Do princípio ao fim (1)


Pedro Correia,

No futebol existe uma frase feita, daquelas em que o desporto-rei é fértil: isto não é como começa, mas como acaba.

Na literatura, pelo contrário, o melhor raras vezes fica guardado para o fim. Começar um romance ou um conto com as palavras certas, que exprimam de forma adequada a ideia que o autor tem em vista, é o único caminho possível. Porque não existe uma segunda oportunidade para ter uma primeira impressão.

É um desafio que se coloca a qualquer forma de expressão literária. Ernest Hemingway, mestre da ficção curta, legou-nos o mais belo e pungente microconto que conheço. Tem apenas seis palavras: “For sale: baby shoes never worn.” Que podemos traduzir assim (permitam-me o atrevimento): “Para venda: sapatos de bebé. Por estrear.”

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Ao longo dos anos, senti-me fascinado por diversos parágrafos de abertura de textos literários famosos. Vários desses parágrafos virão aqui, estou certo disso, seleccionados por colegas de blogue numa série colectiva que hoje começa no DELITO DE OPINIÃO. E que pretende contribuir para despertar ou sedimentar a paixão dos nossos leitores pela arte literária.

A série intitula-se Do princípio ao fim porque não destaca apenas começos de novelas ou romances: destina-se a realçar também as frases finais que elegermos entre as mais inesquecíveis.

Também irei por aí. Mas hoje fico-me por um dos mais arrebatadores inícios que guardo na memória de infatigável leitor. Simples e complexo, literal e metafórico, sugestivo como poucos. Ao ponto de nunca mais o ter esquecido.

São as palavras que nos apresentam Gregor Samsa, inscrevendo-o desde logo na galeria de personagens da literatura universal. Redigidas há mais de cem anos por um taciturno judeu da Boémia que escrevia em alemão: “Als Gregor Samsa eines Morgens aus unruhigen Träumen erwachte, fand er sich in seinem Bett zu einem ungeheueren Ungeziefer verwandelt.”

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Assim entramos no universo de Franz Kafka – tão particular, tão universal, tão denso, tão límpido, tão tortuoso, tão sedutor. São as primeiras linhas da sua novela A Metamorfose (1915), erupção do irracional num mundo sujeito aos inexplicáveis caprichos do acaso, onde as sombras vão ganhando terreno no eterno combate contra a luz.

Recordo o fascínio que senti ao mergulhar pela primeira vez na prosa inconfundível do malogrado escritor de Praga, tão cedo vitimado pela tuberculose num mundo que mal despontava dos horrores da guerra. E jamais esqueci aquelas palavras que me iniciaram no imaginário kafkiano. Não por acaso, Kafka é um dos raros escritores que viu o nome convertido em adjectivo.

 

Reencontro A Metamorfose, em edição recente, e de novo a magia desta prosa me devolve à emoção antiga.

“Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gregor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso.” (Recorro à tradução de João Barrento na versão portuguesa da editora Ulisseia, com data de 2011).

É preciso começar bem. Porque o todo está contido na parte. E porque existe uma diferença substancial entre a literatura que mal nos arranha a superfície e a que pode mudar-nos para sempre.

Eis-me a largar tudo para seguir o rasto do homem-insecto nos dédalos da eternidade fixada na palavra impressa. Como se fosse a primeira vez, como se fosse a única, como se fosse a última.

0 comentários em “Do princípio ao fim (1)”

  1. In fact, it seems that versions of the six-word story appeared long before Hemingway even began to write, at least as early as 1906, when he was only 7, in a newspaper classified section called “Terse Tales of the Town,” which published an item that read, “For sale, baby carriage, never been used. Apply at this office.”

    Link:
    http://www.openculture.com/2015/03/the-urban-legend-of-ernest-hemingways-six-word-story.html

  2. “No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5:30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.”

    1. Quando li este post do Pedro lembrei-me imediatamente do inicio de Crónica de uma morte anunciada, para mim uma obra prima, de longe melhor do que o hiper-valorizado Cem anos de solidão.

  3. Há em Lisboa um pequeno conjunto de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna….

  4. Estou agora a ler um livro que começa assim:
    «E para aqui estou eu, de pernas para o ar dentro de uma mulher. Com os braços pacientemente cruzados, à espera, à espera e a perguntar-me dentro de quem estou, para que estou aqui.»
    Quase tão estranho como o início da Metamorfose…
    Só espero gostar tanto deste livro do Ian McEwan como gostei do do Kafka.
    🙂 Antonieta

      1. Este é o último dele ‘Nutshell’, ou ‘Numa casca de noz’ na tradução de Ana Falcão Bastos para a Gradiva, acabadinho de sair (comprei-o no dia 19)
        em Inglaterra, USA e Portugal – O McEwan é assim, gosta de Portugal e eu gosto dele.
        🙂 Antonieta

          1. A Gradiva tem sido uma das editoras que mais venho recomendando aqui. Lamento que tenha passado do luxo ao lixo.
            (Espero que regresse ao trilho anterior embora não se livre dos custos reputacionais.)

    1. Eu também estou a ler esse, Antonieta. Uma evocação de Hamlet bastante curiosa, diga-se. E menos ‘proustiana’ do que algumas das últimas obras do autor. Aliás, não é impossível que, nesta série de textos… hmmmm… Bom, fiquemos por aqui. Logo se verá…

  5. Promessa cumprida, Pedro, (lembra-se?) e logo com uma abertura de luxo. Foi o meu primeiro Kafka e continua a ser o meu preferido. Para fugir às Kareninas, Lolitas, Quixotes e baleias, etc. optei por um livro acabadinho de sair.
    Deve ser a quinta vez que tento comentar, por isso optei por escrever menos.
    E a série vai ser diária?
    🙂 Antonieta

    1. É verdade, Antonieta. Andava há muito tempo com a ideia desta série. Avançou agora, com aquele que também foi o meu primeiro Kafka.
      A série terá a periodicidade e a duração que os meus colegas de blogue quiserem.

  6. Excelente ideia, Pedro.
    “The past is a foreign country: they do things differently there.”
    The go-between, de L.P. Hartley

    1. É um excelente início de um romance que nunca li, Ana. Vi o filme há muitos anos, com o Alan Bates, se não me falha a memória. E retive essa bela frase, que é quase um poema.

  7. “Stately, plump Buck Mulligan came from the stairhead, bearing a bowl of lather on which a mirror and a razor lay crossed.” —James Joyce, Ulysses
    A frase final também vale a pena:
    “Phew – what a day!”

      1. Falha indesculpável a minha, que não publiquei o comentário ao texto ( não percebi porquê, até porque estava escrito antes da minha frase de abertura de Barrie) .
        Como início de uma série, colocou a fasquia muito alta Pedro, o que é absolutamente fantástico.
        Foi o meu primeiro Kafka e provocou-me ( Kafka ainda provoca) sucessivos abalos telúricos nas minhas placas psicossomáticas.
        Cronologicamente foi o meu terceiro do princípio ao fim. O primeiro já referi. O segundo, o começo de A Tales of Two Cities.
        Vai ser uma série de truz, sem sombra de dúvida.

  8. «Je suis né dans un monde qui regardait en arrière, le passé y comptais plus que l’avenir.»( Au Plaisir de Dieu, Jean d’Ormesso)

    1. Tenho o livro aqui sempre à mão. Sem desmerecer o parágrafo inicial, cuja elegância é de facto notória, julgo que o final é um dos mais fortes de toda a literatura portuguesa. Forte também pelo seu amargo simbolismo.

  9. Exceptuando as icónicas 1as frases universalmente conhecidas – Kareninna, Lolita, Orgulho e preconceito, O estrangeiro, Os Maias – há uma de que gosto muito:
    ” Há trinta e cinco anos que trabalho com papel velho e é essa a minha love story” Hrabal em Uma solidão demasiado ruidosa. Um livro que vale muito a pena.

    Óptima iniciativa, caro Pedro. Podemos sempre contar consigo.
    Muito obrigada.

  10. “Naquele momento Alain olhava com obstinação para Lydia. Mas perscrutava-a assim desde que ela, três dias antes, chegara a Paris. Do que estaria à espera? De um súbito esclarecimento a respeito dela ou de si próprio.”
    O fogo-fátuo, Drieu La Rochelle. Finalmente traduzido para Poortuguês.

      1. Foi publicado recentemente, em Julho. Com o carimbo Sistema Solar. Também (e finalmente) a mesma editora resolveu editar “Memórias intímas e confissões de um pecador justificado” (James Hogg).

        Bom domingo.

  11. “You’ve no choice. Look back.” The True Story of Hansel and Gretel, Louise Murphy

    “The sun shone, having no alternative, on the nothing new.”Murphy, Samuel Beckett

    “The final dying sounds of their dress rehearsal left the Laurel Players with nothing to do but stand there, silent and helpless, blinking over the footlights of an empty auditorium.” Revolutionary Road – Richard Yates

    “No dia seguinte ninguém morreu.” As intermitências da Morte – José Saramago

    “You don’t know about me, without you have read a book by the name of The Adventures of Tom Sawyer, but that ain’t no matter. That book was made by a Mr Mark Twain, and he told the truth, mainly.” The adventures of Huckleberry Finn – Twain

    “Num daqueles grandes prédios da Rua Gorókhovaia, cuja população chegaria para toda uma cidade de província, Iliá Ilitch Oblomov estava deitado na cama, no seu apartamento.” Oblomov – Ivan Gon(t)charov.
    Livro sublime que na sua última edição em português (Tinta-da-China) tem a cada linha inúmeras gralhas e não só. Sendo um livro monumental em criatividade e talento (e em termos de preço), julgo que os leitores mereciam melhor. Muito melhor.

    “Last night I dreamt I went to Manderley again…”Rebecca – Daphne du Maurier
    De cor é o que sei. Mas a abertura de Middlemarch é muito boa também, assim como O coração é um caçador solitário.
    Pedro, para além da beleza nestas frases podem também descobrir-se livros excelentes

    1. É verdade, Catarina. A frase inicial desse romance de Saramago – de que gostei muito – transporta-me para outra, que considero igualmente inesquecível: a primeira frase do romance ‘Alegria Breve’, de Vergílio Ferreira:
      “Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher?”
      Uma frase muito “camusiana”.
      É como diz: estas frases podem conduzir-nos a livros excelentes.

  12. Isto está tão animado que ainda aqui volto para pôr dois livros que adorei ler depois de ver os respectivos filmes:
    – “Last night I dreamt I went to Manderley again.”
    Rebecca, Daphne du Maurier
    – “I had a farm in Africa at the foot of the Ngong Hills.”
    Out of Africa, Karen Blixen.
    🙂 Antonieta

  13. Antonieta,
    estamos em sintonia!
    Ia escrever a primeira frase de Peter Pan e apercebi-me que havia chegado antes de mim.
    Agora escreveu uma “minha” de Du Maurier.
    De facto, isto está tremendamente animado 🙂 E que bom é.

      1. Então já somos três: o Pedro, o Paul Auster e eu!
        E o Paul Auster também tem alguns bons começos de livros – não sei é nenhum de cor…
        🙂 Antonieta

        1. Sim, o Paul Auster é um exímio colecionador de coincidências.
          Gosto muito deste início do seu romance ‘A Música do Acaso’:
          «Durante um ano inteiro não fez outra coisa senão guiar, viajando para trás e para a frente pela América enquanto esperava que o dinheiro acabasse.»

          1. Sim, esse é muito bom. Já me apetecia ler um novo livro dele – era costume haver sempre um livro novo em Outubro.
            🙂 Antonieta

          2. Por casualidade, tenho cinco livros de momento na mesa de cabeceira que começam assim:

            «Megan e Ira Moran tiveram de ir a um funeral em Deer Lick, na Pensilvânia.»
            (‘Exercícios de Respiração’, Anne Tyler)

            «Kern despertou, num sobressalto febril, e pôs-se atentamente à escuta.»
            (‘Desenraizados’, Erich Maria Remarque)

            «Posso não estar bom da cabeça, mas tudo me parece claro, pensou Moisés Herzog.»
            (‘Herzog – Um Homem do Nosso Tempo’, Saul Bellow)

            «Uma pessoa vê-se ao espelho e trata-se mesmo por tu, com confiança, o espelho não tem moldura, nem começa nem acaba, ou tem, tem uma moldura primorosa, dourada com paciência, e de ouro, mas o estanho não é de boa qualidade e a imagem que devolve mostra as feições amargas e desfiguradas,pálidas e como de ter dormido mal, ou, melhor, o que sucede é que devolve a atónita face de um morto ainda mascarada com a careta do medo à morte, é possível que tu estejas morto e não o saibas, os mortos também ignoram que o estão, ignoram absolutamente tudo.»
            (‘São Camilo, 1936’, Camilo José Cela)

            “Nem todos conhecem a história de como matei o velho Phillip Mathers, esmagando-lhe o maxilar com uma pá; mas primeiro será preferível que vos fale da minha amizade com John Divney, pois foi ele quem deitou Mathers ao chão, desferindo-lhe um forte golpe no pescoço com uma bomba para bicicleta que ele próprio fizera a partir de uma barra de ferro oca.»
            (‘O Terceiro Polícia’, Flann O’ Brien)

          3. Não li nenhum destes livros, embora conheça bem os 4 primeiros autores e espere vir a conhecer o último.
            Acabei hoje o livro do McEwan e gostei muito, mesmo muito.
            Continuo a ler as crónicas e os contos do Nelson Rodrigues e vou começar as ‘Viagens com o Charley’ do Steinbeck que, por acaso, também tem um belo início.
            🙂 Antonieta

            PS: É óptimo ver um post literário com tantos comentários, não é?

    1. Sim, é verdade. A popularidade de Tolkien deriva talvez disso: da capacidade de recuperar a magia das narrativas infantis, transpondo-as para um mundo também capaz de seduzir adultos.

  14. Ou
    “Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile : “Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués.” Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier”
    Nem só de livros aventuras vive o homem

    1. Esse é um dos mais fortes parágrafos iniciais de sempre em qualquer conto, novela ou romance. Camus, aliás, é um dos meus autores de cabeceira. Como se nota por exemplo aqui:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5385923.html

      Deixo esse início d’ O Estrangeiro para algum colega de blogue que quiser mencioná-lo. Mas se não houver ninguém avanço eu, com todo o gosto.

  15. Ou seguindo numa veia francofona:
    “Vendredi soir, j’étais invité à une soirée chez un collègue de travail. On était une bonne trentaine, rien que des cadres moyens âgés de vingt-cinq à
    quarante ans. À un moment donné il y a une connasse qui a commencé à se déshabiller. Elle a ôté son T-shirt, puis son soutien-gorge, puis sa
    jupe, tout ça en faisant des mines incroyables. Elle a encore tournoyé en petite culotte pendant quelques secondes, et puis elle a commencé à se resaper, ne voyant plus quoi faire d’autre. D’ailleurs c’est une fille qui ne couche avec personne. Ce qui souligne bien l’absurdité de son comportement.”
    (Visto que este é mais dificil, dou a referência: L’extension du domaine de la lutte, MIchel HOUELLEBECQ)

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