Distâncias e viagens
Enquanto cresci, a única auto-estrada existente era a que ligava Lisboa a Aveiras. Num bom carro e respeitando apenas o espírito da lei no que respeita a limites de velocidade (isto é, acreditar na sua existência mas não os praticar, como a maioria dos católicos portugueses), era possível ir de Aveiras ao Aeroporto em 20-24 minutos. Isto era um eternidade, mas a bem dizer viajar em Portugal até meados da década de 90 demorava eternidades.
Quando pequeno, eu passava bastantes fins de semana em casa da minha tia. A distância eram uns 10-15 km, mas no Citroën Diane (a “diane”) ou no Renault 5 (o “renôssinco”) que o substituiu, a viagem era um tédio. Visitar a minha avó implicava uma viagem de 20 km por estradas regionais, com passagens de nível e demorava pelos meus cálculos cerca de 3 episódios do Roy Rodgers ou pelo menos a primeira parte do Benfica Belenenses (que não valia a pena ver a preto e branco na televisão porque as camisolas vermelhas e azuis eram indistinguíveis). Uma ida à Nazaré exigia mantimentos equivalentes ao um Paris-(Argel)-Dakar e se fôssemos a Lisboa o carro passava metade do dia anterior em revisões, mudando o óleo, acertando a pressão dos pneus, atestando o depósito e os tanques de água, enchendo a bagageira de equipamento de emergência incluindo tendas, fornos a gás e rádios portáteis (talvez a minha memória me faça exagerar).
Uma ida de visita a Vila Real, onde tínhamos amigos, era o equivalente a viajar meio caminho para a Lua e logisticamente talvez se lhe comparasse. Ir ao Algarve nas férias era mais estranho: talvez Napoleão tenha tido uma pegada logística equivalente na sua invasão da Rússia mas por pouco. Por outro lado a viagem era agradavelmente curta, porque os meus pais saíam ainda de madrugada para fugir ao calor do Alentejo e assim poupavam-me a umas horas de aborrecimento inacreditável. Era sempre engraçado acordar na famosa recta do Canal Caveira onde a lenda dizia que 1 em cada 1,1 automóveis tinham acidentes por os condutores adormecerem ao volante. Isto era a minha deixa para falar sem parar de forma a oferecer companhia e evitar tal tragédia. Durante anos acreditei que esta forma de tortura era a única coisa que nos separava de morrer banhados em chamas. A minha fronteira para o Algarve era o homem da capa preta, o qual indicava que tínhamos chegado à terra prometida e tínhamos escapado do Alentejo, que deveria ser a pós-câmara do Inferno nas descrições dos meus pais.
O Algarve era o mais próximo que eu tinha do estrangeiro. Aliás, na minha imaginação os outros países não existiam, eram como as imagens de outros planetas e outras galáxias nas revistas científicas. Podíamos ver como pareciam mas eram inacessíveis. Mesmo Espanha, que acabávamos sempre por visitar durante as férias em Monte Gordo, não passaria de um bairro de Vila Real de Santo António, o qual era acessível por barco tal como a ilha de Tavira. Aliás, a Ilha de Tavira parecia-me ainda mais remota porque lá íamos menos frequentemente e ainda nos obrigava a uma viagem de carro algo mais prolongada.
Os períodos no Algarve ofereciam-me pelo menos a possibilidade de confirmar que línguas estrangeiras não eram uma invenção da televisão e cinema, como Klingon. Quando passava nos supermercados tentava sempre encostar-me o mais que me era humanamente possível a quem parecesse estrangeiro sem despertar suspeitas. Por vezes aproximava-me tanto que a única coisa que terá impedido algum sueco de pensar que tinha um filho extra era o contraste entre a minha pele castanha e a pele vermelha da sua verdadeira prole. E a diferença de altura, pelo menos uns 50 ou 60 centímetros pelos 4 anos de idade. Os estrangeiros eram também uma única categoria por si só. Não existiam suecos, alemães, ingleses, holandeses… Existiam os estrangeiros, os cámones. E depois existiam espanhóis, que eram como os alentejanos ou transmontanos: falavam o mesmo que nós e pareciam-se connosco mas tinham um sotaque esquisito. E nem sequer eram tão maus como os açorianos que eram mais incompreensíveis que os espanhóis (lembro-me da adaptação televisiva do Mau tempo no Canal ter adicionado legendas lá pelo terceiro episódio). Também existiam os emigrantes, mas esses eram ou çávás ou então eram apenas aquela espécie de primos que moravam no Norte ou Sul e víamos uma vez por ano. Os çávás é que eram diferentes, porque falavam um português carregado de outras palavras estranhas e às vezes nem falavam português, mas apenas e só estrangeiro.
A primeira vez que estive no estrangeiro foi em Inglaterra (idas aos caramelos não contavam). Melhor dizendo, foi em Londres, que do resto de Inglaterra apenas vi o aeroporto de Gatwick e o castelo de Windsor. Aquelas 6 semanas de férias com trabalho foram um choque, especialmente linguístico e nos primeiros dias. O primeiro inglês, que me viu o BI, era perfeitamente compreensível. O segundo, na rua, no dia seguinte, falava algo que não parecia ser sequer aparentado com inglês. O sotaque era algo que eu nunca tinha visto e, depois de me habituar, admirei aquela capacidade de comprimir as sílabas de forma a cuspir as consoantes só com uma mera sombra da existência de vogais. Escusado será dizer que no final dessas 6 semanas eu era capaz de passar por um nativo de Londres, Manchester ou Liverpool ou convencer alguém que tinha estudado em Birmingham. Só me foi recusado o papel de Professor Higgins na minha audição para o novo cast do My Fair Lady, porque aos 16 anos não conseguiria passar por 50 (e eu a sonhar com a Audrey Hepburn ou mesmo a Julie Andrews a falar-me da chuva de Espanha…). Até ir para a Universidade não voltei a passar as fronteiras portuguesas excepto para ver outros subúrbios a leste de Elvas ou a norte de Chaves. Claro que a ida para a Universidade nada teve a ver com isto, foi uma coincidência temporal o ter voltado a meter-me num avião quando andava pelo 3º ano da Faculdade.
As viagens em Portugal foram no entanto bastante extensas. Poderei dizer que até aos 5 anos de idade eu terei visto mais do país que o português comum terá feito na sua vida inteira sem recorrer ao Google Maps. Pena que tenha sido numa idade que eu não recordo, num pequeno erro de cálculo filial que ainda hoje eu relembro quando me é apontado que estive naquela aldeiazita alentejana em 1979 numa altura em que o melhor método de arrefecimento no carro era enfiar a cabeça de fora da janela e tentar ignorar os avisos da minha mãe tanto tempo quanto possível.
A minha zona preferida era sem dúvida Vila Real. Em parte porque tinha um amigo da minha idade, em parte porque o conceito de uma boa refeição que os meus anfitriões tinham passava por me dar as minhas comidas preferidas e garantir que eu podia rebolar para fora da mesa, em parte porque lá ia no Verão e era divertido ver não só o alcatrão mas também a brita a derreter, e em parte porque a zona parecia tão remota que quase esperaria ver Shangri-La a surgir por entre os montes a seguir a uma curva.
Com o tempo, as distâncias foram-se encurtando, tanto por força de melhores meios de transporte e estradas, mas também por eu ter aprendido a ter paciência e ter igualmente compreendido que duas curvas e uma recta não era o suficiente para a distância entre Leiria e Coimbra. Apesar de tudo isso, e fora uma viagem de comboio entre Santa Apolónia e a paragem que servia o Aquário Vasco da Gama quando eu teria uns 6 anos de idade, comboios foi meio de transporte que eu não usei até chegar à universidade (altura em que as carruagens a servir os percursos Coimbra – Figueira da Foz e Coimbra – Lisboa poderiam ter bancos reservados em meu nome). Depois disso descobri o prazer desse meio de transporte – o qual ainda prefiro acima de qualquer outro – e que sinto que poderia ter enriquecido a minha vida desmesuradamente.
Hoje tudo é próximo, o que poupa tempo mas lamentavelmente não permite que nos queixemos do tempo da viagem e não ajuda a valorizar o destino uma vez chegados. Numa altura em que a viagem até Lisboa durava efectivamente duas a duas horas e meia e subjectivamente uma semana, o destino era mais valorizado e apreciado. Qualquer nova viagem para ver algo que se tinha perdido na primeira oportunidade implicaria animação suspensa e deixar de ver os amigos pelo que pareceria décadas. Havia outra intensidade na viagem – menor – e na chegada – maior. Hoje a obsessão pelos 5 minutos que se podem ganhar conduzindo a 150 km em vez de 120 km (numa distância de 50 km é esse o ganho real) diluem o apelo da viagem em si mesma e o valor do destino. Não tenho saudades daquelas viagens em cima de 5 sacos-cama, três mantas, duas malas e 10 toalhas de praia no banco de trãs de um carro a 55 ºC pelo meio do Algarve, mas há uma certa nostalgia por essas viagens que não se deve exclusivamente a uma infância que não volta.

Acho que o João André exagera bastante.
Há quarenta ou cinquenta anos o meu pai tinha uma casa no distrito de Aveiro, a 235 quilómetros de Lisboa pela então estrada Lisboa-Porto. Ir lá não era propriamente um drama. A viagem demorava 3 horas e meia quando corria bem; no máximo, demorou o dobro disso. Era um bocado aventuroso, mas nada de dramático: a família ia lá 4 vezes por ano, ida e volta, com crianças e sem mudança de condutor.
Ó Luís, obviamente que isto é tudo exagerado. Por isso o título da série é “memórias subjectivas”. Claro que em termos objectivos nada era tão longo, mas também me parece que fazer 200 km era menos dramático que fazer 20 km. Com 200 km havia uma preparação para passar metade do dia no carro. Com 20 km (especialmente com crianças) era mais difícil aceitar a passagem dessa meia hora ou lá o que era.
Muito bom!
Obrigado
é bom lembar.se da autoestrada até aveiras, e lembro.me de ir apenas até vila franca de xira, a partir daí so a A1.
tambem me lembro das viagem de 8 horas de lisboa a pinhel no distrito da guarda com saída de madrugada, almoço em coimbra e, com sorte jantar já em casa de meus avós paternos, mas sempre com saco de amendoins comprados sempre em vila franca das naves (isto se não houvesse engarrafamento nos semáforos do carregado e problemas diversos na estrada da beira).
se a viagem fosse para torre de moncorvo (distrito de bragança, casa de meus avos maternos) teria de haver pernoita no caminho, que as 24 horas do dia não davam para a viagem.
e mesmo assim, quer eu quer os meus irmaos, amontoados no banco de tras do ford capri ou no fiat 2100 paterno, adoravamos a viagem (era melhor que o cinema ou a tv).
Quanto mais longa aviagem melhor se fazia (enquanto criança). Era uma aventura e sabíamos que esse dia era dedicado à viagem em si. Se fossem viagens mais curtas é que elas pareciam demorar uma eternidade, porque nunca mais chegávamos àquele destino que tinha sido prometido como próximo.
Ora muito bem. Esta série prometia — e já está a dar.
Qualquer dia tens livro.
Pelo menos um destes textos deve figurar na futura antologia DELITO.
Destaco este raciocínio, que nunca me tinha ocorrido aplicado a viagens, mas que é profundamente verdadeiro:
«Numa altura em que a viagem até Lisboa durava efectivamente duas a duas horas e meia e subjectivamente uma semana, o destino era mais valorizado e apreciado.»
Quando tudo se torna demasiado fácil e acessível, perde logo algum interesse.
Obrigado Pedro. Para livro duvido, que não devo ter material suficiente sem pesquisa e não tenho tempo para tal. Vai de memória e veremos até onde chega.
Antes de escrever o texto também ainda não tinha pensado nessa aspecto das viagens. Foi através da reflexão e do exercício de recordar esses passeios que me veio a ideia.
Nunca se deve deixar que verdade, estrague uma boa estória.
A verdade, é apenas a mentira que não foi descoberta.
Dane-se ela, mailos cronistas fotográficos
Também me lembro muito bem das viagens Lisboa – Pinheiro de Lafões, que metiam o Carregado e o Pé da Serra (nome só compreensível para quem fazia a viagem de Sul para Norte), e que acabavam com enjoos mortíferos depois do almoço, nas curvas do vale do Vouga. Começavam de manhã cedo, nunca tão cedo como prometia o Diamantino, chófer de praça em Oliveira de Frades que vinha, mui ilegalmente, buscar os seus clientes a Lisboa (clientes esses que tinham a obrigação de dizer que eram todos da mesma família no caso de haver algum controlo, o que me incluía a mim, industriada para mentir, vejam só!).