Do princípio ao fim (8)


enlil,

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“«La caballería ya no tiene sentido», comentó el capitán Arderíus al término de la reunión del 8 de febrero, martes.”
Assim começa assim “Herrumbrosas Lanzas” de Juan Benet (1927-1993). A melhor maneira de alegar a favor dos méritos desta escolha como admirável abertura de um livro é recorrer à frase que inicia outro livro de forma exemplar: “A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct.” (“Dune” de Frank Herbert).
Mesmo em Espanha, embora tenha atingido aquele ambíguo estatuto em que fica mal a um literato confessar que nunca o leu, a verdade é que Juan Benet continua a ser um autor secreto e intimidante, havendo poucos leitores com paciência e necessidade para se afoitarem aos parágrafos caudalosos e às oceânicas 720 páginas de “Herrumbrosas Lanzas” – livro tão lateral aos apetites literários prevalecentes que está omisso da Wikipédia.
Por conveniência editorial, que o autor artisticamente converteu em figurino folhetinesco, o livro foi publicado em 3 volumes autónomos (partes I-VI em 1983; parte VII em 1985 e partes VIII-XII em 1996) e só em 1998 saiu do prelo a póstuma edição integral, contemplando ainda as supostamente incompletas partes XV e XVI, não havendo traços das XIII e XIV em falta. A corrente edição de bolso da editora Debolsillo (ISBN: 9788499080079) traz de brinde uma carta topográfica de Region, desenhada pelo próprio Benet (de profissão engenheiro de estradas) que é uma preciosa companhia à leitura da obra.
Por uma daquelas coincidências que por vezes encadeiam a literatura, mais barrocas do que invulgares (o que confunde os idealistas, perpetuamente esperançosos de verem o dedo do transcendente a furar a casca do tangível), a história editorial de “Herumbrosas Lanzas”, no que teve de intrincada, acidentada, mas sobretudo de resoluções pragmáticas, ilustra e reflecte
a mecânica do enredo do livro.
“Herrumbrosas Lanzas” é o relato de uma ínfima e quase frívola campanha da Guerra de Espanha, desenrolada na periférica região de Region (inevitável redundância) quando as tropas e os militantes fiéis à República sediados em Region (a cidade homónima da região), lançam um assalto à franquista cidade de Macerta, através da montanha que separa os dois vales. A matéria romanesca de “Herrumbrosas Lanzas” são os planos, os preparativos, as intendências, as discussões processuais, as controvérsias bélicas e as conspirações e traições dessa campanha, havendo um bom par de batalhas expostas com a inquestionável ferocidade que nelas costuma manifestar-se. Ou seja, “Herrumbrosas Lanzas” captura o lado mais exposto da condição humana, normalmente evitado pela literatura coetânea, que prefere apascentar as personagens e as ficções pelas acostumadas vertentes da psicologia e do sentimentalismo.
Segundo Javier Marías “Herrumbrosas Lanzas” é o livro definitivo sobre a Guerra de Espanha. Desta vez é possível concordar com ele.

Do princípio ao fim (7).


Luís Menezes Leitão,

“Jemand mußte Josef K. verleumdet haben, denn ohne daß er etwas Böses getan hätte, wurde er eines Morgens verhaftet” (Alguém devia ter difamado Josef K. porque, sem que ele tivesse feito nada de mal, foi preso numa manhã). É assim que se inicia o livro de Franz Kafka, Der Prozeß (O processo), escrito por volta de 1915, mas apenas publicado cerca de 10 anos depois. Este início retrata bem uma das angústias que atravessou todo o séc. XX: o medo da prisão em resultado da denúncia alheia. Esta prisão poderia ser efectuada pela Gestapo, pelo KGB, pela Stasi, pela polícia do apartheid ou até pela PIDE portuguesa. E por isso este início do livro é dolorosamente familiar em qualquer país. Curiosamente, no entanto, nenhuma destas polícias existia quando o livro foi escrito.

Mas o núcleo do livro é precisamente o que acontece depois da prisão: o processo. O processo é labiríntico e envolve Josef K. como uma teia de onde ele nunca se consegue livrar. Entra pela primeira vez num mundo de iniciados. O advogado explica-lhe como ir adiando o processo, mas que não conseguirá resolvê-lo. O juiz também terá contacto com o processo, mas não o decide. E Josef K. desespera para ter acesso ao processo, sem nunca conseguir.

 A maior simbologia que já foi feita sobre o acesso à justiça está num capítulo onde se conta uma parábola, capítulo que aliás tinha sido previamente publicado autonomamente como conto: Vor dem Gesetz (Perante a lei) aqui reproduzido em filme. Nesse capítulo conta-se a história de um homem que se aproxima de uma porta que dá acesso à lei. No entanto, a porta é guardada por um porteiro que não o deixa entrar. O homem aguarda ano após ano sem que o porteiro o deixe alguma vez entrar. Até que, por fim, envelhecido e moribundo, o homem desiste. Mas pergunta porque, durante tantos anos, foi ele o único a esperar à porta, sem que mais ninguém tentasse entrar. A resposta do porteiro é arrasadora: Esta porta estava aqui apenas para ti e, agora que desististe, vou fechá-la e mais ninguém entrará.

E a crueldade da justiça surge no capítulo final, com a execução de Josef K., às mãos de dois desconhecidos. Ele bem pergunta onde está o juiz que ele nunca tinha visto ou o alto tribunal que nunca alcançara. Mas agora tudo é inútil. Josef K. é executado, limitando-se a murmurar “Como um cão!”, como se a vergonha devesse sobreviver-lhe (“Wie ein Hund!” sagte er, es war, als sollte die Scham ihn überleben). E de facto também aqui a vergonha do processo nunca é individual, espalha-se por todos os familiares e amigos e sobrevive até à morte do visado.

 

É curioso que uma obra-prima destas só tenha sobrevivido porque o amigo de Kafka, Max Brod, se recusou a destruir os papéis do autor, ao contrário do que tinha sido o desejo deste. Talvez Kafka pensasse que o mundo não estivesse preparado para uma descrição tão crua do sistema de justiça. Um ideal altamente nobre, com uma aplicação prática que pode ser extremamente perversa.

Do princípio ao fim (6)


Diogo Novo,

“A raíz del regicidio del 1 de febrero, última escena trágica de la historia de Portugal, que es, siglos hace, un continuado naufragio, pudieron algunos creer que iba a cambiar el rumbo de su vida pública. No los que lo conocen. Aquel acto, tal vez justiciero, en todo caso fatal, fue de una justicia, de una fatalidad anárquicas.”

Miguel de Unamuno, “Desde Portugal”, Julho de 1908

Ensaio reunido no livro Por tierras de Portugal y de España (Alianza Editorial, 2014)

 

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Miguel de Unamuno, filósofo espanhol, um dos mais importantes da Geração de 98, viveu apaixonado por Portugal. Não era uma paixão cega, acrítica. A admiração e o fascínio iam quase sempre de mão dada com a exasperação.

Insuspeito de simpatias com a monarquia, Unamuno foi prudente – se não desconfiado – com o advento da república portuguesa. Muito poderia ser escrito a este respeito. Aqui, registo apenas a solidez e a seriedade intelectual de alguém que, não gostando da monarquia, recusou entregar-se nos braços do republicanismo português. Para este autor, a política, que se quer séria e importante, não se coaduna com lógicas de barricada. Em Miguel de Unamuno, a paixão por Portugal foi o motor de um espírito crítico sem concessões, de uma cidadania activa e comprometida vinda de alguém que, não sendo português, foi mais exigente com a pátria do que muitos dos seus contemporâneos lusos.

No ensaio “Desde Portugal”, cujo primeiro parágrafo aqui cito, após deambular pelas páginas de Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, entre outros, conclui que o pessimismo endémico dos portugueses resulta da apatia, “una apatia que produce a veces arranques de furia”. Normalmente mal direccionados, claro. Pouco terá mudado em Portugal.

Mais adiante, Unamuno arremete contra a pseudociência progressista e “pedante” das classes médias dirigentes, deslumbradas com trivialidades vindas do estrangeiro. Isto é, se fosse ressuscitado e voltasse a Portugal, Miguel de Unamuno não estranharia, por exemplo, as certezas dos economistas que fazem carreira no PS, no Bloco de Esquerda e na direita que gostava de ser liberal.

No parágrafo que abre este texto, o intelectual espanhol vê o regicídio como um acto de uma justiça e fatalidade anárquicas. No final do ensaio, Unamuno remata o assunto atestando que em Portugal, como na Galiza, pode “florecer el anarquismo, pero no el sentimiento de liberdad. Y la anarquia es la servidumbre”. Volvidos mais de cem anos, tudo está na mesma.

Abreviando bastante, uma das principais conclusões a retirar da leitura de “Desde Portugal” no início deste século XXI é que o país é dono de uma coerência estóica. A pele rija do carácter nacional é imune à passagem do tempo e, sobretudo, à aprendizagem que advém da experiência. É verdade que muito mudou. A alfabetização é quase total, a tecnologia superou a barreira da imaginação, a esperança média de vida aumenta. Mas o país é o mesmo. Sem tirar nem pôr.

Enfim, e honrando o propósito desta série que agora fazemos no DELITO, está tudo no primeiro parágrafo do ensaio: a paixão sofredora por Portugal; o espírito crítico; o acontecimento que serve de mote para perscrutar o carácter nacional; o fado imutável do naufrágio histórico.

Do princípio ao fim (5)


Luís Naves,

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A obra-prima de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, tem um início de aparência banal, mas importante para se imaginar a intriga futura. O livro tem também dois finais, um para encerrar a história, o outro menos conseguido, que pretende ser ideológico. Julgo que não existe na nossa literatura um romance tão devastador e cruel em relação às limitações da alma portuguesa. O livro é brutal nas suas mais minúsculas observações sobre a hipocrisia nacional, a culpa e a inveja. A pequena sociedade de Leiria funciona como microscosmos da pátria. De resto está lá tudo o que persiste, a cobardia e as indignações beatas, a fanfarronice e a vaidade, a ignorância e o provincianismo, a importância da classe social e o poder da intriga.

Amaro é um encantador hipócrita, que se deixa ir na corrente dos acontecimentos, um videirinho ambicioso, manipulador e cobarde, que inventa argumentos para se justificar, acabando por trair a sua amante. Na realidade, não tem qualquer convicção, nem sequer acredita nas coisas religiosas que vai pregando com aborrecimento. Amélia é a vítima, infantil quase até ao fim, cega para a evidência que está à frente dos olhos. A sua ingenuidade é uma tragédia, a sua beleza uma má circunstância (escreve o autor que até a penugem de um ligeiro bigodinho aloirado a torna mais apetecível).

Além das personagens principais, o romance tem uma galeria impressionante de figuras secundárias e até de pequenos esboços menores, entre eles, por exemplo, Libaninho, que julgo ser na literatura portuguesa o primeiro exemplo de homossexual fora do armário: sabemos pelo próprio que “estava a fazer muitas virtudes no quartel de Leiria”, mas apanhado em flagrante delito na companhia de um sargento, acaba recompensado com um lugar de sacristão; o curioso desenlace sugere que em O Crime do Padre Amaro as indignações são selectivas e a intolerância, tão omnipresente neste universo, é um pouco mais flexível do que parece.

A importância das personagens secundárias é vital no texto, pois elas criam um ambiente de sociedade, permitindo a ilusão de movimento, o humor e diversidade da vida, facilitando o fluxo narrativo. O começo do romance, a primeira frase, é exactamente sobre uma personagem secundária e julgo que só há mais uma referência a esse padre falecido, o que nos deixa na total ignorância sobre a sua existência: “Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé. José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia”. Só ficamos a saber o estritamente necessário, que era um homem dado a fúrias ocasionais e certas contradições de carácter, o que acentua o mistério deste início: parece de uma banalidade extrema, não nos diz nada sobre Amaro ou Amélia, embora se refira à abertura de uma vaga na paróquia. Só no final do romance, quando tentamos imaginar a continuação não escrita, enfim, a história para além do enredo, percebemos a importância do início: a morte de José Miguéis é idêntica à morte de Amaro, a premonição do mesmo fim banal a que ele não poderá escapar, pois todo o resto da sua vida será uma rede de mentiras, também ele terá fúrias ocasionais e acabará morto por uma apoplexia.

 

Eça nunca nos esconde que a personagem principal vai cometer um crime, isso já está no título: na realidade é um infanticídio praticado por outra pessoa, a “tecedeira dos anjos”. O padre disfarça o crime com boas intenções e embrulha-o em rezas cínicas. Amaro seduz e manipula, depois abandona a amante, o seu nome é no mínimo irónico. Esta figura complexa, literariamente perfeita, está repleta de contradições, zonas de sombra, inegável encanto, elevada capacidade para convencer os crentes. “Na sua paixão havia às vezes grandes impaciências”, explica Eça que, em outra cena, põe o padre Amaro a censurar suavemente uma das beatas de Leiria: “Não devemos ter orgulho na nossa virtude. Arriscamo-nos a perder-lhe todos os frutos”, diz. O desplante é quase sarcástico, quando sabemos o que Amaro anda a fazer às escondidas. O ponto genial do romance é que nós, leitores, gostamos mesmo do padre Amaro.

Nesta história, o pecado é a coisa mais natural do mundo, amor carnal, e a culpa vai toda para cima de Amélia, a vítima para quem não haverá qualquer perdão da sociedade. Amaro sairá perdoado desde que continue a fingir, o que justifica o crime, veja-se a propósito esta sua reflexão: “Era padre, é verdade… Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escândalo entre os fiéis, em nada prejudica a eficácia, a utilidade, a grandeza da religião”. Sim, deduzimos, enquanto ele fingir não terá problemas, mas a frase não se aplica apenas aos sacerdotes de 1871.

Este romance com 145 anos (publicado na versão definitiva em 1875) faz ainda todo o sentido para um leitor contemporâneo. Eça tocou num nervo da alma portuguesa, daí o duplo final. O primeiro, no penúltimo capítulo, mostra de forma muito visual (é puro cinema) o enterro de Amélia, numa cena terrível e sombria: “ — Amen — disseram todos num murmúrio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as ervas, os túmulos e as névoas frias daquele triste dia de Dezembro”.

É um final quase romântico, a história acaba mesmo ali, mas Eça escreveu mais um capítulo, para sublinhar que o microcosmos de Leiria era sinónimo da decadência nacional. O romance fecha com uma cena em Lisboa, no meio de grande tumulto em torno das notícias que chegavam de Paris (onde se instalara a comuna). O cónego Dias, o padre Amaro e o conde de Ribamar conversam na base da estátua de Camões. O diálogo permite fechar algumas das peripécias secundárias e acaba com os três, muito entusiasmados, a comentarem o estado de Portugal: “gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país” e, mais à frente, na derradeira frase, “pátria para sempre passada, memória quase perdida”.

O Crime do Padre Amaro está traduzido em todas as línguas cultas e, para um leitor estrangeiro, seria talvez melhor a conclusão com “triste dia de Dezembro”, mas o remate do capítulo XXV é mais político e faz a ponte para os portugueses das gerações seguintes. Não se julgue que este romance é sobre um padre que não pode casar com a amante ou uma mera crítica à Igreja Católica, nada disso, o romance é sobre os hipócritas, os provincianos, os cobardes, sobre esta nossa incapacidade de mudar a ordem social, sobre a bajulação dos poderosos e o medo da ruptura, sobre um país que teima em ficar na mesma, que se imagina grandioso e não é senão mesquinho e patético.

 

Do princípio ao fim (3)


eventhorizon,

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Permitam-me a batota de começar pelo fim, e aos quadradinhos.

 

É bem possível que o fim definitivo de Calvin & Hobbes, a tira cómica que Bill Watterson escreveu e ilustrou entre 1985 (o ano em que nasci) e 1995, marque o fim de uma época. De um tempo em que a banda desenhada ainda ocupava um lugar privilegiado nos jornais, e de um tempo em que estes ainda eram relevantes enquanto veículo de informação privilegiada. É provável que o próprio Watterson tenha adivinhado a segunda tendência – Calvin & Hobbes, afinal, foram uma tira de jornal especialmente sintonizada com o seu tempo, repleta de uma crítica cuja subtileza em nada lhe retirava mordacidade, e que, volvidas duas décadas, se revela tão persciente como pertinente. Basta recordarmos a importância das suas observações sobre a televisão e a cultura televisiva, mais actuais do que nunca tanto para o pequeno ecrã como para os múltiplos pequenos ecrãs que Watterson não adivinhou, mas que elevaram ainda mais a cultura do efémero contra a qual o pai de Calvin já se insurgia. Quanto à primeira, enfim, ficou famosa a recusa absoluta de compromisso na sua arte, algo que o levou ao isolamento após 1995 e que faz com que ainda hoje, quando a comercialização reina de forma absoluta, não exista merchandising oficial de Calvin & Hobbes. Só as tiras que Watterson escreveu e ilustrou, e que continuam a ser publicadas em inúmeros jornais em todo o mundo, e reeditadas em álbuns intemporais. Mas mais importante do que isso: no que à tira de jornal diz respeito, talvez Watterson tenha também elevado o formato ao seu expoente máximo. 

 

Convenhamos: não há nas tiras de jornal nada que se compare a Calvin & Hobbes. Não, nem Schulz – desculpem. Sem querer tirar mérito aos Peanuts, Calvin & Hobbes não chega sequer a ser uma daquelas obras que eleva a fasquia – Watterson simplesmente jogava noutro campeonato, como nos comics norte-americanos de super-heróis jogaram Alan Moore e Neil Gaiman quando escreveram Watchmen e The Sandman, respectivamente. Se o seu olhar sobre a sociedade era especialmente arguto, já a sua perspectiva sobre a imaginação é inigualável: ninguém capturou como Watterson o absoluto prodígio da imaginação infantil. E fê-lo através de algo tão simples como a interação daquele miúdo vivaço de seis anos e do seu amigo imaginário, que para todas as outras personagens era apenas um tigre de peluche. Nos territórios férteis da imaginação de de Calvin jogámos calvinbola, demos vida a bonecos de neve (que se tornaram monstruosos), deixámos mensagens para extra-terrestres gravadas na neve, fizemos todo o tipo de travessuras em casa, na vizinhança ou na escola, discutimos filosofia num trenó. Fomos a Marte num reboque de bicicleta, viajámos no tempo numa caixa de cartão, vivemos aventuras noir com Tracer Bullet, tornámo-nos super-heróis com o Homem Estupendo, fomos aos confins do espaço com o Astronauta Spiff. Let’s go exploring! foram as últimas palavras que lemos de Calvin e de Hobbes, como que um convite para que cada um de nós continuasse a descobrir aquelas aventuras – tanto as que Watterson nos deixou e que tão intransigentemente recusou continuar (um acto que só pode merecer aplauso), como todas aquelas que nunca escreveu, e que podemos imaginar livremente. Como só Calvin e Hobbes faziam. 

Do princípio ao fim (2)


fiodeprumo,

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“Na Primavera dos seus vinte e dois anos, Sumire apaixonou-se pela primeira vez na vida. Foi um amor intenso como um tornado abatendo-se sobre uma vasta planície -, capaz de tudo arrasar à sua passagem, atirando com todas as coisas ao ar no seu turbilhão, fazendo-as em pequenos pedaços, esmagando-as por completo. Com uma violência que nem por um momento dava sinal de abrandar, o tornado soprou através dos oceanos, arrasando sem misericórdia o templo de Angkor Vat, reduzindo a cinzas a selva indiana, tigres e tudo, para depois em pleno deserto pérsico dar lugar a uma tempestade capaz de sepultar sob um mar de areia toda uma exótica cidade fortificada. Em suma, um amor de proporções verdadeiramente monumentais. A pessoa por quem Sumire se apaixonou, além de ser casada tinha mais dezassete anos que ela. E, devo acrescentar, era uma mulher. Foi a partir daqui que tudo começou, e foi a partir daqui que ( quase ) tudo acabou.”

 

       In “SPUTNIK, meu Amor”, de Haruki Murakami

 

Considero que muito pouco se poderá acrescentar à descrição feita pelo autor do que seja uma paixão. Quem a tenha alguma vez vivido, saberá disso. 

É assim que o livro abre. Depois, e num só parágrafo, Murakami abalará, em duas linhas, vários tabus da sociedade vigente: o amor entre duas mulheres, o adultério e até a diferença de idades entre duas pessoas que se amam.

Dificilmente alguém, em tão poucas linhas, conseguiria despertar a curiosidade dos leitores para a leitura de uma obra que, numa narrativa on the road constitui, afinal, uma espécie de introdução a um ensaio sobre o desejo humano e à especulação acerca do destino de cada um.

Sou, simultaneamente, uma admiradora do Japão e deste autor. O parágrafo escolhido, julgo, pode ser bastante revelador da alma e do espírito de um povo, cuja literatura só tardiamente tivemos conhecimento.

Do princípio ao fim (1)


Pedro Correia,

No futebol existe uma frase feita, daquelas em que o desporto-rei é fértil: isto não é como começa, mas como acaba.

Na literatura, pelo contrário, o melhor raras vezes fica guardado para o fim. Começar um romance ou um conto com as palavras certas, que exprimam de forma adequada a ideia que o autor tem em vista, é o único caminho possível. Porque não existe uma segunda oportunidade para ter uma primeira impressão.

É um desafio que se coloca a qualquer forma de expressão literária. Ernest Hemingway, mestre da ficção curta, legou-nos o mais belo e pungente microconto que conheço. Tem apenas seis palavras: “For sale: baby shoes never worn.” Que podemos traduzir assim (permitam-me o atrevimento): “Para venda: sapatos de bebé. Por estrear.”

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Ao longo dos anos, senti-me fascinado por diversos parágrafos de abertura de textos literários famosos. Vários desses parágrafos virão aqui, estou certo disso, seleccionados por colegas de blogue numa série colectiva que hoje começa no DELITO DE OPINIÃO. E que pretende contribuir para despertar ou sedimentar a paixão dos nossos leitores pela arte literária.

A série intitula-se Do princípio ao fim porque não destaca apenas começos de novelas ou romances: destina-se a realçar também as frases finais que elegermos entre as mais inesquecíveis.

Também irei por aí. Mas hoje fico-me por um dos mais arrebatadores inícios que guardo na memória de infatigável leitor. Simples e complexo, literal e metafórico, sugestivo como poucos. Ao ponto de nunca mais o ter esquecido.

São as palavras que nos apresentam Gregor Samsa, inscrevendo-o desde logo na galeria de personagens da literatura universal. Redigidas há mais de cem anos por um taciturno judeu da Boémia que escrevia em alemão: “Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt.”

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Assim entramos no universo de Franz Kafka – tão particular, tão universal, tão denso, tão límpido, tão tortuoso, tão sedutor. São as primeiras linhas da sua novela A Metamorfose (1915), erupção do irracional num mundo sujeito aos inexplicáveis caprichos do acaso, onde as sombras vão ganhando terreno no eterno combate contra a luz.

Recordo o fascínio que senti ao mergulhar pela primeira vez na prosa inconfundível do malogrado escritor de Praga, tão cedo vitimado pela tuberculose num mundo que mal despontava dos horrores da guerra. E jamais esqueci aquelas palavras que me iniciaram no imaginário kafkiano. Não por acaso, Kafka é um dos raros escritores que viu o nome convertido em adjectivo.

 

Reencontro A Metamorfose, em edição recente, e de novo a magia desta prosa me devolve à emoção antiga.

“Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso.” (Recorro à tradução de João Barrento na versão portuguesa da editora Ulisseia, com data de 2011).

É preciso começar bem. Porque o todo está contido na parte. E porque existe uma diferença substancial entre a literatura que mal nos arranha a superfície e a que pode mudar-nos para sempre.

Eis-me a largar tudo para seguir o rasto do homem-insecto nos dédalos da eternidade fixada na palavra impressa. Como se fosse a primeira vez, como se fosse a única, como se fosse a última.