Acreditem


jmmcc,

Para aqueles que ainda não acreditam que é com trabalho que isto lá vai, o recente período de cinco feriados permitiu comprová-lo amplamente. Vejam só. Enquanto a maioria dos portugueses folgou dias a fio como a cigarra, um pequeno grupo de estrangeiros do FMI ocupou o Ministério das Finanças a trabalhar como a formiga e, num abrir-e-fechar-de-olhos, aumentou rapidamente o nosso défice. Acreditam agora?

O segundo partido comunista


Pedro Correia,

 

PCP e Bloco de Esquerda recusaram qualquer encontro com a delegação europeia composta por membros do Fundo Monetário Internacional, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu que se encontra em Lisboa a avaliar as condições do resgate financeiro a Portugal. Ao contrário do que fizeram os restantes partidos parlamentares, as associações patronais, as confederações sindicais (incluindo a CGTP-Intersindical) e diversas personalidades, como Boaventura Sousa Santos, coordenador do Observatório da Justiça. Os dois partidos da esquerda radical portuguesa perderam uma oportunidade irrepetível de dizer olhos nos olhos, cara a cara, tudo quanto pensam destes técnicos financeiros e quais as soluções que preconizam para retirar Portugal da situação de quase bancarrota em que vivemos, com o colapso iminente das finanças públicas. Agiram ambos sem qualquer sentido de responsabilidade, preocupados apenas em garantir a habitual vozearia de rua e de telejornal.

Que o PCP assim proceda, é normal. Os comunistas portugueses sempre foram profundamente eurocépticos, combateram desde o início a integração de Portugal na CEE, contestaram Maastricht, a diluição das fronteiras, a transferência de competências para a Comissão Europeia e a adopção da moeda única. São internacionalistas de cartilha mas profundamente nacionalistas na prática, utilizando uma retórica semelhante à dos partidos da direita populista e xenófoba que também não quer “os estrangeiros” a perturbar a sacrossanta “soberania nacional”: ainda há dias um dirigente comunista comparava, no Avante!, qualquer político português que dialogue com o FMI a uma “espécie de Miguel de Vasconcelos dos dias de hoje”.

Quando o BE procede exactamente como o PCP, pelo contrário, está a trair o espírito de cidadania europeia que parecia animá-lo desde a fundação, no final da década de 90: uma das principais diferenças programáticas entre comunistas e bloquistas residia na relação com a Europa. Mas também aqui o Bloco tem vindo a tropeçar no próprio pé – na sequência da fracassada tentativa de apropriação da candidatura presidencial de Manuel Alegre e do monumental tiro de pólvora seca que foi a moção de censura apresentada em Fevereiro contra o Governo socialista. O Bloco, que devia assumir-se como o parceiro de coligação natural com o PS para possibilitar maiorias parlamentares de esquerda, segue afinal uma estratégia de bunker, decalcada do PCP, que se esgota na gritaria contra todos os governos sem ter jamais a pretensão de influenciar qualquer solução governativa: ser um partido de protesto é quanto lhe basta.

A última coisa de que o sistema português precisa é de um segundo partido comunista, apenas um pouco mais citadino e com vestuário de marca. Se for por essa via, o Bloco torna-se um partido inútil – e não admira que as sondagens estejam a castigá-lo. Convém recordar que o PCP já tem um apêndice – o dito partido Os Verdes, que merece figurar no Guinness Book por existir há quase 30 anos sem nunca ter concorrido isoladamente a uma eleição. Por mim, confesso, custar-me-ia ver um dia Francisco Louçã e Luís Fazenda no lugar de Heloísa Apolónia a trautear o hino da CDU.

De tanga e de papo para o ar


Pedro Correia,

A pretexto da Páscoa, o Governo laico e socialista deu tolerância de ponto aos funcionários públicos esta quinta-feira, véspera de feriado e a quatro dias de outro feriado. O mesmo Governo que institui o regime de salários em atraso ao Exército e que procura anular o défice adiando pagamentos, o que deixa os serviços em ruptura.

Conclusão: durante cinco dias, o vasto País estatal vai manter-se paralisado. Entretanto, os funcionários da CP – empresa pública à beira do colapso financeiro – anunciaram já que estarão em greve  na Sexta-Feira Santa, no domingo de Páscoa e na segunda-feira, 25 de Abril.

Não há concidências: nem com o FMI à perna o terceiro país com produtividade mais baixa da OCDE e que lidera a percentagem de abandono escolar precoce na União Europeia ganha juízo. E ainda há quem procure convencer-nos que a culpa de Portugal estar de tanga, à mercê da caridade alheia, é dos deputados finlandeses e dos contribuintes alemães…

Muito mal já está feito


Rui Rocha,

José Sócrates confidenciou ao DN, em entrevista hoje publicada, a sua convicção de que os mercados retomarão gradualmente a confiança em Portugal. E disse ainda que “o nosso problema é apenas um problema orçamental que temos de corrigir, tal como outros países têm”. O Primeiro-Ministro revela que não percebe nada do que se está a passar. Ou, pior do que isso, está mais uma vez a demitir-se da sua responsabilidade directa no empobrecimento do país. Sem entrar no debate sobre a necessidade de intervenção do FMI em Portugal, situação que Sócrates mais uma vez negou na entrevista, o certo é que as taxas de juro que o Estado português está a pagar para se financiar nos mercados têm consequências imediatas sobre o crescimento económico do país. E, com isso, como é evidente, entre outras consequências, com a capacidade de se gerar emprego. Estamos perante um círculo vicioso em que o risco soberano condiciona o crescimento e o crescimento impacta no risco soberano. Independentemente da confirmação de cenários mais negros, o que nos espera são anos de crescimento anémico (ou pior do que isso) e insuficiente para fazer face aos compromissos da dívida e de estabilização da taxa de desemprego (ou pior do que isso). Está é a verdade que devia ser transmitida aos portugueses: a correr bem, nos próximos anos estaremos a cada passo um pouco mais pobres e teremos a situação social um pouco mais degradada. Muito mal já está feito, embora Sócrates consiga fazer ainda pior. E, se a incompetência é criticável, o facto de Sócrates continuar a branquear a realidade é bem pior. O país precisa de dirigentes credíveis e dispensa detergentes políticos.