Estão a arder alguns lugares onde passei parte da minha infância: ocorrem-me as primeiras memórias, a minha avó, a minha mãe. A primeira vez em que percebi o tamanho do mundo estava na orla de um imenso pinhal (era imenso porque eu devia ter uns três ou quatro anos), e os troncos erguiam-se como se fossem pilares de uma catedral cujo tecto filtrava a luz em pequenos fios oblíquos; e o solo, repleto de fetos, tinha um ligeiro declive que me fascinou intensamente. Lembro-me do cheiro da terra e do perfume único dos pinheiros e de uma voz ao fundo, muito ao fundo, para lá de uma barreira em que terminava a floresta e se alongava uma vastidão ignorada, onde se propagavam as vozes estranhas e fantasmagóricas de não sei quem, numa língua desconhecida e com os seus dramas próprios. O pinhal ficava ao lado da casa da minha avó, nos confins da aldeia onde ela era professora primária e, um pouco afastada, talvez a dois ou três quilómetros, ficava a aldeia da Graça, que por estes dias esteve na rota do fogo e onde anos depois estudei, com pouco êxito, a catequese. Ainda hoje confundo algumas das rezas fundamentais, que nunca penetraram completamente neste meu crânio duro e mau, talvez por culpa do padre Aníbal, a quem a minha avó chamava sarcasticamente o padre animal. Lembro-me da luz pura e dos campos fragmentados, lembro-me da estrada em macadame e da pobreza, lembro-me das casas em pedra, dos currais, do porco Príncipe Perfeito que nós, as crianças, torturávamos com alegria; lembro-me dos campos lavrados, do milho alto, mas não tenho memória do calor extremo. Eram tempos mais amenos, parece-me, a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela e se pedia linha à telefonista; lembro-me de tudo isso e muito mais, da sujidade e da água, das estrelas no céu e da lua cheia em que passeavam astronautas, lembro-me do foguetão que fizemos com pólvora e em cuja explosão pereceram duas baratas; lembro-me do peru voador e dos miúdos camponeses, da escola e do meu fascínio pelas letras escritas a giz no quadro negro; estas aldeias tinham muitas histórias, da velha que matava galinhas com o olhar, do regresso dos franceses, do escândalo que foi a minha tia a bronzear-se ao sol em biquíni, as invejas e as guerras por terra e água, o bailarico e o vinho, as velhas de negro, as vidas duras e secas, o ocasional fogo ao longe, mas isso já era mais raro que o resto, que era a vida de então, existência entretanto extinta e lembrada apenas em imagens fugitivas que se vão perdendo. Sim, não havia as temperaturas de hoje, não havia as calamidades florestais de hoje, aquele mundo desapareceu mesmo, como certamente há muito tempo se terá esfumado mais aquele chão de floresta à beira da estrada e ao lado da casa agora em ruínas, o gigantesco pinhal em que pela primeira vez pressenti a dimensão do mundo.
Memória da Graça
Luís Naves,

O mundo rural foi condenado e assassinado e eucaliptizado, porque era obra fascista e salazarista que era preciso riscar do mapa.
Nem sequer merecia ser um mundo recuperado…miseráveis!
Viva a celulose!
Tal e qual! Partilho consigo essa sensação de estar muito longe do mundo, do outro mundo longínquo que eu imaginava por detrás das serras ao longe e que pensava haver do lado de lá o mar e outras coisas que nunca tinha visto.
E o cheiro dos pinhais e o verde dos fetos e a sensação de ser tudo tão grande dada a minha pequenês. E outros cheiros e outros sons e sobretudo o silêncio que nenhum motor se atrevia a cortar.
Havia ao final da tarde, o Sol caíndo nos pinhais que nos separavam da praia, um som de motor que estranhamente não agredia (ao longe, pelo menos, que era como o escutávamos quase sempre): o das moto-bombas que abastecendo-se na lagoa, em poços ou – mais lá para baixo – nos canais de irrigação dos campos do Liz, refrescavam os campos de milho. Era parte natural dos sons daquela hora e sinal para se pedalar para casa, banho e jantar.
Meados dos anos setenta, férias grandes de três meses e a adolescência. Creio que bem mais “adolescente” que a de hoje. De quem não será muito realista, suponho, esperar dentro de uns quarenta anos memórias destas.
Costa
O velho Portugal precisava ser cuidado, transformado, reciclado… não destruído:
Sines, celulose e asfalto até à boca e prego afundo.
Viva o eucalipto.
Belo texto, em que tanto me revejo por memórias similares.
Também tenho memórias muito parecidas. Toda a gente tem e é por isso que não conto as minhas. Não se costuma dizer: no meu tempo é que era bom (pelo menos eu era jovem e tinha forças e tusa. Mas agora…tristeza, já não se endireita).
lamento, espero que um dia a coisa se endireite
Obrigado. Depois de ler o da Patrícia Reis endireitou-se moderadamente. A culpa do moderadamente é minha, não dela.
Você lá insiste em disparatar…
Disparatar, eu? Ora, ora, não conheço a Patrícia mas pelas fotos acho que é uma grande mulher. E até pelo que escreve.
O amigo anónimo coloque o hino nacional a tocar. Quem sabe não tenha um instrumento nacionalista e a coisa possa erguer-se.
Se não resultar, tente o som da flauta do encantador de serpentes. Em última instância coloque o companheiro de árduas batalhas no congelador, e aí a coisa vai mesmo enrijar.
Fique triste não.
Vale a pena perder uns minutos para ler e reler este estupendo texto.
Que viagem boa à vereda das memórias.
Caríssimos, se há coisa de que tenho memória, aquando da minha infancia, é dos incêndios de Verão! Dos sinos a rebate, azáfama de bombeiros e populares. E umas pequenas avionetas em voos rasantes! Nas minhas aldeias, mais em Viseu, eram poucos os eucalíptos, mas também ardiam! Como ardiam, e rebentavam, os pinheiros e os carvalhos! A minha infancia já foi há muito tempo, há mais de quarenta anos!
Não quero falar sobre a dimensão da tragédia do Pedrógão, porque nem sei o que dizer! Das razões, não sei! As imagens, sem comentários, expõem suficientemente a tragédia! Aos comentários, nem os ouço!
a minha avó tinha um telefone em que se dava a uma manivela
Hmmm, o Luís Naves não estará a confundir a sua avó com um filme americano? É que, eu não devo ser muito mais novo que o Luís Naves, mas jamais vi um telefone a manivela em Portugal.
Não sei, lembro-me do telefone assim, é possível que seja uma falsa memória, mas não me parece. Não me lembro exactamente qual era a distância entre a Graça e Figueiró, mas devia ser pouco, deve ser de uma dezena de quilómetros. E não sei se a freguesia da Graça pertence a Figueiró ou a Pedrógão . Está a ver, eu nunca voltei lá depois dos anos 80. Aliás, não tenho qualquer memória de Pedrógão Grande, mas tenho muitas de Figueiró, onde a minha avó viveu muitos anos. E nunca fui aos Escalos, a zona onde começou todo este incêndio, e onde a minha mãe foi professora nos anos 50 do século passado, antes de casar.
A minha mãe , que têm 82 anos, tem um telefone que se dá à manivela, tem um bocal no corpo pregado à parede e uma peça que encosta ao ouvido. Não saiu de nenhum filme americano, é artigo português talvez da minha bisavó, talvez da minha avó. Sempre o vi lá em casa.
No tempo da minha avó eramos uns atrazadinhos, nem tínhamos telemóveis nem eucaliptos.
Mas já fabricávamos a pouquinha celulose para fazer o papel azul de 25 linhas ALMAÇO.
Tenho que ir em romaria a Santa Comba pedir perdão pela minha incredulidade antiga.
E tambem pela ingratidão nacional, embora ELE dispense totalmente.
Ainda hoje dizia de mim para comigo que a emoção, a compaixão e a raiva que sinto nas pessoas vem, muito provavelmente, destas memórias de infância que quase todo o português tem. É só raspar um pouco a superfície de qualquer citadino cosmopolita e lá estão as avós, os quintais, os pinhais e as aldeias atrás do sol posto. Não sei se verdadeiros citadinos como António Costa têm noção disso, mas é bom que se cuidem.
Meu caro Luis Lavora, eu tenho 57 anos e o meu avô também tinha um telefone de manivela, e não não era um artigo americano, era mesmo do pais real. E mais lhe posso dizer dessa aldeia em trás-os-montes, onde passava parte dessas férias grandes de três meses – e mesmo com essa ‘enormidade’ de tempo livre, tambem à data fomos a geração mais preparada de sempre (acho que é uma constante de todas as gerações que chegam – chama-se evolução). Esse telefone de manivela era um dos dois unicos que existiam na aldeia, sendo o outro um telefone publico que estava na taberna (antes era o que se chamava aos cafés de agora). A luz electrica só vinha à noite, e água canalizada também não havia. Não são memorias ‘emprestadas’, são as minhas – Portugal, o pais real nos anos 60 e 70 -, as dos meus irmãos, primos e primas, e todos nos juntavamos nessa altura em casa de meus avós onde passamos o verão ‘do nosso contentamento’, sem telemóveis, televisões, computadores, tablets ou seja o que for. A aldeia teria na altura uns 500 ou 600 residentes, tinha escola e uma ama – apenas uma senhora idosa, possivelmente sem certificação oficial e nenhum conhecimento especifico de puericultura para alem da experiencia que os seus 5 filhos lhe trouxeram – que ficava graciosamente com os pequeninos enquanto os pais trabalhavam (já na altura havia solidariedade, não era caridade, era solidariedade). No ano passado calhou lá voltar depois de vários anos, agora os residentes são 12, o mais novo (uma filha da tal senhora que foi a ama de todos) tem 78 anos.
É a vida – chama-se envelhecimento e desertificação. Mas ás vezes pergunto-me, não será este um dos, talvez, permitam-me, o principal problema. Não será altura de perguntarmos não que pais queremos deixar aos nossos filhos, mas se teremos pais para deixar, não aos nossos filhos que cada vez são menos, mas aos filhos dos imigrantes que acolhemos e que felizmente ainda vão renovando a população das nossas escolas.
É pá, eu sou um bocado mais velho mas o que diz é exactamente o que se passava na minha terra (Beiras) e na da que veio a ser minha mulher (Trás os Montes). Era assim por todo o lado. Portugal progrediu no espaço de uma vida de maneira brutal. Suponho que nenhum outro país terá mudado tanto em tão pouco tempo. O país de agora não tem nada a ver com o da minha infância. Na minha terra nem ama nem electricidade. Nem médico nem água. Água só dos poços e de cântaro à cabeça. Despejos eram pela janela para a rua. Progredimos com uma velocidade estonteante. Apesar disso é frequente o lamento “somos um país atrasado, pequeno e pobre”. O pequeno não tem sentido. Se Portugal é pequeno, quase todos os países da Europa são pequenos ou pequeníssimos. Etc. etc. etc.
Temos a felicidade de ter estas memórias, lançadas, em discurso directo, na Internet, por pessoas que ainda terão 20, 30 ou até mais anos de vida à sua frente, porque Portugal era, ainda, até à década de 80, um país profundamente atrasado, que, felizmente, e graças ao dinheiro dos outros, se desenvolveu. Até à entrada na UE e no Século XX, Portugal era um país com uma percentagem medieval de população rural, que sobrevivia da agricultura de subsistência ou emigrava em massa para os bairros da lata de Lisboa ou Paris, onde se pescava e cultivava como há séculos, onde uma viagem entre Lisboa e Porto demorava um dia, e onde ver o mar, ou ler um texto, era, para muitos, uma quimera. Onde havia courelas de cereais, trabalhadas por famílias inteiras, há agora eucaliptos e incêndios. Onde havia redes e barcos a arribar ao fim da tarde, há chapéus de sol e surfistas. Mas esta nostalgia (e não me refiro ao magnífico texto do post) é doentia. A agricultura que existia, a pesca que existia, eram fruto do atraso e geravam, apenas, miséria, que a saudade não preserva. Se o presente está longe de ser perfeito, o fim desse mundo que aqui se lamenta deveria ser saudado. O mundo das aldeias acabou. Vão ser ruínas, como são os castros nos montes. O mundo que as substitui não está a ser preparado, pensado, como quase nada foi e é, nesta terra, e isso é que cabe lamentar. Como o poeta, devíamos ter “saudades do futuro”, mas somos humanos, e na “obsolescência”, decadência física e morte das nossas aldeias vemos as nossas.
“e graças ao dinheiro dos outros, se desenvolveu.” Não sabia que havia tanta beneficiência a nível internacional. Mas se é assim (e com tão bons resultados) o melhor é continuar a utilizar o dinheiro dos outros. Tenho uma vaga ideia de que neste seu raciocínio há algo que não bate certo mas não sei explicar. Explique-me.
Recordo-me desses tempos mas não tenho saudades nenhumas. Só tenho saudades da força e energia que eu tinha. E se eu hoje fosse jovem preferiria o desemprego à guerra colonial para onde me mandaram sem eu querer.
Se não sabe que as autoestradas, as infraestruturas modernas de comunicações e energia e tratamento de resíduos, a reconstrução do património, a requalificação urbana, e a reconversão da agricultura foram feitas com fundos europeus e dinheiro que nos emprestaram porque estamos na CEE/UE e no Euro, desconfio que não vou ser eu que o vou convencer. A sério que nunca reparou naquela bandeirinha azul com estrelas, que enfeita tudo o que foi de bom foi feito em Portugal desde meados dos anos 80 (bem como muita rotunda, ciclovia, torre eólica, e aeroporto vazio)? Claro que devia também ornamentar piscinas, Range Rovers e apartamentos em Paris, mas isso são outros 500.
Quer dizer, ficámos com auto-estradas (por acaso muita boas), reconstruímos o património, etc. etc. e só tivemos que pôr umas bandeirinhas. E os outros ficaram a ver navios. Bom negócio para nós. Por acaso já tinha reparado nas bandeirinhas mas não sabia que significavam tanto para nós. Não custa pôr mais, são baratas.
Meu caro, acredite que não é nostalgia morbida do que era ou do que poderia ter sido. É tristeza. Tristeza pelo mundo que que existia, e acredite, nem sonha o que eu vi nesses tempos. De como as pessoas viviam nesses tempos, do desprezo que o Estado (eu tive um profressor na FDL que nos dizia sempre – “não se iludam o Estado não é, e nunca foi uma pessoa de bem”, como ele tinha razão!!!) tinha pela generalidade da população. Creio que na verdade é algo que ainda se mantém.
Mas como lhe dizia, é tristeza, pelo que havia e tristeza pelo que há. Sim fizemos um caminho que poucos fizeram. Tenho a sorte ou o azar de me lembrar do que era, e assistir (quero pensar que também eu participei um pouco) ao que fizemos. E digo-lhe com toda a sinceridade – é extraordinário o que se passou neste país nos ultimos 30 – 40 anos. Tenho pena e daí a minha tristeza que agora o pais tenha só a largura de poucos Kms a partir da costa. O interior apenas aparece com as cheias do inverno e com os fogos do verão. Aliás, será que ´época oficial de incenditos` (extraordinario, não é?!!!) já começou?
Quanto ás minha memórias, não são doentias. São sobretudo de pessoas – gentes, como se dizia então- que olhavam para os outros, que tinham menos sorte, e que não precisavam que as ‘televisões’ criassem linhas de solidariedade para fazer o que deveria ser feito. Não era caridade, era solidadriedade, permitam-me, era amor e respeito pelo próximo. O meu avô, o tal que tinha o telefone de manivela, era médico. Quando ia a essa aldeia perdida em trás-os-montes, tipicamente no verão, Natal e Páscoa, ouvia, atendia e consultava todos os que aparecessem, e não eram só os 500 ou 600 residentes na aldeia eram outros tantos de todas as aldeias em redor. Nós, os seus 12 netos, todos nos lembramos das filas que se formavam à porta, e ninguém deixou de ter uma palavra de apoio ou de carinho ou de levar os medicamentos que precisava e que o meu avô oferecia, ou da roupa, da comida e dinheiro que a minha avó distribuia, por vezes com a nossa ajuda, seus netos, sempre com a recomendação dirigida a nós – “não digam nada ao vosso avô”.
Não, não é tristeza. Tristeza por tudo isto ter sido necessário, e por tudo isto ainda ser necessário.
Fizemos um grande caminho, mas ainda não vamos sequer a meio.
Discordo. Vamos acabar coma televisão? Não tenho médicos entre os antepassados. Os meus avôs e avós não ofereciam medicamentos, pediam que lhos desse e até pediam (alguns) esmola. Uma das minhas avós era sardinheira e andava descalça a vender sardinha para sobreviver. Talvez isto explica que tenhamos uma visão de tudo, incluindo o passado, tão diferente uma da outra. Imaginar os meus avós a darem coisas!!! Coitados!! Felizmente esse mundo foi, em grande parte, extinto. Já não há médicos a darem esmolinhas, o serviço nacional de saúde estragou-lhes a coisa.
Ao JPT e a um ou outro enviesado, lembrar que ninguém quer voltar àqueles tempos “medievais”.
Apenas que não destruíssemos esses tempos medievais, mas apenas que os remodelássemos, reciclássemos, aproveitássemos o que de bom havia naquilo tudo, e não o destruíssemos, e “eucaliptássemos” simples e estupidamente.
Aquele país não foi invenção do Salazar, aquele país não tinha peçonha, peçonha tinha aquela “europa avançada” de duas guerras medonhas.
Todos em romaria a Santa Comba, e lembrar que só se perderam as que cairam no chão!
Agradeço a leitura. Nunca fui a Santa Comba. Quem lá está sepultado é um fenómeno histórico, perfeitamente compreensível na época em que surgiu e como reacção ao catastrófico regime que o precedeu, mas que ultrapassou, em várias décadas, a sua utilidade. Parece-me tão fanático quem lhe imputa todo o nosso evidente atraso, como quem sugere romagens à sua campa. Tão fanático como os que teimam em carpir que a Europa e o Cavaco deram cabo da “nossa” agricultura e da “nossa” frota, como se elas existissem, enquanto actividades económicas viáveis num país do Século XX/XXI. Tão fanáticos como os que bradam que o eucalipto (que eu odeio) é a encarnação do demo, como se as pessoas devessem continuar a plantar centeio e milho para compor com a sardinha e como se a silvicultura não fosse uma actividade lógica num país seco, de fracos solos e topografia irregular. Criar santos e demónios é muito fácil (e dá posts e comentários muito estimulantes), mas não resolve problemas.