A obra-prima de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, tem um início de aparência banal, mas importante para se imaginar a intriga futura. O livro tem também dois finais, um para encerrar a história, o outro menos conseguido, que pretende ser ideológico. Julgo que não existe na nossa literatura um romance tão devastador e cruel em relação às limitações da alma portuguesa. O livro é brutal nas suas mais minúsculas observações sobre a hipocrisia nacional, a culpa e a inveja. A pequena sociedade de Leiria funciona como microscosmos da pátria. De resto está lá tudo o que persiste, a cobardia e as indignações beatas, a fanfarronice e a vaidade, a ignorância e o provincianismo, a importância da classe social e o poder da intriga.
Amaro é um encantador hipócrita, que se deixa ir na corrente dos acontecimentos, um videirinho ambicioso, manipulador e cobarde, que inventa argumentos para se justificar, acabando por trair a sua amante. Na realidade, não tem qualquer convicção, nem sequer acredita nas coisas religiosas que vai pregando com aborrecimento. Amélia é a vítima, infantil quase até ao fim, cega para a evidência que está à frente dos olhos. A sua ingenuidade é uma tragédia, a sua beleza uma má circunstância (escreve o autor que até a penugem de um ligeiro bigodinho aloirado a torna mais apetecível).
Além das personagens principais, o romance tem uma galeria impressionante de figuras secundárias e até de pequenos esboços menores, entre eles, por exemplo, Libaninho, que julgo ser na literatura portuguesa o primeiro exemplo de homossexual fora do armário: sabemos pelo próprio que “estava a fazer muitas virtudes no quartel de Leiria”, mas apanhado em flagrante delito na companhia de um sargento, acaba recompensado com um lugar de sacristão; o curioso desenlace sugere que em O Crime do Padre Amaro as indignações são selectivas e a intolerância, tão omnipresente neste universo, é um pouco mais flexível do que parece.
A importância das personagens secundárias é vital no texto, pois elas criam um ambiente de sociedade, permitindo a ilusão de movimento, o humor e diversidade da vida, facilitando o fluxo narrativo. O começo do romance, a primeira frase, é exactamente sobre uma personagem secundária e julgo que só há mais uma referência a esse padre falecido, o que nos deixa na total ignorância sobre a sua existência: “Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé. José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia”. Só ficamos a saber o estritamente necessário, que era um homem dado a fúrias ocasionais e certas contradições de carácter, o que acentua o mistério deste início: parece de uma banalidade extrema, não nos diz nada sobre Amaro ou Amélia, embora se refira à abertura de uma vaga na paróquia. Só no final do romance, quando tentamos imaginar a continuação não escrita, enfim, a história para além do enredo, percebemos a importância do início: a morte de José Miguéis é idêntica à morte de Amaro, a premonição do mesmo fim banal a que ele não poderá escapar, pois todo o resto da sua vida será uma rede de mentiras, também ele terá fúrias ocasionais e acabará morto por uma apoplexia.
Eça nunca nos esconde que a personagem principal vai cometer um crime, isso já está no título: na realidade é um infanticídio praticado por outra pessoa, a “tecedeira dos anjos”. O padre disfarça o crime com boas intenções e embrulha-o em rezas cínicas. Amaro seduz e manipula, depois abandona a amante, o seu nome é no mínimo irónico. Esta figura complexa, literariamente perfeita, está repleta de contradições, zonas de sombra, inegável encanto, elevada capacidade para convencer os crentes. “Na sua paixão havia às vezes grandes impaciências”, explica Eça que, em outra cena, põe o padre Amaro a censurar suavemente uma das beatas de Leiria: “Não devemos ter orgulho na nossa virtude. Arriscamo-nos a perder-lhe todos os frutos”, diz. O desplante é quase sarcástico, quando sabemos o que Amaro anda a fazer às escondidas. O ponto genial do romance é que nós, leitores, gostamos mesmo do padre Amaro.
Nesta história, o pecado é a coisa mais natural do mundo, amor carnal, e a culpa vai toda para cima de Amélia, a vítima para quem não haverá qualquer perdão da sociedade. Amaro sairá perdoado desde que continue a fingir, o que justifica o crime, veja-se a propósito esta sua reflexão: “Era padre, é verdade… Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escândalo entre os fiéis, em nada prejudica a eficácia, a utilidade, a grandeza da religião”. Sim, deduzimos, enquanto ele fingir não terá problemas, mas a frase não se aplica apenas aos sacerdotes de 1871.
Este romance com 145 anos (publicado na versão definitiva em 1875) faz ainda todo o sentido para um leitor contemporâneo. Eça tocou num nervo da alma portuguesa, daí o duplo final. O primeiro, no penúltimo capítulo, mostra de forma muito visual (é puro cinema) o enterro de Amélia, numa cena terrível e sombria: “ — Amen — disseram todos num murmúrio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as ervas, os túmulos e as névoas frias daquele triste dia de Dezembro”.
É um final quase romântico, a história acaba mesmo ali, mas Eça escreveu mais um capítulo, para sublinhar que o microcosmos de Leiria era sinónimo da decadência nacional. O romance fecha com uma cena em Lisboa, no meio de grande tumulto em torno das notícias que chegavam de Paris (onde se instalara a comuna). O cónego Dias, o padre Amaro e o conde de Ribamar conversam na base da estátua de Camões. O diálogo permite fechar algumas das peripécias secundárias e acaba com os três, muito entusiasmados, a comentarem o estado de Portugal: “gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país” e, mais à frente, na derradeira frase, “pátria para sempre passada, memória quase perdida”.
O Crime do Padre Amaro está traduzido em todas as línguas cultas e, para um leitor estrangeiro, seria talvez melhor a conclusão com “triste dia de Dezembro”, mas o remate do capítulo XXV é mais político e faz a ponte para os portugueses das gerações seguintes. Não se julgue que este romance é sobre um padre que não pode casar com a amante ou uma mera crítica à Igreja Católica, nada disso, o romance é sobre os hipócritas, os provincianos, os cobardes, sobre esta nossa incapacidade de mudar a ordem social, sobre a bajulação dos poderosos e o medo da ruptura, sobre um país que teima em ficar na mesma, que se imagina grandioso e não é senão mesquinho e patético.


Parabéns por este brilhante texto, Luís Naves!
Adorei ler e recordar o meu primeiro Eça, lido às escondidas (outros tempos…) e que tanto me marcou.
Durante anos foi o meu preferido até ser destronado pelos Maias, embora os livros dele sejam todos bons.
🙂 Antonieta
Acho que teria sido bom acrescentar que esta obra é tão notável que sob a sua inspiração foi rodado pelo menos um filme (mexicano, passou há uns anos em Portugal).
Não vi esse filme, mas O Crime do Padre Amaro foi traduzido em muitas línguas e, através desse livro, Eça era o romancista português mais internacional, juntou-se-lhe depois Ferreira de Castro. Entretanto, Saramago ficou mundialmente famoso e Gonçalo M. Tavares também começa a ser lido. No exterior, fora dos círculos académicos ou muito cultos, a literatura portuguesa é praticamente desconhecida do público leitor e o Crime do Padre Amaro tem sido um dos poucos livros a resistir a essa indiferença.
Para quem tiver paciência, posso mencionar o caso da Hungria, que conheço razoavelmente bem: os livros de Saramago estão em todas as secções de literatura estrangeira das livrarias (com vários títulos, obras que ainda não tinham sido publicadas, mais recentemente Levantado do Chão, que salvo erro tinha título Alentejo); Ferreira de Castro foi muito lido (publicado e republicado) nos anos 60, por exemplo A Selva e Os Emigrantes; Eça também se encontra com facilidade nos alfarrabistas, com várias obras ao longo do século XX, A Capital, mas sobretudo o Padre Amaro, que teve várias edições. Nunca encontrei (em alfarrabistas ou livrarias) livros de autores nacionais que julgamos essenciais, como por exemplo Camilo Castelo Branco, Aquilino Ribeiro, Alves Redol, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, para citar apenas alguns. O problema é que os escritores portugueses têm poucos contos e isso dificulta as colecções de textos curtos (que são mato nas livrarias). António Lobo Antunes teve um livro publicado há uns anos (Manual dos Inquisidores), mas entretanto desapareceu da paleta. numa visita recente, Gonçalo M. Tavares estava nos destaques das livrarias com o seu Aprender a Rezar na Era da Técnica (aliás, uma obra excelente).
Tudo isto pode parecer estranho, mas o que é mesmo estranho é que a secção de literatura estrangeira das livrarias húngaras nunca é maior do que a secção de literatura húngara. Essa é uma grande diferença em relação a Portugal. Os leitores não dispensam os seus escritores e, no que toca a literatura estrangeira, têm de ser muito selectivos..
a secção de literatura estrangeira das livrarias húngaras nunca é maior do que a secção de literatura húngara
Um facto muito interessante, que não deverá provavelmente ser uma anormalidade húngara, mas sobretudo uma anormalidade portuguesa: os portugueses vivem fascinados com o estrangeiro e a desejar imitá-lo. Para os portugueses cultos, aquilo que interessa é a produção intelectual dos autores anglossaxónicos (no passado, franceses), não a de autores portugueses.
Tem razão o Luís Lavoura (nunca pensei escrever isto, eheheh).
O filme (Carlos Carrera, 2002) protagonizado pelo Gael García Bernal causou imensa polémica no México com muitos grupos católicos a tentarem impedir a sua exibição.
Como quase sempre acontece nestes casos virou um êxito de bilheteira. Foi nomeado para cerca de 30 prémios, incluíndo o Golden Globe e o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Como curiosidade, o García Bernal também entrou no filme ‘Ensaio sobre a Cegueira’, adaptado da obra homónima de Saramago.
🙂 Antonieta
Excelente leitura ensaística sobre um romance-chave da literatura portuguesa. Muito bem, Luís.
Uma excelente análise sobre aquela que é para mim a obra-prima de Eça de Queiroz. Há, no entanto, dois pontos de que tenho que divergir:
1) Acho que o objectivo principal do romance é fazer um ataque feroz à Igreja Católica, começando pelos debates bizantinos dos padres, os seus comportamentos privados e até a doutrina religiosa (como na cena em que é o sacristão que dá em latim a declaração de concordância da criança com o baptismo). Termina naturalmente com o crime do padre, em que a responsabilidade parece ser atribuída mais à Igreja do que ao próprio. No fim do romance indica-nos que nunca sofreu castigo nenhum, apesar de todos os outros saberem da história.
2) Não acho nada que o começo seja banal. A primeira frase poderia indiciá-lo, mas veja-se a sequência:
“Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica – que o detestava – costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
– Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!
Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe – à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado”.
O ataque à Igreja Católica começa logo aqui. O pároco da terra, em pleno sábado de Aleluia, em que deveria estar a fazer o jejum da vigília pascal, afinal matava-se nessa mesma noite a comer à fartazana uma colossal ceia de peixe. A hipocrisia dos padres é logo denunciada no primeiro parágrafo. Fiquemos logo a saber o que o autor pretende com o romance.
O que digo é que o início “tem uma aparência banal”. Não o escrevi, mas parece-me que Eça era um escritor que não investia muito nas aberturas dos seus romances, ao contrário de Camilo, que tem inícios fantásticos. Eça era um construtor de catedrais, via o conjunto e preocupava-se com os detalhes mais insignificantes.
Na literatura contemporânea, os autores tendem a preocupar-se demasiado com as primeiras 30 páginas, para captar os leitores e convencer os editores e júris de prémios. Eça não se preocupava com isso, como demonstra Os Maias, com as suas primeiras 50 páginas, onde geralmente os estudantes do secundário ficam atascados. Quanto à crítica, é evidente que o livro era um ataque feroz à igreja católica, embora me pareça que vai mais além, o que aliás garante a sua longevidade.
Os Maias, com as suas primeiras 50 páginas, onde geralmente os estudantes do secundário ficam atascados
Pois.
Eu tive que ler Os Maias, e achei uma boa estopada, até porque fala de um ambiente social que nos é estranho. Fala de “espanholas” como sinónimo de “prostitutas” e eu, quando li isso, com 16 anos, nem sabia bem o que era uma prostituta, muito menos que uma “espanhola” fosse uma prostituta.
O meu filho começou a ler Os Maias nas férias. Abandonou passadas duas páginas. Diz que só vai ler um resumo para estudantes do secundário, daqueles em que a obra já vem “mastigada”. Não me parece que seja um erro.
O quê? Com 16 anos não sabia o que era uma prostituta? Diz isso a sério ou só com receio de ser classificado como machista? Olhe, e já se masturbava?
Não é um erro. É pior: é uma tragédia.
E o pai parece concordar com essa instrução ministrada a “fichas” e “resumos”, onde se nivela por baixo, se cultiva a facilitação que estupidifica, se despreza a cultura e se desencoraja o esforço e o gosto de ir além do mínimo tido por indispensável.
Possa ele, o filho, um dia descobrir os Maias. Por ele mesmo ou sob alguma “perniciosa” influência, que com o estímulo do pai…
Costa
“que julgo ser na literatura portuguesa o primeiro exemplo de homossexual fora do armário”
Será? E o livro O Barão de Lavos de Abel Botelho?
O livro que menciona foi publicado vinte anos depois do Crime do Padre Amaro, mas julgo que a sua objecção faz sentido: Libaninho é uma personagem sem importância, o livro que menciona roda em torno do tema…