Neste post, José Manuel Fernandes procura demonstrar que a queda do rendimento nacional não foi afinal tão acentuada em Portugal desde que a crise começou, considerando que o problema já vem de trás, atendendo ao magro crescimento do país desde 2000. Refere que “no período que vai de 2000 a 2013 só a Itália cresceu menos do que nós. O que significa que, se calhar, os nossos problemas não derivam só, nem sobretudo, da austeridade recente. Têm raízes mais antigas“. E de facto têm. Não se pode esquecer o absurdo sistema de arrendamento, que só agora começa a ser paulatinamente resolvido, e que empurrou a dívida privada para valores estratosféricos. Mas também não se pode esquecer que nas décadas anteriores à de 2000, que não são citadas por José Manuel Fernandes, o país crescia a níveis muito razoáveis, tendo deixado apenas de o fazer precisamente a partir de 2000. Para “ver as coisas com algum sentido de perspectiva“, conforme defende o autor, é precisamente necessário perguntar o que se passou em 1999 que levou a que a partir de 2000 as taxas de crescimento passassem a ser tão anémicas. Ora, a resposta é simples: a adesão ao euro. Está demonstrado por este estudo que se Portugal não tivesse aderido ao euro teria tido taxas de crescimento muito superiores.
Espanta por isso que, em alturas de eleições europeias, os políticos do arco da governação não discutam a questão que verdadeiramente interessa, que é a de saber se temos ou não condições para permanecer no euro. Na verdade, parece que o colete de forças do euro se estendeu de tal forma aos políticos portugueses, que eles não conseguem discutir nada de relevante. Paulo Rangel, depois dos seus tweets a lembrar os 101 dálmatas, discute agora coisas tão importantes como a nacionalidade do próximo Presidente da Comissão. Francisco Assis propõe uma “leitura inteligente” do Tratado Orçamental que o seu partido aprovou, julgando se calhar que os outros países europeus são estúpidos e não irão exigir a aplicação do tratado até à última linha. Passos Coelho, depois de ter sido obrigado pela troika a reformular o DEO, entrou agora em estado de negação e proclama que não está a aumentar impostos, enquanto não diz ADEO definitivamente. Já António José Seguro, estimulado pelas sondagens, entrou em estado de euforia tal que já propõe constantemente que sejam os alemães a pagar a crise, deixando o seu candidato Martin Schulz sistematicamente em estado de choque. É manifesto que isto não vai acabar bem.


Pois não; isto vai acabar mal. Não sei quando, nem como, nem onde, mas…vai acabar mal.
Porém, não foi a adesão ao euro a causa da pré-insolvência, foi sim, a imoderação salarial que ocorreu a partir de 2000. Não de todos os trabalhadores, mas daqueles representados pelas corporações com poder estratégico nacional. Exatamente as mesmas que agora impedem a reforma do Estado enquanto, ao mesmo tempo, acusam o governo de a não fazer. Tribunal Constitucional incluído. As reformas são dolorosas mas têm que ser feitas. Estão a ocorrer duramente pelo setor privado, sem dó nem piedade. Sair do euro é desistir das reformas e perpetuar o empobrecimento.
Outra coisa é o projeto europeu, o qual deixou de me convencer por uma sucessão de motivos com forte pendor totalitário. Prefiro a pobreza digna que a próspera subjugação.
Não, Luís, nem a tese de José Manuel Fernandes está correcta nem a sua.
O decréscimo que se começa a registar a partir de 2000, em particular 2001, tem que ver com o arrefecimento do sector da Construcção Civil e Obras públicas em Portugal. Foi neste período que todos se começaram a dar conta que os stocks das casas fabricadas eram muito superiores às possibilidade de escoamento e que as grandes infraestruturas se completam.´
É neste período que se fecha o ciclo da especulação imobiliária e que todas as indústrrias e serviços agregados a este sector começam a entrar em derrapagem, associado ao não menos importante factor que é o do plafonamento de crédito bancário às empresas.
Se algo de importante revela esta queda é precisamente a falta de diversificação económica do tecido produtivo que nos vem lembrar que as políticas do abate ao sector produtivo começariam a partir desta altura a fazer-se notar significativamente. Assim como que a aposta no crescimento da economia só pela via do consumo e não pela via da diversificação industrial e agrícola era modelo que resultava enquanto as necessidades estruturais existem mas não mais para além destas.
É uma inexistente visão de futuro que nos conduz a este estado.
A questão do arrendamento é um fait-diver cuja legislação é produzida para inglês ver. Esta em nada contribuiu e contribuirá para uma alavancagem económica. E os preços só se mantêm aos níveis em que se mantêm pelo facto de existir retenção dos stocks habitacionais no sentido de manter preços que não condizem com a real situação do país.
Consequentemente, a nossa entrada no Euro neste aspecto, e só neste aspecto, constitui-se como barreira protectora uma vez que o ataque a ele feito ameaçando todos conduziu a que, por exemplo, a Grécia pudesse beneficiar dos perdões da dívida de que beneficiou.
Por último, a economia não são números nem pode ser vista pela leitura destes se não se aprofundar as razões que os originam. Foi este modelo de interpretação económica, através de números, que mostrou a inépcia dos que nos governaram nos últimos largos anos e que nos conduziu também à presente situação.
Gostaria ainda de acrescentar ao anteriormente exposto que no caso específico de Portugal o euro proporcionou uma significativa redução dos custos nas nossas importações de energia, o que certamente não resultaria de igual forma no caso do escudo.
Primeiro, porque nos obrigaria a constituir bastantes reservas monetárias que estariam não só sujeitas à volatilidade dos mercados cambiais assim como também Portugal não conseguiria contrariar eficazmente o ataque especulativo que ocorreu também contra nós. Segundo, a nossa forte dependência da produção externa, ainda que pudéssemos valorizar ou desvalorizar o escudo, contrairia significativamente a pouca capacidade exportadora que temos.
Em resumo, o mecanismo da mexida da moeda passaria sempre por nos tornar ainda mais dependentes das importações, pois o sector exportador não poderia competir com um escudo demasiadpo forte. A nossa dependência energética, também à altura, não recomendaria estar fora do Euro.
O problema no caso português resultou sempre de políticas económicas meramente administrativas sem nunca olhar para a plataforma real em que se movia.
Se alguém tiver elementos para contrariar esta tese, terei muito gosto em ser esclarecido.
Então o autor julga que desvalorizar é que trás o crescimento!?
O Ditadorzeco Salazar não desvalorizava e o crescimento foi bem maior.
Depois da destruição económica do 25 de Abril e do PREC – de que nenhum jornalista fala -não era difícil subir, as ajudas europeias vieram reforçar ainda mais.
Depois tivemos o Estado a chegar a todo o lado, a estruturar uma sociedade clientelar baseada no favor político.
Funcionou tal como todas as estruturas socialistas, neo fascistas quando é preciso fazer aquilo que já se sabe: estradas, electrificação, casas, pontes.
A União Soviética sabia fazer milhões de carros. Só que durante 50 anos fazia o mesmo modelo copiados dos Fiat.
A Itália Fascista sabia fazer aviões de tela e estrutura tubular ou madeira.
Saltar para os de metal já era mais difícil.
Uma sociedade condicionada politica e culturalmente é incapaz de dar o salto porque a diferença coloca em risco a estrutura de poder.
Quando Balsemão diz que não podem existir outras TV’s – apesar de centenas de canais no cabo que milhões já têm – Está aí o retrato de uma sociedade condicionada. Nunca uma sociedade que tolera que alguém diga o que Balsemão diz vai produzir uma Google, uma Apple ou outra qualquer empresa disruptiva nos sectores mais conhecidos. Mais do que uma declaração de interesse é uma declaração cultural e politica.
A evolução económica faz-se destruindo o que existe. O carro matou o cavalo, o avião matou o transporte de pessoas por navio.
Os Portugueses fizeram casas, as casas estão feitas, agora vão fazer o quê?
Não podem fazer nada porque a cultura do 25 de Abril junto com a que já existia diz que tudo tem de ficar na mesma.
Estou de acordo com os comentadores anteriores nas suas análises genéricas .
Eu já nem discuto se foi bom ou mau entrarmos para o euro como não discuto se foi bom ou mau ter achado porreiro comer aquela feijoada que me soube tão bem e que acabou a caír-me tão mal .
Mas confesso a minha perplexidade com os “ses retroactivos” e a facilidade com que pessoas inteligentes embarcam nisso .
Comparando com o futebol : se aquela bola não tivesse batido no poste e tivesse entrado tínhamos ganho o jogo .
Tínhamos ganho ou não porque o que se teria passado a seguir era outro jogo e não aquele que vimos .
Eu não vou discutir aqui se temos condições para permanecer no euro ou não , não estamos lá sózinhos e não é uma opção tão individual como saír de um filme a meio perante a indiferença geral (e mesmo assim há sempre quem se agaste).
Mas não percebo como há tantas pessoas inteligentes a quererem que este país pobre e periférico volte a uma situação que , no actual contexto europeu e ocidental , seria de “orgulhosamente só” (já sem a vertente política , claro).
Portanto lá iremos mas porventura juntos com outros do sul da Europa .
Isso sim , já vale a pena analisar .
Pois eu, Luis, considero a tua análise bastante correcta.
Então quer que o Sócrates, o Passos e o Seguro e tutti quanti tenham poder de imprimir moeda livremente.
A tragédia de eles poderem fazer dívida não lhe chegou.
Ghandi dizia que não há nenhum povo que não prefira o seu próprio mau governo ao bom governo dos outros.
🙂 É um ponto. Outro que se pode dizer é que pode ser que aprendamos alguma coisa ao andarmos sozinhos de bicicleta.
No entanto o Socialismo é a ideologia que permite cometer sempre os mesmos erros mantendo a superioridade moral…
Na Argentina já andam nisto há bem mais de 5 décadas. A desgraça pode ser permanente.
o absurdo sistema de arrendamento […] empurrou a dívida privada para valores estratosféricos
Eu concordo que o sistema de arrendamento antigo era absurdo e precisava de ser modificado, mas é totalmente falso que tenha sido ele o culpado por a dívida privada ter aumentado para valores estratosféricos. A dívida aumentou, pura e simplesmente, porque a obtenção de crédito pessoal para a compra de habitação se tornou muito mais fácil e barata, de tal forma que se tornou mais barato comprar casa a crédito do que arrendar. Múltiplos jovens casais (e outros não tão jovens) fizeram as contas e chegaram invariavelmente à mesma conclusão: é mais barato comprar casa do que arrendar. E o crédito estava disponível em qualquer banco.
Se hoje em dia as pessoas voltam a arrendar casa em vez de comprar, não é porque o sistema de arrendamento tenha sido modificado – as rendas são livres já desde 1990, salvo erro), é apenas porque hoje os bancos já não concedem crédito, ou então pedem taxas de juro muito elevadas.
Está demonstrado por este estudo que se Portugal não tivesse aderido ao euro teria tido taxas de crescimento muito superiores.
Eu gostaria que se fizesse um estudo análogo para saber como teria evoluído a economia do estado indiano de Tamil Nadu se por acaso tivesse uma moeda própria em vez de ter a mesma moeda que os restantes estados do Índia.
Ou então, como teria evoluído a economia da Sibéria Oriental se a sua moeda não fosse o rublo.
Já agora, também se poderiam fazer outros estudos, por exemplo, como teria evoluído a economia do Alentejo entre 1974 e 1994 se a moeda do Alentejo não fosse a mesma que a do resto de Portugal.
E também se poderia estudar como teria decorrido a Segunda Guerra Mundial caso a Inglaterra e a França não tivessem declarado guerra à Alemanha na sequência da invasão da Polónia.
em 2000 aconteceu…a China …e as industrias portuguesas do têxtil e do calçado rebentaram, e continuaram a rebentar com a apreciação do euro. É passear pelo norte e ver as ruínas junto às estradas nacionais. não que fosse bom um pais de operários fabris de salário mínimo, mas foi o que aconteceu.
O euro, como moeda, só começou a circular em Portugal a 1 de Janeiro de 2002, por isso há aí 2 anos por explicar.
Desde 2000 que o euro existe como moeda europeia, embora no início fosse apenas escritural, por as notas e moedas só terem surgido em 2002. Mas as anteriores moedas já eram entre 2000 e 2002 consideradas apenas sub-denominações do euro.