O regime continuará em câmara ardente.
Depois de fechadas as urnas
Rui Rocha,
O regime continuará em câmara ardente.
Reflexões europeístas revisitadas:
3. Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis.
4. Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora.
5. O espaço europeu é inseparável da democracia política.
6. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?
7. A União Europeia pode ser construída sem europeus?
8. Ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.
11. É com a Europa que sairemos da crise – jamais contra a Europa.
12. A Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.
Sem líderes à altura dos reptos dos nossos dias, com uma opinião pública egoísta colocada perante desafios quase intransponíveis, à mercê de diversos demagogos que inflamam as mentes com o veneno neonacionalista (que tem vários seguidores, à direita e à esquerda), a Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.
De baixo para cima, não de cima para baixo.
Há um erro recorrente que deve ser evitado a todo custo: a crescente cedência da soberania popular e democrática a um poder tecnocrático não sujeito ao escrutínio público. O caminho tem de ser o inverso: em vez de tornar ainda mais volumosas as estruturas burocráticas de Bruxelas, o processo de decisão deve ser devolvido aos políticos, respaldados no voto popular.
Parafraseando a célebre frase de Malraux sobre a religião no século XXI, a integração europeia ou caberá aos cidadãos europeus — ou não será nada.
Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado?
Faltam-nos estadistas equiparados aos “pais fundadores”. Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos — não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.
A Europa que esses pioneiros construíram deu certo, ao contrário desta. Porque o passo nunca foi então maior que a perna. Lamentavelmente, nenhum deles deixou verdadeiros discípulos entre os políticos actuais.
A melhor Europa é uma Europa mais integrada, sem qualquer abismo entre a vontade dos decisores políticos e a vontade dos povos.
Uma Europa que seja construída a partir de pequenas mas sólidas etapas e não em passadas largas, de “vanguardas” iluminadas que conduzem a inevitáveis recuos.
Uma Europa orgulhosa dos seus valores e do exemplar património imaterial edificado nas últimas seis décadas.
E também uma Europa muito consciente dos erros históricos cometidos. Para que não voltem a repetir-se com o seu cortejo de atrocidades.
Este título é tão bom que servia para um livro, uma canção ou um filme. Mas, suprema satisfação, ele representa a realidade. Hoje, à meia noite, o nosso descanso começará. O futebol ainda não estará decidido, mas os nossos vendedores de promessas já terão entregue a alma ao diabo por mais um votozinho, por mais miserável que ele possa ser. Se o tempo estiver de sol as praias vão ficar cheias de corpos cansados desta maratona. E se o frio continuar a ameaçar, as “séries” televisivas serão a desculpa encontrada para a fuga que vai assolar as nossas urnas. De voto, claro.
Porque depois de uma das piores campanhas a que assisti, temo bem que só se dignem votar os verdadeiros militantes ou os boys e girls aos quais as benesses partidárias garantem o presente e o eventual futuro. É a vida, como diria um empenhado socialista que muito admiro!
«Não estou nada obcecado com o PS.»
Paulo Rangel, Aliança Portugal
«Eu estou obcecado com o PS.»
Nuno Melo, Aliança Portugal
«Ouvi com uma voz esganiçada Paulo Rangel, que está agora muito magro – mas quanto mais magro mais agressivo.»
Manuel Alegre, Partido Socialista
«Cada voto na Aliança Portugal [coligação PSD/CDS-PP] é uma vacina contra o despesismo, contra a irresponsabilidade financeira, contra o vírus socialista.»
Paulo Rangel
«Há umas dezenas de anos, na Europa, houve um partido [Nacional Socialista] que disse que os judeus eram um vírus que era preciso exterminar. O PS não é um vírus mas um grande partido da democracia e da tolerância.»
Manuel Alegre
«Vou esperar ao longo deste dia uma retractação por parte de Seguro e Assis porque quero saber se eles subscrevem a ideia de que eu tenho alguma associação ao partido nazi ou prática do regime nazi.»
Paulo Rangel
«A direita é o vírus do despesismo e do empobrecimento.»
Marisa Matias, Bloco de Esquerda
«Não vamos transformar isto numa discussão entre vírus e bactérias.»
Francisco Assis, Partido Socialista
«É tempo de sair da NATO, é tempo de criar uma aliança militar de pátrias soberanas e livres europeias.»
Humberto Nuno de Oliveira, Partido Nacional Renovador
«Demos novos mundos ao mundo e agora queremos dar uma nova política à Europa.»
Gonçalo Câmara Pereira, Partido Popular Monárquico
«Nós temos um programa com 67 medidas para mudar a UE. Somos provavelmente o unico partido que tem um programa para estas eleições.»
Rui Tavares, Livre
«O País deve preparar-se para a saída do euro.»
João Ferreira, Coligação Democrática Unitária
«Eu vou ser o Mestre de Aviz na União Europeia.»
José Manuel Coelho, Partido Trabalhista Português
«Vamos derrubar o Governo dos Miguéis de Vasconcelos do PSD e do CDS.»
Garcia Pereira, Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses
«Não é apenas a foice e o martelo… E digo isto porque há aí uns símbolos a meio do boletim de voto que tentam meter a foice em seara alheia. O voto na CDU é na foice e no martelo e no girassol.»
Jerónimo de Sousa, Coligação Democrática Unitária
«É muito negativo que o BE e a CDU se tenham apresentado divididos a estas eleições porque continuam a entregar os resultados ao António José Seguro.»
Gil Garcia, Movimento Alternativa Socialista
«Em política deve-se escolher os melhores e não os mais fiéis.»
António Marinho Pinto, Partido da Terra
«O Livre tem uma lista de cidadãos, escolhida por cidadãos.»
Ricardo Araújo Pereira, Livre
«Sou independente.»
Paulo Casaca, Partido Democrático do Atlântico, ex-PS
«O surf não tem sido usado como deveria ser em favor do desenvolvimento local e até mesmo da protecção ambiental.»
Marisa Matias
«Está na hora de os animais terem uma voz que os defenda no Parlamento Europeu.»
Daniela Velho, Partido pelos Animais e pela Natureza
O direito de escolher livremente entre as alternativas políticas que se apresentam em eleições é essencial em democracia. Mas a democracia não é, não pode ser, só isto. Se fosse, terminada a eleição, os escolhidos teriam o direito de fazer o que bem entendessem com o nosso voto, tomando inclusivamente decisões radicalmente contrárias ao sentido que lhes pretendemos dar. E é bom que fique claro que, se o fazem, e é certo que fazem, não é por direito mas por abusadora quebra de compromisso e generalizada falta de vergonha. Entretanto, os últimos anos são o exemplo de que a nossa democracia está tomada pela mediocridade da classe política que nos representa. Entalados entre um sistema de dois partidos únicos no arco da governação que se sucedem sem que representem uma real alternativa e uma alternativa real representada por partidos do arco da velha, os eleitores contemplam embasbacados um panorama desolador. Entretanto, a casta política instalada faz a pedagogia da importância do voto com a estridência de quem sabe que este, qualquer que seja o seu sentido, acaba sempre por legitimar a situação e por criar a percepção de que o sistema, apesar de tudo, ainda funciona de forma aceitável. Pois bem. Creio que chegou a hora de dizer basta. Um cidadão responsável não pode fechar os olhos a um sistema que vive e promove um certo tipo de instalados, que admite a utilização dos recursos comuns por uma casta de clientelas, que adia sucessivamente reformas do status quo político e da organização do território, que descura a urgente transparência do financiamento dos partidos e das condições remuneratórias dos eleitos e que permite e dinamiza a proliferação de rendas e interesses que abundam na cupidez de empresários de corredor e alcatifa e nos negócios de pouco escrúpulo. A um democrata nada custa mais do que prescindir do direito de votar. Pela minha parte, desta vez, ofereço-me ao sacrifício. Pela primeira vez, rasgarei as minhas convicções de cidadão comprometido com a sociedade em que vivo no espinho doloroso da abstenção. Faço-o porque tem de ser. Porque calar o voto é, por uma vez, a forma mais eficiente de dizer não. Perante a pompa e circunstância dos discursos vazios e das acções cativas é preciso fazê-los perceber do ridículo que é falarem e fazerem sozinhos. Disse.
Ulisses Cegando Polifemo, de William Turner (1829)
Em Portugal, indiferentes à realidade circundante, os mais diversos protagonistas ocupam a todo o momento os púlpitos mediáticos em pose e tom de salvadores da pátria: propõem medidas populistas destinadas por um lado a colher aplausos fáceis enquanto por outro agravam os riscos da execução orçamental e condicionam as nossas precárias finanças públicas prometendo cortar receitas e aumentar despesas. Exactamente ao contrário do que recomendaria a mais elementar prudência num país que foi sujeito a três intervenções externas de emergência em 38 anos de democracia constitucional.
Como se permanecêssemos mergulhados nos anos de ilusória prosperidade que conduziram à situação actual e a Europa, enquanto projecto de unidade económica e política, não estivesse hoje sob premente ameaça.
Não é preciso sequer ser um espectador diário de telejornais para se divisarem as nuvens negras a crescer no horizonte: antevê-se a prazo uma explosão de nacionalismos exacerbados, violência extremista, tensões xenófobas, pulsões autoritárias. Alguns indícios dessa tendência podem resultar já do escrutínio do próximo domingo.
Numa campanha onde ninguém discute a Europa — quando há um ano não havia ninguém que não antevisse o “fim do euro” ou clamasse palavras de alerta sobre o “fim” da própria Europa — apetece-me remar contra a corrente. Em defesa desta Europa — mesmo descaracterizada, mesmo intranquila, mesmo vacilante. Porque a Europa, queiramos ou não, é cada vez mais importante nas vidas de todos nós.
É para a Europa que emigram muitos jovens portugueses.
É da Europa que chega a maior parte do investimento que nos é tão indispensável.
É com a Europa que asseguramos a esmagadora maioria das nossas trocas comerciais.
E é com a Europa que sairemos da crise – jamais contra a Europa.
As fronteiras europeias foram durante séculos as mais perigosas do globo. Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide di Gasperi, Winston Churchill, Ernest Bevin, Paul-Henri Spaak e Konrad Adenauer — além do presidente norte-americano Harry Truman, através do Plano Marshall — contribuíram para diluir conflitos e limar arestas que pareciam insuperáveis, reiventando a Europa que emergiu das cinzas da guerra como um baluarte de cidadania, concórdia, progresso e esperança.
Vivemos numa expectativa tensa, num fugaz tempo de interlúdio. Um tempo em que os deuses morreram e Cristo ainda está por nascer, para usar uma magnífica metáfora de Marguerite Yourcenar — património franco-belga, património da Europa, património do mundo sem fronteiras.
Contra o que apregoam os profetas da desgraça, que tentam dividir para reinar, tenhamos noção daquilo que nos une. A filosofia grega é património comum de cada europeu. Como o direito romano. E a Odisseia, de Homero, que inaugura a história da literatura. Da Vinci é património europeu. Como Mozart.
Não há rasto nem memória de tão rico e diverso património cultural em qualquer outro continente. É algo que nos honra. E deve suscitar-nos orgulho — de Gdansk a Trieste, de Helsínquia a Lisboa.
Marcelo Rebelo de Sousa é uma personalidade sem paralelo na política portuguesa. A única neste momento capaz de alargar as margens do centro-direita, dispensando intermediários para comunicar com outras áreas políticas sem nunca perder de vista o ponto de partida.
Os teóricos da actual maioria que sonham com Durão Barroso, Rui Rio e até Assunção Esteves (pasme-se!) como possíveis candidatos presidenciais em 2016 por recearem o carácter sempre imprevisível e irreverente do mais conhecido professor de Direito do País estão a ver o filme todo ao contrário.
Qualquer projecto presidencial que exclua Marcelo é um troféu antecipado de vitória para a esquerda na próxima corrida a Belém.
Pode Paulo Rangel ter ficado de “sorriso amarelo” ao ouvir Marcelo dizer num jantar de apoio à Aliança Popular que “tenciona” (atenção ao verbo) votar nesta coligação pela consideração que lhe merece Jean-Claude Juncker, candidato do Partido Popular Europeu à presidência da Comissão Europeia, omitindo os nomes dos portugueses.
Pode Nuno Melo ter ficado “branco e inerte” ao tê-lo ouvido elogiar Freitas do Amaral, como relata a Ana Catarina Santos neste saborosíssimo texto publicado no seu blogue.
Podem as sumidades dos aparelhos inventar as alternativas que quiserem na desesperada recusa de enxergarem o óbvio. É inútil: PSD e CDS estão reféns de Marcelo.
E quem não perceber isto não percebe nada.
Na campanha em curso para a eleição de domingo, várias forças políticas defendem a saída, unilateral ou negociada, de Portugal do euro. Há mesmo um partido que apela ao regresso imediato ao escudo. As consequências? Depois logo se vê, confessa o cabeça-de-lista sem pruridos nem temores. Chegou a esta indigência o debate político entre nós.
E no entanto devo reconhecer a alguns economistas — com destaque para João Ferreira do Amaral — o mérito da coerência, do desassombro e da persistência ao pronunciarem-se contra a permanência portuguesa no euro.
É útil que este debate seja travado. Em todas as etapas da construção europeia, nas últimas três décadas, os decisores políticos colocaram sempre os portugueses perante factos consumados. Refiro-me, em especial, a Mário Soares, Cavaco Silva e António Guterres: nenhum pensou seriamente convocar um referendo sobre esta matéria, todos fizeram questão de colocar o País nos sucessivos “pelotões da frente”. Ao contrário, por exemplo, do que fizeram os britânicos, que recusaram dissolver a libra no sistema monetário europeu e obedecer aos ditames do Banco Central Europeu.
Dito isto, e reiterando o mérito da discussão, considero absurda a tese que nos pretende reconduzir ao vetusto recanto “orgulhosamente só”. Como se Portugal fosse a aldeia do Astérix. Mas sem a poção mágica.
Sem o euro, o impacto da crise dos últimos cinco anos tinha sido ainda mais duro – um facto que não é ignorado nas capitais do Velho Continente. O poder de atracção da UE ficou aliás bem patente no Verão passado: enquanto alguns profetizavam o pior para o destino europeu, a Croácia tornava-se o 28º estado membro da união, com adesão ao euro já prevista para 2017.
Vale a pena parar para pensar: quanto teríamos de pagar em escudos pelas dívidas que contraímos em euros?
Um hipotético regresso ao escudo, com a consequente desvalorização da moeda nacional, conduziria a falências em cadeia, à descapitalização das empresas, à fuga de capitais, ao aumento drástico da dívida pública, a uma inflação galopante, à quebra da coesão social, à radicalização abrupta da nossa vida política e a um empobrecimento dos portugueses em larga escala.
Não admira que o tal nostálgico do escudo tenha respondido com um “logo se vê” ao ser questionado sobre as consequências daquilo que defende…
Por mim, não tenho dúvidas: devemos continuar no euro – tal como farão os espanhóis, nossos principais parceiros comerciais. Mas de olhos bem abertos para este fenómeno imparável que é a globalização. Um fenómeno que nos forçará a reformar o Estado e a repensar as suas funções – não à escala nacional mas à escala continental.
A economia mundial, o livre comércio e a desregulamentação de muitas actividades outrora blindadas à luz dos parâmetros dos “estados nacionais”, fazendo da Europa uma fortaleza inexpugnável, colocam-nos problemas novos todos os dias. Não adianta bradar contra eles: seria tão inútil como bradarmos contra a internet e a revolução operada no domínio das telecomunicações.
Além disso devemos pensar que a globalização tem sido uma onda libertadora para quatro quintos da Humanidade.
É a velha Europa que tem de adaptar-se. Não será o resto do mundo a adaptar-se à velha Europa.
Aliança Portugal (AP)
Bloco de Esquerda (BE)
Coligação Democrática Unitária (CDU)
Livre (L)
«Pela liberdade, pela esquerda, pela Europa e pela ecologia»
Movimento Alternativa Socialista (MAS)
Nova Democracia (PND)
«Nestas eleições não vote nos mesmos»
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP-MRPP)
Partido da Terra (MPT)
Partido Democrático do Atlântico (PDA)
Partido Nacional Renovador (PNR)
Partido Operário de Unidade Socialista (POUS)
«Sem explorados nem exploradores»
Partido Pelos Animais e Pela Natureza (PAN)
Partido Popular Monárquico (PPM)
Partido Pró Vida (PPV)
Partido Socialista (PS)
Partido Trabalhista Português (PTP)
«É preciso votar no José Manuel Coelho»
ADENDA: alterei os slogans do MPT e do PDA. Com o meu agradecimento ao leitor daMaia.
Selfies (ainda por cima falsas, num cartaz que apela a uma “nova confiança”). Os outros que são um vírus. Outros ainda que são nazis. Sócrates, três, quatro, cinco vezes. Os temas que deviam ser europeus e por isso fala-se das pensões e do Governo. E eu que vou acabar com a pobreza. E nós que salvámos o país do apocalipse. E o outro que nunca mais sobe impostos, nem que a vaca tussa. E o surf no Secundário. E umas arruadas sem gente. E umas piadas sem graça. E uns que são muito democráticos e patrióticos, e os outros que são ainda mais democráticos e ainda mais patrióticos. E as sementes, nos tempos de antena, ao lado do tribunal europeu dos direitos dos animais, uma urgência planetária. E uns figurões que dantes eram do Partido X e agora apoiam o Partido Z, e que no futuro serão independentes, ou dependentes, desde que a coisa dê tacho. E uns relógios em contagem decrescente. E o escudo que salvava a malta num ápice. E o protectorado que agora é soberano outra vez (numa campanha para a União Europeia!).
Já sabemos que as campanhas eleitorais são poços sem fundo de demagogia e fait-divers. Mas desta vez estão a abusar. Na noite de 25 de Maio, os agentes políticos irão manifestar o seu “enorme pesar pela elevada abstenção”. Pena que não estejam a fazer nada para a evitar.
«Apoio a candidatura do Partido Socialista. Faço-o como social-democrata, em coerência.»
António Capucho, hoje, no tempo de antena do PS
Algumas forças políticas, em alegada defesa do estado social, consideram que o problema é a Europa. Como se a solução estivesse fora da Europa. Mas não está. Porque a verdade é esta: ou haverá estado social dentro da Europa ou não haverá estado social de todo.
Convém não abusarmos da falta de memória: o estado social português só se generalizou e consolidou após a nossa adesão à Comunidade Económica Europeia. O modelo social europeu é, de resto, uma das grandes conquistas da segunda metade do século XX — prenunciada na legislação sobre benefícios sociais decretada pelo chanceler alemão Otto von Bismarck ainda no século XIX, e na legislação do Governo da Frente Popular (1936-37) liderado por Léon Blum em França, que concedeu pela primeira vez subsídio de férias aos trabalhadores e reduziu a semana laboral para 40 horas.
Muitos dos que hoje falam desdenhosamente na Europa “dos mercados” esquecem o contributo desta mesma Europa para as conquistas civilizacionais no domínio social. Também neste domínio — como no da liberdade política, da fruição cultural e na defesa das liberdades essenciais — a Europa serve de exemplo ao mundo.
Portugal só tem hoje estado social porque abandonou as ilusões terceiromundistas do período revolucionário e tomou como referência a Europa. O nosso estado social beneficiou do financiamento europeu, por muito que os vendedores de ilusões pretendam agora convencer-nos do contrário.
De resto, quando hoje alguns se indignam contra os “recuos” sociais em curso, prestam uma homenagem involuntária à década e meia de apogeu do estado social português, que não por acaso coincidiu com o período de maior prosperidade de que guardamos memória – um período que correspondeu aos mandatos dos primeiros-ministros Cavaco Silva e António Guterres, entre 1986 e 2001.
O problema é que o estado social não existe no vácuo. Se alguma lição a crise que conduziu à intervenção financeira externa em Portugal entre 2011 e 2014 nos ensinou foi esta: o ajustamento orçamental é condição indispensável para um Estado assumir livremente opções de carácter político. Há que manter uma relação equilibrada entre as receitas que somos capazes de gerar e o nosso montante de despesa pública.
Desde logo perante esta realidade inelutável: os pensionistas do sistema geral e da Caixa Geral de Aposentações representam 40% da nossa população e Portugal gasta 26,4% da riqueza que produz em despesas sociais (acima de países como a Alemanha, a Holanda, o Reino Unido, a Hungria, a Polónia, a Grécia, a Noruega e o Luxemburgo, em termos percentuais).
Num país ainda marcado por graves assimetrias sociais, como o nosso, as desigualdades agravam-se num cenário de colapso das contas públicas — que fatalmente lesam mais os pobres do que os ricos. É inútil, portanto, separar a economia das finanças. A economia só adquire real autonomia num quadro de finanças sustentáveis, com um sistema bancário capitalizado. Não há “escolhas políticas” num país falido.
O que, podendo ser dramático, tem pelo menos o mérito de clarificar o rumo a seguir.
“Nós, europeus” – expressão que leio num dos principais cartazes de propaganda eleitoral na pré-campanha já em curso – significa exactamente o quê?
Que a condição europeia é uma espécie de estádio superior de cidadania? Ou que, pelo contrário, somos um sujeito sem predicado? Somos uma realidade geográfica, confinada às fronteiras históricas do Velho Continente? Nesta hipótese, significa isso que excluimos a Turquia – país maioritariamente asiático – do espaço europeu?
“Nós, europeus” significa que somos europeus antes de ser portugueses? Isso exclui-me a mim, que me sinto português antes de ser europeu? Excluimos os africanos, asiáticos e americanos que vivem em Portugal e até podem já votar nas eleições autárquicas? E não há portugueses africanos? E não há portugueses asiáticos? E não há portugueses americanos? Portugal, país de emigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os portugueses que não se encaixam nesta dimensão? Portugal, país de imigrantes, pode ser considerado apenas pela sua componente europeia, excluindo os aqui radicados que não se encaixam nesta dimensão?
O facto de estas eleições se destinarem a eleger o novo elenco do Parlamento Europeu significa algo mais que isso? Que leitura política devemos fazer se a abstenção for gigantesca?
“Nós, europeus”, temos uma língua comum? “Nós, europeus”, temos um exército comum? “Nós, europeus”, temos um sistema político comum que nos torna simultaneamente concidadãos do senhor Nicolas Sarkozy, súbditos da senhora Elizabeth de Windsor e vassalos da burocracia de Bruxelas?
São “europeus” os valões que querem separar-se dos flamengos e os flamengos que querem separar-se dos valões na minúscula Bélgica?
São “europeus” os bascos nacionalistas que matam bascos que se sentem espanhóis?
Gibraltar é “europeia”? Olivença é “europeia”? As Ilhas Caimão são “Europa”? Guadalupe e Reunião são “Europa”? A Union Jack deixou de ser hasteada em Guernsey, terra do exílio de Victor Hugo, com a costa francesa ali defronte?
A União Europeia pode ser construída sem europeus?
“Nós, europeus” significa exactamente o quê?
A quantidade de perguntas que um simples cartaz pode suscitar.
Texto aqui publicado durante a campanha eleitoral de 2009 e que decidi reeditar
Ignoro se haverá algum debate entre os candidatos dos diversos partidos à eleição do próximo dia 25. Mas se houver deixo aqui dez sugestões de temas europeus que justificam discussão.
1. A Turquia deve entrar na União Europeia? Antes ou depois de solucionada a questão de Chipre? Quanto custará a adesão turca a cada contribuinte português?
2. A União Monetária deve prosseguir? E em que moldes? Os efeitos da crise foram ou não agravados pela existência da moeda única? Portugal deve abandonar a zona euro?
3. O Pacto de Estabilidade e Crescimento deve ser revogado? Este pacto potenciou os efeitos da crise nos países da União Europeia?
4. Deve ser aprovada uma nova Agenda de Lisboa, que privilegie as políticas sociais e a criação de emprego?
5. Que política de imigração deve adoptar a União Europeia? Faz sentido reequacionar os critérios que levaram à adopção do Espaço Schengen?
6. Deve ser renovada a Aliança Transatlântica, pilar das relações entre a UE e os Estados Unidos? Faz sentido acelerar a criação de um exército europeu em prejuízo da cooperação militar com Washington?
7. A UE deve continuar a reger-se pelo princípio da intergovernabilidade ou privilegiar o reforço dos poderes efectivos do Parlamento Europeu?
8. Se parcelas dos actuais Estados membros declararem a independência — na sequência de um referendo, como se anuncia na Escócia, ou de modo unilateral, como pode vir a suceder na Catalunha — esses novos países receberão luz verde para se tornarem a curto prazo membros da UE? Que limites devem ser estabelecidos ao tradicional princípio da inviolabilidade das fronteiras?
9. Durão Barroso foi um bom presidente da Comissão Europeia? Em caso afirmativo, destacou-se em que domínios? Em caso negativo, qual o seu pior legado?
10. A União Europeia deve ampliar-se para lá do perímetro do continente europeu? E até onde?
Gostava de ver estes temas debatidos pelos cabeças-de-lista. Até para perceber se cada um deles tem um pensamento minimamente estruturado a propósito destas questões. Apostaria que não. Mas admito estar enganado.
Ruínas do Templo de Delfos, no Monte Parnaso (Grécia central)
A Europa, tal como foi imaginada pelos seus pais fundadores, é inseparável de um projecto de crescimento e desenvolvimento, tanto no plano económico como no plano social e cultural.
O balanço da integração europeia também deve fazer-se a este nível: que qualidade de vida têm os cidadãos da União Europeia em comparação com quem habita outros pedaços do mundo?
A resposta bem fundamentada a esta questão é demolidora para as teses eurocépticas. Porque o balanço é incomparavelmente positivo para o Velho Continente nestas quase seis décadas de integração europeia.
Desde logo porque o espaço europeu é inseparável da democracia política. Portugal, Espanha e Grécia apenas receberam luz verde para ingressar na Comunidade Económica Europeia após a queda dos respectivos regimes ditatoriais. A mesma lógica aplicou-se aos países da Europa de Leste, que só começaram a libertar-se das ditaduras comunistas a partir de 1989.
Ter a democracia como senha de identidade comum a todos os Estados-membros confere uma irrefutável autoridade moral à União Europeia. Este é um património inestimável, que não pode ser desperdiçado ao sabor de ventos conjunturais. E que deve ser continuamente valorizado, nas palavas e nos actos dos protagonistas políticos deste espaço civilizacional herdeiro da pedagogia filosófica da Grécia clássica e do primado da lei posto em prática na Roma antiga.
A democracia não se esgota no plano político: tem repercussões inevitáveis em todos os domínios da actividade humana. E também neste aspecto a Europa tem motivos de genuíno orgulho no confronto com qualquer dos restantes fragmentos do globo.
Em que outro recanto do planeta existe tanta liberdade de expressão?
Em que outro continente há tanta criatividade e fruição artística?
Em que parcela do vasto mundo habitada pela espécie humana existe tanta liberdade de imprensa e tanto pluralismo político?
Onde haverá menos desigualdade social do que na velha e tolerante Europa?
Nenhum outro continente propicia o aparecimento de tantos poetas, cientistas, pensadores, filósofos, inventores, arquitectos, engenheiros, ambientalistas, génios de todo o género, profetas de todos os matizes.
Este é um património único. Mas é também um património frágil. Compete a cada um de nós contribuir para a sua preservação, algo que não é tarefa sujeita a prazo ou calendário: é uma batalha de todos os dias.
Contra o discurso flagelatório proferido pelas sentinelas de turno das brigadas eurocépticas.
Contra os que semeiam ventos para colher tempestades.
Contra os arautos de novos paraísos, tão tentadores quanto inviáveis.
Contra os vendedores de utopias a granel, que prometem aos povos futuros patamares de sonho que redundam sempre em pesadelo.
É impossível usufruirmos do melhor de dois mundos. Não há benefícios sem sacrifícios.
Do qual estamos afinal, nós, europeus, dispostos a abdicar?
Não podemos fechar as fronteiras nem travar a torrente globalizadora. Já não vivemos no tempo dos amplos mercados coloniais, nem das matérias-primas a desaguar na Europa a baixos preços, nem da natalidade elevadíssima, nem dos níveis de crescimento económico superiores a 5% que serviram de base a três décadas de contínua prosperidade, fazendo do nosso continente o que é, no período subsequente à II Guerra Mundial, e permitiram que o Estado-providência se tornasse no que se tornou.
Temos graves problemas estruturais numa zona euro sob ameaça de estagnação económica. Entretanto, outras parte do globo crescem: enfrentamos a concorrência imparável dos mercados emergentes.
O Plano Marshall, que entre 1948 e 1952 fez desaguar no Velho Continente uma quantia equivalente a 148 mil milhões de dólares (ao câmbio actual), em assistência técnica e económica, é irrepetível. E, se o não fosse, apontaria noutras direcções, hoje muito mais carenciadas. Porque a guerra na Europa terminou há 69 anos.
Imaginar que nada disto beliscaria as políticas de redistribuição e que o estado-providência permaneceria inalterado é acreditar que existe um pote de ouro no fim de cada arco-íris.
De que parcela deste Estado-providência estamos dispostos a abdicar?
Que nível fiscal estamos dispostos a suportar?
Aceitaremos a redução das pensões de reforma para adequar os pagamentos ao nível de contribuições existente quebrando um pacto intergeracional devido às novas imposições da demografia?
Ou, em alternativa, deverão cada vez menos cidadãos suportar contribuições cada vez maiores? E estas perguntas não são retóricas. São cruciais. Iludi-las não nos conduzirá a lado nenhum. Ou antes: conduzirá ao progressivo definhamento da Europa, que vista de outras paragens se arrisca a parecer uma senhora parada no tempo, alimentando-se da difusa nostalgia de um passado que não regressa.
Uma espécie de Gloria Swanson em Sunset Boulevard.