Reflexões europeístas (3)


Pedro Correia,

 

O que vemos por essa Europa fora?

A Ucrânia ameaça fragmentar-se sob fortíssima pressão russa depois da recente humilhação sofrida na Crimeia, anexada por tropas de Moscovo à margem do direito internacional. A Escócia avança para um referendo independentista, pronta a cortar os elos políticos com Londres. Húngaros e eslovacos esgrimem tensos argumentos dos dois lados da fronteira. A minoria húngara na Roménia reclama direitos que, segundo garante, não lhe são reconhecidos. O mesmo se passa com a minoria russa na Letónia. O exército turco desfila em parada para lembrar o dia em que esmagou os invasores de Atenas, conquistando-lhes a Trácia. Chipre é uma ilha dividida há 30 anos entre gregos e turcos, armados até aos dentes. Bascos e catalães estão em pré-ruptura com Madrid. Na Finlândia e na Lituânia, as recordações dos massacres soviéticos ainda ferem muitas sensibilidades. A Bélgica ameaça implodir a todo o momento, fragmentada por conflitos étnicos e linguísticos. Na Padânia aumentam as vozes dos que defendem um movimento secessionista destinado a amputar todo o norte da Itália. A Córsega persiste na luta contra o centralismo jacobino do Estado francês. A Transnítria, em pré-ruptura com a Moldávia, pode seguir os passos da Ossétia do Sul e da Abcásia em relação à Geórgia, privilegiando os laços políticos com Moscovo. Os Balcãs são um barril de pólvora temporariamente neutralizado. Na antiga Alemanha de Leste crescem os sentimentos xenófobos: os movimentos de extrema-direita atingem já mais de 20 por cento das simpatias dos eleitores jovens em certas cidades.

 

A Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Não nos iludamos: este continente em que vivemos mantém feridas mal cicatrizadas, fronteiras mal definidas, conflitos de toda a natureza que poderão reavivar-se a qualquer pretexto.

Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis. Que pode desde logo virar-se contra os seus autores, materiais ou espirituais. É esse, aliás, o destino de todos os aprendizes de feiticeiro.

Reflexões europeístas (2)


Pedro Correia,

Dresden em ruínas (1945)

 

Se o euro sucumbisse, a Europa voltaria a mergulhar na guerra no prazo máximo de uma década.

É uma profecia arrepiante. Mas nem por isso deixou de ser escutada com máxima atenção pelos dirigentes da União Europeia. Foi feita em 2011 pelo então ministro polaco das Finanças, Jacek Rostowski, um homem que experimentou na pele o drama de uma Europa dividida: nasceu no Reino Unido, quando a família ali se encontrava refugiada na sequência da agressão conjunta ao seu país cometida por nazis e comunistas. A sua biografia pessoal conferia-lhe particular autoridade moral para lançar este aviso. Não esqueçamos que as duas guerras mundiais, ocorridas no último século, começaram precisamente na Europa. Quando a primeira começou, no dia 28 de Julho de 1914, ninguém acreditava que seria para durar. No final, quatro anos mais tarde, tinha deixado um macabro cortejo: pelo menos 35 milhões de vítimas.

O hipernacionalismo foi o maior vírus que desagregou o continente nesses dias tão trágicos. E o pior é que viria a desagregá-lo novamente vinte anos mais tarde. Dir-se-ia que temos a maior dificuldade em escutar os ecos que a História nos transmite, tantas vezes com o seu inapagável cortejo de horrores.

Recomendo, a propósito, a leitura das memórias de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: aquele período surge lá exemplarmente descrito. «Foi uma vaga que se abateu com tanta violência, tão subitamente sobre a humanidade que, ao cobrir de espuma a superfície, trouxe ao de cima as tendências obscuras do inconsciente e os instintos do animal humano — aquilo a que Freud, numa visão profunda, deu o nome de “sentimento de aversão pela cultura”, a necessidade de se romper uma vez com o mundo das leis e dos parágrafos e de se dar rédea solta aos instintos sanguinários primitivos», recorda o grande escritor austríaco.

Um dos problemas da História é este mesmo: pode repetir-se a qualquer momento. Sobretudo quando as lições que nos vai deixando persistem em não ser escutadas.

Reflexões europeístas (1)


Pedro Correia,

 

Nos dias que correm, suscitam aplauso generalizado as opiniões destinadas a contestar a construção europeia. Estas opiniões convergem, à esquerda e à direita, num balanço muito negativo das décadas de edificação do desígnio traçado pelos grandes europeístas do pós-guerra: Monnet, Schuman, Churchill, Spaak, De Gasperi e Adenauer.

Em tempo de crise à escala continental, torna-se demasiado fácil apelar às emoções de quem viu traídas genuínas expectativas de enriquecimento e mobilidade social. O problema destes discursos populistas que apontam o dedo à Europa como fonte principal dos nossos problemas actuais é, desde logo, a falta de modelo alternativo: de nenhum deles resulta nada de mais consistente e promissor.

Mas a questão central, além da falta de modelo, é também a falta de memória. O discurso anti-europeísta — dominante nos media que preferem registar os ecos de quem grita mais alto do que de quem não precisa de elevar a voz para ter razão — não resiste a um teste de elementar conhecimento histórico. A construção europeia é o único projecto de raiz utópica que trouxe prosperidade aos povos que dele beneficiaram enquanto lhes ampliava em simultâneo as fronteiras da liberdade no século XX, o mais sangrento e devastador de que há registo. Escamotear este facto, mais do que comprovado, é inquinar à partida qualquer debate sério, desviando-o do imprescindível rigor factual.

Não adianta iludir a questão: devemos aos sucessivos patamares da edificação do chamado “sonho europeu” que desembocaram na actual União Europeia o mais longo período de paz e crescimento económico neste continente, transformado ao longo de seis décadas numa referência universal de progresso e civilidade. Com apenas 7% da população do globo, a Europa produz cerca de 25% da riqueza mundial e sustenta 50% das despesas de carácter social no planeta.

É inútil tornear esta evidência, por mais que isso perturbe todo o discurso anti-europeu estribado em argumentos de carácter populista hoje tão em voga, seja por respeitável convicção seja por detestável critério de mero cálculo eleitoral.

Nós por cá, todos bem!


fiodeprumo,

Quem se lembrasse, ontem, de abrir a televisão, perceberia que tinha começado qualquer coisa que entre nós se costuma apelidar de “campanha eleitoral”. Claro que ninguém perceberia que se tratava das europeias…porque de Europa ninguém falava. Embora o ciclo infernal só tivesse início legal às 00:00h, o certo é que todos os partidos já se encontravam a antecipar o trabalhinho, com os líderes a marcarem presença nas respectivas caravanas.

Assim, Passos Coelho, em Macedo de Cavaleiros, lembrava o passado para que se não perdesse a memória da origem dos nossos problemas.

Já Seguro, em Vila Real, “confundia” os apoiantes dizendo que quanto mais votos o PS tiver, maior será a derrota do governo.

Em Grândola, Jerónimo, menos afectuoso do que é costume – confesso a minha simpatia pessoal por este homem – atirava-se ao perigo de um entendimento futuro entre o PS/PSD/CDS.

Mais estival, Catarina Martins, no Funchal, afirmava que a única alternativa para o país será a reestruturação da dívida.

Programas partidários face à Europa? Nem pensar. 

O que está em causa para Portugal nestas eleições? O que é que isso interessa face a um tempo de antena, gratuito, que tem de ser partidariamente aproveitado?

Que novo ciclo se pode iniciar na Europa? Quem é que fala disso?

Aqui está a previsão do que vão ser os próximos 15 dias. Trata-se, claro, da pré campanha para as legislativas, embora não sejam essas que estão em causa.

Por sanidade mental, qualquer médico aconselhará que se desligue o aparelho de tv. Vou pensar seriamente nisso. Ou, em alternativa, ver apenas canais de cozinha, que me tiram da crise. É que só assim poderei dizer, lembrando o Fernando Lopes, “Nós por cá, todos bem”!

A petição que vai salvar os eleitores portugueses que usam bibe e calções


Rui Rocha,

Há, pelo visto, um conjunto de almas democráticas e sensíveis que vive momento de particular agitação pelo facto de, no dia em que se realizam as eleições para o Parlamento Europeu, se iniciar um fórum do Banco Central Europeu, em Lisboa, com a presença dos presidentes do FMI, BCE e Comissão Europeia – precisamente os organismos internacionais que constituem a troika. Vai daí, indignados como estão, decidiram recorrer ao agarrem-me que eu dou cabo deles dos nossos tempos, isto é, à subscrição de uma petição. O argumento fundamental que sustenta a petição, subscrita até este momento por Mário Soares, Manuel Alegre, Boaventura Sousa Santos, Carvalho da Silva e mais mil e seiscentos patriotas, é um efeito de ingerência na escolha livre e democrática dos portugueses. Confesso que não percebo. A acreditar em tudo o que tem sido dito pelos promotores, estas instituições, mancomunadas com o governo em funções, são autoras confessas, voluntárias e deliberadas de políticas de terrorismo social e económico que provocaram o sofrimento generalizado e profundo da população. Sendo assim, o evento que se inicia no dia 25, se alguma consequência eleitoral tivesse, seria sempre a de provocar um sentimento de repulsa e revolta que favoreceria as propostas políticas da oposição e, de forma genérica, as que são defendidas pelos principais subscritores da petição. Serão então os referidos democratas de tal forma guiados por princípios de civilidade e isenção que se obrigam até a recusar circunstâncias que poderiam vir em seu proveito? Pois, claro. Isso e um par de botas ortopédicas. Mas mesmo que acreditássemos na pureza das preocupações dos promotores da petição, sempre sobraria uma inquietação. Nesse caso, teríamos de concluir que os promotores e subscritores consideram que os eleitores portugueses são de tal forma pueris, volúveis e pouco informados que determinam as suas decisões de voto em função da realização de um evento com estas características. É, convenhamos, um entendimento bastante ridículo. Mais do que isso, tal visão seria portadora, portanto, de uma mal disfarçada falta de respeito pelos portugueses e de uma desconfiança de princípio sobre a sua maturidade democrática. Infelizmente, é um tique comum numa certa esquerda que cede recorrentemente à tentação de infantilizar os cidadãos para se arrogar de seguida o direito originário de moldar as suas ideias ou substituir-se ao seu pensamento.

Sentido de perspectiva.


Luís Menezes Leitão,

Neste post, José Manuel Fernandes procura demonstrar que a queda do rendimento nacional não foi afinal tão acentuada em Portugal desde que a crise começou, considerando que o problema já vem de trás, atendendo ao magro crescimento do país desde 2000. Refere que “no período que vai de 2000 a 2013 só a Itália cresceu menos do que nós. O que significa que, se calhar, os nossos problemas não derivam só, nem sobretudo, da austeridade recente. Têm raízes mais antigas“. E de facto têm. Não se pode esquecer o absurdo sistema de arrendamento, que só agora começa a ser paulatinamente resolvido, e que empurrou a dívida privada para valores estratosféricos. Mas também não se pode esquecer que nas décadas anteriores à de 2000, que não são citadas por José Manuel Fernandes, o país crescia a níveis muito razoáveis, tendo deixado apenas de o fazer precisamente a partir de 2000. Para “ver as coisas com algum sentido de perspectiva“, conforme defende o autor, é precisamente necessário perguntar o que se passou em 1999 que levou a que a partir de 2000 as taxas de crescimento passassem a ser tão anémicas. Ora, a resposta é simples: a adesão ao euro. Está demonstrado por este estudo que se Portugal não tivesse aderido ao euro teria tido taxas de crescimento muito superiores.

 

Espanta por isso que, em alturas de eleições europeias, os políticos do arco da governação não discutam a questão que verdadeiramente interessa, que é a de saber se temos ou não condições para permanecer no euro. Na verdade, parece que o colete de forças do euro se estendeu de tal forma aos políticos portugueses, que eles não conseguem discutir nada de relevante. Paulo Rangel, depois dos seus tweets a lembrar os 101 dálmatas, discute agora coisas tão importantes como a nacionalidade do próximo Presidente da Comissão. Francisco Assis propõe uma “leitura inteligente” do Tratado Orçamental que o seu partido aprovou, julgando se calhar que os outros países europeus são estúpidos e não irão exigir a aplicação do tratado até à última linha. Passos Coelho, depois de ter sido obrigado pela troika a reformular o DEO, entrou agora em estado de negação e proclama que não está a aumentar impostos, enquanto não diz ADEO definitivamente. Já António José Seguro, estimulado pelas sondagens, entrou em estado de euforia tal que já propõe constantemente que sejam os alemães a pagar a crise, deixando o seu candidato Martin Schulz sistematicamente em estado de choque. É manifesto que isto não vai acabar bem.

Um país sem soberania.


Luís Menezes Leitão,

 

Se há coisa que me revolta profundamente é o estado a que se deixou chegar a soberania nacional num país com oito séculos de história. No dia em que na Europa se assiste à emergência de nações a reclamarem a independência, como a Escócia no Reino Unido, ou a Catalunha na nossa vizinha Espanha, Portugal afunda-se completamente, não parecendo capaz de tomar qualquer decisão soberana. Basta alguém sequer aventar essa hipótese, como sucedeu com o manifesto dos 74, hoje cada vez com mais apoios, para ser imediatamente acusado de crime de lesa-majestade, por indispor os verdadeiros soberanos, neste caso os credores. Como já aqui escrevi, esta situação começa a parecer-se com o fim do Estado Novo.

 

Os nossos governantes passaram a dedicar-se exclusivamente à encenação. O actual Primeiro-Ministro, numa prática inaugurada pelo seu antecessor, passou a ir a despacho a Berlim, o que considera um acto de grande soberania. De lá, ao lado da verdadeira soberana, pretende convencer-nos que a Alemanha aguarda com expectativa a decisão do Governo Português, e que a apoiará qualquer que ela seja. Como se nós não tivéssemos percebido que a decisão já foi tomada pela chancelerina alemã, e que o Governo se limitará a executá-la. Porque se não o fizesse, nas imortais palavras do outro, estaria o caldo entornado. Vai estar de qualquer maneira, mas para quem conta isso pouco importa.

 

Mas a encenação mais grave foi a do Presidente na sua comunicação de ontem. Pretendeu, em primeiro lugar, convencer-nos que, depois de uma audição aos partidos políticos, tinha decidido marcar a data das eleições europeias para 25 de Maio. Como se nós não soubéssemos que essas eleições estão marcadas pelo Conselho Europeu desde 14 de Junho passado, só podendo os Estados-Membros decidir sobre se se realizam entre a quinta-feira e o domingo, sendo que o Reino Unido opta habitualmente pelo primeiro dia e os restantes Estados-Membros pelo último. Em segundo lugar o Presidente, numa nova versão de que a pátria não se discute, pede aos partidos políticos que apenas discutam os temas europeus e não os nacionais. Estou mesmo a imaginar um debate entre os portugueses sobre se o melhor presidente da Comissão será Alexis Tsipras, Martin Schulz, Guy Verhofstadt, ou Jean-Claude Juncker. Depois o Presidente pede aos portugueses que sejam bem comportados, e evitem crispações, para não prejudicar os “futuros consensos”, que naturalmente outros se encarregarão de decretar. E finalmente o Presidente termina dizendo que o futuro da Europa é o futuro de Portugal. Esta frase lapidar significa apenas que o país já não tem futuro. Como num prefácio recente o Presidente fez questão de explicar.

O candidato.


Luís Menezes Leitão,

 

Da mesma forma que sucedeu na Grécia e na Itália, a actual crise europeia é um terreno propício para a emergência eleitoral de movimentos populistas centrados em figuras mediáticas. Em Portugal isso acaba de ser ensaiado com a entrada de Marinho e Pinto na corrida para as eleições europeias na lista do MPT-Partido da Terra. Estou convencido de que Marinho e Pinto pode ter um grande resultado eleitoral. O seu discurso é altamente heterogéneo, fazendo apelo simultaneamente a valores de esquerda radical, como o combate aos privilégios, e a valores da direita mais conservadora, como no combate à adopção gay. Precisamente por esse motivo teve a inteligência de escolher para se apresentar a votos um partido considerado neutro em termos ideológicos, que apresenta como bandeiras coisas vagas como o humanismo ou a protecção da natureza, de que ninguém discordará. Por outro lado, o seu perfil de homem de convicções, que diz sempre o que pensa, fará a diferença perante candidatos políticos cata-vento habituados a tomar posições em sentido contrário ao que pensam pessoalmente, como se viu na votação recente da proposta de referendo. Se, por exemplo, o candidato do PSD for Paulo Rangel poderemos assistir a debates como este que se vê aqui. 

 

Será um erro o PSD e o CDS não perceberem os riscos que correm. O seu discurso recente tem sido o de que a crise está a ficar para trás e os sacrifícios valeram a pena. Só que quem viu este mês o seu salário ou pensão brutalmente cortados não quer saber para nada se os juros da dívida caem ou não, receando é o que lhe possa acontecer amanhã. Quanto ao PS, não foi capaz de construir nenhuma alternativa, o PCP é o que sempre foi e a esquerda radical entretém-se a multiplicar partidos e movimentos. Estamos no terreno ideal para que um candidato como Marinho e Pinto prospere. Os partidos tradicionais que se cuidem.

A nova Europa


Teresa Ribeiro,

A Europa está a tornar-se numa associação de pessoas sem espírito associativo – Nuno Artur Silva há minutos no Eixo do Mal, a propósito da eleição de vários representantes de partidos xenófobos e eurocépticos para o Parlamento Europeu.

Os eleitores no psicanalista


Teresa Ribeiro,

 

Nas vésperas das eleições que, em regra, penalizam os partidos que estão no governo, vale a pena recordar o que há poucas semanas Carlos Amaral Dias afirmou em entrevista ao Expresso acerca dos portugueses enquanto eleitores: Criámos uma descrença profunda na classe política e o que fazemos é votar por hábito e não por convicção ou espírito de mudança. Os portugueses perderam a esperança na mudança.

Demolidor? Talvez. Mas explica os resultados que apesar das "campanhas negras" o PS tem alcançado nas sondagens. Aliás, quanto à vitória de Sócrates nas próximas legislativas, o psicanalista não tem dúvidas: Vai ganhar, embora não com maioria absoluta. A maior parte dos portugueses vão passar por cima disto (caso Freeport e demais publicidade negativa). Não pelo mérito de não acreditar, mas pelo mérito depressivo de já não acreditar em nada. Que é a pior coisa que pode acontecer.

Nesta perspectiva, agora como nos próximos actos eleitorais, a vitória será, pois, da inércia. Um traço comportamental bem característico dos deprimidos. Recorde-se que os portugueses  já foram devidamente contemplados com o ilustre título de povo mais deprimido da UE…

É mesmo


jmmcc,

Lê-se aqui que o «Mestre Vital só sabe faltar». É o grande destaque na capa d’O Diabo de hoje, a que o João Severino dá relevo no seu blogue: «O cabeça de lista do PS às eleições há anos que não apresenta os sumários das lições na Faculdade de Coimbra e acumula vários cargos na privada», o que é mesmo o diabo.

Fico comovido


jmmcc,

Vou espreitando aquele programa das noites de segunda-feira na RTP-1. Ilda Figueiredo está farta de aproveitar o tempo de antena para perorar sobre «o neoliberalismo, o federalismo e o militarismo». Fico comovido. Se há quem possa denunciar todas as formas de militarismo é quem representa a velha cartilha soviética! Isto comove-me, pronto.

A má consciência do PS


jmmcc,

Estava bom de ver: com a apresentação oficial (?) de Vital Moreira para encabeçar a lista do PS às eleições europeias, José Sócrates ensaiou o primeiro apelo à importância do acto eleitoral, pelo papel relevante que deve caber à União Europeia no mundo actual. A partir de agora, vai ser um fartote de apelos, porque o "papão" da abstenção e do voto voluntariamente branco ou nulo anda a meter-lhe medo. É a má consciência de quem contribuiu para o descrédito em que caiu a nossa política.

O que Sócrates se esqueceu foi de explicar por que motivo os portugueses devem dar agora o seu aval à Europa e o negou no passado recente, quando faltou à promessa de referendar o Tratado Europeu ultimado em Lisboa.

Também Vital Moreira aproveitou a sua apresentação oficial (?) para apelar à participação nas eleições, sempre a apontar o fantasma da abstenção. Tão crítico que era sobre o que via como incoerências da política nacional, igualmente ele se fez esquecido do referendo negado. Um caso que lhe teria sido vital repor, em benefício do seu perfil "independente", ao invés de partilhar a má consciência socialista.

A petição (3)


jmmcc,

Já agora, se me dão licença, junto-me ao José Gomes André e ao Paulo Gorjão e prometo que não vou ser maçador. É só para dizer que me pus a matutar no assunto dos cabeças-de-lista do PSD às eleições europeias e, a princípio, a ideia que logo me ocorreu é que dali não vai sair uma lista: com tantas cabeças, ainda acaba por se materializar naquele terrível dragão chinês.

Contudo, também vejo no caso mandarins a mais e aquela ideia passou-me. Foi quando cheguei à conclusão de que Vasco Campilho tem razão, ainda que não explique as suas razões: «Passos Coelho tem neste momento condições para ser um candidato ganhador a qualquer eleição que se proponha vencer» — escreveu o autor da petição que corre a favor do dito. E é que tem mesmo, garanto eu já aqui.

Quanto a mim, o imbróglio do caso não é esse. Tudo o que se tem dito e escrito sobre um cabeça-de-lista do PSD ao Parlamento Europeu continua na primeira forma. Isto é: volta sempre ao início. Porquê? Porque qualquer nome do já espesso rol que tem sido lançado é sempre um candidato vencedor. Seguramente. Vou explicar-me melhor.

O PSD está com expectativas muito baixas para qualquer das eleições à vista. Sem dúvida. No entanto — que diabo! — nem tudo ao mar, nem tudo à terra: um deputado europeu o PSD consegue garantidamente eleger. O partido está na mó de baixo, mas não é preciso exagerar. Sempre há-de conseguir um. No mínimo.

Portanto, voltem lá ao princípio, porque não adianta andar a dizer que este ou aquele é que é um vencedor certo. O cabeça-de-lista, seja ele quem for, tenho cá para mim que é um vencedor certo. Animem-se.

A petição


josegomesandre,

A blogosfera anda excitadíssima por causa de uma petição para tornar Marcelo Rebelo de Sousa cabeça-de-lista às europeias. Polémica não falta, com as críticas de Pacheco Pereira à abordagem jornalística (aqui), uma resposta violenta do Francisco Almeida Leite (aqui) e do 31 da Armada (aqui), entre outros comentários variados (vejam este, do Paulo Tunhas, ou este, do nosso Pedro Correia). Quanto a mim, não tenho paciência para a mania da perseguição e os delírios conspirativos que caracterizam Pacheco Pereira por estes dias, mas o espírito de facção existente no PSD leva-me igualmente a desconfiar de manobras "desinteressadas", mesmo que Vasco "o meu país precisa de mim" Campilho proclame a sua inocência aos sete ventos.

Todavia, há nesta história um pormenor ainda pouco falado, mas muito curioso: uma breve frase que surge num dos textos escritos por Vasco Campilho (o autor da petição) a este propósito. Escreve Campilho que "Marcelo Rebelo de Sousa terá lançado o nome de Pedro Passos Coelho como possível cabeça de lista do PSD nas eleições europeias. Não me parece descabida a ideia: Passos Coelho tem neste momento condições para ser um candidato ganhador a qualquer eleição que se proponha vencer" . Isto é uma piada? Um wishful thinking? Uma análise política? – e baseada em que dados, em que tendências, em que precedentes? Definitivamente, há muita gente iludida na política portuguesa.

Vital Moreira: quatro notas


josegomesandre,

 

1. Poderá ser uma escolha controversa, mas por favor não  repitam a observação de Pedro Marques Lopes na SIC-N: “É um intelectual que não sabe falar para as pessoas normais (sic)”. Os analistas queixam-se de que os políticos portugueses são medíocres, não têm qualidades éticas nem intelectuais, e que a vida partidária está divorciada da sociedade civil. Porém, logo zombam quando surgem candidatos como Vital Moreira, com um excelente percurso académico, integridade, indiscutível conhecimento dos temas e que não só não é um militante do PS como tem de facto um percurso de vida ligado à sociedade (e não particularmente aos partidos).

 

2. Concedo que Vital Moreira é um comunicador mediano e praticamente desconhecido para o grande eleitorado. Todavia, nas eleições europeias os nomes dos candidatos são de longe o menos importante (dão-se alvíssaras a quem, sem recorrer ao Google, se recordar dos cinco cabeças-de-lista do mais recente escrutínio para o parlamento europeu). A meu ver, esses problemas na ligação ao "cidadão comum" terão pouca ou nenhuma relevância no resultado eleitoral do PS.

 

3. Contudo, enganam-se também aqueles que elogiam o aspecto estratégico da decisão de Sócrates, aplaudida pela forma como enfraquece potencialmente a oposição à esquerda. Nada mais errado. Vital Moreira é de facto um nome à Esquerda, mas de forma alguma é o conciliador que os analistas logo se apressaram a elogiar. O seu passado comunista e o modo como deixou o PCP não o vai beneficiar em nada junto do eleitorado comunista. Bem pelo contrário: prevejo que sirva de incentivo para mobilizar o PCP numa luta que muito tem de simbólico (uma espécie de oportunidade para negar o movimento reformista no interior do Partido e punir os traidores internos – causas que mexem muitíssimo com os comunistas). Por outro lado, não me parece que um Professor Universitário com alguma idade seja especialmente apelativo para o eleitorado do Bloco: os jovens não o conhecem; as massas suburbanas não o vão querer conhecer (em tempos de crise não terão paciência para ouvir falar sobre direito constitucional ou tratados internacionais).

 

4. Teremos oportunidade de avaliar a sua candidatura, mas para já começou bem. Embora num tom demasiado vaidoso para o meu gosto, apresentou ideias interessantes sobre as questões europeias (a reforma das instituições, a necessidade de uma concertação internacional para enfrentar a crise económica) e foi suficientemente sincero para admitir que poderia ter um resultado fraco (havendo nas eleições europeias o chamado “voto de protesto”). Num Congresso dominado pela arrogância e por um optimismo quase infantil, foi quase entusiasmante ouvir estas observações moderadas e realistas.