflexões na música e/ou na voz) que afastam quaisquer ameaças de monotonia.

Música recente (96)


escafandro,

Sylvan Esso, álbum What Now.

Os Sylvan Esso foram uma das melhores descobertas que fiz em 2014. Ao segundo álbum, Amelia Meath e Nick Sanborn mantêm a peculiaridade dos ritmos e reforçam a dose de ironia – como se pode constatar nos temas destes dois vídeos: a protagonista de Die Young vê o amor estragar-lhe os planos de morrer jovem, talvez num incêndio ou despenhando-se por uma ravina, e de levar as pessoas a chorar: “Que tragédia, tão cedo”; Radio, por seu turno, é uma crítica feroz ao mundo das pop stars que debitam temas radio-friendly com três minutos e meio de duração, embrulhada em exactamente três minutos e trinta e dois segundos de pop gloriosa.

Música recente (95)


escafandro,

Thurston Moore, álbum Rock N Roll Consciousness.

Cinco temas, o mais curto com seis minutos (no vídeo, surge amputado), o mais longo com quase doze, dos quais sete e tal puramente instrumentais. Por vezes faz pensar nas barragens de som que os Sonic Youth (de que Moore fazia parte) emitiam nos concertos ao vivo, outras vezes remete para um registo mais zen (ou talvez hippie).

Música recente (94)


escafandro,

Juliana Hatfield, álbum Pussycat.

Politicamente, Donald Trump é um oportunista. Acima de tudo, quer «ganhar», pouco lhe importando como o faz ou com que políticas o faz. Duas facetas, porém, mantêm-se nele constantes: o narcisismo e o machismo. Juliana Hatfield está particularmente interessada nestes aspectos. Em Outubro passado, na sequência da divulgação do vídeo do autocarro, no qual Trump se gabava de, sendo uma celebridade, poder agarrar as mulheres «by the pussy», escreveu um artigo acerca do tema. Agora faz dele o âmago de Pussycat. Há golpes fáceis, ainda que compreensíveis (Short-Fingered Man), há referências a personagens secundárias (Kellyanne), há ironia feroz (Sex Machine, Rhinoceros), há derivações que alargam o âmbito muito para além de Trump (Touch You Again), mas, acima de tudo, há nojo e franqueza, num trabalho simples e directo, gravado em duas semanas, em que Juliana apenas não tocou bateria. A existir uma falha, poderá encontrar-se na doçura e no optimismo que, apesar de tudo, perpassam várias melodias (e.g., Sunny Somewhere) e, quase sempre, a voz. Mas um registo constantemente áspero e zangado (assumindo que a voz de Hatfield o conseguiria atingir) teria provavelmente tornado o álbum demasiado óbvio e unidimensional. Mesmo na crítica, convém preservar um grau de subtileza superior ao do objecto criticado.

 

(Nota: A versão do álbum não é acústica.)

 

__________

 

Dois excertos do artigo que Juliana escreveu em Outubro, para quem não estiver disposto a seguir o link acima:

 

But it’s not funny anymore. Since the Trump “pussy grab” tapes were released, I’ve found myself wanting to reach for my emergency supply of valium, which I keep mainly for plane travel to ease my visceral fear of flying. These viscera of mine are currently in a state of constant high anxiety. It’s the Trump effect: the sight of his face and/or the sound of his voice tightens the stomach, the heart, the sphincter. Everything’s clenched. Even — maybe especially — the “pussy.”

 

The venom-spewing from and around Trump is a black cloud hovering over this country. Trump has re-opened the emotional wounds of millions of people. It’s his special talent, apart from self-propagandizing and con-artistry. He stirs up bitterness, hatred, anger; he brings out the worst in people. He does it to people on both sides — all sides. There’s bile all around.

 

(…)

 

This is Trump’s frightening, dangerous power — he reminds us of the worst of human nature: the sexism and misogyny, the racism and bigotry, the blood lust, violence, vengefulness and cruelty. It’s sickening to observe the glee with which some people are letting it all out, spurred on and inflamed by Trump, like they’ve been waiting all their lives for this — for their opportunity to finally unleash their snarling dogs on everyone and everything they hate with a spitting, drooling, vomitous passion.

Música recente (93)


escafandro,

Gorillaz, álbum Humanz.

Os Gorillaz foram não apenas uma excelente ideia em termos de marketing como uma forma de Damon Albarn se apoiar em convidados para dar novas roupagens ao seu pessimismo. Humanz não traz novidades substanciais (basicamente, propõe música para uma última festa antes do fim do mundo), mas leva a colaboração a um ponto talvez excessivo: os convidados definem de tal modo o som dos temas em que participam que a coesão global acaba ligeiramente prejudicada. Seja como for, entre os catorze temas da versão normal do álbum ou os dezanove da versão especial (em ambos os casos, já retirados intro e interlúdios), será difícil alguém não encontrar pelo menos meia dúzia que lhe agradem.

Música recente (92)


escafandro,

Feist, álbum Pleasure.

Ao contrário do que parece suceder na maioria dos casos, a idade tem trazido inconformismo e variedade à música de Feist. Em Metals já se notava, mas a fuga às melodias pop que fizeram a fama e o sucesso de Let It Die e The Reminder torna-se ainda mais óbvia em Pleasure. Marcando uma aproximação à sonoridade de gente como PJ Harvey, não é um álbum para avaliar após uma única audição nem para usar como música de fundo.

Música recente (90)


escafandro,

Karen Elson, álbum Double Roses.

Há sete anos, quando lançou The Ghost Who Walks, Elson encontrava-se casada com Jack White. O álbum era excelente, mas permitia a dúvida, inevitável no caso de primeiros trabalhos de gente cujos parceiros têm carreira firmada, de saber até que ponto essa qualidade se lhe devia exclusivamente (ainda por cima, White fora o produtor). Incluindo canções um tudo-nada menos teatrais e colaborações tão discretas que é fácil não as detectar (em Distante Shore, a voz longínqua e esperançosa pertence a Laura Marling), Double Roses mostra que Elson não precisa de ter White por perto.

 

(O tema Wonder Blind, ao vivo.) 

Música recente (89)


escafandro,

 

 Kendrick Lamar, álbum Damn.

 

 This may be hard to believe, coming from a black man, but I’ve never stolen anything. Never cheated on my taxes or at cards. Never snuck into the movies or failed to give back the extra change to a drugstore cashier indifferent to the ways of mercantilism and minimum-wage expectations. I’ve never burgled a house. Held up a liquor store. Never boarded a crowded bus or subway car, sat in the seat reserved for the elderly, pulled out my gigantic penis and masturbated to satisfaction with a perverted, yet somehow crestfallen, look on my face.

 

As frases acima não são de Kendrick Lamar. Constituem o início do livro The Sellout, de Paul Beatty, vencedor do Man Booker 2016. The Sellout é uma sátira. Aponta os problemas recorrendo ao exagero e ao ridículo. As mensagens, a estética (as poses) do hip-hop costumam ser interpretadas literalmente. Por vezes, é esta a intenção dos autores; por vezes, trata-se de distorção por parte de quem ouve (falta de capacidade de encaixe, digamos). As posições extremam-se quando a mensagem é – ou parece ser – simplista. Considere-se um exemplo típico: denunciar a violência policial sobre a comunidade negra – tema não apenas recorrente mas inevitável – exige genuinidade e que se ultrapassem as simples ameaças de retaliação; caso contrário, as críticas serão naturais e justas. O primeiro aspecto sofre quase sempre que um cantor atinge o sucesso: em gente rica, canções sobre dificuldades e discriminação soam a falso (hoje, Kanye é basicamente uma Kardashian). O segundo exige capacidade para sublimar o assunto através de formas como as que Paul Beatty utiliza magistralmente. Isto é, exige capacidade artística.

 

Kendrick Lamar tem conseguido manter um equilíbrio assinalável entre todos estes aspectos. Sonicamente, Damn é menos variado do que To Pimp a Butterfly. Ainda assim, contém momentos jazzy (Lust), colaborações inesperadas (os U2, em XXX) e subtilezas que apenas se detectam em auscultadores ou em bons sistemas de som. Evita as frases orelhudas, as declarações bombásticas e inclui momentos de ironia (por vezes, raivosa) não negligenciáveis: vejam-se as letras de Humble ou de DNA. E será também de referir que Lamar permanece um rapper do caraças, capaz de debitar palavras a um ritmo e com uma dicção fenomenais. 

 

Música recente (88)


escafandro,

The Gift, álbum Altar.

Apesar de sempre ter existido nos The Gift uma propensão para a grandiloquência, gostei bastante dos primeiros três álbuns que lançaram. Mas depois vieram o projecto Amália Hoje e o álbum Explode, e eles tornaram-se-me insuportáveis – até à semana passada. A produção de Altar esteve a cargo de Brian Eno. Podia ser apenas uma forma de, mais uma vez, a banda procurar uma audiência internacional (ambição nunca lhe faltou), mas Eno tem ideias demasiado fortes para se limitar a fazer figura de corpo presente. A voz de Sónia Tavares está lá, as teclas e os sintetizadores de Nuno Gonçalves também, mas, tirando um outro deslize, encontram-se bastante mais domados. Love without violins (excelente título) pode mesmo ser um dos melhores temas que os The Gift já criaram (o vídeo está aqui, mas o YouTube exige autenticação para acesso à versão não-censurada).

Música recente (86)


escafandro,

The New Pornographers, álbum Whiteout Conditions.

 Pode tomar-se a música dos The New Pornographers como pop simples e despretensiosa. Mas também pode dedicar-se-lhe um pouquinho mais de atenção e perceber-se a sua inteligência. Trata-se de pop lida e viajada, que usa a aparente inconsequência da pop como mecanismo de sublimação e ironia.

 

(Coisas giras do politicamente correcto: entrem na Amazon inglesa, francesa ou alemã; comecem a escrever «The New Pornographers» na caixa de pesquisa; reparem como, à medida que digitam letras, vão aparecendo e desaparecendo sugestões sem que alguma vez «The New Pornographers» esteja entre elas; notem como, a partir de «The New Porn», as sugestões desaparecem; terminem de escrever; façam Enter; percebam como existem afinal tantos resultados.)

Música recente (85)


escafandro,

Goldfrapp, álbum Silver Eye.

Alison e Will saltaram da delicadeza de Felt Mountain, a estreia no ano 2000, para batidas de dança relativamente anónimas em Black Cherry e Supernature, de 2003 e 2005, respectivamente. Em 2013, de forma inesperada para mim, voltaram a terrenos intimistas com Tales of Us. Um pouco como Seventh Tree, de 2008, Silver Eye tenta unir os dois universos. Resulta bastante bem.

 

(Considerando este vídeo e os trabalhos que Laura Marling realizou para Semper Femina, há alguma tendência sazonal que eu desconheça para inserir sugestões de lesbianismo nos vídeos musicais?)

 

(Não é que me esteja a queixar…)

Música recente (84)


escafandro,

Aimee Mann, álbum Mental Illness.

Whatever, primeiro álbum de Aimee Mann após os ‘Til Tuesday, foi um dos dois que mais ouvi em 1993 (o outro foi Siamese Dream, dos Smashing Pumpkins). A fama de Mann, porém, surgiu apenas em 1999, quando escreveu várias canções para o filme Magnólia. De então para cá, tem lançado álbuns – uns melhores, outros piores – que insistem em manter o equilíbrio entre desencanto (ou mesmo desespero) e vontade de viver. Mental Illness conta-se entre os mais sombrios – mas também entre os melhores.

Música recente (81)


escafandro,

Depeche Mode, álbum Spirit.

A criação foge muitas vezes ao controlo dos criadores. No mês passado, Richard Spencer, norte-americano conotado com posições neo-nazis, classificou os Depeche Mode como «a banda oficial da alt-right», afirmando que a música dos ingleses contém uma «ambiguidade» que sugere a existência de «elementos «fascistas». Por pouco recomendável que o homem possa ser (foi a primeira vez que ouvi falar nele), as suas palavras merecem análise: da mesma forma que a música de Wagner, grandiloquente e ao serviço de visões de uma sociedade idílica e pura, se adequou como uma luva à mentalidade de Hitler, não é de excluir que o carácter sincopado, militarizado, da música dos Depeche Mode tenha o mesmo efeito em Spencer e noutros indivíduos com ideias similares. (E, já agora, a imagem dos elementos da banda, construída nos anos 80 com a ajuda do fotógrafo Anton Corbijn, também pode ter alguma coisa a ver com o assunto.) Há, no entanto, uma diferença importante: se sabemos que Wagner, falecido antes do nascimento de Hitler, ansiava por uma sociedade mais «pura» e tinha reservas quanto ao papel dos judeus na sociedade alemã, dificilmente os Depeche Mode poderiam ter sido mais claros na resposta às afirmações de Spencer: «He’s a cunt», declarou o vocalista Dave Gahan. A situação torna-se particularmente irónica quando se ouve Spirit, o álbum lançado na passada sexta-feira. Nunca os Depeche Mode foram tão abertamente políticos e raramente mostraram tanta insatisfação. Pode até dizer-se que entram no campo apenas aparentemente oposto ao de Spencer: o do populismo de esquerda. A música é óptima (Spirit será o melhor álbum deles em muitos anos), mas não me parece descabido perguntar se, na ânsia do protesto, conterá mesmo alguns elementos totalitários. Afinal, os extremos tocam-se.

Música recente (80)


escafandro,

Jay Som, álbum Everybody Works.

Há quem lhe chame bedroom pop, mas o primeiro álbum verdadeiro da californiana Melina Duterte (Turn Into, de 2016, era constituído por demos, embora bastante polidas) vai muito para além de rótulos fáceis. E, de qualquer modo, o quarto é frequentemente o local onde as pessoas meditam acerca da vida. Em especial durante a juventude.

Música recente (79)


escafandro,

Valerie June, álbum The Order of Time.

Depois de um fantástico segundo álbum de Rhiannon Giddens, um também excelente segundo trabalho de Valerie June. É um pouco como se, em tempo de divisões político-sociais, a música com raízes na tradição (e ainda que alguns temas de The Order of Time derivem para a pop) fizesse questão de, por um lado, lembrar erros do passado que são também alertas para o futuro, e, por outro, apelar à reconquista de um sentido de comunidade e de destino partilhado. These are the songs you sing, in the search for the grass that’s green, canta June em Long Lonely Road. É assim há muito, assim continuará a ser.

Música recente (78)


escafandro,

The Shins, álbum Heartworms.

Após o seu trabalho com Danger Mouse nos Broken Bells e a saída dos restantes elementos fundadores da banda, James Mercer tem vindo a alargar o espectro da sonoridade dos The Shins. Este álbum volta a incluir canções naquela linha pop/rock de bandas como os 10.000 Maniacs, mas também visita áreas como o psicadelismo e a new wave. E ainda há a nostalgia do tema abaixo.