Uma crise sistémica é mais ou menos isto…


Luís Naves,

A aparente falência do sistema após a crise de 2008 está a deixar marcas na política e criou no eleitorado um sentimento de profunda desilusão, até de cinismo, em relação à qualidade das suas elites. O fenómeno é visível em vários países e não tardará a chegar a Portugal. O facto é que, nos últimos vinte anos, os poderosos mentiram de várias maneiras: os banqueiros assaltaram os bancos, os partidos dedicaram-se à intriga, o bom empresário era aquele que despedia, os intelectuais escreveram sempre as mesmas coisas inócuas e prudentes, as leis não foram iguais para todos e a opinião do povo foi ignorada ou desprezada, conforme fosse conveniente para os rituais democráticos das consultas regulares. A vaga de populismo que resulta deste vapor acumulado começa agora a alarmar as oligarquias. Em França, somadas as intenções de voto dos candidatos presidenciais que defendem a ruptura, encontramos a extraordinária proporção de 45%. Os restantes candidatos prometem, no mínimo, fazer reformas. É certo que as sondagens devem ser interpretadas com cautela, já que 36% dos eleitores que vão votar decidirão à boca das urnas, mas isso apenas indica que o voto de protesto pode ser pior do que se imagina. É cada dia mais óbvio que estamos a viver uma mudança sem paralelo, pelo menos no tempo de uma geração: vemos o apagamento dos partidos tradicionais, a contestação radical do modelo económico triunfante nos anos 80 e do multiculturalismo que há 40 anos domina todo o pensamento, a ponto de se ter tornado uma ideologia fraca, mesmo assim quase indiscutível, que criou a sua própria linguagem repleta de reticências e de eufemismo.

0 comentários em “Uma crise sistémica é mais ou menos isto…”

  1. Os resultados do excesso de crédito que só apareceram em 2008 é a menor das razões.

    O que se passa é uma elite jornalista-política-universitária em sucessivos estados revolucionários, desde o entendimento do estado nação, ao sexo/género, desenvolvimento, etc… tudo ao contrário do que essa mesma elite defendia 30 anos atrás.
    Quando a elite jornalista-política-universtária põe tudo em causa não se pode admirar de as pessoas colocarem também tudo em causa.

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