Permitam-me a batota de começar pelo fim, e aos quadradinhos.
É bem possível que o fim definitivo de Calvin & Hobbes, a tira cómica que Bill Watterson escreveu e ilustrou entre 1985 (o ano em que nasci) e 1995, marque o fim de uma época. De um tempo em que a banda desenhada ainda ocupava um lugar privilegiado nos jornais, e de um tempo em que estes ainda eram relevantes enquanto veículo de informação privilegiada. É provável que o próprio Watterson tenha adivinhado a segunda tendência – Calvin & Hobbes, afinal, foram uma tira de jornal especialmente sintonizada com o seu tempo, repleta de uma crítica cuja subtileza em nada lhe retirava mordacidade, e que, volvidas duas décadas, se revela tão persciente como pertinente. Basta recordarmos a importância das suas observações sobre a televisão e a cultura televisiva, mais actuais do que nunca tanto para o pequeno ecrã como para os múltiplos pequenos ecrãs que Watterson não adivinhou, mas que elevaram ainda mais a cultura do efémero contra a qual o pai de Calvin já se insurgia. Quanto à primeira, enfim, ficou famosa a recusa absoluta de compromisso na sua arte, algo que o levou ao isolamento após 1995 e que faz com que ainda hoje, quando a comercialização reina de forma absoluta, não exista merchandising oficial de Calvin & Hobbes. Só as tiras que Watterson escreveu e ilustrou, e que continuam a ser publicadas em inúmeros jornais em todo o mundo, e reeditadas em álbuns intemporais. Mas mais importante do que isso: no que à tira de jornal diz respeito, talvez Watterson tenha também elevado o formato ao seu expoente máximo.
Convenhamos: não há nas tiras de jornal nada que se compare a Calvin & Hobbes. Não, nem Schulz – desculpem. Sem querer tirar mérito aos Peanuts, Calvin & Hobbes não chega sequer a ser uma daquelas obras que eleva a fasquia – Watterson simplesmente jogava noutro campeonato, como nos comics norte-americanos de super-heróis jogaram Alan Moore e Neil Gaiman quando escreveram Watchmen e The Sandman, respectivamente. Se o seu olhar sobre a sociedade era especialmente arguto, já a sua perspectiva sobre a imaginação é inigualável: ninguém capturou como Watterson o absoluto prodígio da imaginação infantil. E fê-lo através de algo tão simples como a interação daquele miúdo vivaço de seis anos e do seu amigo imaginário, que para todas as outras personagens era apenas um tigre de peluche. Nos territórios férteis da imaginação de de Calvin jogámos calvinbola, demos vida a bonecos de neve (que se tornaram monstruosos), deixámos mensagens para extra-terrestres gravadas na neve, fizemos todo o tipo de travessuras em casa, na vizinhança ou na escola, discutimos filosofia num trenó. Fomos a Marte num reboque de bicicleta, viajámos no tempo numa caixa de cartão, vivemos aventuras noir com Tracer Bullet, tornámo-nos super-heróis com o Homem Estupendo, fomos aos confins do espaço com o Astronauta Spiff. Let’s go exploring! foram as últimas palavras que lemos de Calvin e de Hobbes, como que um convite para que cada um de nós continuasse a descobrir aquelas aventuras – tanto as que Watterson nos deixou e que tão intransigentemente recusou continuar (um acto que só pode merecer aplauso), como todas aquelas que nunca escreveu, e que podemos imaginar livremente. Como só Calvin e Hobbes faziam.


Grande escolha, João. Tornei-me fã há vinte e tal anos, quando a Gradiva começou a editar os álbuns por cá. Claro que, nessa altura, tu devias andar a brincar com o teu próprio Hobbes… 🙂
Embora também goste dos Peanuts, acho que tens razão quanto a Calvin & Hobbes estar noutro campeonato. Num registo diferente, talvez as tiras da Mafalda possam considerar-se ao mesmo nível de capacidade de observação, ironia e crítica.
Tenho vários álbuns da Gradiva, e comecei a lê-los consideravelmente cedo. Um dos aspectos que faz de Calvin & Hobbes intemporal é ser mesmo para todas as idades: quando somos mais novos, apreciamos os bonecos, as brincadeiras, o delírio imaginativo; em adulto, continuamos a apreciar tudo isso, mas percebemos também os outros níveis de leitura.
É possível que as tiras da Mafalda se pudessem comparar na crítica (ainda que em alguns momentos fossem talvez demasiado cínicas), mas não na imaginação. Creio que é nesse ponto que Calvin & Hobbes se eleva. As tiras do Astronauta Spiff, os devaneios sobre dinossauros, as brincadeiras absurdas (há uma tira em que o Calvin de repente descobre que o mundo virou um negativo fotográfico, ou outra em que a gravidade desapareceu, por exemplo) e a efabulação que acompanha e justifica as travessuras… nunca encontrei nada disto em lado algum, na banda desenhada ou na literatura, e é simplesmente espantoso.
Deve ser da geração, mas nunca poria Peanuts, Doonesbury (nos anos 70) e Pogo atrás de Calvin & Hobbes.
Talvez; não saberia avaliar a questão por essa perspectiva. Para mim, que li e apreciei Calvin & Hobbes em três idades diferentes (na infância, na adolescência e na que tenho actualmente – e conto continuar a reler, e a apreciar, ao longo da vida), acho o texto e a ilustração de Watterson incomparáveis. E julgo que a sua intransigência (que Schulz ou Davis não tiveram) na exploração comercial das tiras só as valorizam enquanto banda desenhada e enquanto arte.
Grande escolha, João. Li toda – e reli, de fio a pavio – esta genial banda desenhada. Genial também por irrepetível. Durou dez anos exactos. Fica como marca inconfundível das décadas de 80 e 90.
Eu, que nunca achei muita graça aos bonecos de Charles Schulz, fiquei desde logo rendido às travessuras deste irrequieto miúdo e ao seu tigre de peluche carregado de bom senso e nunca desprovido de sentido de humor.
Por vezes sinto saudades deles.
Obrigado, Pedro. As brincadeiras que via no Calvin & Hobbes sempre me disseram muito. Não li ainda a obra completa, mas é um dos meus objectivos para breve.
Admiro imenso o Watterson pela resistência ao comercialismo que tomou conta da banda desenhada (e do cinema, e da televisão, e da literatura…). Calvin & Hobbes só saíram valorizados por isso. Nunca foram diluídos em desenhos animados, filmes, textos paralelos; nunca foram reformulados e simplificados para as massas. Ficaram para a posteridade exactamente como Watterson queria que ficassem. E ficaram muito bem.