Memórias subjectivas (2)


joaomsandre,

O cinema

Os filmes fizeram desde cedo parte da minha vida. Não passava sem os clássicos que iam passando na RTP2 nas tardes de sábado, enquanto os meus pais dormiam e me deixavam em paz, especialmente durante o Verão quando o calor era muito e eles ficavam agradecidos de me ver sossegadinho, com as persianas em baixo, numa semi-penumbra e a ver televisão. Era um daqueles casos em que os interesses deles se cruzavam com os meus e me permitiam uma boa dose de clássicos de alta ou baixa qualidade numa altura em que os meus filtros eram de passe baixo e eu me alimentava de tudo. Descobri mais tarde que tinha andado a ver obras-primas (Heaven Can Wait, To Have and Have Not, A Matter of Life and Death, The Way Ahead) e outras menos primorosas (Crack in the World, The Beast from 20,000 Fathoms, qualquer filme com Vincent Price, ou mesmo qualquer filme de terror ou ficção científica, o que na altura era quase o mesmo).

 

A qualidade era menos importante que o fascínio. No caso de bons filmes, eram a qualidade e os elementos mais visuais que me prendiam. Lubitsch, Powell e Pressburger, Cukor, Sirk, Minnelli (excepto musicais, de que só comecei a gostar mais tarde) estavam, descobri depois de alguns anos, entre os meus preferidos. Nomes de realizadores conhecidos eram poucos: John Ford pelas coboiadas  e Hitchcock pelo suspense, palavra que eu repetia aterrado sem compreender do que se tratava (poderia ser essa ou otorrinolaringologista e iria dar ao mesmo) seriam os únicos reconhecíveis para mim. Havia um ou outro filme que tinha que ser visto se me aparecessem à frente certos actores: John Wayne (obviamente), Gene Kelly (desde que não dançasse) e Errol Flynn eram obrigatórios. Actrizes menos. O meu pai tinha um estranho fascínio por Sophia Loren que eu não comprendia, mas esforçava-me por tal.

 

 

Outro elemento importante na minha formação cinematográfica eram os domingos de manhã. Melhor dizendo: os domingos às 11 da manhã em Leiria, quando o cinema passava a sessão para crianças. Não consigo recordar muitos filmes concretos que tivesse visto nesses tempos (excepto As Férias do Senhor Hulot e Os 12 Trabalhos de Astérix), essas memórias misturam-se com as de filmes vistos em casa. Haveria certamente uma saudável dose de comédias, como as da série Pantera Cor de Rosa (ou qualquer filme de Peter Sellers), Irmãos Marx sem grande critério, Laurel and Hardy (ou o Bucha e o Estica, como eram conhecidos na altura), os infames filmes do Louis de Funès (nunca gostei dos Gendarme) e provavelmente uns Cantinflas, mas estes poderei ter visto já em casa.

 

Eram sessões vistas num teatro repleto de crianças onde a guerra era para chegar ao 1º balcão (ou “tribuna”) para ver o filme de frente, ou para chegar ao 2º balcão, onde o filme era menos importante que as patifarias que se faziam aos miúdos mais abaixo. No meu caso o 1º balcão era sempre o mais importante, porque queria ver o filme em sossego. Encontrava amigos na sala, mas ignorava-os assim que as luzes se apagassem. Ver cinema (diferente de “ver filmes”) era e é um acto mais solitário que comunal. Estava no meio da multidão, mas a minha única companhia era o ecrã e as personagens que por ele passavam. No final do filme tinha o único momento difícil, quando saía do teatro e esperava no local combinado que chegassem os meus pais. Se estivessem atrasados as lágrimas e o medo não tardariam (eu era um puto pieguinhas, deve afirmar-se convictamente).

 

Uns anos mais tarde comecei a ir ver filmes com amigos. Tive um grupo de amigos, por volta dos 12 anos de idade, com quem fui ver alguns filmes às matinés. Dois que lembro facilmente foram O Império do Sol e O Último Imperador que, por terem referências a impérios no título, terem sido vistos no mesmo ano e com os mesmos amigos, ficaram inevitavelmente para sempre na minha memória. Na altura preferi o primeiro ao segundo (natural, para uma criança de 12 anos) e ainda hoje tenho dificuldade em me separar da experiência de então para reconhecer que fez sentido dar o óscar ao filme de Bertolucci.

 

Ver filmes no cinema fora daquilo que seria esperado para a idade era normal. A certa altura participei de uma expedição a África, na forma de uma ida ao cinema com a família alargada a tios, numa sala completamente cheia e onde os bilhetes foram para os camarotes conseguidos à custa de umas ligações obscuras que me deixaram a admirar a importância da família até perceber que estar enfiado numa alcova lateral no cinema poderia dar um certo prestígio mas era péssimo para ver um filme. Vi filmes franceses e outros em inglês (de onde não sei, que não recordo exactamente os filmes em si) com os meus pais, filmes que eram provavelmente pouco apropriados para a minha idade (pelo menos do ponto de vista de interesse) mas que tinham o condão de serem vistos em saídas nocturnas e como tal para lá da hora de deitar e, sendo assim, altamente apetecíveis. Penso hoje que só ia ver esses filmes porque os meus pais não teriam ninguém com quem me deixar. Numa altura em que baby-sitters eram figuras elas próprias cinematográficas (e, descobri furtivamente, objecto de certas fantasias…), a solução para ir ao cinema era deixar os filhos com família ou vizinhos. A família não vivia muito perto (na altura 20 km era uma distância considerável) e os vizinhos nem sempre estavam disponíveis. Assim, fui vendo uns filmes que de outra forma não estariam ao meu alcance.

 

Havia ainda casos como os campos de férias, onde havia sempre uma ou duas sessões de filmes (em vídeo, coisa rara) entre as várias actividades. Ter monitores que eram eles próprios pouco mais que pós-adolescentes ainda a descobrirem os prazeres que a liberdade e a idade lhes ofereciam, acabei a ver filmes tão díspares como Porky’s, Gelado de Limão, Expresso da Meia Noite, o brilhantemente mau Screwballs ou La Boum (ah, a Sophie Marceau com 14 anos…). Sem contexto não era dos melhores exemplos de educação cinematográfica mas oferecia uma perspectiva única do que o cinema poderia oferecer.

 

Consigo lembrar-me do momento (mesmo que não o consiga localizar temporalmente) em que cheguei à conclusão que era apaixonado por cinema. Foi numa sexta-feira, eu sozinho em casa à espera da tradicional sessão de balas e mamas que a minha memória me diz ser habitual a partir das 11 horas da noite da RTP1 de então, que mudei de canal para a RTP2 e dei com um filme a começar. Era em alemão, passava-se na Índia e tinha cores excessivamente brilhantes. Comecei a ver e fiquei agarrado ao ecrã. Passaram as 11 horas e deixei-me ficar no mesmo canal. O sono aproximou-se, chegou, tomou conta de mim e eu combati-o vigorosamente para terminar o filme. Quando o filme terminou descobri que a sua segunda parte passaria no sábado à noite, altura em que eu não conseguiria convencer os meus pais a vê-lo. No dia seguinte telefonei de manhã cedo aos meus primos, as únicas pessoas que eu conhecia com um vídeo, para o gravar. O primeiro filme era O Tigre de Eschnapur e o segundo O Túmulo Indiano, filmes menores de Fritz Lang. Nessa altura percebi que se preferia um filme passado na Índia, em alemão e obviamente mais antigo, a uma qualquer rambozada com mulheres em trajes menores (afinal de contas eu era adolescente ou quase), era porque o cinema exercia de facto em mim um fascínio único.

 

Ainda hoje esse fascínio permanece e torna impossível identificar os meus filmes preferidos ou aqueles que considero os melhores. O máximo que consigo é identificar filmes que me marcaram de uma ou outra forma e a que regresso sempre com prazer ou nostalgia. Em tempos identifiquei os seguintes: O Tigre de Eschnapur, Singin’ in the Rain, Três Irmãos, Casablanca, Underground e Todo sobre Mí Madre. Todos eles me marcaram de forma especial, mesmo quando não são dos que mais prazer me dão ver e que não retiraria da prateleira para  ver num momento de ócio.

 

Esses eram também os tempos em que eu ligava aos óscares. Tinha um belo livro chamado “Resposta a Tudo” que na secção de cinema listava os vencedores dos óscares de melhor filme, actor e actriz até ao ano, salvo erro, de 1984. A partir desse ano comecei a escrever eu próprio os nomes dos vencedores até que deixei de ter espaço para continuar. Ainda tenho o livro, um fiel companheiro que me permitia identificar essas obras primas de que nunca tinha ouvido falar (Marty, Tom Jones, Oliver!, O Maior Espectáculo do Mundo, etc), algumas boas, outras nem por isso. Apesar disso eu invariavelmente exigia silêncio no carro enquanto ouvia nas notícas da manhã a caminho da escola quais os vencedores da noite anterior para debater depois com os meus amigos os méritos ou deméritos dessas escolhas que recaíam frequentemente em filmes que eu ainda não tinha visto.

 

Era essa também uma curiosidade. Nesse período pré-internet, os filmes de Hollywood chegavam a Portugal alguns 6 meses mais tarde que a estreia nos EUA, os europeus uns 3 meses mais tarde que Cannes, Veneza ou Berlim e os japoneses ou chineses várias décadas após a estreia e chegavam a Leiria juntamente com os bisnetos dos actores após terem sido passados primeiro na Papua Nova Guiné e em várias amostras de cinema do Uganda. A única excepção parece ter sido O Império dos Sentidos, que chegou a Portugal cerca de 3 ou 4 anos antes da sua produção se completar e parece ter ficado em exibição por dois ou três séculos, ou mais ou menos até ao Baywatch e X-Files começarem a retirar interesse a truques com ovos e a Lorena Bobbitt ter tornado o acto final mais mainstream.

 

A certa altura Leiria recebeu o seu segundo cinema, numa espécie de mescla de centro comercial e galeria comercial, e onde alguns filmes chegavam antes de ao venerável Teatro José Lúcio da Silva (depois Cineteatro José Lúcio da Silve e hoje finalmente Teatro José Lúcio da Silva e a merecer esse nome de facto). Esse novo cinema cujo nome não recordo também passava um ou outro filme mais… “alternativo”, mas era difícil ir vê-los porque o simples acto de tentar entrar na galeria onde estava encafuado era visto como apenas um milímetro acima de comprar droga a um prostituto pederasta velho, armado até aos dentes e punk. Ainda hoje não recordo se alguma vez terei visto algum filme noutro cinema que não o velho Cineteatro. Suponho que sim, mas os bloqueios mentais subliminares impostos pelos sentimentos de culpa pelo delito não me permitem lembrá-lo.

 

Filmes portugueses era algo de inexistente ou, como Bénard da Costa escreveu, O Cinema Português Nunca Existiu, pelo menos lá em casa. Havia as referências às comédias portuguesas, ou ao Vasco Santana, ou ao «Evaristo, tens cá disto?» que era a única referência concreta aos filmes de então e que servia como referência geral aos “anos de ouro” da comédia portuguesa. Falou-se n’ O Rei das Berlengas, mas creio que só relembro o nome porque sempre queria visitar as ilhas, mais ou menos perto de casa (as distâncias eram relativas mas falarei sobre isso noutra altura), o conceito de uma ilha fascinava-me e o nome ficava-me então na memória. Creio que só vi o meu primeiro filme português a sério já na universidade, provavelmente um Manoel d’Oliveira que era o único autor conhecido nesses tempos (fora o Artur Semedo que era do Benfica – e como tal aprovado lá em casa – e tinha uma mão permanentemente envolta numa luva preta e era portanto repelente e irresistível na mesma medida).

 

Um dos momentos mais interessantes foi quando o cineteatro instalou Dolby Surround e a cidade ganhou imediatamente o selo de modernidade. Foi quase como quando surgiram os primeiros semáforos. A cidade estava a caminho do futurismo e não faltava quem adivinhasse um futuro com cadeiras que vibrariam, ecrãs a toda a volta (hoje seríamos científicos e diríamos a 180º) e com capacidade de cheirar o momento. Naqueles dias não faltava quem jurasse que se não existisse barulho na sala seria possível ouvir os sussurros do filme no nosso ouvido. Claro que era impossível confirmar porque havia sempre quem estivesse a comentar ao parceiro do lado que conseguiriam ouvir os sussurros do filme se não existisse barulho, o que automaticamente inviabilizaria o exercício. O episódio de Dolby Surround que relembro melhor terá no entanto sido ao ver A Casa da Rússia no momento em que alguém deixa cair umas pedras de gelo num copo colocado ao lado dos microfones usados para espiar a conversa e o barulho era tal que o espião a ouvir saltava assustado e, com eles, os espectadores.

 

Foram muitas as horas que passei naquelas salas escuras num saudável refúgio do sol a que a minha família incompreensivelmente me queria expor. Foram também muitas as vezes em que tentava reproduzir as condições cinematográficas em casa enquanto via os meus filmes preferidos ou, após a aquisição de um vídeo, tentava ver à socapa o filme da noite anterior e que eu tinha gravado usando a função de programação que mais ninguém em casa sabia como activar e me permitia então ver os filmes franceses onde havia sempre alguma actriz a não fugir da câmara enquanto mudava de roupa. Suponho que terei visto obras primas que nunca reconhecerei, provavelmente Truffaut, Godard, Chabrol, Téchiné ou outros, só porque procurava por aqueles 10 segundos de exposição não escondida de um seio feminino.

 

Hoje, ao regressar, vejo que o Teatro José Lúcio da Silva, onde tanta formação cinematográfica não ofuscada por formalismos ou críticas teve lugar, raramente (se de todo) passa filmes. Dedica-se antes a essa função edificante de mostrar peças, concertos, exposições. Já não terá aquela massa de crianças junto ao balcão do café do primeiro andar (“1º Balcãoª ou “Tribuna”) nem do da cave, ao lado dos cartazes dos filmes a estrear nem dos filmes já estreados por volta de 1913 ainda com o papelinho “Em Breve”, já amarelado, a adorná-los. Será um espaço mais calmo, mais educativo e, ousarei escrevê-lo, mais cosmopolita. Mas não é o da minha infância e juventude.

 

0 comentários em “Memórias subjectivas (2)”

    1. Obrigado Pedro, mas tinhas mesmo que referir o Cinema Paraíso? Quanto mais o vejo (hoje em dia pouco) menos gosto dele. E o Tornatore dá-me desarranjos intestinais

      1. Eu gosto do ‘Cinema Paraíso’. Tornou-se uma peça iconográfica sobre o culto do cinema. Algo na linha da ‘Última Sessão’, do Bogdanovich – o filme que reintroduziu o classicismo no cinema americano, reiventando-o a pretexto da memória nostálgica.
        Gosto particularmente desse subgénero que são os filmes sobre o cinema – ou filmes dentro de filmes, como ‘A Noite Americana’, do Truffaut. Mas vou parar aqui antes que comece já aqui a escrever um longo ‘post’ para a série ‘Os filmes da minha vida’ que um dia destes retomarei.

        1. Ah, A Última Sessão… Já começamos a entender-nos :).

          Não gosto do Cinema Paraíso porque o acho manipulador e cada vez que o revi me pareceu ser um balão bonito mas cheio de ar. E é o menos mau do Tornatore. Mas OK, isso é só a minha opinião.

          Retoma a série, bem gostaria de a ler 🙂

  1. Memórias deliciosas, João André. Foi mesmo um prazer estar a ler este post.
    Quando comecei a ler ‘filmes passados na Índia e falados em alemão’ pensei logo nesses dois filmes fantásticos, que eu também vi inúmeras vezes, pois tinha-os gravado em VHS. Naquela altura a rtp-2 era a minha escola de cinema e eu gravava tudo e mais alguma coisa – tenho imensas saudades desses tempos.
    Mas não me vou alongar, só lhe vou pedir que continue a escrever aqui.
    🙂 Antonieta

    1. Ainda bem que gosta Antonieta, também tenho tido prazer em os escrever (o próximo já está perto de terminado). Não se preocupe que ainda há muitas coisas mais que podem ser escritas. Só tenho de ter tempo.

      Actualmente tenho esses dois filmes em DVD. Dei com eles uma vez numa edição especial na Fnac, com versão alemã e legendas inglesas e em versão exclusivamente inglesa. Ainda só os revi uma vez. Não são excepcionais (Lang teve muito, mas muito melhor) mas senti que estava a rever um amigo quando os vi 🙂

  2. Nado em mil nove sessenta, filho único de “bem remediados”, experiência é similar. Também na leitura e cinema rtp.
    Antes e depois de 25 do A.

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