Sem líderes à altura dos reptos dos nossos dias, com uma opinião pública egoísta colocada perante desafios quase intransponíveis, à mercê de diversos demagogos que inflamam as mentes com o veneno neonacionalista (que tem vários seguidores, à direita e à esquerda), a Europa hoje novamente desunida necessita de uma verdadeira refundação.
De baixo para cima, não de cima para baixo.
Há um erro recorrente que deve ser evitado a todo custo: a crescente cedência da soberania popular e democrática a um poder tecnocrático não sujeito ao escrutínio público. O caminho tem de ser o inverso: em vez de tornar ainda mais volumosas as estruturas burocráticas de Bruxelas, o processo de decisão deve ser devolvido aos políticos, respaldados no voto popular.
Parafraseando a célebre frase de Malraux sobre a religião no século XXI, a integração europeia ou caberá aos cidadãos europeus — ou não será nada.
Eis a quadratura do círculo: com que políticos poderá o projecto europeu ser reconfigurado?
Faltam-nos estadistas equiparados aos “pais fundadores”. Mas é precisamente ao exemplo destes visionários que precisamos de regressar. Para aprofundar os mecanismos democráticos, sem os quais a União Europeia está condenada a sucumbir. Para termos uma autêntica Europa dos cidadãos — não a Europa dos tecnocratas, capazes de transformar o sonho da integração num insustentável pesadelo.
A Europa que esses pioneiros construíram deu certo, ao contrário desta. Porque o passo nunca foi então maior que a perna. Lamentavelmente, nenhum deles deixou verdadeiros discípulos entre os políticos actuais.
A melhor Europa é uma Europa mais integrada, sem qualquer abismo entre a vontade dos decisores políticos e a vontade dos povos.
Uma Europa que seja construída a partir de pequenas mas sólidas etapas e não em passadas largas, de “vanguardas” iluminadas que conduzem a inevitáveis recuos.
Uma Europa orgulhosa dos seus valores e do exemplar património imaterial edificado nas últimas seis décadas.
E também uma Europa muito consciente dos erros históricos cometidos. Para que não voltem a repetir-se com o seu cortejo de atrocidades.


Subscrevo e partilhei, já percebeu quanto ando desiludido e descrente com a atual Europa… só teria juntado aí no texto para ficar mais claro a ideia de solidariedade entre as nações, mas sei que essa estava na mente dos “pais fundadores”.
Obrigado pela partilha, Carlos. Um abraço “europeísta”.
As situações propiciam o aparecimento dos personagens, do seu relevo ou irrelevância. A história vista do futuro pinta o passado de tal forma que Delors nem parece o enorme burocrata que era.
As sociedades ocidentais remeteram o protagonismo dos seus personagens ao papel de actor principal de um grupo de interesses. São heróis de propaganda e festarolas de reconhecimento.
Merkel daqui a uns anos poderá ser reconhecida como estadista ao nível de Thatcher. Passos estará na frente do beija-mão imperial… mas do outro lado do canal da Mancha e do Atlântico estará algo muito complexo, que se encarregará de mostrar o “inconseguimento” dessa Europa continental.
Portanto, o caminho para uma Europa unida, é cada vez mais o caminho para um Ocidente dividido pelo Euro. E para os que gostam de fantasmas de guerras passadas, devem lembrar como os britânicos gostam dos impérios continentais… desde as pretensões francesas às alemãs.
Quem achar que o ataque ao Euro veio de mercados sem rosto, é só porque não quer dizer que eles estão bem sitiados na City londrina e em Wall Street.
Por isso, não sei que raio de união europeia é esta sem os britânicos, mas pronto, façamos de conta que eles estão na UE, como eles fazem crer que sim.
Por falar em festarolas, o fim da campanha da AP ser na Maia… sei lá, deixa-me comovido.
1. «As situações propiciam o aparecimento dos personagens, do seu relevo ou irrelevância. A história vista do futuro pinta o passado de tal forma que Delors nem parece o enorme burocrata que era.» Certíssimo. Tantas vezes tenho pensado nisto. Bem reza o provérbio popular: depois de mim virá…
2. «Quem achar que o ataque ao Euro veio de mercados sem rosto, é só porque não quer dizer que eles estão bem sitiados na City londrina e em Wall Street.» Novamente de acordo: só não vê quem não quer. Um dia a história há-de ser (bem) contada.
3. Maia? Lembro-me logo dos inesquecíveis repastos no famoso Machado. Famoso e saboroso. Hei-de falar dele aqui.
Não me esqueço da velha história do Mocho Sentado…
Uma médica que pediu o livro de reclamações acabou condenada por difamar o restaurante, porque ao insistir para trazerem o livro, disse em voz alta que a comida não prestava.
Condenação do Tribunal de Matosinhos, confirmada pela Relação do Porto.
Sabores e costumes patrocinados à época pelo narcisista Senhor de Matosinhos.
Confirmada pela Relação do Porto? De repente senti-me recuar ao tempo do grande Camilo, que também por lá penou.