Os espanhóis são parecidos com os portugueses; nós somos mais franceses


Luís Naves,

Um dos elementos bizarros da crise política na Catalunha é a retórica dos independentistas radicais sobre a Espanha, como se esta fosse uma nação repressora e autoritária, atrasada e pobre, que a desenvolvida e avançada nação catalã arrasta como um fardo. Existe outro lado, talvez ainda mais sinistro e demagógico: estas ideias científicas do líder republicano Oriol Junqueras, numa polémica de 2008, são bem o espelho do que verdadeiramente pensam alguns destacados separatistas. O líder republicano catalão estava convencido de que pertencia a uma raça de certa forma superior. Também se entende o que ele pensava dos portugueses, esses pequenos trogloditas tão semelhantes aos bárbaros espanhóis (leiam o último parágrafo). A crise política catalã está a ser interpretada por alguns dos nossos intelectuais como uma coisa democrática e engraçada, de umas pessoas sofisticadas que querem o direito ao voto, apesar de vermos em cada dia exactamente o inverso. A esquerda continua a usar dois pesos e duas medidas em relação aos nacionalismos: há quem possa ser nacionalista, racista e burro, tudo ao mesmo tempo, sobretudo se estiver a lutar contra a liberdade; já defender o Estado de Direito e, em simultâneo a nação, isso parece ser repressivo e perverso. As democracias já perderam e isto é apenas o início de um movimento populista que visa a fragmentação acelerada da Europa, que se pode partir numa galáxia de micro-Estados.

Vitória amarga


Luís Naves,

As sondagens à boca das urnas apontam para uma surpresa relativa nas eleições legislativas alemãs: o resultado da grande coligação que estava no poder é péssimo, o pior de sempre; somados, os dois grandes partidos do bloco central alemão (CDU, SPD) terão pouco mais de 53% dos votos, menos 14 pontos percentuais do que em 2013. A extrema-direita populista entra no parlamento quase a triplicar a votação anterior, quando falhou por um triz a barreira dos 5%. A fragmentação do novo parlamento obrigará a chanceler Angela Merkel a uma coligação potencialmente instável, que exigirá longas negociações, provavelmente a chamada coligação Jamaica, que incluirá cristãos-democratas, liberais e verdes. A confirmarem-se os resultados (e falta a contagem de deputados), a Alemanha terá um governo complicado, com dois pequenos partidos minoritários que discordam entre si em numerosos assuntos, além de uma oposição feroz.
As sondagens falharam, os analistas e os políticos subestimaram o descontentamento popular, a imprensa deixou de entender os verdadeiros sentimentos da opinião pública (e nem quer saber). A bolha em que vivem as elites políticas começa a ser perigosamente distante da realidade em que vivem os desfavorecidos. Na sondagem à boca das urnas que a BBC está a usar, a CDU terá apenas 33% e o SPD foi cilindrado. O voto de protesto (AfD e Linke) soma quase um eleitor em cada quatro, o que parece ser uma proporção enorme para um país em excelente situação económica.
Nos últimos meses, houve entre os comentadores uma espécie de euforia europeísta. Segundo essa narrativa, estava tudo a correr maravilhosamente, sob a batuta da nova líder do mundo livre; os indicadores favoráveis demonstravam que era possível avançar com as utopias de federalismo europeu. Todos os discursos esqueceram os eleitores, esse pequeno detalhe. Afinal, o descontentamento dos perdedores da globalização não desapareceu, há muitas pessoas que recusam as ideias internacionalistas e que olham com desconfiança para o que consideram ser a diluição da sua identidade. Merkel teve uma vitória escassa e a Alemanha entra num período de política mais crispada. Será também interessante observar amanhã a reacção dos mercados, se começa ou não a reinstalar-se algum nervosismo.

 

O problema não é o sonho


Luís Naves,

Tenho dificuldade em perceber os duplos critérios da esquerda bem-pensante. Os nacionalistas polacos e húngaros são péssimos, já os nacionalistas catalães são espectaculares. Um país considerado mau não pode atrever-se a legislar sobre o seu sistema judicial, tratando-se de intolerável violação dos valores europeus, mas um governo regional considerado bom pode desafiar o juiz, as decisões do tribunal constitucional e ainda ignorar o parlamento eleito e as instituições, sendo qualquer punição das ilegalidades considerada absurda (a lei não é igual para todos). Percebo que haja na questão catalã forte dose de romantismo, mas não entendo as interpretações de moralidade, de preto e branco, de quente e frio, sobretudo quando se acumulam notícias sobre a forma como estão a ser tratados na Catalunha todos aqueles que discordam dos independentistas: eles sofrem abusos verbais, intimidação e gritaria.
Vamos fazer um pequeno exercício mental, admitindo que isto da independência avança num prazo de seis meses, com proclamação unilateral semelhante à de 1934, que colocou um prego bem forte no caixão da II República espanhola. Nesse cenário felizmente hipotético, a Espanha entrará numa espiral de instabilidade e de empobrecimento acelerado. Haverá problemas legais e uma barafunda financeira. As consequências económicas serão calamitosas, no mínimo uma recessão prolongada. As ilegalidades só podem ter uma opção a nível europeu: a Catalunha fica fora da UE e haverá vários Estados a apoiar a Espanha na punição dos soberanistas, que terão escassa probabilidade de reconhecimento internacional. O efeito dominó de movimentos independentistas será perigoso para a Europa.
Do ponto de vista português, a equação devia ser simples, mas lendo os comentários das notícias sobre a Catalunha, julgo que a nossa opinião pública não estará a ver bem o filme: Portugal deve ter medo do fortalecimento excessivo da Espanha, mas sobretudo da sua fragilidade. Se a Espanha entrar em crise, isso só pode ter consequências graves para nós. Tudo o que implique a dissolução do país vizinho devia parecer-nos uma ameaça, para mais quando o processo de separação está a ser conduzido por radicais cujo objectivo não se entende. Os catalães querem ser mais pobres e menos livres? Querem arrastar o país para uma nova guerra civil? Acabar com a democracia espanhola? Ao contrário do que li num texto sobre o tema, sonhar nunca foi irresponsável, sonhar é gratuito e livre. O problema não é o sonho, é a realidade.

O independentismo folclórico


Luís Naves,

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região. A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em voltar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra. Entre os nossos comentadores da esquerda surge entretanto uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podíamos acrescentar o exemplo do Brexit. É este o grande enigma contemporâneo: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

 

Os radicais


Luís Naves,

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina.

A União Europeia não se leva a sério


Luís Naves,

A União Europeia não consegue ser levada demasiado a sério pela razão simples de produzir uma anedota como esta, que pretende ser um ranking das cidades europeias no domínio da cultura e da criatividade. Lisboa dá um baile a Hamburgo, que tem uma nova casa de ópera, mas também damos banho a Barcelona e (pasme-se) a Viena e até a Roma. Claro que estas coisas são depois utilizadas pelos nossos alucinados e panglossianos como prova de que tudo corre maravilhosamente. Abrimos as notícias locais e Portugal é uma festa e somos uns pândegos; os nossos intelectuais, com ajuda preciosa dos peritos europeus, garantem que bastava elevar a autoestima dos portugueses até à região orbital do delírio e daí resultava o milagre da multiplicação dos pães. Estive três semanas sem internet, reduzido a uma rádio governamental de um país protofascista e só ouvi duas notícias sobre Portugal: uma de fogos calamitosos e outra sobre a queda de uma árvore em cima de uma multidão, acidente que se deu apesar de múltiplos avisos. De facto, não nos falta criatividade para o desastre e, em termos de cultura, parecemos consistentes, trata-se de insistir no mesmo erro de bater com a cabeça na parede até à insensibilidade; quando se bate muito, muito, muito, acaba por não doer. E, no intervalo, os óculos cor-de-rosa que nos oferece a Comissão ajudam a aliviar os sintomas.

Memória da Graça


Luís Naves,

Estão a arder alguns lugares onde passei parte da minha infância: ocorrem-me as primeiras memórias, a minha avó, a minha mãe. A primeira vez em que percebi o tamanho do mundo estava na orla de um imenso pinhal (era imenso porque eu devia ter uns três ou quatro anos), e os troncos erguiam-se como se fossem pilares de uma catedral cujo tecto filtrava a luz em pequenos fios oblíquos; e o solo, repleto de fetos, tinha um ligeiro declive que me fascinou intensamente. Lembro-me do cheiro da terra e do perfume único dos pinheiros e de uma voz ao fundo, muito ao fundo, para lá de uma barreira em que terminava a floresta e se alongava uma vastidão ignorada, onde se propagavam as vozes estranhas e fantasmagóricas de não sei quem, numa língua desconhecida e com os seus dramas próprios. O pinhal ficava ao lado da casa da minha avó, nos confins da aldeia onde ela era professora primária e, um pouco afastada, talvez a dois ou três quilómetros, ficava a aldeia da Graça, que por estes dias esteve na rota do fogo e onde anos depois estudei, com pouco êxito, a catequese. Ainda hoje confundo algumas das rezas fundamentais, que nunca penetraram completamente neste meu crânio duro e mau, talvez por culpa do padre Aníbal, a quem a minha avó chamava sarcasticamente o padre animal. Lembro-me da luz pura e dos campos fragmentados, lembro-me da estrada em macadame e da pobreza, lembro-me das casas em pedra, dos currais, do porco Príncipe Perfeito que nós, as crianças, torturávamos com alegria; lembro-me dos campos lavrados, do milho alto, mas não tenho memória do calor extremo. Eram tempos mais amenos, parece-me, a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela e se pedia linha à telefonista; lembro-me de tudo isso e muito mais, da sujidade e da água, das estrelas no céu e da lua cheia em que passeavam astronautas, lembro-me do foguetão que fizemos com pólvora e em cuja explosão pereceram duas baratas; lembro-me do peru voador e dos miúdos camponeses, da escola e do meu fascínio pelas letras escritas a giz no quadro negro; estas aldeias tinham muitas histórias, da velha que matava galinhas com o olhar, do regresso dos franceses, do escândalo que foi a minha tia a bronzear-se ao sol em biquíni, as invejas e as guerras por terra e água, o bailarico e o vinho, as velhas de negro, as vidas duras e secas, o ocasional fogo ao longe, mas isso já era mais raro que o resto, que era a vida de então, existência entretanto extinta e lembrada apenas em imagens fugitivas que se vão perdendo. Sim, não havia as temperaturas de hoje, não havia as calamidades florestais de hoje, aquele mundo desapareceu mesmo, como certamente há muito tempo se terá esfumado mais aquele chão de floresta à beira da estrada e ao lado da casa agora em ruínas, o gigantesco pinhal em que pela primeira vez pressenti a dimensão do mundo.

Exemplo de ser português


Luís Naves,

Li na imprensa que um homem foi detido e levado a tribunal por furtar um saco de morangos no valor de 2,5 euros. Isto aconteceu no mesmo país onde se reclamam inocentes todos os banqueiros que estoiraram com bancos inteiros e ainda governantes que se governaram em contas bancárias de milhões que não estavam em seu nome, sem falar nos gestores cujas empresas têm lucros garantidos à custa do bolso de todos, mediante leis devidamente fabricadas para o efeito, pois esfolar legalmente um país inteiro não é crime.

Este é o mesmo país onde vão presos ladrões de morangos e ficam à solta os benfeitores que nos roubem a valer; um país que se habituou aos grandes ladrões a quem chama doutores, mas que não tolera o pequeno furto de morangos feito por amadores; boa pátria para quem a desfruta, mas de mão pesada para quem cobiçar fruta, ou neste caso, o fruto acessório agregado, o que a botânica diz que um morango é.

Pois neste país tudo pode ser, no fundo, acessório agregado, se visto do ponto de vista das elites que nos sacam, retirando as partes carnudas do corpo da nação sem que isso constitua furto ou delito, o mesmo não se dizendo para quem de repente, saltando uma simples vedação, levar um saco com morangos que, sendo propriedade privada, merece exemplar repressão, enfim, para dar o exemplo sem explicar os porquês. O exemplo de quem pode mandar e o exemplo de quem deve obedecer, de quem tem e de quem deve. Um exemplo, enfim, de ser português.

Supremacia


Luís Naves,

Donald Trump decidiu retirar os Estados Unidos do acordo de Paris sobre alterações climáticas e segundo uma das críticas mais comuns, o presidente americano está a abdicar da hegemonia da superpotência e a dar de barato à China a supremacia mundial. As pessoas estiveram mesmo muito distraídas durante a campanha: Trump cumpriu uma das promessas centrais que fez aos americanos e esta administração será isolacionista, ou seja, o presidente quer mesmo reduzir a exposição do seu país aos assuntos globais, escolhendo apenas as lutas que lhe interessam e não entrando em todas. Isto é uma estratégia, não é um efeito secundário.

Um dos maiores problemas dos impérios do passado foi a sobre-extensão, ou seja, o envolvimento em demasiados conflitos ao mesmo tempo, com a respectiva dispersão de recursos e constante aumento dos custos imperiais. Provavelmente, Trump ponderou uma divisão de tarefas com a Rússia, mas este prolongamento de Ialta é hoje politicamente impossível, pois os democratas no Congresso entram em histeria com tudo o que envolva Moscovo, o que certamente terá efeitos para além desta administração.

É preciso reler O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington. A China não estará interessada em ter um papel global e os europeus parecem ter entrado em pânico com os primeiros sinais do isolacionismo, que foi sempre uma das tendências da política americana, embora raramente dominante na Casa Branca. A saída do acordo de Paris é um erro que deve ser criticado pelo efeito desastroso que pode ter na segurança de centenas de milhões de futuras vítimas de secas e tempestades. A América também se arrisca a perder a liderança no abandono da economia do carbono, mas a tese da loucura não é satisfatória: as promessas de Trump foram no sentido de aumentar o isolamento dos EUA, reduzir a extensão imperial e manter alianças suficientes para garantir a supremacia. Ao mesmo tempo que abandona acordos multilaterais, a Casa Branca reforça o investimento nas forças armadas. E tudo isto foi a votos.

Grandes ilusões e memória curta


Luís Naves,

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Durante setenta anos, a Europa Ocidental esteve sob protecção americana, com o evidente resultado de um prolongado período de paz e prosperidade. Esta aliança resistiu a todas as administrações, a várias crises (Suez, Berlim, Cuba, Kosovo), mas a chanceler Angela Merkel parece acreditar que é altura de tentar outra coisa: ela disse ontem que “os tempos em que podíamos confiar totalmente em outros [países] acabaram”, numa referência ao Reino Unido e aos EUA, aqueles por quererem abandonar a UE, estes por não cederem às posições europeias em matéria de globalização, financiamento da NATO e alterações climáticas.

O que a chanceler sugeriu, e que entretanto foi suavizado, corresponde à aparente subversão da ordem mundial definida em Ialta pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial, devendo os europeus definir no futuro o seu destino. Essa conferência ainda não foi revogada e os vencedores são os mesmos (a Rússia é a herdeira legal da URSS). Para mais, a chanceler falou em nome dos ‘europeus’, não usando a expressão ‘nós, os alemães’. Ao considerar que já não se pode contar, como antes, com os aliados ingleses e americanos, assumindo-se como suposta ‘líder europeia‘, Merkel repetia uma ideia que faz o seu caminho na eurocracia: os principais obstáculos ao futuro da Europa são as nações que a compõem; se queremos mais integração e segurança, temos de vencer os nacionalismos.

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente numa separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães; a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, mais o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão; a Turquia não conta.

Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os derrotados num conjunto onde os vencedores seriam sempre dominantes. Não se percebe se a tese de Merkel é pacifista, mas há nas declarações um óbvio cálculo eleitoral de conquista de votos à esquerda. No seu partido, isto deve ser controverso, mas o mais incompreensível é o entusiasmo da esquerda europeia, talvez por causa do anti-americanismo. Na UE, os partidos de esquerda estão a dividir-se em relação à ortodoxia comunitária, os radicais a recusarem o europeísmo e a corrente social-democrata a trair os trabalhadores que foram sempre a sua base social, aplaudindo cada nova vitória dos conservadores ou dos social-liberais, enfim das forças pró-globalização. Para quem toma decisões, grandes fatias do eleitorado deixaram de contar.

Neste contexto, a ambição de levar a União Europeia para um caminho estratégico autónomo é mais um passo na direcção do beco sem saída. Podemos não gostar de Trump, mas abandonar uma aliança com os Estados Unidos que correu bem durante setenta anos, em troca de uma aventura que nem aos alemães convém, só pode ser uma grande ilusão ou um erro monumental.

Camilo e a mesa


Luís Naves,

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Este post do Pedro Correia sobre o humor e a gastronomia na literatura suscita algumas observações, sobretudo em relação ao caso de Camilo Castelo Branco. Parece evidente que Camilo tinha um terrível humor sarcástico, mas não acho tão óbvio que se interessasse grandemente por gastronomia. Os exemplos em que o autor se refere a comida podem dar para um volume, mas isso deve-se mais à vastidão da obra do que a um interesse particular. Dos quase 200 títulos de Camilo (talvez mais de 150 volumes) não se extraem muitos elementos sobre as funções básicas da natureza humana. É difícil, por exemplo, perceber como é que as pessoas se lavavam, saber pormenores de higiene ou qual o valor relativo de um objecto, em comparação ao salário de um camponês. Esse tipo de informação pode extrair-se da obra de Balzac, mas no caso de Camilo é difícil, pois sabemos a renda das quintas sem sabermos coisas menores, por exemplo o custo de uma galinha ou o preço de um fato.

Claro que há referências a gastronomia, mas julgo que têm geralmente uma função narrativa. Estou a lembrar-me de uns pastéis em A Brasileira de Prazins ou das opíparas refeições do falso D. Miguel no mesmo romance: aquilo serve como comédia. Há referências a glutões e a banquetes, um piquenique em Coisas Espantosas, ocasionais autênticos petiscos nas miscelâneas, mas na maioria dos livros de Camilo não encontramos qualquer referência a refeições; quando estas existem, as cozinheiras são trabalhadoras do povo mais interessadas em sexo (Anátema) ou a comida não merece descrição especial, a ponto de não reconhecermos variantes regionais.

O modo de fazer está ausente e Camilo é um provinciano que desconfia das novidades da culinária francesa, veja-se esta passagem de O Sangue: “Quem come francêsmente cria alma; corpo é que não. Aquele magro molho em que bóiam cascas farináceas não entulha os ductos da intelectualidade. A víscera vital por excelência não escoiceia o vizinho de cima, como sucede nos casos em que o esófago arfa sacudido pelo estômago repleto de fibrina. O coração agita-se docemente quando o novo quilo se está elaborando”. Enfim, o escritor, aqui narrador, não acredita nas subtilezas dos sabores, mas apenas no coice intelectual da proteína, nas virtudes substantivas do colesterol e, acima de tudo, na luxúria da linguagem e do estilo.

Em O Santo da Montanha, há duas cenas à mesa, mas a primeira serve para o encontro entre as personagens, a segunda para a tragédia, com uma descrição alimentar pouco abonatória. Neste romance (um dos meus favoritos na parte que conheço da obra de Camilo), a comida que surge na primeira refeição parece antecipar a desgraça futura das personagens, quando os leitores ainda não sabem que se trata de uma história de ciúmes assassinos: “Abancados à tosca mesa, cuja toalha tresandava ao fartum do azeite e bacalhau, apareceu a travessa fumegante com duas galinhas, sobre as quais se levantava uma pirâmide de três salpicões, assentes num grosso lardo de toucinho”. A descrição tem um elemento substancial, quase doentio, e intenção repugnante (não quero exagerar, mas talvez isto seja alusão inconsciente ao horror do sexo), como se houvesse aqui um aviso do escritor para as personagens se afastarem umas das outras, pois nesta altura ainda vão a tempo de o fazer.

Podia referir outros exemplos de excertos da obra de Camilo onde a comida tem função narrativa, caracteriza a classe social das personagens, introduz um momento de humor ou é mera decoração de uma cena burguesa. Há também citações sobre fome, mas julgo que Camilo estava longe de se interessar por gastronomia ou culinária. O que explica a aparente abundância de referências a comida é a dimensão invulgar da obra, sobretudo dedicada à violência, ao amor, à maldade, à hipocrisia, enfim, às paixões e ao destino.

Algumas observações soltas sobre as eleições francesas


Luís Naves,

1

A paisagem política francesa mudou na primeira volta das eleições presidenciais, com a compressão dos dois maiores partidos (socialista e republicano, ou gaulista) que dominaram durante meio século um sistema quase perfeito de alternância. Quando um estava no poder, o outro chefiava a oposição. Desta vez, foram ambos afastados da segunda volta, o que corresponde a uma situação inédita.

 

2

O eleitorado está agora dividido em quatro grandes blocos, todos semelhantes: a esquerda, o centro, a direita e a extrema-direita, tendo passado à segunda volta os representantes do segundo e do quarto. Marine Le Pen é a candidata da ruptura e do protesto, mas também da oposição ao consenso europeu; Emmanuel Macron representa a ortodoxia europeia e concorre prometendo reformas de inspiração liberal. Independentemente do vencedor, a França está agora mais à direita e o presidente terá dificuldade em reunir uma maioria nas legislativas, que se realizam um mês depois da segunda volta. Para já, os dois partidos derrotados vão aconselhar o voto em Macron, mas não têm grande interesse em que ele consiga uma maioria demasiado expressiva, apenas a suficiente.

 

3

O discurso de Le Pen já não é propriamente de extrema-direita, mas populista: a candidata da Frente Nacional apoderou-se dos temas preciosos da esquerda radical, nomeadamente contestando o liberalismo financeiro e os seus efeitos no encerramento de indústrias e na destruição de empregos. Ela diz-se a candidata do povo e a sua mensagem será simples: o adversário é um privilegiado e ex-banqueiro; o modelo económico liberal, associado à globalização descontrolada, está na base do declínio da França e da pobreza crescente de muitos eleitores, sem perspectivas de emprego ou de progresso social num dos países mais ricos do mundo. A intenção é conseguir que a esquerda se abstenha, mas Le Pen terá de atrair o voto da direita (difícil) e não pode abandonar o tradicional discurso nacionalista do seu partido. Sem grandes hipóteses de vencer o rival, a candidata tentará tornar-se a líder da oposição em França, levando a FN a maior partido.

 

4

Emmanuel Macron é o quase inevitável vencedor, mas já cometeu o erro de fazer um discurso de vitória na primeira volta que mais parecia o discurso de vitória na segunda volta. Macron representa a última chance de se fazerem as reformas de que o país necessita, mas não terá tarefa fácil, devido à falta de experiência e à ausência de máquina política: o seu movimento é uma espécie de ‘albergue espanhol‘ que deverá incluir socialistas, centristas e republicanos. Quando for eleito, Macron vai reforçar o eixo Paris-Berlim, garantindo à partida a hostilidade da Frente Nacional e dos partidos esquerdistas que resultarem da insurreição protagonizada pelo quarto classificado na primeira volta, Jean-Luc Mélenchon, que conseguiu estilhaçar o PS. As duas rebeliões (à direita e à esquerda) vão comprimir ainda mais o bloco central que se está a formar em torno do provável novo presidente.

 

5

Estas eleições revelaram a enorme desconfiança dos franceses em relação à Europa, da ordem de 45% do eleitorado, e o profundo descontentamento de franjas importantes da população. Estas pessoas, pertencentes ao que antes se chamavam ‘as classes trabalhadoras’, sentem-se inseguras e desprezadas; já não falam a mesma linguagem das elites e da classe média, grupos que parecem viver numa bolha de esplendor indiferente à sorte destes perdedores. A clivagem atingiu patamares alarmantes e promete reaparecer em futuras votações, mas também na discussão política (uma paixão francesa) ou ainda em protestos de rua. Poderá ainda agravar-se o clima de insegurança que resulte de eventuais atentados terroristas. O sistema político está paralisado e não favorece um processo coerente de reformas. Estamos provavelmente a assistir ao estertor da Vª República, que foi criada para estadistas da dimensão do general De Gaulle, mas que não poderá suportar um quarto episódio consecutivo de um presidente fraco no Eliseu.

O futuro da esquerda


Luís Naves,

Torna-se cada vez mais evidente a divisão central da esquerda: de um lado, está o governo, que defende e diz aplicar a ortodoxia europeia; do outro, Bloco e PCP, que suportam o governo e que, embora calados no essencial, são ideologicamente contrários a essa ortodoxia. O problema não é um exclusivo nacional e pode ser encontrado, em todo o seu esplendor, nas eleições presidenciais francesas. Segundo as sondagens, o voto socialista divide-se ali em três interpretações sobre o cumprimento de metas europeias de despesa pública, dívida e reformas estruturais. Muitos dos eleitores socialistas que em 2012 deram a vitória a François Hollande deverão votar em Emmanuel Macron, defensor do Tratado Orçamental. O candidato oficial do PS francês, Benoit Hamon, que quer regras europeias mais suaves, aparece entretanto nas sondagens com uma votação residual que poderá resultar em forte humilhação para o partido. Outra parte substancial do eleitorado socialista irá para o candidato da extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon, um populista que contesta as regras de Bruxelas e surgiu nesta campanha a criticar as elites. A primeira volta das eleições francesas pode ser o modelo do futuro da esquerda portuguesa (veja-se como Hamon tentou fazer a ‘geringonça‘ e não conseguiu convencer Mélenchon a desistir). Na política caseira, não será possível manter por muito mais tempo a ficção de que se é contra a ortodoxia europeia, enquanto se elogia o rigor dos orçamentos e o cumprimento dessas regras. A narrativa de que vão lá bater o pé aos europeus é patética e a extrema-esquerda pode escolher o momento em que assumirá a sua oposição a uma política que considera ser a verdadeira calamidade. A táctica é efémera e muda conforme as oportunidades: se o governo de Costa falhar como fracassou Hollande, não terá desculpas, e o PS enfrentará uma ameaça existencial que pode ser semelhante à de um partido, o PS francês, que sempre imitou.

Uma crise sistémica é mais ou menos isto…


Luís Naves,

A aparente falência do sistema após a crise de 2008 está a deixar marcas na política e criou no eleitorado um sentimento de profunda desilusão, até de cinismo, em relação à qualidade das suas elites. O fenómeno é visível em vários países e não tardará a chegar a Portugal. O facto é que, nos últimos vinte anos, os poderosos mentiram de várias maneiras: os banqueiros assaltaram os bancos, os partidos dedicaram-se à intriga, o bom empresário era aquele que despedia, os intelectuais escreveram sempre as mesmas coisas inócuas e prudentes, as leis não foram iguais para todos e a opinião do povo foi ignorada ou desprezada, conforme fosse conveniente para os rituais democráticos das consultas regulares. A vaga de populismo que resulta deste vapor acumulado começa agora a alarmar as oligarquias. Em França, somadas as intenções de voto dos candidatos presidenciais que defendem a ruptura, encontramos a extraordinária proporção de 45%. Os restantes candidatos prometem, no mínimo, fazer reformas. É certo que as sondagens devem ser interpretadas com cautela, já que 36% dos eleitores que vão votar decidirão à boca das urnas, mas isso apenas indica que o voto de protesto pode ser pior do que se imagina. É cada dia mais óbvio que estamos a viver uma mudança sem paralelo, pelo menos no tempo de uma geração: vemos o apagamento dos partidos tradicionais, a contestação radical do modelo económico triunfante nos anos 80 e do multiculturalismo que há 40 anos domina todo o pensamento, a ponto de se ter tornado uma ideologia fraca, mesmo assim quase indiscutível, que criou a sua própria linguagem repleta de reticências e de eufemismo.

Corrida a quatro


Luís Naves,

Faltam três semanas para a primeira volta das presidenciais francesas e, tendo em conta a elevada proporção de indecisos, as sondagens devem ser lidas com um grão de sal (no mínimo), mas o facto é que dizem todas mais ou menos o mesmo: o jogo não está decidido e há uma mudança na recta final. Os debates na televisão podem ter sido importantes, pelo menos no caso de Jean-Luc Mélenchon, candidato radical de esquerda, e de François Fillon, de centro-direita, que parecem ter beneficiado nos confrontos. Ambos estão a subir nas sondagens, embora ainda na zona de exclusão da segunda volta.

Tudo indica que existe uma relação entre o voto em Mélenchon e o voto no candidato socialista, Benoit Hamon. Quando um sobe, o outro desce na proporção equivalente. Se olharmos para os inquéritos, verificamos que a soma dos dois é consistente, em torno dos 25 ou 26% das intenções de voto. Sendo assim, um socialista que considere o seu candidato derrotado, tenderá a votar útil, ou seja, no candidato mais semelhante ao seu. Mélenchon tem, assim, boas hipóteses de atingir 22-23%.

O mesmo raciocínio pode ser usado para François Fillon e Emmanuel Macron. O republicano e o centrista disputam a votação moderada, sobretudo na direita, já que Macron parece ter a preferência dos partidos centristas, que são pequenos, e dos socialistas moderados (o PS está dividido). Durante semanas, Macron atraiu o voto de republicanos desiludidos por causa do escândalo dos empregos fictícios, mas o facto é que este eleitorado não ficou convencido e não haverá voto útil. A soma dos dois candidatos é consistente, em torno de 42-43%, sendo admissível que a coisa se divida em duas metades, algo como 21%, ou um pouco mais.

O terceiro bloco de votos escolhe Marine Le Pen e desceu ligeiramente por causa dos debates, mas este eleitorado está mais do que convencido. A candidata terá, na pior das hipóteses, 22 ou 23%. Tendo em conta as margens de erro, a admitir a transferência de votos no eleitorado de esquerda e a recuperação por Fillon dos republicanos que Macron não convenceu, é fácil admitir que qualquer um destes quatro candidatos pode seguir para a segunda volta, incluindo-se aqui o filme de terror de um eventual duelo entre Mélenchon e Le Pen, que daria à França a certeza absoluta de eleger um péssimo presidente.

Muita areia para a nossa camioneta


Luís Naves,

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Ontem à noite, ouvi o comentador Miguel Sousa Tavares fazer um duro ataque à Hungria de Viktor Orbán. O jornalista falava sobre a discussão do futuro da Europa e, sem motivo óbvio, começou a desancar nos húngaros, misturando alhos com bugalhos. Não vou citar entre aspas, mas a ideia era mais ou menos esta: a Hungria não cumpre os valores europeus, logo, coloca-se a questão: o que é que estamos a fazer numa Europa que mantém gente desta?

Em relação à discussão sobre o futuro da Europa, ainda não ouvi um único membro das elites intelectuais ou políticas a dizer com clareza o que deve Portugal defender. Miguel Sousa Tavares também parece não ter uma única ideia sobre isso, limitando-se a repetir a beatice nunca definida dos “valores europeus”. Afinal, o que são estes valores europeus? O que distingue a Europa do resto? Bem, a Europa não seria o que é se não tivesse cristianismo, capitalismo, a ideia do primado da lei, a diversidade, o racionalismo, separação de poderes e resistência militante à unificação política ou às tiranias. Ora, os países de Visegrado, que estão a ser tão vilipendiados, apresentam um plano baseado em alguns destes valores, nomeadamente a resistência ao federalismo, devolução de poderes aos parlamentos nacionais e criação de uma união de nações que permita manter o mercado único. Isso corresponde mais ou menos ao cenário dois do Livro Branco, que Bruxelas, obedecendo a Berlim, recusa à partida.

Podia tentar explicar aqui que a Alemanha quer mais federalismo, que a França (dos partidos tradicionais) parece defender uma tese de Europa a várias velocidades, que Portugal não tem opinião que se veja, que cresce a fractura entre pequenos e grandes, com a Polónia excluída da reunião de Versalhes e a juntar-se aos primeiros, até a liderar a rebelião. A Polónia, aliás, tem um governo conservador, católico, e o cristianismo é um dos valores europeus que pretende incluir na discussão, algo que franceses e alemães recusam. A equação sobre o futuro da Europa tem muitas incógnitas que complicam os cálculos nacionais: o papel da Rússia e a evolução da mini-Guerra Fria, o futuro da NATO e o aumento dos orçamentos militares, a velocidade a que as economias estão a sair da crise, a eventual não-sobrevivência da zona euro, os vários cenários de Brexit, a forma como os movimentos populistas podem moldar as decisões.

A reacção fácil a estas complicações é dizer que não queremos saber nada disto e que os eleitores estão errados em todo o lado. Falar destas coisas em Portugal começa a ser inútil, pois no comentário oficial dos meios de comunicação vai triunfando o velho preceito português de que a Europa é demasiado complicada para nós. O melhor é seguirmos o caminho das ilusões ultramontanas, arranjando uma desculpa qualquer, dizendo mal dos vizinhos, a bater no peito e a gritar que somos os maiores e, claro, antigos onde os outros são novos, que não nos aborreçam com assuntos.

Europa, Europa


Luís Naves,

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A Comissão Europeia (o seu presidente, Jean-Claude Juncker) publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. É um relatório muito relevante e recomendo a sua leitura. Infelizmente, os dirigentes que levaram a Europa a uma situação periclitante são os mesmos que querem agora controlar o debate sobre o que deve acontecer dentro de nove anos, questão que seria conveniente deixar para a próxima geração de políticos.

No documento do presidente da Comissão são incluídos cinco cenários de futuro: um de continuidade (como se fosse possível); outro de recuo para o mercado único (defendido pelos britânicos, está excluído pelo Brexit); o terceiro, de avanço mais rápido para uma vanguarda de países (possível); o quarto, visando a definição de ambições e o reforço da integração nesse núcleo central de problemas; o quinto, claramente federalista, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, que lhe dará mais poder, do qual se pode recuar para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública. Os outros dois cenários estão lá só para decoração.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, o resultado é fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE manterá o exclusivo dos acordos comerciais e terá normas europeias nas áreas onde estas ainda não existam (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência comum para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento da UE será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

Enfrentar os índios


Luís Naves,

 

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Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

A Carochinha e o João Ratão


Luís Naves,

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Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Ao mesmo tempo, o líder chinês, que comanda o Partido Comunista, é um generoso defensor das liberdades. Estas histórias da carochinha são defendidas pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

Talvez seja possível uma explicação alternativa da realidade: os eleitores estão a votar contra as elites que falharam durante a crise e estas tendem a defender o statu quo. Os eleitores têm memória, concordam com tarifas sobre carros importados do México porque esses veículos são fabricados por multinacionais que receberam subsídios para evitar a bancarrota, mas que usaram o dinheiro para despedir milhares de trabalhadores e transplantar as fábricas para o México. A administração Obama salvou bancos do colapso, mas ninguém salvou do colapso milhões de devedores americanos que perderam as suas casas e empregos, que conseguiram trabalho precário e com salários inferiores (com sorte, pois há sempre um ilegal que aceita metade do preço e que remédio tem ele, pois se levantar cabelo é denunciado e recambiado). Na Europa, aconteceu algo de semelhante: a finança foi salva, as dívidas dos Estados aliviadas, mas ninguém perdoou um tostão aos brancos pouco qualificados, que viram com alarme a crise migratória, pois os refugiados nunca são instalados em bairros de ricos.

É isto que explica a insurreição do eleitorado e a substituição das elites, mas esse processo é tratado na Imprensa como se fosse o início da Terceira Guerra Mundial. Nas eleições europeias que se aproximam haverá dois tipos de candidatos: liberais dos partidos centristas e críticos do liberalismo, de esquerda e direita. Nesse aspecto, Trump tem semelhanças com Bernie Sanders, que se tivesse ganho as eleições estaria a acabar com os mesmos tratados comerciais, sob o estrondoso aplauso dos meios de comunicação que arrasam o presidente proteccionista e isolacionista de direita.

Em 2017, nas eleições europeias, haverá cordões sanitários para impedir a vitória das formações de extrema-direita, mas as democracias não podem eternamente recusar-se a ouvir as razões de queixa dos perdedores do sistema, ou então devem retirar-lhes o direito de voto. Em Portugal, claro, onde a política é original (ou atrasada no tempo, não sei), o cordão sanitário, aqui chamado geringonça, já serviu para impedir o centro-direita de governar, para aplauso unânime dos que não estão a ver o filme.

Demagogos e populistas


Luís Naves,

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A ascensão dos populismos escapou a muitos autores e, pelo menos aqui na parvónia, surgem agora opiniões que demonstram perplexidade em relação às recentes votações no Reino Unido, EUA, Itália ou Áustria, como se a demagogia fosse um fenómeno desconhecido ou inédito nos países democráticos. Daí a importância deste texto de Rui Ramos, que tenta ir um pouco mais fundo na análise das mudanças em curso.

Não correram no passado rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror aos homens-fortes e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites fracas, que falharam em tudo na última década, querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação? Os comentadores acham que não é preciso mudar nada, mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política?

Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores: pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade. Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.