Nas vésperas das eleições que, em regra, penalizam os partidos que estão no governo, vale a pena recordar o que há poucas semanas Carlos Amaral Dias afirmou em entrevista ao Expresso acerca dos portugueses enquanto eleitores: Criámos uma descrença profunda na classe política e o que fazemos é votar por hábito e não por convicção ou espírito de mudança. Os portugueses perderam a esperança na mudança.
Demolidor? Talvez. Mas explica os resultados que apesar das "campanhas negras" o PS tem alcançado nas sondagens. Aliás, quanto à vitória de Sócrates nas próximas legislativas, o psicanalista não tem dúvidas: Vai ganhar, embora não com maioria absoluta. A maior parte dos portugueses vão passar por cima disto (caso Freeport e demais publicidade negativa). Não pelo mérito de não acreditar, mas pelo mérito depressivo de já não acreditar em nada. Que é a pior coisa que pode acontecer.
Nesta perspectiva, agora como nos próximos actos eleitorais, a vitória será, pois, da inércia. Um traço comportamental bem característico dos deprimidos. Recorde-se que os portugueses já foram devidamente contemplados com o ilustre título de povo mais deprimido da UE…


Teresa, muitíssimo interessante e oportuno este post!
Concordo com o Prof. mas creio que a realidade vai ter algum impacto nas pessoas, que irão acordar deste torpor.
É o que se chama “tratamento de choque”. A realidade vai acabar por lhes clarificar as ideias e despertar para a sua responsabilidade numa possível mudança. Há que pensar nas gerações futuras.
Apetece-me dizer que os portugueses andam deprimidos também devido aos comentários deprimentes de certos comentadores. No que se refere a CAD até se percebe:para um psicanalista, quanto mais depressão houver melhor.
Vamos ver, Ana. Mas se o PS ganhar estas eleições, como indicam as sondagens, ficaremos sempre por saber se foi por inépcia do PSD, como pretendem alguns, ou por esta estranha apatia de que fala C.A.D. Por reconhecimento dos serviços prestados à nação, como vão apregoar os socialistas, é que não me parece.
Pois, Pedro, já sei que és dos que atribuem ao PSD todas as responsabilidades pela presumível vitória dos xuxas 🙂 Mas se formos a ver, também esta análise de CAD responsabiliza os social-democratas. A inércia indica que não são vistos como alternativa ao poder instalado. Que os consideram tão maus ou piores do que os que lá estão…
A entrevista ao Prof. Carlos Amaral Dias e agora este seu post, levantam um tema muito interessante que é o da crónica e já proverbial falta de vontade para pensar e reflectir dos portugueses. Há quem atribua essa pecha à “longa noite fascista”, há também aqueles que a atribuem a factores culturais de séculos, mas a verdade é que, seja porque motivo seja, os portugueses continuam, teimosamente, a não querer pensar muito e a não arriscar quase nada numa mudança de rumo a sério da sua vida colectiva. A falta de participação e de interesse pela vida em sociedade, é confrangedora. Hoje mesmo, ouviu-se na televisão que a taxa de iliteracia ronda os 80%, sendo de apenas 20% o número de pessoas que sabe preencher correctamente qualquer impresso, seja de IRS, seja para obtenção do BI, ou um simples cheque, até. Mas sabem tudo acerca de todas as telenovelas que inundam todas as televisões, sabem tudo acerca de todas as fofoquices daquela gentinha que enche as revistas cor-de-rosa, sabem tudo acerca de futebol e dos seus protagonistas, ai isso sabem! Ou seja, à generalidade dos portugueses, interessa mais a vida alheia do que a sua própria, estão mais interessados na maneira como os outros resolvem os problemas deles do que na resolução dos seus.
É claro que grande parte deste estado de coisas, tem sido exactamente fomentado pela falta de qualidade da nossa classe política, mas até isto não explica tudo, uma vez que esta se limita a corresponder ao grau de exigência que lhe é pedido pela sociedade civil, ou seja, praticamente nenhum. Na verdade, não existe qualquer razão objectiva séria para que este marasmo continue após 35 anos de vida democrática e em liberdade, a não ser a crónica falta de interesse dos portugueses, pelos temas mais basilares e fulcrais da sua existência como povo. Diz-se, e com razão, que cada povo tem a classe política e os governos que merece e se há povo a quem isto se aplica como uma luva, é o nosso. «O povo mais deprimido da UE??» Só??
Quanto a mim, o português é o povo mais deprimido e desinteressado do mundo!…
Caro Luís Reis Figueira: os portugueses não são mais empenhados porque o sistema não funciona, ou o sistema não funciona porque os portugueses não são mais empenhados? Essa é a questão. Já houve momentos em que os portugueses revelaram uma capacidade de mobilização espantosa. Estou a lembrar-me, por exemplo, do movimento de apoio a Timor. Há causas, como a do Banco Alimentar, que são um sucesso porque as pessoas correspondem. Em relação à política é que parece haver cada vez mais desinteresse. A tendência, note-se, verifica-se noutros países da UE, mas no nosso caso vem acompanhada por essa tal tristeza. Uma coisa que talvez até faça parte do nosso código genético mas que é agravada pelas difíceis condições de vida cuja responsabilidade é justo imputar aos partidos que nos foram governando, alternadamente, ao longo de trinta anos. Tudo isto para lhe dizer, Luís, que reconheço que há razões para esta abolia de que CAD fala.
Teresa:
Reconheço alguma razão nos seus argumentos, embora pense que Portugal não pode ser um país permanentemente deprimido. Depois de ler e comentar o (também seu) post sobre o Mário Viegas, veio-me à memória o “Manifesto Anti-Dantas”, do Almada Negreiros: tal como ele, apetece-me concluir que “Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado”.
Um abraço. ;-))
Também percebo bem o seu ponto de vista, Luís. Somos de facto um povo tristonho, sempre pronto a baixar os braços. O que há mais são exemplos de povos que têm sido bem mais castigados que o nosso e a que nunca faltou alegria. Para não ir mais longe basta pensarmos no Brasil. Mas há que admitir que os portugueses têm alguma razão para desconfiar dos políticos. Nestes cerca de trinta anos de democracia podiam ter feito muito melhor.