Memórias subjectivas (1)


joaomsandre,

Manhãs de fim de semana

Nesses tempos os sábados eram o momento de libertação. Sem escola às 8 da manhã (ou seria às 8:30?), a televisão era para mim. Ainda sem cor, essa só viria numa manhã de Natal após uma visita ao primeiro Continente do país, num aparelho (NEC, ainda existe) que me fascinou mais pelo controlo remoto que pela cor que já conhecia. Levantava-me, pegava nos livros de banda desenhada, com preferência para os Lucky Luke e Astérix do cimo da prateleira, passava pela cozinha para pegar na lata dos biscoitos (redonda, de metal, branca e com alguns motivos castanhos e que mais tarde acabou a guardar os meus bonecos) e dirigia-me para a sala.

 

Entre os livros a preferência seguia para os que tinham Goscinny como autor da história. Verdade, no início ainda não sabia ler os autores das histórias, mas sabia pelos meus pais quais eram os livros com narrativa desse génio. No caso de Lucky Luke era algo complicado: o desenho era diferente nos períodos iniciais, mas nos outros havia ainda dificuldade em escolher. Com Astérix era ainda mais simples: só tinha um ou dois títulos com Uderzo como autor da história. Claro que antes de saber ler fazia pouca diferença, mas como as histórias estavam (estão) decoradas, a recomendação filial era importante.

 

O ritual passava por sentar no sofá, ler e comer biscoitos até a minha mãe acordar, tomar o pequeno-almoço a correr (não fosse a emissão começar mais cedo de repente) e voltar para a sala. Cerca de meia-hora a uma hora antes do início da emissão ligava o aparelho. Ficava a ver a mira técnica (não recordo se me dava ao trabalho de ouvir a música) e a ler. Havia que ficar atento à possibilidade de os planos da RTP mudarem e começarem os desenhos animados mais cedo. À hora da emissão o hipnotismo comçava.

 

Ao meu redor suponho que existia um completo remoinho de actividade. Tinha uma noção vaga de pessoas a andar de um lado para o outro, de um aspirador a funcionar e que me forçava a sentar-me noutra posição na sala enquanto o sofá era movido, de a minha mãe avisar o meu pai que ia fazer compras, de pedir ajuda para as arrumar, de o barulho na cozinha se intensificar quando o programa infantil se tornava algo mais juvenil e começavam as séries menos “animadas”. A certa altura lá era chamado para a mesa da cozinha para o almoço e rogava por uns minutos mais para poder acabar de ver o episódio de fosse o que fosse que estava a ser transmitido no momento.

 

Uns anos mais tarde comecei a ter de acompanhar a minha mãe nas suas visitas ao mercado, para comprar mercearias ou peixe, e comecei a odiar essas visitas, por volta das onze horas, que me impediam de ver o meu programa preferido (por regra, qualquer programa que eu não pudesse ver, fosse porque razão fosse, era invariavelmente o meu preferido). Nesse período eu acelerava sempre a minha mãe para poder voltar o mais depressa possível para ver alguma coisa antes daquelas notícias da hora de almoço que os meus pais não queriam nunca perder. Mais tarde, quando fiquei mais velho e poderia ficar em casa sozinho, sofri pelo infortúnio de ser já mais alto e mais forte que a minha mãe e não pude ficar em casa porque estava encarregue de ajudar a trazer os sacos das compras.

 

Já os domingos eram outra coisa. Com a missa dominical, o 80×7 e o Telerural, o primeiro canal era para mim algo sem qualquer pinta de interesse. Infelizmente o segundo canal começava mais tarde, mas isso não me impedia de me sentar a ver a sua mira técnica, inifinitamente mais interessante que aquele senhor com roupas esquisitas que levantava uns copos dourados enquanto vozes femininas cantavam uma músicas chatas. Como o segundo canal não era prolífico em desenhos animados, acabei por ir vendo os programas de vida selvagem e sobre o corpo humano (inclusivamente um, alemão, que me ensinou mais que vários anos de aulas de Ciências da Natureza). Talvez possa mesmo traçar o meu interesse por ciência àqueles domingos sem desenhos animados que me faziam agarrar a qualquer farrapo de entretenimento.

 

A maior variação a estas rotinas eram as visitas à minha tia, na aldeia. Os domingos eram especialmente dolorosos, dado que nessa altura a electricidade era racionada e não era ligada na aldeia antes do meio-dia. Eram períodos em que lia e relia (ou “lia e relia” no período pré-primário) os livros que tinha trazido comigo, vasculhava a casa da minha tia em busca de qualquer coisa com o mínimo de interesse (acabei a ler a Nova Gente, confesso hoje) e lá aceitava a certa altura ir passar pela Igreja e até espreitava a missa, algo que apesar de desinteressante me fascinava um pouco. É curioso que eu nunca tenha conseguido, até hoje, equiparar a missa televisiva com a missa “real”. A primeira era como um programa sem qualquer interesse, um desperdício de tempo televisivo. A segunda era chata, como uma visita a uma tia-avó muito velha e mal-cheirosa mas que tinha aspectos de curiosidade. Até hoje sou da opinião que a missa é desporto presencial, nunca televisivo.

 

Ainda hoje os meus sábados livres são tentativas fúteis de emular esses períodos despreocupados. “Vegetar” é aspiração não compreendida por muitos adultos, mas uma que eu persigo ardentemente quando tenho essa oportunidade (uma vez por ano se o sol estiver azul e o galo dormir de pijamas). Não regressa, mas recordo-a. Idealmente com uma lata de biscoitos à frente.

0 comentários em “Memórias subjectivas (1)”

  1. Confesso que nos dias que correm me pelo por uma manhã de domingo chuvosa para não ter de saltar da cama a correr para fazer uma data de coisas.
    Uma manhã de domingo chuvosa manda-me dormir mais uma hora e depois deixa-me ver em pijama um ou outro episódio de uma série gravada ou desbravar, debaixo dos lençóis, uma data de capítulos de qualquer coisa que ande a ler.

    Também de lembro de, na idade da primária, acordar ao fim de semana e sentar-me nos degraus do hall do primeiro andar, com uma pilha de torradas e um qualquer “Colégio das Quatro Torres”, à espera de alguém acordar.
    Há lá coisa melhor, caramba.

    1. Não conhecia essa colecção e se a lias na primária creio que andavas mais adiantada e madura que eu (normal para raparigas ). Eu nunca gostei dos outros da Enid Blyton (“Os Sete” ou “Os Cinco”) e só abracei a literatura não-BD quando me chegaram os livros da Alice Vieira e d’Uma Aventura. Ainda vai ser o tema de um outro texto, esta questão da literatura infantil.

  2. Alguma de memória de ira à missa , com roupa que me picava, enquanto paizinhos ficavam na cama…
    Brincava n átrio e entrava na igreja ao fim, para que mães denunciantes não fosse chibar-me.
    Fica junto à porta, saindo após mulherios, para ser visto e bem visto…
    Não sei se me faço…
    PS: também em tempos fiz as minhas memórias, próximas destas, embora algo mais ácidas. Como eu. Embora lá no fundo. muito muito no fundo – seja um doce. E uma joia de moço, não mente. pelo menos – muito…

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