Memórias subjectivas (6)


joaomsandre,

Aos Amores*

A Ana Rita foi o meu primeiro amor. Uso o termo “amor” de forma liberal, porque “paixão” seria completamente inapropriado. É que eu tinha entre 8 e 10 anos na altura. Não recordo exactamente a Ana Rita, apenas que era do meu grupo dos tempos livres, para onde ia depois da escola, e que eu terei confessado isso um dia à minha mãe, que provavelmente sorriu, disse algo como “sim filho?, que bom…” e voltou à sua vida pensando que eu estaria a crescer demasiado depressa. Uns anos mais tarde (ou provavelmente meses), veio a Elsa. A minha memória faz-me pensar que terá sido muito depois da Ana Rita, mas pode ter sido um mês apenas. Nessa altura isso era muito tempo. Sei no entanto que era da minha turma no 1º ano do ciclo (5º ano hoje) e que era bastante mais desenvolvida que eu (leia-se: notava-se que já tinha algum peito). Dizer que uma rapariga era mais desenvolvida que eu não é uma confissão excepcional: qualquer rapariga da minha idade era mais desenvolvida que eu. Eu diria que qualquer mulher com uma diferença de idade de cerca de 10 anos será mais desenvolvida que eu ainda hoje. Mas na altura isso era normal: é que eu era um rapaz, e os rapazes são completamente imaturos em relação a raparigas.

Isto é factual, mas será talvez meta-factual. A diferença não é apenas que as raparigas amadurecem física e psicologicamente mais cedo que os rapazes, mas que os rapazes não parecem amadurecer de todo no que diz respeito a raparigas. Se víssemos um gráfico do desenvolvimento emocional de rapazes por tópicos ao longo dos anos, veríamos uma progressão em todas as categorias e estas mais ou menos ao mesmo nível. No que diz respeito a raparigas, os rapazes atingiriam um determinado nível por volta dos 8 a 10 anos e ficariam nesse nível por uns 15 anos. Eu não era diferente. Mais: era pior.

Não que eu fosse parvo para as raparigas. Não, nem pensar (pelo menos não mais que a minha androcondição impõe). Cresci numa família essencialmente matriarcal e rodeado de mulheres, quase só com exemplos femininos. Aprendi muito cedo a respeitar as mulheres. Só que eu era um… como exprimir isto bem? Bom, com a palavra de então: um coninhas. Não é que eu não fosse fixe – não, não era – mas era quase o oposto de fixe. Não tinha roupas de marca, não lia revistas fosse do que fosse, não tinha música em casa para lá das cassetes dos meus pais e preferia ficar a ler (fosse onde fosse) do que ir para o centro comercial subir e descer as escadas rolantes. Isso significa que quando tinha que interagir com uma rapariga que eu não conhecesse minimamente, ficava com os méritos orais de Frankenstein num momento de paralisia mental. A maior parte das raparigs que me conhecessem provavelmente perguntariam como poderiam encontrar a cor de rouge que eu usava quando as conhecia e jurariam a pés juntos não serem vistas na minha presença a não ser que fosse num momento de caridade cristã.

Em resumo: eu era um nerd antes de saber o que era um nerd e nem sequer sabia queStar Trek começara como série.

Isso significa que eu não tive namoradas. Os sentimentos de desejo e atracção estavam lá, como em todos os rapazes. Hormonas são hormonas e não pedem licença ao nosso cérebro para começarem a festa no nosso corpo. Por isso continuei a ter paixões ao longo da minha vida. A seguinte foi a C. (a partir daqui deixo as iniciais, que algumas das pobres vítimas ainda serão conhecidas e prefiro manter o anonimato delas – e esconder as minhas vergonhas). Eu tinha uns 12 anos e ela era da minha turma. Note-se que não era a rapariga mais gira da turma, mas havia algo que me atraía. Possivelmente porque eu me sentava com ela na aula de Trabalhos Manuais (ou Educação Visual, não sei) e ela era simpática para mim. Isso era quanto bastava: alguma rapariga que desejasse a minha devoção infinita, para obter um escravo só precisaria de se lembrar do meu nome enquanto me passasse a borracha para apagar a asneira que eu tivesse desenhado. Isto seria verdade para a maioria dos rapazes, mas para aqueles que estavam no fundo da cadeia alimentar da escola, como eu, tinham reacções algo diferentes.

A C., fora esses momentos que ela nem saberia existirem, mal notaria a minha existência. Ela namorava um rapaz mais velho e andava com o grupo de raparigas populares da escola, uma boa parte delas oriundas da minha turma. Era das coisas mais curiosas: eu dava-me bem com todas as raparigas populares da minha turma. Passava as tardes em casa de uma delas (que era uma amiga da família) e era lá que umas duas vezes por semana o grupo se juntava. Nessa intimidade e afastados de todos, eu era aceite pelo grupo. Todas as raparigas se riam comigo, em vez de se rirem de mim, e tratavam-me como se eu fosse… normal. Uma vez descida a encosta para chegar à escola… eu era novamente o antepenúltimo rapaz mais giro da turma e que tinha ficado atrás do miúdo conhecido como “Formiga”.

Depois da C. não se passou muito. Tinha mais com que me preocupar. Mudei de escola, cheguei ao Secundário e a puberdade tornou-me excessivamente consciente da minha própria incapacidade de interagir de forma decente com raparigas. Afundei-me nos livros, nos filmes e passava os recreios a ler com outro amigo nerd (ainda mais que eu) e os momentos de ócio a perguntar-me se alguma vez teria uma namorada. Suponho que terei escrito má poesia, mas felizmente não tenho provas físicas disso. Até à S.

A S. foi provavelmente a primeira rapariga que realmente amei. Amar, como nós entendemos a palavra de forma adulta. Claro que o meu amor era obsessivo, doentio e consumia-me de forma inapelável, mas era um amor verdadeiro. Não era uma paixoneta por uma rapariga gira, popular e que me teria um dia dirigido um sorriso. Era real. Dado que esse amor não trouxe com ele qualquer cura para o meu embaraço perante raparigas, eu continuei sem agir. Vi a S. a começar a namorar o R., um rapaz enorme, o dobro do tamanho dela, popular mas burro como uma manada de vacas, e não comprendia. Ele não era engraçado, simpático, esperto nem sequer fumava. Tinha talvez umas roupas de boas marcas, mas não era o único. Até hoje é um mistério. Claro que a minha imaginação concebeu cerca de 1.763.901 formas de o R. ser exterminado (ou pelo menos removido de cena) em momentos que me elevariam a herói da S. Claro que passei meses sem dar o mais pequeno passo.

Até que, num momento de loucura, após um encontro de fim de semana da turma, lhe perguntei quando ia para casa, se queria namorar comigo. O estômago estava provavelmente na zona dos tímpanos, o fígado dava voltas em torno do esófago, o coração fzia iô-iô entre os pés e o cabelo enquanto esperava uma resposta. Seria agradável dizer que ela confessou o amor que sentia por mim e que teríamos passado por um periodo infinito de felicidade (i.e., cerca de um mês), mas a verdade é que ela sorriu com compaixão e me disse que não.

A obsessão não amainou e ameaço consumir-me excessivamente. Durante os testes, eu olhava para ela, durante as aulas, eu observava-a. A R. e a T. fizeram-me chegar as suas manifestações de interesse pelas vias regulares: dizendo à amiga, que explicou à prima, que disse ao irmão, que informou o colega de futebol, que passou isso ao colega de turma que por acaso ia comigo no autocarro nº 4 durante 3 paragens – convém explicar que elas eram ambas da minha turma, mas estas coisas não se dizem de forma directa. Por esta altura eu já não andaria pelo antepenúltimo lugar, mas não era popular. Ainda assim a R. e T. eram giras, simpáticas e eu dava-me muito bem com elas. Mas não eram a S.

Até que decidi – sim, decidi – que não seria mais consumido pela paixão. Decidi-me a largar esse desejo pela S. A fechar o meu coração à sua existência. Caso contrário, não viveria. Foi mais fácil do que eu supunha. Num dia eu passava os dias a pensar nela e a observá-la,  um par de dias mais tarde não o fazia. Suponho que o meu amor terá abrandado e que aquilo que eu sentia era antes de mais uma obsessão – adolescentes são solo fértil para as cultivar – e que o amor teria decidido seguir em velocidade de cruzeiro. No entanto era como se eu tivesse sentido o meu coração a endurecer (já expliquei que eu lia muito e via muitos filmes?) e passei depois vários anos até sentir que me tinha apaixonado novamente, já na universidade.

A universidade é outro tempo e não falo nisso. Foram 20 anos mas era eu já (mais ou menos) adulto. Não conta para estas memórias.

Falar da Ana Rita, da Elsa, da C. e da S. não é dar conta de toda a minha vida amorosa até aos 18 anos. Nada disto refere os namoricos de Verão, os jogos de bate-pé (cujas regras me pareciam algo esotéricas), os beijos (chochos, no termo estranhamente apropriado que usávamos) em excursões – perdão, “visitas de estudo” – ou festas e idas às matinés da discoteca local. Aos poucos tais actividades foram removendo a minha incapabilidade de interagir com raparigas de forma mais física (se as circunstâncias fossem assexuadas, eu dava-me melhor com raparigas que qualquer outro rapaz que eu conhecia) e aprendi aquilo que qualquer rapaz deve aprender na adolescência. Nunca fui popular, mas não precisava de o ser. Quando olho para trás, vejo que desejei, tive paixões e amei. Não fui particularmente retribuído, mas para dizer a verdade pouca gente que eu conheço diz que o tenha sido. Penso que a minha experiência amorosa, enquanto cresci, terá sido um exemplo da de qualquer rapaz, com as pequenas variações devidas às personalidades individuais. Todas as raparigas que fizeram parte desse meu imaginário estão gravadas na minha memória exactamente como eram na altura, mesmo quando as conheço hoje, mulheres da minha idade. Não tenho nostalgia, mas tenho uma enorme gratidão por terem sido parte tão importante da minha vida. Mesmo que nunca o tenham sabido.

* – título demasiado bom para não roubar Sérgio Godinho

Memórias subjectivas (5) – senta-te comigo


joaomsandre,

Esta memória surgiu-me quando vinha a ouvir a música no carro. Havia em tempos passados de adolescência várias canções capazes de unir quase toda a gente que as ouvisse, fossem punks, góticos, rockabillies, metálicos, betinhos, alternativos ou outra coisa qualquer que neste momento vou esquecendo. Uma das canções que nos levantava sempre era a que se chamava “senta-te” (Sit Down).

 

Havia algo na canção que nos agarrava. Começava com o piano inicial, suave, na voz de embalo de Tim Booth que nos falava dos momentos do escuro na cama, quando todos os sonhos e, especialmente, os pesadelos nos falavam ao ouvido, na solidão do quarto. Mesmo sem ouvir – ou perceber – a letra, havia o tom em si que nos agarrava desde o início. Tínhamos o tom negro inicial, mas que era seguido de um crescendo que cantava sobre esperança e nos lembrava que não estaríamos sozinhos. Ele, o James (Tim Booth era simplesmente o veículo conhecido apenas de quem comprasse as revistas da época)  dizia-nos que estávamos com ele, que ele também tinha vivido os mesmos momentos e deles tinha saído. A chamada para nos sentarmos, feita em ritmo elevado e que nos levava a saltar, era o convite para partilharmos aquele mmento de celebração e de partilha, a epifânia que nós, por muito que nos sentíssemos sós, não o estávamos.

 

Ler a letra da canção, para quem a entendesse, fosse pelo inglês fosse pelo significado, leváva-nos ao patamar seguinte. Booth faláva-nos dos momentos negros, dos sentimentos extremos doces e amargos que não confessávamos a ninguém, mas que ele nos confessava a nós. Falava depois da incerteza, da prece a um Deus que não se sabia existir. Mesmo para quem não acreditasse em Deus (e quem verdadeiramente acredita ou não em Deus aos 13-14 anos?) , havia sempre a noção de acreditar em algo, alguém, naqueles anos de ausência da âncora que os pais tinham sido durante mais de uma década e que, de repente, já não eram, não sabendo nós bem porquê.

 

Havia no entanto os momentos na canção que indicavam a esperança depois do desespero, da angústia. Booth cantava a crença que havia uma onda que aguentaria o nosso peso, que nos levaria de onde estávamos para— algures mais além. Cantava depois de umas riquezas não explicadas mas que sabíamos implícitamente quais eram e, noutra confissão, explicava que até poderia viver pobre se não soubesse que elas existiam. Tinha então que almejar a elas, ou a parte delas. Era o outro momento de desespero, o outro momento de depressão confessado apenas a nós, que o ouvíamos.

 

Mas depois voltava a pedir-nos que nos sentássemos com ele. O pedido inicial era para nos explicar a partilha, a confissão que o tornava um de nós, fosse qual fosse a idade dele. Os pedidos seguintes eram para agora sermos nós a partilhar os nossos sentimentos com ele. Carregássemos sentimentos de tristeza, de loucura ou de ridículo, de desadequação a uma sociedade que nos apontava como corpos estranhos. Sentávamo-nos então com Booth/James numa partilha de amor, medo, ódio e, ultimamente, lágrimas, as lágrimas que não éramos capazes de verter perante mais ninguém.

 

Esta canção era ouvida essencialmente em dois momentos, um de solidão e outro em grupos, o mais vasto possível. Para ser ouvida propriamente em solidão era necessário fecharmo-nos no quarto, numa casa idealmente vazia, com persianas semicerradas para criar um lusco-fusco adequado ao sabor delicodoce da canção. A música deveria ser ouvida múltiplas vezes enquanto nos deitávamos de costas na cama com lágrimas que correriam sem soluços, simplesmente de forma livre, como se de repente as comportas se abrissem apenas o suficiente para deixar passar o excesso de angústia, numa forma de aliviar aqueles apertos no peito que por vezes sentíamos serem demais. Era um momento de partilha apenas com James/Booth, num silêncio profundo mesmo com a música em volume elevado, numa solidão em que sentíamos tocar todos os outros no mundo que se sentiam da mesma forma. Era uma solidão que nos fazia sentir parte de uma comunidade, em oposição às multidões da escola que nos faziam sentir unicamente sós.

 

A outra forma de a ouvir era em grupo, idealmente numa discoteca ou em festas (de anos ou outras). Nunca se ouvia esta música no início da festa ou demasiado cedo na discoteca. Era sempre necessário o período de abandono que a escuridão da discoteca ou a multidão barulhenta da festa proporcionava. Antes de alguém se atrever a colocar a cassete (ou disco) a tocar a música, era necessário que os participantes do ritual tivessem já dançado de forma solta, sem passos, simplesmente girando de cabeça solta, como se os músculos do pescoço não existissem. Enquanto houvesse pessoas a ensair certos movimentos, enquanto houvesse rapazes a impressionar raparigas, enquanto as raparigas estivessem a dançar em grupos – ao invés de dançar sós num grupo – e a falar/gritar aos ouvidos umas das outras, enquanto as condições não estivessem reunidas, não se tocaria a canção. Era necessário o cansaço que baixa as barreiras, que liberta as inibições emocionais, que, no fundo, nos resumisse à nossa insegurança mais básica e nos levasse ao momento de escuridão de que Booth/James cantava.

 

Assim que as primeiras notas do piano soassem num ambiente escuro, apenas com uma pequena luz poouco mais que de presença, todos sabíamos o que vinha e gritávamos juntamente com o público na canção – era sempre a versão ao vivo da canção – em antecipação do que aí vinha. Com o início entrávamos num balanço quase cordenado mesmo quando dessincronizado. Rapazes agarravam raparigas pela cintura, por detrás, mesmo quando eram apenas amigas ou às vezes nem isso. Não era um momento de amor, mas era um momento de paixão, de emoção intensa que obrigava a que fosse partilhado. Rapazes abraçavam-se a outros rapazes de uma forma que seria ofensiva noutras situações. Raparigas abraçavam-se também e choravam abertamente, no único momento em que isso não repeleria os rapazes. Os momentos iniciais de calma, de piano a unir toda a gente, eram então seguidos do pedido para nos sentarmos juntos com James/Booth. E era isso que fazíamos, figuradamente, que literalmente saltávamos, em saltos coordenados seguindo o ritmo da canção. Éramos os animais do circo que eram guiados alegremente pelas palavras e notas da canção. Partilhávamos aqueles momentos em conjunto, numa comunhão que não sentíamos possível em mais nenhum momento. Enquanto saltávamos juntos sentíamo-nos todos um único ser, novamente sós no nosso colectivos, mas alegres por isso mesmo, por sermos quem éramos, jovens e com todo o horizonte pela frente. Estávamos sós na multidão, mas felizes por isso, porque estávamos todos sós da mesma forma.

 

Sit Down terá poupado muitas sessões de terapia a muita gente. Numa altura de angústias, de incertezas, de desenquadramento num mundo que não nos compreendia e que não compreendíamos, a música oferecia-nos a libertação, a compreensão e esperança que precisávamos. Em solidão a música seria seguida por silêncio, para apreciarmos devidamente o que nos tinha oferecido, aquele momento e aquela clareza de espírito que tinha trazido consigo. Em grupo a música era essencialmente o momento de regressar. Na discoteca a música seria seguida pelo acender de luzes e pela debandada geral. Mesmo nas sessões de matinés, em que saíamos para uma rua cheia de luz encandescente, havia um sentimento de vazio e de oportunidade de voltarmos a encher o nosso copo de emoções. Todas as emoções de adolescência eram dolorosas porque excessivamente extremas. Sit Down oferecia o momento de esvaziarmos o nosso corpo dessas emoções, mesmo que só por um pouco, oferecia o abandono e o alívio pelos quais todos os adolescentes anseiam.

 

Não posso falar por todos os adolescentes que ouviram a música na mesma altura que eu, apenas pela comunidade onde me inseria. Sit Down era um hino não comentado, apenas vivido. Conhecia quem, como eu, se recusasse a ter a música na colecção de cassetes, por medo de banalizar o seu efeito, mesmo que não o soubéssemos e não o reconhecêssemos. Era uma música para ser ouvida a espaços, só quando estivéssemos com necessidade do alívio e da partilha que trazia.

 

Quando a ouvi hoje não senti o mesmo porque não sinto as mesmas coisas que quando tinha 13-14-15-16 anos de idade. Não tenho os sentimentos extremos desses tempos. Também não senti qualquer nostalgia por esses tempos, como algumas outras canções poderiam trazer, outras canções que nos fazem recordar tempos bons e esquecer os sentimentos de desadequação, de ausência e de não pertencer a nenhum lado, a nada nem ninguém. Sit Down faz-me lembrar precisamente as angústias desses tempos sem que as relativize (“nem sabíamos que eram os melhores momentos das nossas vidas” é um tema frequente quando se discute a adolescência). Faz-me lembrar que os sentimentos dessa altura, por muito que fosse uma altura maravilhosa para quem a veja desta distância, era um período unicamente difícil.

 

Mas ao ouvir a canção lembro esses sentimentos sem os viver. Sinto essencialmente esse momento de união – não com os amigos de hoje ou os amigos de então como são hoje. Sinto-me novamente unido aos amigos desses tempos precisamente nesses tempos, como se fosse transportado para aquela discoteca, pequena, suja, mal cheirosa, escura, e me pusesse a saltar com a multidão, unido pela música e apesar da distância temporal. É uma união ténue, porque não sinto o mesmo, mas sinto a recordação do sentimento e isso, pelos minutos que dura a canção, basta.

 

Por 5 a 7 minutos, sento-me, juntamente com o adolescente que éramos naquels momentos de partilha. O único adolescente único e colectivo que existia no mundo, ou pelo menos na cidade, discoteca ou sala onde a música fosse ouvida. E sorrio como então.

 

Memórias subjectivas (4)


joaomsandre,

A escola

Quando era assim para o pequenininho, a escola só começava lá para os 5-7 anos quando se entrava na primária. Existia já a figura do jardim-escola e da pré-escola, mas eram apenas “o jardim” e “a pré” e ninguém levava aquilo a sério porque não havia trabalhos de casa, faltas, castigos, reguadas, contas e o máximo que se fazia eram umas ondinhas esquisitas que serviam de preparação para aprender os ús e os émes.

 

Claro que é difícil recuar muito tempo sem que a memória comece a falhar ou a pregar partidas. Por isso mesmo eu levanto dúvidas sobre aquela repetição constante dos desenhos de barcos e casas, sempre os mesmos e que talvez possam ter sido feitos uma única vez e eu os recorde ad eternum simplesmente porque o cérebro gosta de nos pregar partidas. Se a nossa biografia é como a lembramos, os episódios de criança devem mais às memórias filiais tingidas pela ternura. Mesmo invocando o meu Trump pessoal, é difícil crer que tenha sido a criança mais precoce, educada, simpática e divertida do mundo, como a família mais velha faz parecer.

 

Avancemos antes no tempo até à primária, a qual fiz em duas escolas, a primeira longe de casa porque os meus pais estavam sempre em viagem e passava os dias com a minha tia e avó. Nesses tempos tive o meu primeiro ataque de pânico ao seguir num autocarro de casa para a terreola para ir à escola já na segunda-feira e um pneu furado me fez chegar com enorme atraso. O medo – completamente infundado – do castigo pelo atraso manteve-se para sempre comigo e ainda hoje o tenho quando me atraso para ir trabalhar (mesmo sem reuniões).

 

A primeira classe é mal recordada. Mesmo muito mal. As seguintes provavelmente também o serão, mas têm a vantagem de terem sido todas na mesma escola e com a mesma professora e assim ser possível empacotá-las e fazê-las parecer mais completas. Recordo que a professora era invariavelmente justa mas já bastante dura para a época, com puxões de orelhas, chapadas e reguadas ainda a serem administradas sempre que os resultados não correspondiam ao desejado. Ainda hoje recordo ter recebido todo o cardápio quando – de forma pouco característica – fui o único incapaz de resolver um problema de divisão. É hoje inconcebível imaginar que tempos houve em que as professoras podiam de facto castigar assim os alunos e ainda bem que assim é.

 

Até por volta do 6º ou 7º ano a minha vida era relativamente simples, mesmo nos ambientes frequentemente cruéis das escolas. As escolas que frequentei nessa altura tinham bastantes alunos de meios sociais mais degradados (dos chamados “bairros sociais”, designação que não sei se ainda subsistirá) e tinham notas bastante fracas, sendo a reprovação de ano (o chumbo) muito frequente. Apesar de isso ser receita para um aluno razoavelmente bom e pequeno sofrer, a verdade é que eu ajudava bastante os meus colegas com trabalhos de casa e nos testes e eles, em retribuição, mantinham-me protegido. Era algo que eu nem notava, mas ainda hoje estou imensamente agradecido a todos esses colegas que ajudaram a que o meu período do ciclo fosse algo mais suportável.

 

O meu ano de glória foi indubitavalmente o 6º (ou o “segundo ano do ciclo” como era conhecido na altura). Não só me ofereceu as melhores notas da minha carreira escolar (até com 4 a trabalhos manuais e educação física, casos únicos na minha vida) como me permitiu a distinção como um jogador de futebol de escola com talentos reconhecíveis. Como caí numa turma de apenas 9 rapazes, dos quais seis eram múltiplos repetentes e dois dos outros não gostavam de futebol, acabava por ter a possibilidade de jogar com frequência nas peladinhas inter-turmas. Sendo o mais pequeno, acabava por ser invariavelmente enviado para a defesa (tínhamos dois bons guarda-redes, para meu alívio) na qual eu até me dava bem. Não só não tinha muito que fazer (os nossos matulões de 3 a 5 anos mais velhos que eu dominavam o jogo e pouco sobrava para mim) como quando algum atacante me aparecia à frente eu executava a minha famosa manobra defensiva: “chuta a bola e se falhares a bola acertas na canela”. Noutras circunstâncias eu seria sumariamente espancado com tais tácticas, mas quando tinha anjos da guarda que me pareciam um cruzamento entre Kareem Abdul-Jabar e Mike Tyson, a vontade de me castigarem rapidamente desaparecia dos elementos ofendidos.

 

(Neste aspecto devo deixar um pequeno parêntesis para o grande jogo desse ano: o encontro 2ºP (nós) contra 7ºA (os outros). Ao longo de várias semanas que havia a discussão sobre qual seria a melhor equipa da escola. A oportunidade de dissipar dúvidas ia sendo adiada, porque nós éramos das turmas da tarde e eles das turmas da manhã. Contudo, um dia lá se organizou o jogo. Tudo preparado. Nós e eles com os melhores jogadores disponíveis (o nosso guarda-redes tinha febre mas não podia faltar). O campo atrás do pavilhão estava ladeado por um grupo de espectadores que ainda hoje não deve ter sido repetido naquele sagrado terreno. O resultado é que não foi de acordo com o esperado. O 7ºA abriu o jogo com um golo pelo avançado deles, um cruzamento entre touro, cavalo e locomotiva, sem requintes técnicos mas que, lançado, só seria parado por um helicóptero Apache. Era o aviso e fiquei preocupado: se não conseguia acertar no bicho, como o parar? Não houve problema. A verdade é que não voltei a ver a bola. Vencemos por 7-1 (apesar de um golo deles após o final, quando o nosso guarda-redes já tinha saído da baliza) e a humilhação ainda deve ser suficiente para aqueles indivíduos esconderem a cara quando passam em vista da escola.)

 

A minha coroa de glória académica nesse 2º ano do ciclo foi um teste de história, disciplina para a qual tinha apetência e onde as notas acima de 90% eram não só frequentes como corriqueiras. Na véspera de um teste alguém surgiu no final de uma aula com o enunciado do teste da outra turma, a que tinha os testes sempre depois de nós e que eram sempre iguais. Por uma vez éramos nós a poder saber o teste com antecipação: um dia inteiro!! Toda a gente copiou o enunciado (nessas alturas, inexplicavelmente, os nossos telefones não tinham o CamScanner nem tiravam fotografias nem eram, imagine-se, portáteis) menos eu. Não sei ainda hoje explicar porquê. Seria por uma mistura de medo, vergonha, ética e confiança, talvez. Sei que não o fiz. No dia seguinte, com um enunciado que, inevitavelmente, não era igual ao que tinha sido profusamente copiado, toda a gente caiu por terra. Em toda a turma houve duas notas acima dos 50%. A de um colega que teve talvez 51% ou 52% (pelo menos imagino o caso assim) e a minha, também inevitavelmente, com 99% (não sei onde terei colocado mal a vírgula). Desde esse momento que fui visto como uma espécie de feiticeiro, epsecialmente  história, que era capaz de prodígios intensos. Depois veio o 7º ano.

 

A partir do 7º ano, habituado à excelência fácil das minhas notas, caí numa mediania profunda da qual só fui resgatado já no 11º ano por uma fúria contra um colega que gostava de gozar com quem tinha notas piores (quase todos). No desejo de lhe mostrar quem era acabei por melhorar as minhas notas a ponto de conseguir entrar na universidade. Hoje, à distância destes anos, posso também agrader-lhe pela parvoíce. O facto de o ter enfrentado em pleno balneário conferiu-me um certo prestígio extra que nada mal fez à minha imagem na escola (aos 15-16 anos isto contava).

 

A escola em Leiria tinha certos aspectos interessantes. Um deles era a enorme quantidade de góticos que continha. Em Coimbra descobri que a tendência andava pelo punk e rockabilly mas Leiria, em respeito pelo castelo, preferia os tons mais escuros. Talvez por isso seja hoje em dia o palco do festival EntreMuralhas (sim, um dos organizadores é um amigo, mas não desses tempos). Era uma cidade já orgulhosamente freak mas infelizmente sem prestígio por isso em tempos sem internet, Twitter, Facebook ou outros instrumentos que realçam o carácter da cidade. Características fundamentais dos góticos, nessa altura ainda em versão soft, era o uso de roupas escuras – claro! – botas Doc Martens com biqueira de aço (nada de imitações) para os pontapés nas sessões de mosh, ar taciturno, mãos permanentemente nos bolsos e postura liieramente dobrada. O curioso é que estes góticos, vistos como servos do diabo por qualquer senhora com mais de 50 anos da zona velha da cidade (onde estavam os bares), eram dos mais bem comportados da escola. Poucos fumavam, quando bebiam não abusavam e eram frequentemente bons alunos. Não fosse aquela roupa velha inspirada por Belzebu e até seriam bons moços, diria a Sra. Adosinda da Rua Direita (sei hoje que se chama Rua Barão Viamonte).

 

A escola onde andei no liceu era a Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo. A outra localizada também na cidade era a Escola Secundária Domingos Sequeira e uma outra, algo fora, era a Escola Afonso Lopes Vieira. E eram inevitavelmente conhecidas como o Liceu, Escola Comercial e Escola da Gândara, respectivamente (se os alunos não recordavam os nomes dos escritores que tinham que aprender nas salas de aula como recordariam os nomes das escolas onde andavam?). Como era lógico, os alunos do Liceu não se davam com os da Escola Comercial. Nem pensar nisso. Como poderíamos falar com eles? Pior que isso só darmo-nos com os da Escola da Gândara. Que ralé!! Ainda hoje me é um mistério a razão desta separação, mesmo (ou especialmente) depois de já na universidade ter namorado brevemente com uma antiga aluna da Escola Comercial, mas tenho a certeza que as razões eram boas. Ainda hoje olho de soslaio pra a Escola Comercial, cujo único aspecto bom era ter espaço para estacionar quando saía ao fim de semana uns anos mais tarde.

 

Um dos grandes mistérios que ainda hoje me assombra é o efeito do 8º ano. Toda a gente falava de o 8º ano ser o ano mais difícil, onde muitos alunos reprovavam. Ainda não sei porquê. Teria um grau de dificuldade mais elevado, isso seria lógico para todos os anos, mas dificilmente seria como uma entrada na universidade. Ainda assim, com ou sem mistério, a verdade é que sofri nesse ano o meu momento de maior tremideira: passei com dsuas “negativas” (a Francês e a Físico-Química – ironia para um engenheiro químico). Também experimentei um momento que acabou por ser determinante na minha vida: ao ver uma pequena exposição dos alunos de Quimicotecnia (opção que existia apenas naquela escola), gostei o suficiente para a querer adicionar como segunda opção quando seguindo para o 9º ano. Acabei nela e, como se costuma dizer, o resto é (má) história.

 

O Liceu tinha obviamente muitos recantos. Havia a zona de baixo, onde havia apenas duas salas que só eram usadas no verão (creio que por serem menos quentes, embora eu não o notasse muito). Havia o ginásio e balneários, zona onde tínhamos que nos vestir a tal velocidade (as toalhas molhadas podem ser chicoteadas a velocidades de Mach 5) que recrutas do exército seriam vistos como lesmas. Havia também a mitológica sala da associação de estudantes, cuja maior virtude era poder ser trancada com uma chave que os alunos da mesma possuíam e que lhes permitia passar os intervalos a fumar. No entanto o espaço mais selvagem, com uma fauna que teria deslumbrado David Attenbourough, era o pátio. Chamar pátio a uma espaço coberto, em forma de galeria, e aberto para os campos e basquetebol, era talvez um exagero, mas era esse o nome e o espaço era sagrado. Havia delimitações claras que hoje não recordo mas que obedeciam a regras muito estritas. Os fumadores ficavam mais para os lados da parede, para nãos erem vistos pelos professores. Os punks ficavam mais longe da porta de entrada, a conversar encostados aos pilares. A miúdas ficavam a conversar e a ver a Bravo (ali ninguém saberia ler alemão e não era pela literatura que queriam a revista) sentadas no degrau que separava o pátio do campo. Os trestantes andavam por ali, em classes sociais completamente estratificadas e bem delimitadas. Não seria boa ideia a ninguém ingressar nos espaços de classes acima sob pena de levar o tratamento “croquete” (ser molhado e depois rebolado na caixa de areia). Já se alguém decidisse passar pelas classes mais baixas, era de bom tom fazê-lo com encontrões e um par de calduços. Até ficaríamos desapontados se isso não acontecesse.

 

Suponho que ainda hoje assim seja: a estratificação das classes entre alunos do secundário é tão normalizada e estrita que seria mais fácil a um intocável casar com um brâmane do que a um aluno do 8º ano ir pedir um cigarro a um do 11º. Note-se que os do 12º ano eram outro caso. Eram já adultos e não se incomodavam com os mais novos. Até adoptavam alguns, em substituição de cães. Estas delimitações eram no entanto flexíveis quando se transpunham os portões da escola, para fora, para o mundo real. Aí a possibilidade de interacção era real, embora sempre contida. Era-me então possível falar directamente com alguma rapariga gira e popular (sim, pleonasmo) sem receio de humilhação (mesmo pedir-lhe as horas em plena escola era arriscado). Os mais novos atreviam-se a pedir lume aos mais velhos e até havia quem bebesse uma cerveja em conjunto ao sábado em pleno Terreiro. Ainda hoje não entendo como era possível compreender estas regras todas e não ser possível tirar mais que um 12 num simples teste de matemática do 10º ano.

 

Claro que tudo isto tinha que terminar. Findo o 12º ano, veio a entrada para a faculdade. No último dia faziam-se as festas, assinavam-se os anuários uns dos outros sem preocupação com classes (era um sucesso conseguir um simples gatafunho do brutamontes que passava o ano a bater-nos n cabeça quando nos via) ou sem consideração para com qualquer familiariedade (metade das assinaturas devem ser de pessoas que eu conhecia no máximo de vista). Era também o momento em que alguns dos professores desciam ao pátio e conversavam connosco, nos perguntavam o que iríamos fazer e quais os nossos sonhos. O momento em que a escola, toda e completmente, se reunia num grupo sem separações, em amizade e numa antecipada saudade.

 

Se todo o ano tivesse sido assim, talvez esse período da minha vida fosse menos conturbado. Contudo, seria menos recordado. E, em todo o caso, éramos adoslescentes. Estar conturbados era a única coisa que todos sabíamos sem ser ensinados. Com, ou sem escola.

Memórias subjectivas (3)


joaomsandre,

Distâncias e viagens

Enquanto cresci, a única auto-estrada existente era a que ligava Lisboa a Aveiras. Num bom carro e respeitando apenas o espírito da lei no que respeita a limites de velocidade (isto é, acreditar na sua existência mas não os praticar, como a maioria dos católicos portugueses), era possível ir de Aveiras ao Aeroporto em 20-24 minutos. Isto era um eternidade, mas a bem dizer viajar em Portugal até meados da década de 90 demorava eternidades.

 

Quando pequeno, eu passava bastantes fins de semana em casa da minha tia. A distância eram uns 10-15 km, mas no Citroën Diane (a “diane”) ou no Renault 5 (o “renôssinco”) que o substituiu, a viagem era um tédio. Visitar a minha avó implicava uma viagem de 20 km por estradas regionais, com passagens de nível e demorava pelos meus cálculos cerca de 3 episódios do Roy Rodgers ou pelo menos a primeira parte do Benfica Belenenses (que não valia a pena ver a preto e branco na televisão porque as camisolas vermelhas e azuis eram indistinguíveis). Uma ida à Nazaré exigia mantimentos equivalentes ao um Paris-(Argel)-Dakar e se fôssemos a Lisboa o carro passava metade do dia anterior em revisões, mudando o óleo, acertando a pressão dos pneus, atestando o depósito e os tanques de água, enchendo a bagageira de equipamento de emergência incluindo tendas, fornos a gás e rádios portáteis (talvez a minha memória me faça exagerar).

 

Uma ida de visita a Vila Real, onde tínhamos amigos, era o equivalente a viajar meio caminho para a Lua e logisticamente talvez se lhe comparasse. Ir ao Algarve nas férias era mais estranho: talvez Napoleão tenha tido uma pegada logística equivalente na sua invasão da Rússia mas por pouco. Por outro lado a viagem era agradavelmente curta, porque os meus pais saíam ainda de madrugada para fugir ao calor do Alentejo e assim poupavam-me a umas horas de aborrecimento inacreditável. Era sempre engraçado acordar na famosa recta do Canal Caveira onde a lenda dizia que 1 em cada 1,1 automóveis tinham acidentes por os condutores adormecerem ao volante. Isto era a minha deixa para falar sem parar de forma a oferecer companhia e evitar tal tragédia. Durante anos acreditei que esta forma de tortura era a única coisa que nos separava de morrer banhados em chamas. A minha fronteira para o Algarve era o homem da capa preta, o qual indicava que tínhamos chegado à terra prometida e tínhamos escapado do Alentejo, que deveria ser a pós-câmara do Inferno nas descrições dos meus pais.

 

O Algarve era o mais próximo que eu tinha do estrangeiro. Aliás, na minha imaginação os outros países não existiam, eram como as imagens de outros planetas e outras galáxias nas revistas científicas. Podíamos ver como pareciam mas eram inacessíveis. Mesmo Espanha, que acabávamos sempre por visitar durante as férias em Monte Gordo, não passaria de um bairro de Vila Real de Santo António, o qual era acessível por barco tal como a ilha de Tavira. Aliás, a Ilha de Tavira parecia-me ainda mais remota porque lá íamos menos frequentemente e ainda nos obrigava a uma viagem de carro algo mais prolongada.

 

Os períodos no Algarve ofereciam-me pelo menos a possibilidade de confirmar que línguas estrangeiras não eram uma invenção da televisão e cinema, como Klingon. Quando passava nos supermercados tentava sempre encostar-me o mais que me era humanamente possível a quem parecesse estrangeiro sem despertar suspeitas. Por vezes aproximava-me tanto que a única coisa que terá impedido algum sueco de pensar que tinha um filho extra era o contraste entre a minha pele castanha e a pele vermelha da sua verdadeira prole. E a diferença de altura, pelo menos uns 50 ou 60 centímetros pelos 4 anos de idade. Os estrangeiros eram também uma única categoria por si só. Não existiam suecos, alemães, ingleses, holandeses… Existiam os estrangeiros, os cámones. E depois existiam espanhóis, que eram como os alentejanos ou transmontanos: falavam o mesmo que nós e pareciam-se connosco mas tinham um sotaque esquisito. E nem sequer eram tão maus como os açorianos que eram mais incompreensíveis que os espanhóis (lembro-me da adaptação televisiva do Mau tempo no Canal ter adicionado legendas lá pelo terceiro episódio). Também existiam os emigrantes, mas esses eram ou çávás ou então eram apenas aquela espécie de primos que moravam no Norte ou Sul e víamos uma vez por ano. Os çávás é que eram diferentes, porque falavam um português carregado de outras palavras estranhas e às vezes nem falavam português, mas apenas e só estrangeiro.

 

A primeira vez que estive no estrangeiro foi em Inglaterra (idas aos caramelos não contavam). Melhor dizendo, foi em Londres, que do resto de Inglaterra apenas vi o aeroporto de Gatwick e o castelo de Windsor. Aquelas 6 semanas de férias com trabalho foram um choque, especialmente linguístico e nos primeiros dias. O primeiro inglês, que me viu o BI, era perfeitamente compreensível. O segundo, na rua, no dia seguinte, falava algo que não parecia ser sequer aparentado com inglês. O sotaque era algo que eu nunca tinha visto e, depois de me habituar, admirei aquela capacidade de comprimir as sílabas de forma a cuspir as consoantes só com uma mera sombra da existência de vogais. Escusado será dizer que no final dessas 6 semanas eu era capaz de passar por um nativo de Londres, Manchester ou Liverpool ou convencer alguém que tinha estudado em Birmingham. Só me foi recusado o papel de Professor Higgins na minha audição para o novo cast do My Fair Lady, porque aos 16 anos não conseguiria passar por 50 (e eu a sonhar com a Audrey Hepburn ou mesmo a Julie Andrews a falar-me da chuva de Espanha…). Até ir para a Universidade não voltei a passar as fronteiras portuguesas excepto para ver outros subúrbios a leste de Elvas ou a norte de Chaves. Claro que a ida para a Universidade nada teve a ver com isto, foi uma coincidência temporal o ter voltado a meter-me num avião quando andava pelo 3º ano da Faculdade.

 

As viagens em Portugal foram no entanto bastante extensas. Poderei dizer que até aos 5 anos de idade eu terei visto mais do país que o português comum terá feito na sua vida inteira sem recorrer ao Google Maps. Pena que tenha sido numa idade que eu não recordo, num pequeno erro de cálculo filial que ainda hoje eu relembro quando me é apontado que estive naquela aldeiazita alentejana em 1979 numa altura em que o melhor método de arrefecimento no carro era enfiar a cabeça de fora da janela e tentar ignorar os avisos da minha mãe tanto tempo quanto possível.

 

A minha zona preferida era sem dúvida Vila Real. Em parte porque tinha um amigo da minha idade, em parte porque o conceito de uma boa refeição que os meus anfitriões tinham passava por me dar as minhas comidas preferidas e garantir que eu podia rebolar para fora da mesa, em parte porque lá ia no Verão e era divertido ver não só o alcatrão mas também a brita a derreter, e em parte porque a zona parecia tão remota que quase esperaria ver Shangri-La a surgir por entre os montes a seguir a uma curva.

 

Com o tempo, as distâncias foram-se encurtando, tanto por força de melhores meios de transporte e estradas, mas também por eu ter aprendido a ter paciência e ter igualmente compreendido que duas curvas e uma recta não era o suficiente para a distância entre Leiria e Coimbra. Apesar de tudo isso, e fora uma viagem de comboio entre Santa Apolónia e a paragem que servia o Aquário Vasco da Gama quando eu teria uns 6 anos de idade, comboios foi meio de transporte que eu não usei até chegar à universidade (altura em que as carruagens a servir os percursos Coimbra – Figueira da Foz e Coimbra – Lisboa poderiam ter bancos reservados em meu nome). Depois disso descobri o prazer desse meio de transporte – o qual ainda prefiro acima de qualquer outro – e que sinto que poderia ter enriquecido a minha vida desmesuradamente.

 

Hoje tudo é próximo, o que poupa tempo mas lamentavelmente não permite que nos queixemos do tempo da viagem e não ajuda a valorizar o destino uma vez chegados. Numa altura em que a viagem até Lisboa durava efectivamente duas a duas horas e meia e subjectivamente uma semana, o destino era mais valorizado e apreciado. Qualquer nova viagem para ver algo que se tinha perdido na primeira oportunidade implicaria animação suspensa e deixar de ver os amigos pelo que pareceria décadas. Havia outra intensidade na viagem – menor – e na chegada – maior. Hoje a obsessão pelos 5 minutos que se podem ganhar conduzindo a 150 km em vez de 120 km (numa distância de 50 km é esse o ganho real) diluem o apelo da viagem em si mesma e o valor do destino. Não tenho saudades daquelas viagens em cima de 5 sacos-cama, três mantas, duas malas e 10 toalhas de praia no banco de trãs de um carro a 55 ºC pelo meio do Algarve, mas há uma certa nostalgia por essas viagens que não se deve exclusivamente a uma infância que não volta.

 

Memórias subjectivas (2)


joaomsandre,

O cinema

Os filmes fizeram desde cedo parte da minha vida. Não passava sem os clássicos que iam passando na RTP2 nas tardes de sábado, enquanto os meus pais dormiam e me deixavam em paz, especialmente durante o Verão quando o calor era muito e eles ficavam agradecidos de me ver sossegadinho, com as persianas em baixo, numa semi-penumbra e a ver televisão. Era um daqueles casos em que os interesses deles se cruzavam com os meus e me permitiam uma boa dose de clássicos de alta ou baixa qualidade numa altura em que os meus filtros eram de passe baixo e eu me alimentava de tudo. Descobri mais tarde que tinha andado a ver obras-primas (Heaven Can Wait, To Have and Have Not, A Matter of Life and Death, The Way Ahead) e outras menos primorosas (Crack in the World, The Beast from 20,000 Fathoms, qualquer filme com Vincent Price, ou mesmo qualquer filme de terror ou ficção científica, o que na altura era quase o mesmo).

 

A qualidade era menos importante que o fascínio. No caso de bons filmes, eram a qualidade e os elementos mais visuais que me prendiam. Lubitsch, Powell e Pressburger, Cukor, Sirk, Minnelli (excepto musicais, de que só comecei a gostar mais tarde) estavam, descobri depois de alguns anos, entre os meus preferidos. Nomes de realizadores conhecidos eram poucos: John Ford pelas coboiadas  e Hitchcock pelo suspense, palavra que eu repetia aterrado sem compreender do que se tratava (poderia ser essa ou otorrinolaringologista e iria dar ao mesmo) seriam os únicos reconhecíveis para mim. Havia um ou outro filme que tinha que ser visto se me aparecessem à frente certos actores: John Wayne (obviamente), Gene Kelly (desde que não dançasse) e Errol Flynn eram obrigatórios. Actrizes menos. O meu pai tinha um estranho fascínio por Sophia Loren que eu não comprendia, mas esforçava-me por tal.

 

 

Outro elemento importante na minha formação cinematográfica eram os domingos de manhã. Melhor dizendo: os domingos às 11 da manhã em Leiria, quando o cinema passava a sessão para crianças. Não consigo recordar muitos filmes concretos que tivesse visto nesses tempos (excepto As Férias do Senhor Hulot e Os 12 Trabalhos de Astérix), essas memórias misturam-se com as de filmes vistos em casa. Haveria certamente uma saudável dose de comédias, como as da série Pantera Cor de Rosa (ou qualquer filme de Peter Sellers), Irmãos Marx sem grande critério, Laurel and Hardy (ou o Bucha e o Estica, como eram conhecidos na altura), os infames filmes do Louis de Funès (nunca gostei dos Gendarme) e provavelmente uns Cantinflas, mas estes poderei ter visto já em casa.

 

Eram sessões vistas num teatro repleto de crianças onde a guerra era para chegar ao 1º balcão (ou “tribuna”) para ver o filme de frente, ou para chegar ao 2º balcão, onde o filme era menos importante que as patifarias que se faziam aos miúdos mais abaixo. No meu caso o 1º balcão era sempre o mais importante, porque queria ver o filme em sossego. Encontrava amigos na sala, mas ignorava-os assim que as luzes se apagassem. Ver cinema (diferente de “ver filmes”) era e é um acto mais solitário que comunal. Estava no meio da multidão, mas a minha única companhia era o ecrã e as personagens que por ele passavam. No final do filme tinha o único momento difícil, quando saía do teatro e esperava no local combinado que chegassem os meus pais. Se estivessem atrasados as lágrimas e o medo não tardariam (eu era um puto pieguinhas, deve afirmar-se convictamente).

 

Uns anos mais tarde comecei a ir ver filmes com amigos. Tive um grupo de amigos, por volta dos 12 anos de idade, com quem fui ver alguns filmes às matinés. Dois que lembro facilmente foram O Império do Sol e O Último Imperador que, por terem referências a impérios no título, terem sido vistos no mesmo ano e com os mesmos amigos, ficaram inevitavelmente para sempre na minha memória. Na altura preferi o primeiro ao segundo (natural, para uma criança de 12 anos) e ainda hoje tenho dificuldade em me separar da experiência de então para reconhecer que fez sentido dar o óscar ao filme de Bertolucci.

 

Ver filmes no cinema fora daquilo que seria esperado para a idade era normal. A certa altura participei de uma expedição a África, na forma de uma ida ao cinema com a família alargada a tios, numa sala completamente cheia e onde os bilhetes foram para os camarotes conseguidos à custa de umas ligações obscuras que me deixaram a admirar a importância da família até perceber que estar enfiado numa alcova lateral no cinema poderia dar um certo prestígio mas era péssimo para ver um filme. Vi filmes franceses e outros em inglês (de onde não sei, que não recordo exactamente os filmes em si) com os meus pais, filmes que eram provavelmente pouco apropriados para a minha idade (pelo menos do ponto de vista de interesse) mas que tinham o condão de serem vistos em saídas nocturnas e como tal para lá da hora de deitar e, sendo assim, altamente apetecíveis. Penso hoje que só ia ver esses filmes porque os meus pais não teriam ninguém com quem me deixar. Numa altura em que baby-sitters eram figuras elas próprias cinematográficas (e, descobri furtivamente, objecto de certas fantasias…), a solução para ir ao cinema era deixar os filhos com família ou vizinhos. A família não vivia muito perto (na altura 20 km era uma distância considerável) e os vizinhos nem sempre estavam disponíveis. Assim, fui vendo uns filmes que de outra forma não estariam ao meu alcance.

 

Havia ainda casos como os campos de férias, onde havia sempre uma ou duas sessões de filmes (em vídeo, coisa rara) entre as várias actividades. Ter monitores que eram eles próprios pouco mais que pós-adolescentes ainda a descobrirem os prazeres que a liberdade e a idade lhes ofereciam, acabei a ver filmes tão díspares como Porky’s, Gelado de Limão, Expresso da Meia Noite, o brilhantemente mau Screwballs ou La Boum (ah, a Sophie Marceau com 14 anos…). Sem contexto não era dos melhores exemplos de educação cinematográfica mas oferecia uma perspectiva única do que o cinema poderia oferecer.

 

Consigo lembrar-me do momento (mesmo que não o consiga localizar temporalmente) em que cheguei à conclusão que era apaixonado por cinema. Foi numa sexta-feira, eu sozinho em casa à espera da tradicional sessão de balas e mamas que a minha memória me diz ser habitual a partir das 11 horas da noite da RTP1 de então, que mudei de canal para a RTP2 e dei com um filme a começar. Era em alemão, passava-se na Índia e tinha cores excessivamente brilhantes. Comecei a ver e fiquei agarrado ao ecrã. Passaram as 11 horas e deixei-me ficar no mesmo canal. O sono aproximou-se, chegou, tomou conta de mim e eu combati-o vigorosamente para terminar o filme. Quando o filme terminou descobri que a sua segunda parte passaria no sábado à noite, altura em que eu não conseguiria convencer os meus pais a vê-lo. No dia seguinte telefonei de manhã cedo aos meus primos, as únicas pessoas que eu conhecia com um vídeo, para o gravar. O primeiro filme era O Tigre de Eschnapur e o segundo O Túmulo Indiano, filmes menores de Fritz Lang. Nessa altura percebi que se preferia um filme passado na Índia, em alemão e obviamente mais antigo, a uma qualquer rambozada com mulheres em trajes menores (afinal de contas eu era adolescente ou quase), era porque o cinema exercia de facto em mim um fascínio único.

 

Ainda hoje esse fascínio permanece e torna impossível identificar os meus filmes preferidos ou aqueles que considero os melhores. O máximo que consigo é identificar filmes que me marcaram de uma ou outra forma e a que regresso sempre com prazer ou nostalgia. Em tempos identifiquei os seguintes: O Tigre de Eschnapur, Singin’ in the Rain, Três Irmãos, Casablanca, Underground e Todo sobre Mí Madre. Todos eles me marcaram de forma especial, mesmo quando não são dos que mais prazer me dão ver e que não retiraria da prateleira para  ver num momento de ócio.

 

Esses eram também os tempos em que eu ligava aos óscares. Tinha um belo livro chamado “Resposta a Tudo” que na secção de cinema listava os vencedores dos óscares de melhor filme, actor e actriz até ao ano, salvo erro, de 1984. A partir desse ano comecei a escrever eu próprio os nomes dos vencedores até que deixei de ter espaço para continuar. Ainda tenho o livro, um fiel companheiro que me permitia identificar essas obras primas de que nunca tinha ouvido falar (Marty, Tom Jones, Oliver!, O Maior Espectáculo do Mundo, etc), algumas boas, outras nem por isso. Apesar disso eu invariavelmente exigia silêncio no carro enquanto ouvia nas notícas da manhã a caminho da escola quais os vencedores da noite anterior para debater depois com os meus amigos os méritos ou deméritos dessas escolhas que recaíam frequentemente em filmes que eu ainda não tinha visto.

 

Era essa também uma curiosidade. Nesse período pré-internet, os filmes de Hollywood chegavam a Portugal alguns 6 meses mais tarde que a estreia nos EUA, os europeus uns 3 meses mais tarde que Cannes, Veneza ou Berlim e os japoneses ou chineses várias décadas após a estreia e chegavam a Leiria juntamente com os bisnetos dos actores após terem sido passados primeiro na Papua Nova Guiné e em várias amostras de cinema do Uganda. A única excepção parece ter sido O Império dos Sentidos, que chegou a Portugal cerca de 3 ou 4 anos antes da sua produção se completar e parece ter ficado em exibição por dois ou três séculos, ou mais ou menos até ao Baywatch e X-Files começarem a retirar interesse a truques com ovos e a Lorena Bobbitt ter tornado o acto final mais mainstream.

 

A certa altura Leiria recebeu o seu segundo cinema, numa espécie de mescla de centro comercial e galeria comercial, e onde alguns filmes chegavam antes de ao venerável Teatro José Lúcio da Silva (depois Cineteatro José Lúcio da Silve e hoje finalmente Teatro José Lúcio da Silva e a merecer esse nome de facto). Esse novo cinema cujo nome não recordo também passava um ou outro filme mais… “alternativo”, mas era difícil ir vê-los porque o simples acto de tentar entrar na galeria onde estava encafuado era visto como apenas um milímetro acima de comprar droga a um prostituto pederasta velho, armado até aos dentes e punk. Ainda hoje não recordo se alguma vez terei visto algum filme noutro cinema que não o velho Cineteatro. Suponho que sim, mas os bloqueios mentais subliminares impostos pelos sentimentos de culpa pelo delito não me permitem lembrá-lo.

 

Filmes portugueses era algo de inexistente ou, como Bénard da Costa escreveu, O Cinema Português Nunca Existiu, pelo menos lá em casa. Havia as referências às comédias portuguesas, ou ao Vasco Santana, ou ao «Evaristo, tens cá disto?» que era a única referência concreta aos filmes de então e que servia como referência geral aos “anos de ouro” da comédia portuguesa. Falou-se n’ O Rei das Berlengas, mas creio que só relembro o nome porque sempre queria visitar as ilhas, mais ou menos perto de casa (as distâncias eram relativas mas falarei sobre isso noutra altura), o conceito de uma ilha fascinava-me e o nome ficava-me então na memória. Creio que só vi o meu primeiro filme português a sério já na universidade, provavelmente um Manoel d’Oliveira que era o único autor conhecido nesses tempos (fora o Artur Semedo que era do Benfica – e como tal aprovado lá em casa – e tinha uma mão permanentemente envolta numa luva preta e era portanto repelente e irresistível na mesma medida).

 

Um dos momentos mais interessantes foi quando o cineteatro instalou Dolby Surround e a cidade ganhou imediatamente o selo de modernidade. Foi quase como quando surgiram os primeiros semáforos. A cidade estava a caminho do futurismo e não faltava quem adivinhasse um futuro com cadeiras que vibrariam, ecrãs a toda a volta (hoje seríamos científicos e diríamos a 180º) e com capacidade de cheirar o momento. Naqueles dias não faltava quem jurasse que se não existisse barulho na sala seria possível ouvir os sussurros do filme no nosso ouvido. Claro que era impossível confirmar porque havia sempre quem estivesse a comentar ao parceiro do lado que conseguiriam ouvir os sussurros do filme se não existisse barulho, o que automaticamente inviabilizaria o exercício. O episódio de Dolby Surround que relembro melhor terá no entanto sido ao ver A Casa da Rússia no momento em que alguém deixa cair umas pedras de gelo num copo colocado ao lado dos microfones usados para espiar a conversa e o barulho era tal que o espião a ouvir saltava assustado e, com eles, os espectadores.

 

Foram muitas as horas que passei naquelas salas escuras num saudável refúgio do sol a que a minha família incompreensivelmente me queria expor. Foram também muitas as vezes em que tentava reproduzir as condições cinematográficas em casa enquanto via os meus filmes preferidos ou, após a aquisição de um vídeo, tentava ver à socapa o filme da noite anterior e que eu tinha gravado usando a função de programação que mais ninguém em casa sabia como activar e me permitia então ver os filmes franceses onde havia sempre alguma actriz a não fugir da câmara enquanto mudava de roupa. Suponho que terei visto obras primas que nunca reconhecerei, provavelmente Truffaut, Godard, Chabrol, Téchiné ou outros, só porque procurava por aqueles 10 segundos de exposição não escondida de um seio feminino.

 

Hoje, ao regressar, vejo que o Teatro José Lúcio da Silva, onde tanta formação cinematográfica não ofuscada por formalismos ou críticas teve lugar, raramente (se de todo) passa filmes. Dedica-se antes a essa função edificante de mostrar peças, concertos, exposições. Já não terá aquela massa de crianças junto ao balcão do café do primeiro andar (“1º Balcãoª ou “Tribuna”) nem do da cave, ao lado dos cartazes dos filmes a estrear nem dos filmes já estreados por volta de 1913 ainda com o papelinho “Em Breve”, já amarelado, a adorná-los. Será um espaço mais calmo, mais educativo e, ousarei escrevê-lo, mais cosmopolita. Mas não é o da minha infância e juventude.

 

Memórias subjectivas (1)


joaomsandre,

Manhãs de fim de semana

Nesses tempos os sábados eram o momento de libertação. Sem escola às 8 da manhã (ou seria às 8:30?), a televisão era para mim. Ainda sem cor, essa só viria numa manhã de Natal após uma visita ao primeiro Continente do país, num aparelho (NEC, ainda existe) que me fascinou mais pelo controlo remoto que pela cor que já conhecia. Levantava-me, pegava nos livros de banda desenhada, com preferência para os Lucky Luke e Astérix do cimo da prateleira, passava pela cozinha para pegar na lata dos biscoitos (redonda, de metal, branca e com alguns motivos castanhos e que mais tarde acabou a guardar os meus bonecos) e dirigia-me para a sala.

 

Entre os livros a preferência seguia para os que tinham Goscinny como autor da história. Verdade, no início ainda não sabia ler os autores das histórias, mas sabia pelos meus pais quais eram os livros com narrativa desse génio. No caso de Lucky Luke era algo complicado: o desenho era diferente nos períodos iniciais, mas nos outros havia ainda dificuldade em escolher. Com Astérix era ainda mais simples: só tinha um ou dois títulos com Uderzo como autor da história. Claro que antes de saber ler fazia pouca diferença, mas como as histórias estavam (estão) decoradas, a recomendação filial era importante.

 

O ritual passava por sentar no sofá, ler e comer biscoitos até a minha mãe acordar, tomar o pequeno-almoço a correr (não fosse a emissão começar mais cedo de repente) e voltar para a sala. Cerca de meia-hora a uma hora antes do início da emissão ligava o aparelho. Ficava a ver a mira técnica (não recordo se me dava ao trabalho de ouvir a música) e a ler. Havia que ficar atento à possibilidade de os planos da RTP mudarem e começarem os desenhos animados mais cedo. À hora da emissão o hipnotismo comçava.

 

Ao meu redor suponho que existia um completo remoinho de actividade. Tinha uma noção vaga de pessoas a andar de um lado para o outro, de um aspirador a funcionar e que me forçava a sentar-me noutra posição na sala enquanto o sofá era movido, de a minha mãe avisar o meu pai que ia fazer compras, de pedir ajuda para as arrumar, de o barulho na cozinha se intensificar quando o programa infantil se tornava algo mais juvenil e começavam as séries menos “animadas”. A certa altura lá era chamado para a mesa da cozinha para o almoço e rogava por uns minutos mais para poder acabar de ver o episódio de fosse o que fosse que estava a ser transmitido no momento.

 

Uns anos mais tarde comecei a ter de acompanhar a minha mãe nas suas visitas ao mercado, para comprar mercearias ou peixe, e comecei a odiar essas visitas, por volta das onze horas, que me impediam de ver o meu programa preferido (por regra, qualquer programa que eu não pudesse ver, fosse porque razão fosse, era invariavelmente o meu preferido). Nesse período eu acelerava sempre a minha mãe para poder voltar o mais depressa possível para ver alguma coisa antes daquelas notícias da hora de almoço que os meus pais não queriam nunca perder. Mais tarde, quando fiquei mais velho e poderia ficar em casa sozinho, sofri pelo infortúnio de ser já mais alto e mais forte que a minha mãe e não pude ficar em casa porque estava encarregue de ajudar a trazer os sacos das compras.

 

Já os domingos eram outra coisa. Com a missa dominical, o 80×7 e o Telerural, o primeiro canal era para mim algo sem qualquer pinta de interesse. Infelizmente o segundo canal começava mais tarde, mas isso não me impedia de me sentar a ver a sua mira técnica, inifinitamente mais interessante que aquele senhor com roupas esquisitas que levantava uns copos dourados enquanto vozes femininas cantavam uma músicas chatas. Como o segundo canal não era prolífico em desenhos animados, acabei por ir vendo os programas de vida selvagem e sobre o corpo humano (inclusivamente um, alemão, que me ensinou mais que vários anos de aulas de Ciências da Natureza). Talvez possa mesmo traçar o meu interesse por ciência àqueles domingos sem desenhos animados que me faziam agarrar a qualquer farrapo de entretenimento.

 

A maior variação a estas rotinas eram as visitas à minha tia, na aldeia. Os domingos eram especialmente dolorosos, dado que nessa altura a electricidade era racionada e não era ligada na aldeia antes do meio-dia. Eram períodos em que lia e relia (ou “lia e relia” no período pré-primário) os livros que tinha trazido comigo, vasculhava a casa da minha tia em busca de qualquer coisa com o mínimo de interesse (acabei a ler a Nova Gente, confesso hoje) e lá aceitava a certa altura ir passar pela Igreja e até espreitava a missa, algo que apesar de desinteressante me fascinava um pouco. É curioso que eu nunca tenha conseguido, até hoje, equiparar a missa televisiva com a missa “real”. A primeira era como um programa sem qualquer interesse, um desperdício de tempo televisivo. A segunda era chata, como uma visita a uma tia-avó muito velha e mal-cheirosa mas que tinha aspectos de curiosidade. Até hoje sou da opinião que a missa é desporto presencial, nunca televisivo.

 

Ainda hoje os meus sábados livres são tentativas fúteis de emular esses períodos despreocupados. “Vegetar” é aspiração não compreendida por muitos adultos, mas uma que eu persigo ardentemente quando tenho essa oportunidade (uma vez por ano se o sol estiver azul e o galo dormir de pijamas). Não regressa, mas recordo-a. Idealmente com uma lata de biscoitos à frente.

Memórias subjectivas (0)


joaomsandre,

“Memórias subjectivas” é um termo algo pleonástico. Uma memória existe não como um registo exacto de um momento mas como um registo parcial desse mesmo momento e apenas da forma como o registamos. Uma camisa às riscas brancas e pretas pode não ter sido vista mas, por omissão de informação, recordada pelo nosso cérebro como sendo de um vermelho escuro, quase de sangue. Uma pessoa pode nunca ter passado pela nossa vida senão, sem ser notada, na rua, mas devido a uma descrição poderemos recordá-la vivamente como sendo parte integral de um episódio. Entre duas situações, a mais recente por dez anos pdoerá ser pior recordada que a mais antiga, mesmo sem qualquer razão lógica para isso.

 

Por isso qualquer memória é subjectiva. É-o na forma como o fragmento de história é observado, na forma como é registado, na forma como é relembrado. E quando se conta, adicionam-se os pormenores extra que poderão não fazer parte da memória ou que são alterados em função da narrativa. Por isso mantenho o pleonasmo nestas minhas crónicas em que irei recordar episódios sem linha cronológica e sem qualquer vontade de fazer mais que deixar um registo a que voltarei em tempos.

 

Ou como escreveu García Márquez: «La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla».