Do princípio ao fim (2)


fiodeprumo,

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“Na Primavera dos seus vinte e dois anos, Sumire apaixonou-se pela primeira vez na vida. Foi um amor intenso como um tornado abatendo-se sobre uma vasta planície -, capaz de tudo arrasar à sua passagem, atirando com todas as coisas ao ar no seu turbilhão, fazendo-as em pequenos pedaços, esmagando-as por completo. Com uma violência que nem por um momento dava sinal de abrandar, o tornado soprou através dos oceanos, arrasando sem misericórdia o templo de Angkor Vat, reduzindo a cinzas a selva indiana, tigres e tudo, para depois em pleno deserto pérsico dar lugar a uma tempestade capaz de sepultar sob um mar de areia toda uma exótica cidade fortificada. Em suma, um amor de proporções verdadeiramente monumentais. A pessoa por quem Sumire se apaixonou, além de ser casada tinha mais dezassete anos que ela. E, devo acrescentar, era uma mulher. Foi a partir daqui que tudo começou, e foi a partir daqui que ( quase ) tudo acabou.”

 

       In “SPUTNIK, meu Amor”, de Haruki Murakami

 

Considero que muito pouco se poderá acrescentar à descrição feita pelo autor do que seja uma paixão. Quem a tenha alguma vez vivido, saberá disso. 

É assim que o livro abre. Depois, e num só parágrafo, Murakami abalará, em duas linhas, vários tabus da sociedade vigente: o amor entre duas mulheres, o adultério e até a diferença de idades entre duas pessoas que se amam.

Dificilmente alguém, em tão poucas linhas, conseguiria despertar a curiosidade dos leitores para a leitura de uma obra que, numa narrativa on the road constitui, afinal, uma espécie de introdução a um ensaio sobre o desejo humano e à especulação acerca do destino de cada um.

Sou, simultaneamente, uma admiradora do Japão e deste autor. O parágrafo escolhido, julgo, pode ser bastante revelador da alma e do espírito de um povo, cuja literatura só tardiamente tivemos conhecimento.

0 comentários em “Do princípio ao fim (2)”

  1. Já li Haruki Murakami. Sinceramente ainda não lhe consegui apanhar o jeito. Por vezes noto-lhe um esforço despropositado de se querer mostrar intelectual. Não gosto. E o parágrafo pareceu-me rebuscado. E depois não percebi, talvez por erro de tradução ou falta de revisão. Então a mulher por quem Sumire se apaixonou tinha 5 anos, era mulher e casada? É demasiado tabu para a minha camioneta.

  2. “Na Primavera dos seus vinte e dois anos, Sumire apaixonou-se (…)
    A pessoa por quem Sumire se apaixonou, além de ser casada tinha menos dezassete anos que ela”

    Acho demasiado fantasiosa a paixão de uma mulher de 22 anos por uma menina de 5 anos já casada.
    Enfim, gostos (literários ou outros) não se discutem.

  3. Não percebo este texto. Então Sumire, com 22 anos, apaixonou-se por uma pessoa que tinha menos 17 anos que ela, portanto tinha 5 anos, e que era casada? Isto é o anor entre duas mulheres, ou entre uma mulher e uma criança? E no Japão casam tão cedo?

  4. Gosto imenso de escritores japoneses.Haruki Murakami não é um deles…
    Kawabata, Mishima, Oe, Akutagawa, Soseki, Endo, Abe, Dazai, Enchi e outros que de momento não me recordo são excepcionais. Na minha opinião, Murakami não está na mesma liga.

  5. Muito mais violentas dia que o verdadeiro amor, as grandes paixões são exactamente assim, loucas, selvagens esmagadoras, intensas, destruidoras.
    É sempre no rescaldo do turbilhão que se constróiem e alicerçam as pontes que conduzem à felicidade, que pode durar apenas segundos mas imprime o seu cunho para sempre.
    Excelente livro.
    Beijinho Helena.

  6. Excelente entrada, sem dúvida.
    Murakami é um escritor sui generis e muito perturbador. De todos os livros que li de sua autoria este foi o que mais me “agarrou” – só o larguei quando terminei a leitura, no Inverno de 2007, durante o qual li, de enfiada, uma série de livros de Murakami. Confesso que me abalaram, tanto que não consegui ler nada durante uns meses e de Murakami ainda tenho três livros intactos, guardados numa arrecadação da qual não verão a luz do dia nos tempos mais próximos.

  7. Caros comentadores
    Mil perdões pela minha inexplicável gralha, que levou a que alguns de vós tivessem pensado em algo de pedófilo.
    Com efeito, onde está “menos dezassete anos” deverá ler-se “mais dezassete anos”.
    Mas, pergunto, ao lerem não admitiram que houvesse um erro meu? Sou alguém sem preconceitos, mas daí a escolher uma entrada – que me marcou -, que fala de paixão avassaladora, não acharam que eu estaria “tonta” ao admiti-la por uma criança de 5 anos?!
    Começo a pensar que não tenho leitores…

    1. Sou um seu leitor. Sou-o com agrado. Quando percebi o que ali estava escrito pensei em duas coisas. Gralha da tradução, ou falta de rigor do escritor. Já vi coisas dessas. Disparates que não batem a bota com a perdigota por preguiça de quem escreve. Nunca me ocorreu que tivesse sido falta da Helena. O resto é birra minha. Birra contra o Murakami por quem não tenho pachorra. O defeito será meu, com certeza. Ao contrário da Helena não lhe sinto o Japão na escrita mas uma preocupação em ocidentalizar, como se fosse um assimilado, como depreciativa chamávamos aos negros das colónias que aprendiam a ler e escrever. A começar pelos títulos: Kafka à beira mar (até hoje estou para perceber o que Kafka tem a ver com aquilo), e agora Sputnik meu amor, a fazer lembrar Duras. Também não gosto do texto de abertura. Demasiado rebuscado. Acho que é mesmo birra minha. Numa coisa tem razão: as paixões devem ser mesmo assim, destruidores dos templos que julgávamos mais firmes (embora deixasse os tigres em paz). 🙂

      1. Ah! Xico é dessas paixões que, estranhamente, os japoneses são capazes. E isso é algo que para sempre me ligará a eles. Fui cinco vezes ao Japão, quatro com estadias prolongadas. Acredito que não morrerei sem lá voltar. Estranho, não é?!

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